terça-feira, abril 01, 2008

As mais belas mortes - VI

Isidore Lucien Ducasse, dito Comte de Lautréamont (1846-1870)

















O egrégio vate gaulês Isidore Lucien Ducasse (1846-1870), dito Comte de Lautréamont, é sem dúvida credor de menção em nosso donairoso sítio; vale dizer que de sua brevíssima existência pouquíssimo sabe-se de concreto: há ciência de que veio ao mundo na deleitável cidade de Montevidéu, filho de um funcionário da representação consular francesa na capital cisplatina; consta também que a família retornou à pátria natal quando nosso rapazote tinha 10 anos, de modo a inscrevê-lo num renomado lycée parisiense. A partir deste episódio, contudo, os factos da vida de Lautreámont esfumam-se nas sibilinas evanescências do impreciso. Há quem diga, por exemplo, que teria tomado parte como communard nos eventos de 1870, mas desta presuntiva efeméride não há registo conclusivo.

Pois muito bem: por que cargas d´água estamos aqui a falar de Lautréamont? De certeza sua obra-capital, o volume de prosa lírica Les Chants du Maldoror, impertérrita celebração mefistofélica da crueldade infrene em todas as suas latitudes, reserva flamejantes páginas ao culto ominoso da 'indesejada das gentes'; isto, todavia, não bastaria para reservar ao luciferino bardo um nicho entre os mais belos passamentos, uma vez que outros excelsos entusiastas da morte foram ‘galardoados’ (se me permitis uma inocente ironia) com trespasses no mais das vezes sobremaneira prosaicos; o que há, pois, de notável na decedura de Lautréamont é que NADA de exacto, à exceção do ano em que se deu, sabe-se a seu respeito, sendo todas as considerações a propósito tão somente vagas especulações sem esteio documental ou factual taxativo... destarte convenhamos, áticos confrades: que exício poderia ser mais esteticamente adequado para alguém como o espectral Lautréamont?

__________


Thomas Mann (1875-1955)

























Há de ser quiçá uma lenda sem grande respaldo histórico, mas de modo algum poderíamos nos furtar a relatar a excêntrica circunstância em que se teria dado o passamento do ático escritor alemão Thomas Mann (1875-1955).

No último lustro de sua vida, já retirado à vila de Kilchberg ( ao pé de Zurique - Suiça), consta que este luminar das letras teutônicas teria em sonhos recebido a informação de que morreria num dado dia 11, sem indicação de mês ou ano; assim sendo, a cada dia 11, Mann recolhia-se na mais absoluta e contrita imobilidade, esperando as 12 badaladas do dia seguinte para enfim adormecer tranquilo; na virada de 11 para 12 de agosto de 1955, após cumprir mais uma tormentosa e afadigante vigília, Mann dirigiu-se a seus aposentos aliviado ao ver mais vez adiado o inefável encontro marcado com a 'indesejada das gentes'; todavia, ao observar casualmente um relógio no segundo andar, constatou, para sua imensa aflição, que este ainda assinalava as 23 horas do dia 11; angustiado, consultou uma empregada a propósito da discrepância de horários e, ao constatar que de facto ainda estava no aziagamente pressago décimo-primeiro dia, viu-se assaltado por tamanho pavor e consternação que terminou por falecer vítima duma síncope fulminante.

_____

Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

domingo, março 02, 2008

Notas de reflexão crítica XII - a propósito da crítica social na ficção chestertoniana

Alphonse van Worden - 1750 AD






Ó supinos confrades: a crítica social levada a efeito pelo inglês Gilbert Keith Chesterton (1874 - 1936) a meu juízo um caso verdadeiramente notável (quiçá igualado, no âmbito das letras anglo-saxônicas, tão somente pelo irlandês Jonathan Swift e pelo norte-americano Ambrose Bierce), pois à capacidade de percuciente analista dos processos socioculturais de sua época, logra aliar o corrosivo expediente da sátira, mister em que alcançou elevado nível de realização. Tal aspecto, aliás, é patente na maior parte de sua obra ficcional, em obras tais como, por exemplo, o memorável romance The Man Who Was Thursday: A Nightmare (“O homem que era quinta-feira” - 1908), por vezes definido como um ‘thriller metafísico’, uma devastadora paródia contra o anarquismo em seu aspecto mais obscuro e sibilino de revolta niilista contra Deus, isto é, contra toda e qualquer desígnio de transcendência; ou ainda os contos policiais do padre Brown (quiçá a mais célebre das criações chestertonianas), com sua labiríntica geometria de referências teológicas e reflexões sobre a condição humana, consubstanciando-se a partir de um jogo de espelhos invertidos operado pelo autor, com desfechos que amiúde contemplam duas possibilidades: a) uma solução de índole racional, obtida por via indutiva através dos dados compilados pelo padre-detetive em suas investigações; b) uma solução de cunho fantástico, amiúde reverberando o substrato metafísico inerente à narrativa. E não é desarrazoado especular, com efeito, que a finalidade de tal estrutura bipartite seja refletir a própria dualidade da alma humana, peremptoriamente cindida entre o lastro da realidade material e a etérea rarefação do universo ideal. Trata-se, enfim, de toda uma série de notáveis peças de engenharia textual, cuja elegância formal e irretocável timing narrativo J.L.Borges certa feita comparou, com rara felicidade, “a uma jogada de xadrez”.

Não obstante, tomarei aqui em consideração o texto onde o estro satírico de Chesterton atinge, quero crer, o ápice em termos de corrosão sulfúrica e lucidez indignada: o relato How I Found The Superman (“Como encontrei o Super-Homem” - 1909). Sob o astucioso formato de uma reportagem fictícia, Chesterton assesta suas baterias contra a macabra aliança entre, de um lado, certo tipo de protofascismo / socialismo de caráter ambíguo, cujas matrizes conceituais deitam raízes tanto na filosofia nietzscheana quanto no neodarwinismo (Herbert Spencer, Gobineau, etc.), ideologia a um só tempo cruel, lunática, caótica e obtusa; e, de outro, a hipocrisia das 'boas intenções' do reformismo social advogado pelos setores 'iluminados' da elite de então. Assim sendo, vergasta tanto as perigosas ‘ilusões do progresso’, com seus estratosféricos delírios teleológicos, submetendo todas as necessidades e aspirações humanas à lógica cega e implacável de uma remota e quase inexeqüível finalidade, quanto a insensata perspectiva dos que, do alto de seu rarefeito Olimpo social, tentam reformar a vida dos de ‘baixo’ sem efetivamente conhecer-lhes os desejos e carências. Em tudo e por tudo uma genuína obra-prima, que agora vos apresento em tradução de minha autoria:



__________


Como encontrei o Super-Homem

Gilbert Keith Chesterton

Daily News, 1909


Os leitores do Sr. Bernard Shaw e outros autores contemporâneos talvez julguem interessante saber que o Super-Homem foi encontrado: eu o encontrei, ele vive em South-Croydon. Meu triunfo será um grande golpe para o Sr. Shaw, que no momento está procurando pela criatura em Blackpool; e no que tange à tentativa do sr. Wells em gerar o Super-Homem a partir de gases químicos num laboratório, sempre a considerei condenada ao fracasso. Posso assegurar ao Sr. Wells que o Super-Homem de Croydon nasceu de modo ordinário, malgrado em si mesmo não seja, claro está, nada menos que algo extraordinário.

Tampouco seus pais são indignos do maravilhoso ente que trouxeram ao mundo. O nome de Lady Hypatia Smythe-Brown (atualmente Lady Hypatia Hagg) jamais será esquecido no East End, onde realizou um esplêndido trabalho social; seu renitente brado de "salvem as crianças!" referia-se à cruel negligência para com a visão dos pequenos em permitir que se divertissem com brinquedos toscamente pintados. Costumava citar estatísticas irreprocháveis, no intuito de provar que crianças com permissão para lidar com objetos em tom escarlate ou violeta frequentemente sofriam de vista cansada na velhice; e foi devido à sua incessante cruzada que a praga do 'macaco-na-vareta' * foi quase eliminada de Hoxton.

A devotada ativista percorria as ruas incansavelmente, confiscando brinquedos às crianças pobres, que não raro debulhavam-se em lágrimas graças à sua bondade. O bom trabalho que desenvolvia fora, contudo, interrompido, em parte por seu recente interesse pelo credo de Zaratustra, em parte pela violenta pancada de um guarda-chuva; o golpe foi-lhe infligido por uma irlandesa depravada, vendedora de maçãs, que retornando de alguma orgia para seu descuidado apartamento, encontrou Lady Hypatia no quarto retirando um oleógrafo da parede, o qual, para dizermos o mínimo, decerto não contribuía para a elevação do espírito.

