quinta-feira, junho 08, 2006

In Memoriam II

Alphonse van Worden - 1750 AD



Ó preclaro confrade d'armas Abu Musab al-Zarqawi, longânime e intimorato armígero do mirífico AMIR UL-MOMINEEM, que para ti se descortinem as transcendentes alamedas da Arcana Coelestia!!!


quinta-feira, junho 01, 2006

Hadaka No Rallizes: the acid dawn of the Rising Sun



A garage hermétique transpsicodélica do arquipélago do Sol Nascente é uma cornucópia aparentemente infindável de deleite e perplexidade para os cultores do psych rock em seu estágio mais extremo e esmerilhante de desorientação sônica. Formações tais como Fushitsusha, Taj Mahal Travellers, Flower Travellin’ Band, High Rise, AMT, Musica Transonic, Mainliner, Boris, etc. são sublimes exercícios de puro delírio sem quaisquer concessões e recuos, explorando com máxima audácia todos os desvãos da psicodelia, da plácida hipnose dos devaneios de folk psicoativo até colossais maremotos elétricos transbordantes de white noise e brutalismo percussivo. E na raiz de todo este estraçalhamento psíquico de garagem, influenciando de forma decisiva a siderurgia sonora japonesa ulterior, está a mitológica banda que ora iremos abordar: Hadaka No Rallizes / Les Rallizes Dénudés.

Como todo lost classic que se preza, não seria possível falar em HNR sem referir sua acidentada trajetória. Pois muito bem: a banda formou-se em novembro de 1967 na Universidade de Kioto, tendo como eixo criativo e existencial precípuo a críptica e mefistofélica figura de Takashi Mizutani, um misantropo nosferatu neogótico envolto em eterno couro preto e óculos escuros impenetráveis. Entre 1968-69 o grupo tocou bastante ao vivo, mormente em festivais universitários, happenings políticos e também em parceria com uma trupe local de teatro avant-garde, tornando-se conhecido pelos teores excruciantemente altos de microfonia e distorção de suas maciças jams psicosônicas. Desde o começo Mizutani e sua gang estavam intimamente ligados à esquerda revolucionária japonesa, tendo participado de numerosas demonstrações estudantis contra a Guerra do Vietnã e da ocupação da Univ. de Kioto em 1969, em protesto contra a presença militar imperialista dos EUA no arquipélago japonês. Em 1970, um dos integrantes da formação original, o baixista Moriyasu Wakabayashi, seria preso em virtude de sua participação no chamado ‘incidente Yodo-Go’, quando membros do movimento guerrilheiro Sekigun (Exército Vermelho Japonês) seqüestraram um avião comercial e o desviaram para a Coréia Popular. Mizutani também estava envolvido com o Sekigun, de modo que os concertos de seu grupo em larga medida logo se tornariam eventos clandestinos; conta-se que num deles, por exemplo, a banda tocou numa escola secundária, distribuindo para a platéia de estudantes cópias mimeografadas de textos de Hegel, Lenin, Che Guevara, Cervantes, Nietzsche e Ed Sanders.

Malgrado o Hadaka No Rallizes tenha continuado a apresentar-se com regularidade no decorrer das décadas de 70 e 80, nenhum registro fonográfico seria lançado neste longo período, e as sessões de gravação em estúdio tampouco foram algo freqüente na rotina do grupo. Em 1991, quando quase ninguém mais sequer lembrava de sua existência, o grupo, numa inesperada reviravolta, criou um selo (Sixe) e lançou 3 álbuns simultaneamente:'67-'69 Studio and Live, Mizutani - Les Rallizes Dénudés e '77 Live, todos em limitadíssimas edições que logo se tornariam raridade e passariam a ser disputadas a tapas e preços exorbitantes por legiões de ansiosos arquivistas do underground. A banda voltaria à obscuridade após este surpreendente surto de atividade, encerrando definitivamente suas atividades em 1996.

