quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Ditosos são os discípulos do MESTRE!!!





Ao impertérrito irmão Aristocrata:

Ó dileto confrade, alvíssaras! Meus olhos pejaram-se de copiosas lágrimas ao ler a sacratíssima exortação do MESTRE! Durante muitos lustros, oh ínclito irmão d'armas , perambulei pelo cinéreo orco de sombras da heresia e da perfídia, emanações luciferinas do hórrido coletivismo; mas hoje, em humilíma contrição, admito, recebo e exalto a verdade perene, o alpha e o omega da mirífica Filosofia, assim como o imorredouro lume da pureza d'alma, infinitamente presentes nos ensinamentos do MESTRE! Ó excelso Aristocrata, o século entregue está a toda sorte de taras, endrôminas e inauditas perversões; ditosos, portanto, os amparados pela supina âncora moral e filosófica do MESTRE, pois só Ele regenera, compreende, sublima e redime!


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Aos que não acatam os ditames do MESTRE:

Muares, onagros, ínvias crias do apedeutismo, arrependei-vos, pois o fim está próximo!!! Ajoelhai-vos e penitenciai-vos, o MESTRE observa!!! Criaturas mundanas, prostrai-vos diante da iridescente Revelação, pois a sabedoria do MESTRE transcende o infinito e, como uma bênção, vos é Revelada! MESTRE, ó REI dos REIS!!! Vossa Palavra não carece de compreensão, é auto-evidente, tal como a noite sucede o dia, e o dia antecede a noite! Deve ser contemplada e entoada como o Cântico dos Cânticos, o Livro dos Livros, até que vossos insondáveis desígnios penetrem, ó MESTRE, o ímpio coração da humanidade! MESTRE, purificai-nos, derramai sobre nossas ímpias cabeças vossa ciência celestina!!!

Velai e perseverai todos vós! Hosannah nas alturas!



Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

Notas de reflexão crítica III - a propósito do pensamento político orwelliano

Alphonse van Worden - 1750 AD






- Se a disjuntiva Bola de Neve / Napoleão (Animal Farm - 1945) decerto passa por uma disputa de poder pelo controle do Estado, e se é igualmente certo que tal contenda se dá no seio de uma elite dirigente, é também mister frisar que ela envolve outras dimensões, quiçá mais importantes. Bola de Neve - que a meu ver não retrata apenas Trotsky, tal como se costuma interpretá-lo, mas sim una espécie de amálgama entre este e Lenin - é concebido como uma figura contraditória, ambígua (por exemplo, a autorização de rações extraordinárias de leite e maçãs para os porcos), mas, de todo modo, revolucionária e popular - a organização de comitês com o fito de melhorar as condições de vida na fazenda; o projeto do moinho de vento como instrumento capaz de reduzir a carga de trabalho dos animais. Napoleão, por seu turno, é uma entidade incontrastavelmente negativa, uma vez que desde o princípio demonstra-se preocupado tão somente em assegurar aos porcos o papel dirigente, bem como em exercer tal primado com extrema truculência e autoritarismo.

- Assim sendo, a perspectiva assumida por Orwell é sobremaneira mais sutil e matizada que uma rejeição tout court à revolução soviética: se Lenin e Trotsky (mesclados em Bola de Neve) inequivocamente compartilham da responsabilidade pela limitação da democracia na Rússia soviética, é da mesma maneira insofismável o facto de que são revolucionários e libertadores, uma vez que, de facto, derribaram uma autocracia milenar e instituíram um novo regime, que trouxe um novo horizonte, tanto em termos econômicos quanto na esfera sociocultural, para milhões de seres humanos; são, portanto, figuras cujo legado, ainda que não isento de sombras, não pode ser descartado, e em que períodos diferentes encarnaram / simbolizaram papéis distintos. Há também que sublinhar - e isto é deveras importante na caracterização de Orwell como autor, ao fim e ao cabo, progressista - que o escritor inglês não chancela a idéia de que Marx, assim como Stalin e (parcialmente) Lenin, tenha sido um coletivista oligárquico, o que está meridianamente evidenciado na ideologia revolucionária do venerando porco Major (que, como é evidente, simboliza Marx no arranjo estrutural do enredo).

- No que tange ao romance 1984 (1948), aí sim podemos falar numa rejeição mais cabal não apenas à deformação autoritária stalinista, mas à perspectiva bolchevique como um todo, mormente à noção leninista de um partido rigidamente disciplinado e centralizado, depositário último da consciência de classe proletária e instância dirigente do processo revolucionário. Orwell descria fortemente dessa idéia: Goldstein (Trotsky) é sem dúvidas um heróico adversário do Big Brother, mas inelutavelmente inserido nas tradições e dinâmicas do Partido e da New Speak. Subentende-se, portanto, que Trotsky e Stalin de facto fossem 'irmãos', essencialmente 'grandes irmãos', opostos tão somente em função de algumas distinções em sua abordagem do poder soviético. A esse respeito vale também recordar o livro The Managerial Revolution (1941) de James Burnham, uma vez que "Teoria e Prática do Coletivismo Oligárquico", o book within the book concebido por Orwell em 1984 para explicar os pressupostos políticos, econômicos, sociais, filosóficos, culturais e psicológicos que balizam os credos ideológicos dominantes nos três superestados – 'Ingsoc' (Oceania), ‘Neobolchevismo’ (Eurásia) e ‘Obliteração do Ego’ (Lestásia) - , é nitidamente uma brilhante paródia/homenagem à obra máxima de Burnham.

- Por seu turno, a revolta de W. Smith contra o sistema é amorfa, indistinta, ditada mais por uma malaise inconsciente, vagamente associada a questões psicológicas / fisiológicas, e decerto ligada a seu passado, sobretudo à sua infância, do que por uma crítica ideológico/pragmática ao regime do Ingsoc, o qual ele, aliás, não chegue a compreender por completo. Winston chega a entrever o alicerce estrutural, o alpha e o omega, o giroscópio conceitual onde se assentam o regime e a filosofia Ingsoc: o 'solipsismo coletivo' erigido pela doutrina do doublethink; não obstante, ele capta apenas os EFEITOS de tal dinâmica, mas não lhe percebe a lógica interna estruturante, ou seja, não compreende de que modo ela funciona e, o que é ainda mais importante, não desvela seus objetivos e desígnios últimos. Assim sendo, ele não consegue organizar-se psicologicamente de modo a viver sob a 'esquizofrenia organizada' que seria necessária a um enfrentamento / convivência eficaz com o Partido.

- É mister salientar, todavia, que o autor britânico continuou a isentar o marxismo de qualquer responsabilidade pelas atrocidades do totalitarismo soviético, não subscrevendo de forma alguma a hipótese de um 'pecado original' já embutido, mesmo que em caráter embrionário, no pensamento marxista.

- Há, por fim, que sublinhar a emblemática rejeição de Orwell a qualquer noção 'teleológica' de progresso. No incisivo ensaio Wells, Hitler and The World State (“Wells, Hitler e o Estado Mundial” - 1941), o autor inglês verbera, nos termos mais acerbos, contra o que denomina de ‘religião do progresso’, ou seja, a crença no progresso linear, contínuo e irreversível da humanidade, que estaria, portanto, ao fim e ao cabo ‘condenada’ a um êxito inelutável. Orwell desconfiava dessa visão de mundo, à qual atribuía um cariz sobremaneira autoritário e irrealista, já que desconsidera a intermitente dinâmica de avanços e retrocessos da ação humana, bem como deposita no futuro esperanças exageradas, aspirações essas cuja viabilidade prática é, ao fim e ao cabo, inverificável no presente.