A ignara e semi-embriagada celta então desfechou um rude golpe à reformadora social, ao que ainda acrescentou uma absurda acusação de roubo. A mente perfeitamente equilibrada de Lady Hypatia ficou em estado de choque; e foi durante esta breve alienação mental que ela se casou com o Dr. Hagg.

Creio que a figura do Dr. Hagg dispensa maiores comentários: qualquer um remotamente familiarizado com os ousados experimentos em eugenia neoindividualista, que hoje constituem um dos maiores interesses da democracia inglesa, deve conhecer seu nome e recomendá-lo à proteção pessoal de um poder impessoal. Muito cedo na vida desenvolveu uma visão brutal da história das religiões, que adquiriu na mocidade como engenheiro-eletricista. Tornou-se mais tarde um de nossos maiores geólogos, adquirindo aquela profunda e luminosa visão a respeito do futuro do socialismo que tão somente a geologia pode proporcionar.

A princípio parecia haver algo como um descompasso, uma sutil mas perceptível fissura, entre suas concepções e as de sua aristocrática esposa: ela era favorável (para lançarmos mão aqui de seu marcante epigrama) a proteger os pobres contra si mesmos, ao passo que ele, numa nova e poderosa metáfora, advogava o fuzilamento dos mais fracos. Todavia, ao fim e ao cabo o casal percebeu a existência de uma conjunção essencial no caráter insofismavelmente moderno de ambas as visões de mundo; e nesta instrutiva e abrangente conclusão suas almas encontraram a paz de espírito. O facto é que esta união entre os dois tipos mais evoluídos de nossa civilização - a sofisticada aristocrata e o invulgar homem de ciência - foi abençoada pelo nascimento do Super-Homen, aquele ser por quem todos os trabalhadores de Battersea aguardavam ansiosamente, noite e dia.

Encontrei a residência dos Hagg sem maiores dificuldades; está situada numa das ruas mais afastadas de Croydon, e encoberta por uma fieira de álamos. Cheguei à porta lá pelo entardecer, e é compreensível que fantasiosamente divisasse algo de lúgubre e monstruoso na indistinta mole da casa que abrigava um ser mais extraordinário que os filhos dos homens. Ao entrar fui recebido com admirável cortesia por Lady Hypatia e seu marido. Tive, no entanto, enorme dificuldade para propriamente ver o Super-Homem, que hoje tem por volta de 15 anos, e é mantido solitário num aposento tranqüilo; mesmo a conversa que entretive com seus pais não logrou esclarecer a natureza da misteriosa criatura. Lady Hypatia, com suas feições lívidas e pungentes, envolta por aqueles inefáveis e patéticos tons de verde e cinza com os quais alegrara tantos lares em Hoxton, parecia falar sobre seu rebento sem o mais mínimo laivo da reles vaidade que sói caracterizar uma mãe comum. Arrisquei-me então a perguntar se o Super-Homem tinha uma aparência agradável.

"Veja, ele estabelece seus próprios parâmetros", ela respondeu, com um leve suspiro. "Em seu plano existencial é superior a Apolo; visto a partir de nosso plano inferior, obviamente...". E novamente suspirou.

Movido por um terrível impulso, de súbito perguntei: "ele tem algum tipo de cabelo?"

Houve um silêncio longo e doloroso, e então o Dr. Hagg disse suavemente: "tudo em seu plano existencial é diferente; o que ele tem não é... bem, não é o que denominamos 'cabelo', claro está, mas...".


"Não te parece", atalhou sua mulher, muito delicadamente, "não te parece que deveríamos, à guisa de uma justificativa, denominar aquilo como 'cabelo' quando estivermos palestrando com terceiros?"

"Talvez estejas correta", replicou o doutor após refletir por alguns momentos, "tendo em vista um cabelo como aquele, deve-se falar através de parábolas".

"Bem, que diabos é então", perguntei com alguma irritação, "se não for cabelo? Seriam penas?"


"Não, penas não, não do modo que as concebemos", respondeu Hagg num tom de voz medonho.

Levantei-me agastado. "Afinal, será que posso vê-lo?", perguntei. "Sou um jornalista, e não tenho motivos mundanos, exceto curiosidade e vaidade pessoal. Gostaria de poder dizer que apertei a mão do Super-Homem".

Marido e mulher ergueram-se pesadamente, muito constrangidos.

"Bem, como o senhor decerto sabe", disse Lady Hypatia, com seu de facto encantador sorriso de anfitriã aristocrática, "não se pode exatamente apertar-lhe as mãos... não as mãos, o senhor compreende... a estrutura, é óbvio..."

Rompi então com todas as convenções sociais, e corri para a porta do cômodo que me parecia abrigar a inaudita criatura; a abri de supetão. O quarto estava imerso em total escuridão; mas à minha frente escutei um breve guincho lamentoso, e por detrás um duplo gemido.

"O senhor conseguiu, enfim!", gritou o Dr. Hagg, enterrando a fronte calva entre as mãos. "Deixou entrar uma corrente de ar, e agora ele está morto".

Enquanto me afastava de Croydon naquela noite, vi homens de preto carregando um ataúde de formato inumano. O vento uivava sobre minha cabeça, fazendo turbilhonar os álamos, que se inclinavam e acenavam como penachos num funeral cósmico.

"De facto", disse o Dr. Hagg, "é o universo inteiro pranteando a morte de sua mais magnífica criatura". Não obstante, julguei perceber a presença de um assovio gargalhante no agudo bramir do vento.



* brinquedo popular entre as crianças inglesas na época.

__________


Como não resulta difícil constatar, há no supracitado relato um generoso acervo de temas, alusões (mais ou menos veladas) e ferinos reproches, a começar pelo contexto sobremaneira sarcástico em que o autor menciona dois de seus notórios antagonistas à época: George Bernard Shaw (de quem era, convém sublinhar, um amigo fraterno) e Herbert George Wells. Impossível, claro está, esgotar aqui a riqueza da cornucópia crítica de nosso autor, de maneira que nos concentraremos no alvo que, a meu juízo, parece ser o mais cabal; destarte, a advertência mais impiedosa é indubitavelmente dirigida contra o otimismo cientificista de Wells, entusiástico defensor de princípios de ‘engenharia social’ e de transformação radical da vida humana em todas as suas esferas. Para o pensador católico, contudo, tais idéias constituíam uma teratologia de inauditas pretensão e brutalidade, pois violentavam o curso natural da existência humana, seus hábitos e tradições culturais, tencionando submetê-los à camisa-de-força de projetos abstratos de reforma social, quase sempre ominosamente simplistas, via de regra desprovidos de quaisquer laços substantivos com a ‘vida real’ e sua complexa teia de injunções; ademais, Chesterton rejeitava ad limine qualquer tipo de fé ilimitada nas possibilidades materiais do Homem, mormente no que tange à inabalável convicção, tão usual no período, de que a evolução tecnocientífica seria capaz de solucionar todos os problemas do humanidade.

Há que frisar, contudo, que as perspectivas de Wells não desfrutavam de unanimidade no seio do pensamento de esquerda; muito pelo contrário, aliás, como bem o demonstra, por exemplo, um incisivo ensaio de George Orwell, Wells, Hitler and The World State (“Wells, Hitler e o Estado Mundial” - 1941), onde verbera, nos termos mais acerbos, contra o que denomina de ‘religião do progresso’, ou seja, a crença no progresso linear, contínuo e irreversível da humanidade, que estaria, portanto, ao fim e ao cabo ‘condenada’ a um êxito inelutável. Orwell desconfiava fortemente dessa visão de mundo, à qual atribuía um cariz sobremaneira autoritário e irrealista, uma vez que desconsidera a intermitente dinâmica de avanços e retrocessos da ação humana, bem como deposita no futuro esperanças exageradas, aspirações essas cuja viabilidade prática é, ao fim e ao cabo, inverificável no presente.

Beastie Boys it's in the house, what we're gonna do?




Muito embora o hip hop tenha surgido como um multitentacular veículo de expressão para os sentimentos, necessidades e demandas da América negra, o gênero também se caracteriza, conforme assinalei em resenha anterior, por sua capacidade ímpar de assimilação étnica e cultural. Dessa maneira, a despeito de certa desconfiança inicial, rappers brancos começaram também a marcar presença no hip hop já na década de 80; dentre esses, os Beastie Boys estão em inequívoco plano de destaque, ombreando com os mais importantes artistas negros do gênero.