Dos três álbuns oficiais lançados em 91 (pois há toneladas de bootlegs em vinil, CD e CD-R, sobretudo nos últimos 3 anos), '77 Live é indubitavelmente o melhor, apresentando o HNR em seu habitat natural, o palco, quando a banda escancarava as portas de percepção em tonitruantes workouts de noise rock demencial, com patente destaque para o gerador hellraiser de alucinações psicodélicas seriais em que Mizutani converte sua guitarra elétrica, em fascinante contraste com o tom old fashion e alicerçado nas tradições de rock singing de seus vocais; e se nas gravações de estúdio os camaradas costumavam praticar um acid / psych rock relativamente ‘estruturado’, ao vivo a coisa realmente muda de figura, e como...! Imaginai, pois, um Velvet Underground marciano com transtorno de personalidade borderline, integrado por pinheads viciados em benzedrina e munidos de instrumentos de enésima categoria, tocando uma interminável Sister Ray dentro de um pântano radioativo, com o som saindo por uma vitrolinha mono defeituosa mas amplificada por 1000 PA’s, e tereis uma vaga idéia do que vós encontrareis pela frente neste álbum...




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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

Em defesa do 'Populismo'!

Alphonse van Worden - 1750 AD






Reaparece um espectro sobre as Américas - o espectro do populismo. Todos os poderes do Novo Mundo estão a conjugarem-se para a santa caçada a esse espectro, os lambe-botas do Império, os jornalistas e políticos 'sérios', os intelectuais soi disant 'bem pensantes'.

Unem-se todos os sabichões e homens probos, pois, na satanização ritual da besta-fera populista, ora encarnada sobretudo no venezuelano Hugo Chávez e no boliviano Evo Morales, cujos maus exemplos de soberania e desassombro político suscitam reações indignadas nos que desejam ver o continente eternamente agrilhoado às estruturas de submissão internacional; assim sendo, não se pode permitir que Chávez, por exemplo, promova o surgimento do poder popular de base via círculos bolivarianos, nem tampouco o resgate da dívida social de seu país por meio das missiones; da mesma forma, deve Morales ser impedido de prosseguir em sua lídima defesa do patrimônio energético boliviano. Aliás, trata-se da mesma sórdida e espúria 'indignação' que se voltou no Brasil contra Getúlio Vargas e João Goulart; no México contra Lázaro Cárdenas; em Cuba contra Fidel Castro; na Guatemala contra Jacobo Arbenz; na própria Bolívia contra Juan José Torres; no Peru contra Velasco Alvarado; na Nicarágua contra Sandino; em El Salvador contra Farabundo Martí; na Argentina contra Perón; enfim, contra todos os que, com maior ou menor acerto, de forma mais ou menos revolucionária, com maior ou menor êxito e permanência, tentaram de alguma forma implementar reformas sociais profundas em nosso continente; reestruturar nossas economias nacionais em bases soberanas e voltadas para o desenvolvimento humano; promover a defesa da cultura nacional e das matrizes simbólicas mais profundas de nossa gente; libertar nossos países da obscena ingerência política, econômica e cultural dos Eua; em suma, contra todas as tentativas de mudar o destino de nosso continente, de desbravar novos horizontes de justiça social e prosperidade econômica.