Egressos do Brooklyn, tradicional reduto judeu de NY, e com um background eminentemente punk, ninguém jamais poderia cogitar que aqueles 3 garotos irrequietos e debochados lançariam o álbum de maior sucesso comercial em toda a história do rap: produzido pelo mitológico Rick Rubin, Licensed to Ill (1986) foi não apenas um estrondoso fenômeno de vendas, mas também lançou as bases do crossover entre hip hop, heavy metal e hard rock, inspirando um sem-número de epígonos ao longo dos anos seguintes. Pejado de faixas a um só tempo pesadas e dançantes, e ainda de letras vitriolicamente escrachadas, é um disco sobremaneira divertido e contagiante; carece, contudo, de maior elaboração musical, e seu novelty value decerto se esgota após algumas audições, o que levou muita gente boa a considerar que a banda seria tão somente uma one hit wonder... não obstante, os caras novamente deixariam o mundo boquiaberto com o lançamento de seu segundo disco, o magnífico Paul's Boutique (1989).

Gravado durante o 'exílio' temporário da banda em Los Angeles, e após toda uma série de turnês tumultuadas, bem como de tormentosas polêmicas em função da misoginia presente nas letras do álbum de estréia, Paul's Boutique é um dos discos mais arrojados e vanguardistas de todos os tempos, portentoso testemunho da incrível fluência dos BB's como rappers, bem como da genialidade delirante de sua dupla de produtores, os Dust Brothers (E.Z. Mike e 'King' Gizmo); assim sendo, trata-se de uma OBRA-PRIMA de produção, engenharia de som e poética rap. Fruto de um contexto privilegiado que nunca mais se repetiria no futuro, isto é, de uma época onde a legislação em termos de 'sampleagem' ainda não estava plenamente estabelecida, nunca antes ou depois se viu uma tão rica, labiríntica e complexa tapeçaria de samples, de tal modo entremeados uns aos outros em camadas multiformes e interligadas, que temos não uma simples colagem de citações justapostas, mas sim um verdadeiro exercício de reprocessamento antropofágico da tradição na gestação do novo. Ademais, Paul's Boutique, malgrado alicerçado nos marcos estéticos do hip hop, expande-se generosamente, mais do que qualquer outro disco do gênero, para outras paragens musicais, dialogando incessantemente com elementos de funk, soul, jazz, reggae, hard rock, etc; finalmente, em termos líricos, a dinâmica multitudinária e ecumênica do disco reafirma-se numa assombrosa cornucópia de alusões, referências e trocadilhos sobre NY e a cultura pop de forma geral, tornando-se fascinante o exercício de decodificação temática e semiótica do abrangente universo conceitual urdido pelo trio de rappers.

Assim como em relação It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back (Public Enemy), é sumamente difícil nomear os highlights da obra magna dos Beastie Boys, pois o álbum é tão orgânico e coerente que funciona muito mais como um monolítico continuum de sons e idéias em permanente manar do que como mera reunião de faixas; todavia, a meu juízo as seguintes faixas são dignas de menção especial: Johnny Ryal, irresistível fusão rap'n'soul; Egg Man, rap em compasso de filme de suspense; High Plains Drifter, hipnótico ensaio de hip hop em mutação genética dub; Hey Ladies, funkaço digno de um Parliament das melhores safras; Looking Down the Barrel of a Gun, talvez a melhor fusão de rap / metal criada pela banda; e por fim, o caleidoscópio sônico par excellence de B-Boy Bouillabaisse.

Resumo da ópera: um DISCAÇO.





__________

Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

In Memoriam IV

Alphonse van Worden - 1750 AD




Ó excelso mujahid Imad Mughniyah, indômito propugnáculo de AMIR UL-MOMINEEM, que para ti se descortinem os celestinos horizontes da Arcana Coelestia!!!





segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Tributo aos excelsos próceres da Pátria Sérvia!!!

Alphonse van Worden - 1750 AD









Боже правде, ти што спасе
од пропасти досад нас,
чуј и одсад наше гласе
и од сад нам буди спас.


Моћном руком води, брани
будућности српске брод,
Боже спаси, Боже храни,
српске земље, српски род!


Сложи српску браћу драгу
на свак дичан славан рад,
слога биће пораз врагу
а најјачи српству град.


Нек на српској блиста грани
братске слоге златан плод,
Боже спаси, Боже храни
српске земље, српски род!


Нек на српско ведро чело
твог не падне гнева гром
Благослови Србу село
поље, њиву, град и дом!


Кад наступе борбе дани
к’ победи му води ход
Боже спаси, Боже храни
српске земље, српски род!


Из мрачнога сину гроба
српске славе нови сјај
настало је ново доба
Нову срећу, Боже дај!


Отаџбину српску брани
пет вековне борбе плод
Боже спаси, Боже брани
моли ти се српски род!

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

A propósito do papel da decisão individual no âmbito da História

Alphonse van Worden - 1750 AD


Ignorar a importância da decisão individual no bojo da História constitui um erro desafortunadamente usual entre certos marxistas; soem asseverar, com efeito, que o processo histórico forja-se tão somente no bojo de fenômenos coletivos em larga escala espaço-temporal. Todavia, se um determinado agente ocupa tal ou qual posição estratégica em função, é verdade, das lides d'um processo histórico coletivo, não é menos verdade que no momento preciso e infinitesimal de uma tomada de decisão as forças históricas que desencadearam o processo estão ausentes. O instante da decisão é, portanto, um ato de jaez essencialmente solitário e intransferível para o indivíduo que ocupa o local exato na hora exata; e mesmo nos casos em que o rumo a ser tomado está a cargo d'um colegiado, podemos afirmar que o grupo de homens responsáveis por aquela está no momento da decisão isolado das instâncias coletivas que porventura o engendraram; cabe falar, destarte, de uma sutil e complexa dialética coletiva/individual como força motriz da História. O processo histórico é, com efeito, um movimento de contínua retroalimentação dialética, onde as esferas individual e coletiva 'intercondicionam-se' mutuamente.

Não se pode, portanto, negar a existência patente da consciência individual, cujas opções podem sim aportar guinadas de rumo para o transcurso dos acontecimentos.há, por conseguinte, que admitir que a História não se processa somente por intermédio de processos coletivos de transformação, reconhecendo o caráter igualmente vital das decisões individuais dos agentes que ocupam posições chave em determinados momentos. Assim sendo, podemos, por exemplo, nos inquirir: o nazismo existiria sem Hitler? É bem provável que sim, mas assumiria uma conformação distinta, o que sem dúvida significa que teria outra trajetória; e isto vale para todo e qualquer evento histórico, que nunca pode ser reduzido a um fator monocausal, mas sim creditado a uma miríade de causas espaço-temporais.

O problema radica, pois, exatamente numa interpretação ultradeterminista do materialismo histórico, onde a subjetividade humana nada mais seria que um epifenômeno mecânico da articulação de forças materiais. Fica-se com a impressão, destarte, de que certos marxistas consideram o que se convencionou chamar de ‘processo histórico', que é uma abstração conceitual, como uma espécie de misteriosa entidade concreta e de caráter volitivo no espaço-tempo. . Tal concepção advém, como já tive oportunidade de aqui ressaltar, do facto de que o marxismo permanece inserido no quadro das filosofias que concedem estatuto de realidade concreta aos 'Universais', ou seja, que tomam representações conceituais como se impressões sensíveis fossem, para usarmos aqui uma terminologia de sabor humeano.

O que efetivamente acontece envolve, de facto, uma dialética deveras complexa e sutil... ocorre-me agora que o contexto onde ela se manifesta de forma mais cabal é no âmbito de uma batalha ou campanha militar. Suponhamos o Marechal X, comandante-geral das forças terrestres de Y, no átimo infinitesimal em que, debruçado sobre pilhas de mapas, gráficos e informes do front,deve decidir-se pelo deslocamento do grosso de seus efetivos para os pontos A e B, de modo a envolver o inimigo Z num movimento de pinça pelos flancos, ou para o ponto C, cortando as linhas de suprimento do inimigo e formando uma reserva estratégica, na expectativa de que Z tome a iniciativa, para só então desfechar um contra-ataque.

Pois muito bem: a meu juízo, a interferência do processo histórico multitudinário e anônimo, que eventualmente colocou X naquela posição naquele exato momento, é assaz irrelevante. Naquele instante preciso do espaço-tempo, a tomada de decisão será individual, refletindo as qualidades pessoais de X: sua inteligência, percepção, sensibilidade, formação técnica, cultura histórica e estratégica. Não há como, portanto, ignorar o vastíssimo acervo de decisões essencialmente solitárias embutidas em qualquer processo macro; outrossim, as probabilidades existentes no âmbito da análise combinatória de todas as decisões individuais envolvidas em qualquer processo macro certamente tende ao infinito, de modo que estabelecer um cálculo preciso seria sumamente difícil.

Examinemos agora um exemplo concreto, vale dizer, as dissensões políticas na URSS durante as décadas de 20 e 30. Caso Trotsky e Bukharin, a meu juízo os mais importantes líderes revolucionários soviéticos depois de Lenin, houvessem cometido, por exemplo, menos erros de avaliação tática do processo político no âmbito interno partidário, decerto teria sido possível vencer a facção staliana entre 1924-1928. O próprio Bukharin chegou a reconhecer, tragicamente tarde demais, que suas divergências programáticas com a esquerda trotsko-preobhazenskiana eram muito menos sérias que suas diferenças no tocante ao grupo de Stalin; outrossim, não teria sido impossível, por um lado, que Trotsky avaliasse com mais acuidade a real dimensão e importância da smychka campo/cidade para a viabilidade empírica ulterior do processo socialista soviético e, por outro, que Bukharin compreendesse melhor a relevância axial da democracia partidária para salvaguardar a revolução de intentonas termidorianas e/ou bonapartistas. Há, por conseguinte, que admitir que a História não se processa somente por intermédio de processos coletivos de transformação, reconhecendo o caráter igualmente vital das decisões individuais dos agentes que ocupam 'posições-chave' em determinados momentos fundamentais.

'Idealismo positivista', é o que de certeza diria certa estirpe de marxistas a respeito do que acima foi dito... e com isto incidiriam no mais irredutivelmente mecanicista dos materialismos; nada, diga-se de passagem, poderia estar mais próximo do idealismo que o materialismo hipertrofiado. O que fizemos, por conseguinte, foi raciocinar especulativamente a partir de hipóteses perfeitamente plausíveis, de opções que estiveram à mão dos agentes históricos que estamos aqui a considerar; e é de facto erro corriqueiro entre certos marxistas ignorar a importância de decisão individual no bojo da História. Não se pode, todavia, negar a existência patente da consciência individual, cujas opções podem aportar guinadas de rumo para o transcurso dos acontecimentos; além disso, o questionamento sobre o que poderia 'ter sido' possui também um aspecto dos mais oportunos: alertar-nos para os equívocos cometidos por nossos predecessores.

As questões adrede aludidas parecem-me ser, enfim, da maior importância importante para os marxistas, uma vez que as correntes liberais e conservadores costumam arrogar-se o primado da reflexão sobre o papel da decisão individual na História e demais processos humanos.

Jawohl, Tivol!




A sulfurosa garage hermétique do arquipélago do Sol Nascente é a matriz inconteste do que há de mais cauterizante em termos de full mode on mindmelting lysergic mindblowin’ avant cosmic rock’n’roll, certo? Hmmm... sim, pode-se dizer que sim... com efeito, não há muito como enfrentar a colossal fuzilaria dos obuses psicosônicos japoneses, o multidudinário arsenal de esmerilhação sonora dos AMT’s, High Rise’s, Mainliner’s e tutti quanti.

Não obstante, quiçá não seja de todo desarrazoado afirmar que, às plúmbeas margens do Báltico, sob a espectral refulgência do ‘Sol da meia-noite’ nas solitárias planícies de gelo, começa a emergir na Finlândia um cenário capaz de fazer frente à armada nipônica. Nomes como Pharoah Overlord, Avarus, Uton, Islaja, Es, Kiila, Dead Reptile Shrine, Anaksimandros e Kemialliset Ystavat indubitavelmente são capazes de conjurar os mais estratosféricos astrais do estraçalhamento psych, das opiáceas ondulações do acid drone folk à implacável devastação ultimate fuzz noise ear splitting destruction; e neste último mister, até agora ninguém logrou superar os páramos de brutalismo sonoro alcançados por um abstruso quarteto chamado Tivol.

Aparentemente na ativa desde 1995, a banda parece cultuar obsessivamente os arcanos da obscuridade: não possuem site próprio ou página no MySpace, e são identificados meramente por prenomes em seus álbuns (Askola, Ihanamäki, Kettunen e Nevalainen, sem maiores especificações ‘técnicas’). No último biênio, contudo, dois lançamentos internacionais brotaram das sombrias florestas finlandesas: Early Teeth (2005) e Interstellar Overbike (2006).

Compilado e remasterizado pela veneranda Holy Mountain a partir de dois CD-R’s (Cyclobean Ways e Breathtaking Sounds of Tivol) praticamente artesanais editados em 2002, Early Teeth é sem dúvida o que de melhor o Tivol produziu até agora, transfigurando, em grau máximo de desorientação hellraiser, a fusão entre desvario psych e hipnose kraut que os camaradas levam a efeito, algo como 'Mainliner meets Neu! in the unholy land of Cosmic Inferno', ou então Leif Eriksson, Loki, Volstagg e Surt, alucinados por doses elefantinas de hidromel, encenando o ragnarock psicodélico na espaçonave de Makoto Kawabata.

A banda abre os trabalhos em grande estilo com a sensacional Vihaan vitusti kaikkea mitä kulutusyhteiskunnan aikaansaama pinnallinen alkoholiin perustuva sosiaalinen käyttäytymiskulttuuri edustaa (melhor título de música 'EVÁÁÁÁÁÁÁÁ', PQP!!!), incontrolável maremoto magmático emergindo das espectrais cavernas do próprio Niflheim para entrar em combustão espontânea sob os titânicos golpes de um Mjolnir sônico. Há sobretudo que destacar os inacreditáveis vocais, que talvez possam ser vagamente descritos como um lancinante feixe de uivos agônicos eletronicamente distorcidos no limite da inextricabilidade sonora.

Prosseguimos então com Läskipäisyyden kultainen suihku, onde a banda tira o pé do acelerador para mergulhar num mefistofélico oceano de radiações eletromagnéticas, que se torna cada vez mais denso e claustrofóbico, até desaguar nas insondáveis profundezas de um abismo de microfonia terminal assombrado por imprecações banshee; a terceira faixa, Viha, kateus, katkeruus ja muut loistofiilikset, acena com um tênue reflexo de ‘normalidade’ hard psych em seu início, para logo dar ensejo, contudo, a uma tonitruante cavalgada elétrica dos blasfemos filhos de Muspell em direção ao derradeiro grimoire do alheamento transmental; Jawohl, Tivol!, por fim, traz a anarquia dos caras para uma galáxia garage punk envolta em espirais esquizóides de distorção purple haze.

Acautelai-vos, portanto, ó altaneiros samurais psych: a transpsicodélica frota viking está a caminho!!!





___

Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

terça-feira, janeiro 22, 2008

Glenn Branca: the black mass of electrical ecstasy

























Artista de amplos recursos técnicos; criador de toda uma estética originalíssima, a partir da fusão entre noise rock e música erudita experimental; e figura constelar no âmbito da vanguarda novaiorquiana dos anos 70 e 80, sobre o qual exerceu decisiva influência, Glenn Branca é indubitavelmente uma das figuras mais interessantes e inovadoras da música contemporânea. Posso seguramente afirmar, aliás, que se trata de meu compositor predileto em todos os tempos; que fique bem claro: não estou de forma alguma a dizer que é o 'melhor', ou o 'mais importante', ou qualquer outra estultícia do mesmo naipe, mas tão somente que é o meu favorito - ou mais precisamente: aquele que de certo modo melhor corresponde à minha natureza, à minha disposição d'alma. 

Se há, aliás, um compositor que poderia ser classificado como PROGRESSIVO e EXPERIMENTAL na mais legítima e genuína acepção da palavra, este é Branca, pois ao contrário de muitas 'vacas sagradas' por aí, que se limitam a preguiçosamente adaptar / reciclar / surrupiar trechos elementos da tradição clássica, o genial regente e guitarrista norte-americano forjou um novo estilo ao amalgamar rock’n’roll e música erudita em surpreendente síntese alquímica.

A trajetória de Branca teve início no fértil e irrequieto cenário da vanguarda multimídia nova-iorquina dos anos 70. Em 1976, Branca cria, com Jeffrey Lohn,suas primeiras bandas, as formações no wave Theoretical Girls e The Static. Ambas enveredavam por uma estética relativamente análoga a de outros grupos da cena (DNA, Mars, Teenage Jesus and The Jerks, Don King), ou seja, a incorporação de elementos do minimalismo (Reich, Glass, Rilley) e da drone music (La Monte Young, Tony Conrad) ao nascente punk rock; são já notáveis, todavia, as inusitadas afinações de guitarras, as texturas microtonais e a obsedante massa sonora gerada pela superposição de diversas camadas de guitarras, características que se tornariam marca registrada no trabalho do compositor.