Cá no Brasil esta perseguição inquisitorial deita raízes intelectuais mormente no cardinalato das ciências sociais uspianas, esfera onde todos, dos Florestan Fernandes aos FHC; dos Giannoti aos Ianni; dos Weffort aos Bresser; enfim, todos os apóstolos do "padrão científico de trabalho" (como se a sociologia tivesse real lastro científico, que piada!) contra a riqueza literária da tradição ensaística de nosso pensamento social (algo patente na produção intelecual isebiana, por exemplo), os 'sumo-sacerdotes' do 'credo' paulistocêntrico, quer sejam tucanos, quer sejam petistas, em uníssono se irmanam no 'horror sagrado' a Getúlio Vargas, a João Goulart, a Francisco Julião, a Leonel Brizola, a Miguel Arraes; ou então, no plano acadêmico, a Alberto Torres, a Werneck Sodré, a Gilberto Freyre, a Guerreiro Ramos, a Darcy Ribeiro, a Vieira Pinto. Não admitem, pois, que os alicerces para o desenvolvimento econômico auto-sustentável de nosso país tenham sido lançados durante o tão demonizado regime do Estado Novo, nem que a cultura nacional tenha sido pela primeira vez pensada e planejada em bases autóctones e sistemáticas (vide Gustavo Capanema, Mário de Andrade, Villa-Lobos, etc.) exatamente durante este mesmo período; tampouco se lembram de iniciativas cruciais como o DASP, que estruturou todo o aparato do serviço público no Brasil, ou da criação de empresas como a Petrobrás e a CSN, fundamentais para a industrialização de nosso país; da mesma forma, menosprezam com grande leviandade o significado do progressista governo Jango, quando pela primeira e única vez estiveram em pauta reformas verdadeiramente substantivas da estrutura do Estado e da sociedade brasileira; também se olvidam, vergonhosamente, da trajetória de lutas de um Brizola ou de um Arraes, homens que defenderam a democracia e a dignidade do povo brasileiro à custa de grandes sacrifícios pessoais. Tudo isto, pois, é vilipendiado em nome do marco zero da ‘modernidade’ política em nosso país, isto é, o advento da dupla dinâmica PT-PSDB, os gloriosos avatares da social-democracia 'iluminista', que vieram como heróicos 'paladinos' para resgatar o Brasil das trevas do autoritarismo (sem no entanto jamais atentarem tanto para o pior aspecto do legado da ditadura militar, que foi a submissão estrutural de nossa economia a mecanismos exógenos de controle; quanto para o que houve de melhor, isto é, a adoção de um projeto de desenvolvimento nacional para o Brasil, um 'norte' claro, preciso e meridiano, com amplos investimentos em infra-estrutura), bem como para evitar que a ‘irresponsabilidade’ de líderes carismáticos desvie nossa país da cartilha ditada pelos centros de poder internacionais.

Todos estes enciclopedistas de fancaria, políticos ‘responsáveis’ e homens de imprensa ‘sérios’, confluem para o mesmo cantochão monocórdio: abaixo o populismo! Não obstante, há algo de profundamente inconfessável nessa 'cruzada' secular, um ‘não dito’ nebuloso e tenebroso: o ódio senhorial desses augustos 'fidalgos' não está voltado tão somente contra determinados políticos ou ideologias, mas também contra a própria alma do homem latino-americano, contra nossos povos atavicamente emotivos, místicos, messiânicos e fatalistas, de todo avessos aos ideais ‘civilizados’ de ultramar, cultuados em prosa e verso por essas elites exógenas que tencionam escravizar nossos corações e mentes a credos que não nos representam. Destarte, o que denominam ‘populismo’ é a vera expressão política de nosso ethos mais recôndito e vital, a emanação mais profunda de nossos desígnios e sonhos, o alpha e o omega de nossa imorredoura luta por dignidade e independência. Tais pseudo-aristocracias detestam, em suma, a própria alma do povo.

Não obstante, meus caros confrades, o generoso sonho dos grandes caudilhos libertários permanece vivo, não só como memória histórica mas como combate hodierno! Não nos envergonhemos, pois, de prosseguir na refrega pelo resgate político, econômico, cultural e existencial de nosso continente, seja através da luta política tradicional, seja por intermédio das teologias messiânicas da ação revolucionária que estão a emergir. E pouco incomoda-nos o facto de que os envenenadores da consciência pública nos pespeguem o rótulo de ‘populistas’! Assumiremos esta ou qualquer outra alcunha, pois o que realmente importa é a infrene defesa dos ideais históricos de nossa gente!