Em 1981, lança sua primeira obra-prima, o álbum The Ascension, onde o escopo sinfônico, ainda que para um ensemble pequeno (4 guitarras elétricas, baixo elétrico e bateria), já se faz plenamente presente: são peças sobremaneira hipnóticas, densas espirais de radiância sonora evoluindo em movimentos cada vez mais obsessivos e inquietantes. John Cage certa vez classificou a música de Branca como 'fascista' e 'histérica' ("I found in myself a willingness to connect the music with evil and with power...If it were something political, it would resemble fascism"). A observação é de certo modo procedente, pois a música 'branquiana' flui através de uma série de crescendos ominosos, sem desenlace ou catarse, de modo a transfigurar uma contínua sensação de apreensão e desassossego progressivos; não obstante, longe de ser um traço derrogatório, trata-se, creio eu, de algo que corrobora para tornar a música de Branca ainda mais admirável em sua busca tantalizante pelo inner void da tensão estrutural permanente.

Lesson No.2 e Structure são Sonic Youth avant la lettre, muito embora sobremaneira mais abstratas, angulosas e glaciais; fascinante exercício de contrastes, The Spectacular Commodity é simultaneamente luz e sombra em insólita convergência de vetores cromáticos dissonantes; Lightfield (In Consonance) é uma daquelas arrebatadoras walkürenritt eletromagnéticas tão características da obra de Branca, com suas trovejantes constelações de clusters circungirando em direção ao Infinito. Por fim, The Ascension, sinfonia do caos über eletrik por excelência, inicia-se como uma ameaçadora nebulosa eletrostática em lenta mas inexorável expansão, para então entregar-se a mais emblemática das progressões geométricas de radiação hipercinética do opus branquiano, terror e êxtase na mesma galáxia multiforme de estruturas sônicas em glorioso colapso.

Nos anos seguintes, Branca aperfeiçoaria esse formato, compondo sinfonias para conjuntos cada vez maiores (vale mencionar que figuras notórias do rock contemporâneo, como a dupla de guitarristas do SY - Lee Ranaldo e Thurston Moore - iniciaram-se na vida artística justamente com Branca); são obras monumentais e extremamente ambiciosas, onde o artista explora não só os páramos mais abstrusos da música ocidental contemporânea, mas também agrega elementos da música balinesa e indonésia. A partir de 1989, marcando uma surpreendente guinada em sua obra, o compositor passa também a trabalhar com orquestração sinfônica tradicional, mas sem abandonar suas explosões de energia guitarrística concentrada, e assim expandindo um legado cujo rigor estético bem como a ousadia conceitual nunca cessam de maravilhar seus ouvintes.

























___

Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

Notas de reflexão crítica XI - a propósito da progressiva dissociação entre 'essência' e 'aparência'

Alphonse van Worden - 1750 AD





- Duas são, a meu juízo, as características emblemáticas do mundo hodierno, verdadeiras linhas de demarcação e balizamento que condicionam e delimitam o Homem na contemporaneidade: 1) a absorção de todas as esferas da ação humana pela lógica mercantil (cuja análise já levamos a cabo noutros textos presentes neste espaço), consoante a qual só possuem ‘valor’, em última instância, as pessoas, contextos e atividades passíveis de gerar renda; 2) a dissociação cada vez maior entre essência e aparência, ou seja, entre aquilo que as coisas e indivíduos de facto ‘são’, e aquilo que eles ‘aparentam ser’.

- Tal dualidade decerto não se afirma, é mister sublinhar, apenas como traço circunstancial da atualidade; trata-se, pelo contrário, d’algo inerente à ontologia do ser humano, traço inscrito, portanto, em nosso próprio aparato perceptivo, isto é, no conjunto de mecanismos mediante os quais acessamos e processamos os estímulos fenomênicos que a realidade nos envia.

- Nunca há, destarte, uma identidade total, um isomorfismo absoluto entre, de um lado, os dados concretos da natureza percebidos pela experiência humana, e, de outro, as representações (sejam elas de cariz gráfico, visual, sonoro ou de qualquer outro gênero) que deles fazemos; existe, pois, sempre uma décalage entre as coisas ‘em si’ (recorrendo aqui a um termo kantiano) e a transcrição mental que delas fazemos mediante os dados empíricos captados pelos sentidos. Há, portanto, uma ‘correspondência’ mais ou menos exata entre o que pensamos / lembramos / sentimos e a Realidade, mas nunca uma identidade completa.

- Isto irá refletir-se também, claro está, no âmbito de nossa psicologia e vivência social. Parece, pois, algo evidente, para qualquer um, a distância existente entre a ‘imagem mental’ que formamos de alguém, e aquilo que a pessoa em tela realmente ‘é’. A esse respeito, vale mencionar aqui o romance SOLARIS (Solaris - 1961), do polonês Stanislaw Lem, que ilustra à perfeição a questão em pauta: Solaris, o ‘planeta-oceano’, é uma espécie de organismo vivo dotado de inteligência e vontade própria. Um de seus mais miríficos poderes é a capacidade de materializar até mesmo o mais evanescente devaneio ou reflexão dos astronautas e cientistas que habitam a base espacial nele instalada. Assim sendo, a partir das lembranças do protagonista Kelvin, Solaris acaba por corporificar sua mulher Hari, que se suicidara anos antes; não obstante, algo de ainda mais inusitado ocorre: Kelvin não ‘reconhece’ sua falecida esposa naquele ente redivivo, que lhe parece ser tão somente uma espécie de cópia imperfeita, de caricatura do ‘original’; e aos poucos percebemos, leitores e personagens, que a figura materializada pelo planeta inteligente não é exatamente Hari, mas sim o conjunto de reminiscências, sentimentos e sensações ou, em outras palavras, o multiforme feixe de representações mentais que a memória de Kelvin designava como ‘Hari’. Há, por conseguinte, não apenas no tocante aos fenômenos naturais e objetos inanimados, mas também no que concerne às relações humanas, uma enorme diferença entre um ente tal como ele é, e a percepção que dele formamos. Kelvin descobre, por fim, ao verificar que não consegue amar a ‘nova’ Hari (malgrado ela lhe suscite atração física e até mesmo certa afeição), algo deveras paradoxal e inquietante: amava não o ente idealizado que fabricara a partir das impressões sensíveis fornecidas por Hari, mas sim a incognoscível pessoa ‘real’, mesmo sendo incapaz de acessar sua essência.

- A supracitada dissintonia , muito embora responsável por toda sorte de ilusões e equívocos cognitivos, nunca atingira antes o estágio de cisão esquizofrênica, uma vez que o Homem sempre manteve, em maior ou menor nível, uma consciência relativa do descompasso existente entre suas representações conceituais e os objetos e fenômenos da natureza. Entretanto, essa derradeira e crucial barreira de sanidade parece estar perigosamente oscilando nos tempos que correm: com o advento da chamada ‘realidade virtual’, bem como de todo gênero de dispositivos de simulação e reprodução serial cada vez mais sofisticados, o homem está construindo uma espécie de ‘universo paralelo’, com coordenadas, características, códigos e signos específicos – e até mesmo, de certo modo, uma sensibilidade própria - estabelecendo, portanto, certo ordenamento intencional e uma dada estrutura aparente de realidade, sem que esta apresente, contudo, efetiva tangibilidade; e tal contexto obviamente reflete a progressiva abstração da atividade econômica. Se a forma-mercadoria já se afirmava, desde sempre, como célula básica do Capital, convertendo os produtos do labor humano em coisas dotadas valor meramente abstrato, alienadas de suas qualidades sensíveis, tal dinâmica de abstração agudizou-se sobremaneira nas últimas décadas: com atividade industrial perdendo sua centralidade como locus privilegiado de onde o sistema extrai os recursos para sua auto-reprodução ampliada, o eixo de sustentação do Sistema desloca-se aceleradamente para o setor financeiro, supino reino do ‘automovimento tautológico’ do dinheiro, desdobrando-se ad infinitum em espirais de rentabilidade artificial, desprovidas, por conseguinte, de lastro real.

- A título de ilustração, lançaremos mão uma vez mais da notável imagística de Stanislaw Lem. Em O INCRÍVEL CONGRESSO DE FUTUROLOGIA (Kongres futurologiczny - 1971), o autor polaco concebe uma sociedade onde o ‘reino da aparência’ logra absoluta autonomia em relação à realidade física, sobrepondo-se por completo a ela, de modo que o homem, sob a égide do ilusionismo absoluto, já não mais pode distinguir entre dados objetivos e subjetivos. Através de sofisticados alucinógenos, maciçamente pulverizados na atmosfera e em todos os ambientes, o Estado não apenas controla a subjetividade de seus cidadãos, mas se torna capaz de ‘produzir’ o próprio 'Universo' físico e mental de seus súditos, evocando de certa forma, malgrado em termos mais puramente fantasistas, a tão caracteristicamente kafkiana atmosfera de ominosa, claustrofóbica alienação espiritual, de brumas e ameaças espectrais onde a realidade sensível se dissolve na oscilação inquietante do inefável. Todavia, em amarga e quiçá profética ironia, o mundo urdido por Lem começa a entrar em colapso: na medida em que recorre continuamente, e em escala sempre crescente, à produção e fumigação de substâncias alucinógenas, o próprio aparato estatal começa a perder o controle do processo, de maneira que a distinção entre objetos, mercadorias e dispositivos reais e ‘virtuais’ começa a se tornar cada vez mais difusa e problemática, com previsíveis e catastróficas conseqüências na esfera econômica. Hoje constatamos, estupefatos, que o sistema produtor de mercadorias começa a reproduzir tal estado de coisas: os ativos financeiros que, circulam por todo o globo terrestre entrelaçando mercados em tempo real, já não mais correspondem a ganhos reais, e os próprios agentes econômicos, assim como bancos, instituições multilaterais e mecanismos estatais de controle e regulação, começam a perder o controle de toda essa incessante dinâmica.

domingo, janeiro 20, 2008

Quais seriam vossos modelos de conduta intelectual, ínclitos irmãos d'armas?






Alphonse van Worden - 1750 AD


Proponho-vos aqui, diletos confrades, uma espécie de enquete. Antes de respondê-la, não obstante, convém esclarecer os critérios que pautaram a escolha feita.


a) Em primeiro lugar, o que denomino como 'modelo de conduta intelectual' é um indivíduo capaz de articular exemplarmente as 6 virtudes que reputo como cardeais no exercício da atividade intelectual:


Criatividade

Rigor

Ousadia

Prudência

Clareza

Profundidade


Vale dizer que a excelência intelectual é alcançada justamente pela coordenação entre os elementos supracitados, de maneira que em geral não adianta o indivíduo notabilizar-se no exercício de um ou dois deles e ser sofrível nos demais; isto se deve, vale dizer, ao facto de cada um deles, caso desfrute de primazia exagerada em relação aos demais, pode degenerar em contrafação simiesca. Senão vejamos: a criatividade, quando não lastreada pelo rigor conceitual, pode facilmente degenerar em charlatanismo ou mero 'fogo de artifício' verbal; analogamente, o rigor conceitual, se desprovido de criatividade, degenera em rigor mortis intelectual, esterilidade improfícua. A ousadia, por seu turno, se liberta estiver das necessárias amarras da prudência, corre o risco de se converter em sensacionalismo temerário; e a prudência, outrossim, quando não estimulada eventualmente pela ousadia, pode degenerar em mediocridade timorata; a clareza, por fim, se exercida sem concurso da profundidade, pode se perverter em superficialidade; e a profundidade, se não matizada pela clareza, não raro degenera em obscurantismo.

Assim sendo, cada um de meus eleitos corresponde, quero crer, a um paradigma de articulação das virtudes adrede elencadas.


b) A meu juízo, um 'modelo de conduta intelectual' deve ser, antes de mais nada, alguém que possamos ao menos emular; ora, tão somente podemos seguir o exemplo de alguém com quem outrossim possamos nos identificar. Destarte, creio ser sumamente difícil adotarmos como parâmetros de excelência intelectual figuras remotas como um Platão, um Aristóteles, um Tomás de Aquino ou um Isaac Newton, tendo em vista serem pensadores que atuaram em contextos visceralmente diferentes do que vivemos. De maneira que a proximidade cronológica me parece ser um fator de suma importância na eleição em pauta.


Isto posto, eis aqueles que, ao longo dos anos, têm sido meus principais modelos de conduta intelectual:


Carl Schmitt

Paul Valéry

Jorge Luís Borges

segunda-feira, dezembro 31, 2007

Epistolário Transfinito III (excertos...)

Alphonse van Worden - 1750 AD



























(...) e eis então, ó famígero confrade Drogo, qu'ogano hoje se colma! Tão memoroso quanto seu pervinco antecessor decerto não foi, é mister assinalar, mas nocentes seríamos caso olvidássemos as palmas logradas. À partida há que celebrar ditoso evento, já no apagar das luzes da presente elipse solar transcorrido: o auspicioso, veramente fádico, sicariato da oprobiosa vulgívaga de Karachi, sob a venturosa égide do ingente Sustentador de Mundos indubitavelmente sucedido; destarte, que seu anojoso espírito padeça, sob o do fero Iblis horrípilo azorrague, toda a metuenda plêiade de flagícios nos flamantes mármores de Jahannam existentes! Igualmente muliado seria, com efeito, que não nos regozjássemos com as eviternas demonstrações de nobreza, galhardia e imorredoura obstinação de nossos longânimes irmãos persas, bem como de nossos formidandos fraters da conspícua 'Terra entre 2 Rios', que das perenes colunas de Pasárgada às airosas colinas de Salah al Din, pertinacíssimos prosseguem no titânico gládio contra as terrulentas pravidades do obnóxio SATÃ; do CHRISTUS PANTOCRATOR e de علي بن أبي طالب - que tudo veem sem vistos serem -, portanto, fomos, somos e inexoravelmente seremos o incerne aríete, pois sob Seu sempiterno arnês fulgurantes estivemos, estamos e estaremos, a matar e a morrer em júbilo empenhados!


___




















(...) à vítrea resplendência dos fantasmáticos contrafortes do Bastiani, ó excelso armífero van Worden, contritos a velar e vigiar, na ínclita fé dos Eleitos irmanados, porfiaremos até o Tempo do Fim do Tempo, visto sabermos que na insondável teleologia do egrégio Custódio da Arcana Coelestia, se na Eternidade vicejamos, é no Século que pelejamos; dessarte, emérito condottiere da audaz Guarda Valona, em nossa deífica missão jamais esmorecemos, nossas hostes sempre diligentes na supina faina da Celestial Contenda, jolizes sob a égide do almo Condestável da Guerra Cósmica!


Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

sábado, dezembro 15, 2007

20 anos de TRIUNFOS e GLÓRIAS!!!

Alphonse van Worden - 1750 AD 

Ó impertérrito Criador e Sustentador de Mundor, ínclito e divo Custódio da Fé dos Eleitos, alvíssaras!!! Há 20 anos aspergiste o rutilante aljôfar da Sabedoria Divina sobre a ummah palestina, e na sempiterna terra de Gaza então emergiu o mirífico Harakat al-Muqawama al-Islamiyya, a abençoada Resistência Islãmica, que a todos nós instrui, edifica, sublima e exalta com seu perene exemplo de coragem, fé, dignidade e persistência! Allahu Akbar...Allahu Akbar...Allahu Akbar!!! Louvor eterno à Resistência Islâmica!!! 



sábado, dezembro 01, 2007

Notas de reflexão crítica X - a propósito de Hans Reichenbach

Alphonse van Worden - 1750 AD






- A propósito dos horizontes e linhas de demarcação do conhecimento científico, sobre os quais temos dito alguma coisa neste espaço, não poderíamos deixar de mencionar a figura exponencial de Hans Reichenbach (1891-1953), insigne lógico e filósofo alemão, mormente no que tange às suas considerações sobre o problema da justificação dos procedimentos indutivos.

- Um dos elementos axiais na epistemologia reichenbachiana é o postulado, ou seja, uma proposição que julgamos, ao menos em caráter temporário, como inequivocamente verdadeira, ainda que não possamos afirmar se de fato o é; habitualmente postulamos os eventos que possuem um grau máximo de probabilidade, isto é, acreditamos que o que se configura como mais provável é o que efetivamente ocorrerá; esta é, pois, a forma racional de atuação, sendo também o método de que quase sempre nos servimos, visto ser o mais prático. A finalidade da indução, argumenta Reichenbach, consiste em encontrar uma série de eventos cuja freqüência convirja num limite, em virtude do qual se formula um postulado cego, isto é, efetua-se a melhor previsão possível lastreada em experiências prévias, adotando o princípio de que apenas por intermédio de repetidas observações poderemos saber quão acertada foi a previsão estabelecida; se os dados obtidos confirmam o postulado cego e convergem para o limite previsto, constataremos sua precisão. Em outras palavras: se o limite existe, tal é o procedimento para encontrá-lo. A partir do limite, por conseguinte, já se torna possível atribuir um valor de probabilidade ao postulado cego, que desta maneira pode ser convertido em uma proposição dotada de significado.

- Esta forma de conceber a indução, é forçoso sublinhar, não almeja ter um caráter 'histórico'. Reichenbach não pretendia asseverar que é forçosamente deste modo que se deve proceder ao fazermos ciência: seu intento, convém salientar, era levar a efeito una reestruturação racional do conhecimento científico, elaborar uma espécie de 'apologética' da ciência; e é por esta razão, pois, que procurou enfatizar a diferença entre contexto de descoberta e contexto de justificação: o primeiro diz respeito às causas e móveis potencialmente presentes na gênese de uma premissa científica, que podem ser de natureza social, existencial, cultural, política, econômica, etc.; o segundo, por seu turno, relaciona-se aos critérios de cientificidade capazes de fundamentar de modo racional e consistente as hipóteses formuladas, de modo a estruturá-las num sistema conceitual coerente e ordenado. Para Reichenbach, a distinção nítida entre os referidos contextos é sobremaneira importante, uma vez que permitiu à epistemologia formular com clareza critérios de análise lógica universais e inequívocos, passíveis de verificar com precisão a validade científica de um enunciado.

- Tal procedimento, vale dizer, sem dúvida confere maior rigor e eficácia à investigação científica, uma vez que lhe proporciona maior clareza e densidade lógica na avaliação dos resultados da experiência. Destarte, o estatuto científico de uma teoria depende basicamente de seu contexto de justificação, sendo o contexto de descoberta algo de importância marginal, mormente psicológica. Desta maneira, portanto, as hipóteses teóricas são postuladas especulativa e livremente, mas sua ulterior fundamentação depende de rigorosos critérios lógicos que balizam o necessário cotejo com os fatos experimentais que elas pretendem descrever. É necessário salientar, argumenta Reichenbach, que malgrado o contexto de descoberta possa ser irracional, o contexto de justificação habitualmente coincide com o modo como os cientistas apresentam seus resultados ao público, ou seja, com uma estrutura compacta e coerente, desprovida de quaisquer incongruências ou elementos arbitrários; é também mister não confundir a distinção entre estes dois contextos com a postura indutivo-dedutiva ou com a hipotético-dedutiva, tendo em vista de que o contexto de justificação não é de caráter dedutivo, mas se trata de uma reconstituição do argumento que lhe confere coerência e o despoja do que à partida eram somente conjecturas ou apostas especulativas, procedendo, pois, de maneira essencialmente indutiva; delineia-se portanto, na perspectiva de Reichenbach, como justificação pragmática do indutivismo científico.

- Os contextos propostos por Reichenbach estabelecem, portanto, uma linha de demarcação epistemológica sobremaneira útil e precisa. Há, pois, uma nítida distinção entre, por um lado, o momento de postulação de uma hipótese, para o qual vários elementos circunstanciais e subjetivos podem concorrer e, por outro, o momento em que essa mesma hipótese será fundamentada, isto é, será cotejada com os dados experimentais que tenciona descrever. Acrescento ainda que, tendo em mente que a descrição sistemática de um conjunto de fenômenos será sempre fatalmente mais ou menos aproximativa, me parece bastante profícuo raciocinar nos termos do que o matemático e epistemólogo brasileiro Newton da Costa denomina de 'quase-verdade', isto é, soluções que se revelam 'verdadeiras' até que, mediante a descoberta de um novo arranjo conceitual, a estabelecer uma aproximação ‘correspondencial’ mais exata entre objeto e sistematização teórica que as anteriormente vigentes, uma nova solução 'quase-verdadeira' seja formulada.

quinta-feira, novembro 01, 2007

Notas de reflexão crítica IX - a propósito de Slobodan Milosevic e da secessão jugoslava

Alphonse van Worden - 1750 AD




- A despeito de todo o implacável e sistemático processo de satanização levado a efeito nos últimos 15 anos pela mídia mainstream ocidental, Slobodan Milosevic foi uma importante liderança antiimperialista, tendo especialmente lutado contra as deletérias, deveras criminosas, injunções germânicas na península balcânica, mormente sobre as ex-repúblicas iugoslavas da Croácia e Eslovênia, às quais Berlim tencionava ver sob sua esfera de influência política e econômica. Destarte, Milosevic foi obrigado a recorrer à força das armas para tentar manter a unidade da federação iugoslava, processo em que, como de sobejo sabemos, não teve sucesso.

- Vale também recordar a selvagem agressão militar sofrida pela então já mutilada federação iugoslava em 1999, quando forças da OTAN, 'Grande Satã' à testa, brutalmente bombardearam o país entre 24 de março e 10 de junho, assassinando milhares de civis e envenenando o meio-ambiente com armas de destruição em massa, mediante o emprego de 31 mil projéteis recobertos com urânio empobrecido durante a guerra (e cerca de 10 mil nos ataques preliminares em 1995) através de jatos A-10 Thunderbolt e tanques M1A1 Abrahms. Estima-se que o bombardeio de Kosovo causou pelo menos 10 mil mortes por câncer nos Bálcãs nos anos seguintes, e não só nas áreas diretamente atingidas; vale assinalar, aliás, que na Sérvia, bombardeada por milhares de projéteis recobertos com urânio empobrecido, a radiação era 30 vezes superior ao normal, e mesmo ao Norte da Grécia, a mais de 100 quilômetros da área de conflito, a radioatividade aumentou 25%.

- Convém também sublinhar que a morte de Milosevic ocorreu em circunstâncias sumamente suspeitas, tendo inclusive Borislav Milosevic, irmão mais velho do ex-presidente, culpado o atual governo sérvio e o tribunal das Nações Unidas pelo sucedido.

- A mídia ocidental difundiu a quimérica narrativa de que a Sérvia 'invadiu' a província de Kosovo, levando a cabo por conseguinte um ato de agressão contra a população local. Ocorre que o Kosovo é parte integrante da Sérvia desde prístinas eras, de maneira que não poderia ter sido 'invadido'; saliente-se, outrossim, o facto de que constitui um lugar sagrado para os de fé cristã-ortodoxa, destarte revestindo-se de grande força simbólica para a maioria dos sérvios. Tratava-se, pois, não de uma invasão estrangeira seguida de ocupação militar, mas sim de uma guerra civil travada entre o governo central e uma província separatista. Ademais, vale também lembrar que esta mesma mídia, tão escrupulosa e implacável na denúncia das 'atrocidades' perpetradas pelos sérvios, nunca demonstrou em interesse em divulgar o contínuo processo de intimidação e coerção da minoria sérvia pela maioria albanesa, sobretudo a partir de meados da década de 70, quando Tito teve a infeliz idéia de reformar a constituição jugoslava, concedendo maior autonomia às províncias de Kosovo e Vojvodina.

- É mister, outrossim, enfatizar que a gestão Milosevic não atendia aos interesses do capital internacional: além de não liderar um governo neoliberal como o de Franjo Tuđman na Croácia, por exemplo, o presidente sérvio privilegiava as relações econômicas com a Rússia, tradicional aliada dos sérvios, o que desagradava sumamente a Alemanha, sequiosa para converter todo o Leste Europeu em feudo exclusivo para seus conglomerados industriais e financeiros, no imo do processo de 'recolonização' econômica do Leste Europeu sob os auspícios da nação teutônica. Que fique, portanto, bem claro e assente: quem açulou o quanto pode os nacionalismos croata e esloveno foram os governos de Helmut Kohl e Gerhard Schröder, que possuem enorme responsabilidade em relação aos trágicos eventos ocorridos nas ex-repúblicas jugoslavas.

- O pragmatismo, desafortunadamente tão necessário em política, não raro nos obriga a optar pelo 'mal menor': Milosevic foi, sim, um líder político autoritário, até mesmo cruel, mas a Jugoslávia, sob sua égide, era um obstáculo para o projeto de 'reconquista' colonial do leste europeu pela UE, Alemanha à testa; nesse sentido, portanto, a meu juízo desempenhou um papel positivo.

- Por fim, uma observação de índole pessoal: conheço alguns brasileiros que viveram em Belgrado nos anos 70 e 80, e de facto tais pessoas atestam que a Sérvia efetivamente era uma sociedade multi-étnica harmoniosa e pacífica, ao passo que vicissitudes a esse respeito eram palpáveis nas demais províncias jugoslavas; de resto, a manipulação midiática denunciada por analistas isentos como o norte-americano Michael Parenti, segue o velho padrão 'orwelliano' que pauta a grande mídia soi disant democrática: satanizar ao máximo o inimigo, imputando-lhe crimes imaginários ou hiperdimensionando os existentes, na mesma medida em que se ocultam as atrocidades perpetradas pelos aliados. Assim sendo, Franjo Tuđman, notório criminoso de guerra e nostálgico do governo pró-nazi de Ante Pavelić e sua Ustaše, é cantado em prosa e verso como amante da paz e promotor de privatizações, ao passo que Slobodan Milosevic, governante de legado não mais violento que, por exemplo, um Fidel Castro, se converte numa espécie de Pol Pot eslavo.



Brevíssima nota sobre a estupidez anticlerical

Alphonse van Worden - 1750 AD






Excelsos irmãos d'armas!

Amiúde vemos, aqui e alhures, psitacídeos anticlericais que, faltos d’uma argumentação minimamente consistente e coerente, vivem a trouxe-mouxe atacando a Igreja por dá cá aquela palha; disparando toda sorte de estultícias e parvoíces, e não raro recorrendo aos mais grosseiros chistes e patranhas, chegam às raias do mais rompante irracionalismo e da mais solerte ignorância ao torpemente negarem o óbvio ululante: a ingente, decisiva importância da Igreja para a civilização ocidental! Destarte, o móvel desta breve nova é demonstrar quão estólidas e disparatadas são tais cavilações.

A importância e influência da Igreja são de tal monta que não há, com efeito, sequer como propriamente mensurá-las com precisão, que dirá avaliá-las em detalhe... basta assinalar, creio eu, que o próprio 'Ocidente' (ou, caso prefiram, a 'civilização' / 'cultura' ocidental), essa grande síntese dialética entre as tradições greco-romana e cristã, é obra forjada pela Igreja.

Na medida, pois, em que a Igreja forjou a grande síntese entre as tradições greco-romana e cristã, e com isso criou a própria noção de 'Ocidente', bem como os alicerces de nossa civilização, ela fatalmente condiciona e determina todo o nosso universo conceitual. De maneira que o indivíduo ocidental, mesmo rompendo com a Igreja, permanece nos marcos do processo civilizacional que a Igreja instaurou. Ou seja, até mesmo para se posicionar contra a Igreja, o sujeito provavelmente terá de recorrer a um aparato conceitual que, em larga escala, foi gestado sob a égide da própria Igreja... ou seja, não há escapatória: mesmo contra a Igreja, estais inelutavelmente dentro dela! Aliás, vale também relembrar que ao longo dos séculos a Igreja tem acompanhado, em irônica e silente contemplação, as exéquias de inúmeros de seus pretensos coveiros...

De resto, a influência da Igreja é de tal modo multifacetada e abrangente, de tal maneira complexa e pervasiva, que se manifesta mesmo nos contextos aparentemente mais insuspeitos... desejais um exemplo? Sabeis qual foi uma das maiores influências de Lenin em sua concepção de partido revolucionário? Ninguém mais ninguém menos que Íñigo López de Loyola (1491 - 1556), mais conhecido como Santo Inácio de Loyola, fundador da Societatis Iesu, a celebérrima Ordem Jesuíta, assombrai-vos! Lenin tinha grande admiração pelos métodos de Loyola, que serviram como modelo de organização e código de conduta para a Companhia de Jesus, sem dúvida a mais disciplinada, aguerrida e eficaz ordem da história da Igreja Católica, os 'soldados da Igreja'. Assim sendo, Ullianov modelou o regimento interno do Partido Bolchevique, sobretudo em seu aspecto de máquina partidária monolítica e disciplinada, bem como integrada por revolucionários 'profissionais', a partir dos ordenamientos de Loyola.

Vede, portanto, diletos confrades, que esplêndida e emblemática ironia: o ínclito 'santo guerreiro' exerceu significativa influência sobre a obra mais importante do famígero ateu materialista que fundou o bolchevismo e liderou a primeira revolução proletária da História!

Rock'n'roll - 'sempre igual e, ainda assim, sempre diferente'




Amiúde observo, em numerosos veículos de informação dedicados à crítica musical, certa tendência crítica que altissonante proclama, como primado d'uma operação analítica 'séria', a necessidade de nos atermos exclusivamente à 'música' que estamos a escutar, sem atentarmos para a carga simbólica que lhe é adjacente; ora bem: tal clivagem é de todo inexeqüível e, de resto, indesejável, por duas razões muito simples.


1)
Em primeiro lugar, tal perspectiva não leva em consideração uma cabal evidência: toda manifestação da subjetividade humana (esfera em que, claro está, se incluem as obras de arte) comporta uma dimensão simbólica que lhe é indissociável. Tal carga simbólica é constituída pelos diferentes códigos de valores (ou 'contravalores', caso nadem contra a corrente) transmitidos socialmente de geração em geração através de culturas distintas; destarte, toda manifestação artística comporta, em caráter inalienável , um cariz simbólico, uma 'atitude', um acervo de valores, uma determinada visão de mundo.

Isto posto, é possível identificar 3 'fases' sucessivas na apreensão individual de uma obra de arte:

a) A primeira fase corresponde à intuição sensível imediata da obra, fenômeno de todo refratário a qualquer operação analítica; em outras palavras, trata-se, recorrendo aqui a um termo kantiano, de um 'juízo sintético a priori, por intermédio do qual estabelecemos, sem mediações e injunções paralelas, nossa primeira e insofismável impressão 'positiva' ou 'negativa' a propósito de uma determinada manifestação, impressão que poderá ser ratificada ou reformulado no decurso das etapas seguintes da apreciação estética.

b) A segunda fase, que inaugura a operação analítica propriamente dita, se instaura sob a égide da dimensão simbólica conjurada pela obra em tela. É, pois, o momento em que a 'personalidade' da obra, em cotejo com nosso quadro de valores, irá condicionar parcialmente nossa atitude em relação a mesma, reforçando ou enfraquecendo a impressão inicial.

c) A terceira fase, por fim, é aquela em que consideramos a excelência 'técnica' da obra, isto é, o nível de realização dos elementos que lhe são específicos em termos de puro labor técnico; observe-se que, malgrado seja de todas as fases mais puramente 'consciente' e racional, ela tão somente se faz presente num quadro já previamente condicionado e determinado pelas fases anteriores. Assim sendo, é apenas o remate da operação analítica, mas não seu fundamento.


2) Conforme assinalamos acima, "toda manifestação da subjetividade humana comporta uma dimensão simbólica que lhe é indissociável". Ora, esta característica está particularmente presente no objeto que aqui mais nos interessa e apaixona, o rock'n'roll; com efeito, creio ser de sobejo IMPOSSÍVEL pensar o rock'n'roll sem levar em conta sua inserção atávica num movimento contracultural muito mais amplo e profundo, que deita raízes nas vanguardas históricas do século XX, na explosão da cultura de massas nos 40/50, na literatura beat, d'entre outros influxos. Desta maneira, não seria irrazoável afirmar que as dimensões sociológica e simbólica do rock assumem uma importância que rivaliza com sua relevância como fenômeno puramente musical.

______


Consideremos agora a frase que dá nome ao tópico: "o rock'n'roll é sempre igual e, mesmo assim, é diferente"; trata-se, creio, de uma reflexão que se estriba em dois fatores precípuos:

a) Existiria, perguntou eu, alguma 'unidade estética' no rock? Em outras palavras: há parâmetros, constantes musicais SEMPRE presentes em todas as vertentes do rock em seus mais de 50 anos de existência? A meu juízo, NÃO. Trata-se, desde o berço, de um gênero musical que nasce sob o signo d'uma intensa miscigenação estética, incorporando elementos das mais distintas fontes; não há, destarte, uma corrente principal dando unidade formal ao rock'n'roll, que surge, cresce e se difunde como voragem antropofágica a agregar / deglutir / reprocessar toda sorte de informação possível, modus operandi que, aliás, se faz presente na cultura pop como um todo. De modo que, de Elvis Presley a Orthrelm, passando por Kinks, Neu!, Kiss, Nurse With Wound e Arctic Monkeys, não há como identificar um unidade formal discernível.

b) Não obstante, há, assim acredito, a nítida presença de uma 'unidade ética' no âmbito do rock'n'roll, isto é, de um ethos que perpassa, em maior ou menor grau, de forma mais ou menos consciente, de modo mais ou menos autêntico, toda a multiforme galáxia do gênero. Tal modo de ser pode ser sintetizado, a meu ver, numa única palavra: INSATISFAÇÃO. Rock'n'roll, portanto, é 'desarrumar o arrumado'; dar murro em ponta de faca; nadar contra a corrente; apostar no 'errado' quando tudo está 'certo'; é desassossego, dissintonia, descompasso, dissonância, desarmonia; é, enfim, a sensação de que algo está fora de lugar, de que as coisas não encaixam, de que o que presentemente 'é' não necessariamente precisa 'ser'.

Unindo a agora as duas pontas da argumentação proposta, explica-se pq o rock'n'roll é "sempre igual e, mesmo assim, é diferente": é sempre igual pq é SEMPRE epifenômeno de insatisfação e desacerto com o mundo; e, por outro lado, é SEMPRE diferente, pois de Little Richards a Mainliner, de Carl Perkins a The Heads, de Rolling Stones a Merzbow, vive em permanente reinvenção estética, sempre incorporando novos elementos, ou a 'velhos' formatos nova configuração, simbiose contínua e dialética entre 'o que foi', 'o que é' e 'o que pode vir a ser', caleidoscópio em perpétua metamorfose.


___

Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros