domingo, março 21, 2010

Galeria de Espelhos




(d’aprés Spiegelsaal  / Kraftwerk)


"Ela olha para ela em vez de olhar para ti, e por isso não te conhece. Durante as duas ou três pequenas explosões de paixão que ela se permitiu a teu favor, ela, por um grande esforço de imaginação, viu em ti o herói dos seus sonhos, e não tu mesmo como realmente és."

Stendhal  / Le Rouge et le Noir (O Vermelho e o Negro - 1830)

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Por longos corredores de metal
A jovem enfim chegou à Galeria de Espelhos
E tornou-se uma projeção de tempos idos

Até as maiores estrelas descobrem-se nos espelhos


Sua verdadeira face fragmentou-se
Naquele labirinto de luzes glaciais
Estilhaços de memórias ancestrais

Até as maiores estrelas encontram sua face nos espelhos


Ela apaixonou-se por seu próprio reflexo
Refratado naquele frio oceano de cristal
Até perder-se por completo de si mesma

Até as maiores estrelas se detestam nos espelhos


Então recriou-se como personagem de si mesma
Personalidade nova, nova identidade
Sem passado, sem memórias

Até as maiores estrelas se transformam em espelhos


A moça agora pertence aos espelhos
Que reverberam eternamente o espectro
Daquela que já não sabe quem foi

Até as maiores estrelas vivem encerradas em espelhos








Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

segunda-feira, março 01, 2010

Breve nota sobre a questão do ‘Guerreiro Santo’ no âmbito do pensamento de Yamamoto Tsunetomo

Alphonse van Worden - 1750 AD





No ensaio de minha lavra a propósito do pensamento de Sheykh Osamma Bin Laden (disponível neste espaço), mencionei, a respeito do arquétipo do 'Guerreiro Santo', bem como à guisa de exemplo da convergência entre as diversas esferas da Tradição, a figura do monge zen e bushi japonês Yamamoto Tsunetomo (1659 - 1719).

Muito bem: trata-se do autor do célebre Hagakure (1710), obra que expõe os preceitos do Bushidō, o código de honra samurai. E logo à partida, Tsunetomo nos oferece se calhar a mais sublime definição do arquétipo em tela, cujos traços essenciais reverberam nos '10.000 imortais' de Xerxes; no janízaro otomano; no kṣhatriya védico; nos hashasheen de Al Alamut; no cruzado cristão, etc.:


"Descobri que a Via do Samurai reside na morte. Numa situação de crise, quando as possibilidades de viver ou morrer são iguais, devemos optar pela morte; é necessário, para tanto, munir-se de coragem e agir. Há quem diga que morrer sem ter levado a bom termo sua missão significa morrer em vão. Trata-se do argumento advogado pelos mercadores arrogantes que enxameiam por Osaka; na verdade, contudo, não passa d’uma contrafação simiesca da ética dos samurais.

É muito difícil fazer uma escolha criteriosa num contexto onde as possibilidades de viver ou morrer são equivalentes. Todos nós preferimos viver, e é natural que o ser humano sempre acabe encontrando boas razões para seguir vivendo. Todavia, aquele que escolhe continuar vivo após ter fracassado em sua missão será desprezado, a um só tempo qualificado como covarde e vil. Aquele que, por outro lado, morre após ter falhado, pode ser até considerado um fanático que desperdiçou sua vida; não obstante, não será desonrado. Tal é a Via do Samurai.

Para ser um samurai perfeito, é mister estar sempre preparado para morrer. Quando um samurai está permanentemente disposto a morrer, logrou alcançar mestria na Via, e assim pode dedicar-se, sem cessar, ao pleno exercício de seus deveres."


N’outra passagem, o autor enfatiza, em termos análogos, a atitude adequada de um guerreiro:


"Todos os dias, sem falta, devemos nos considerar mortos. Existe um ditado dos antigos: ‘Saia de baixo do beiral do telhado, e você é um homem morto. Saia pelo portão e o inimigo está esperando’. Não é questão de ser cuidadoso. É considerar-se morto de antemão."


Alguns meses antes de ler o Hagakure, por acaso estive a investigar um livro assaz interessante (Zen War Stories, Brian Daizen Victoria, Routledge-Curzon, 2003), onde é abordada a profunda relação existente entre algumas doutrinas do zen-budismo e o militarismo japonês. O autor adota um  risível tom de 'denúncia' no tocante à questão, mas o que de facto importa no livro é a descrição, sucinta e informativa, a propósito da peculiar 'ética guerreira' que emerge dos ensinamentos zen-budismo, ethos aliás comum a todas as sociedades 'tradicionais' (empregando aqui o termo 'tradicional' em sua acepção de ‘anti-moderno’):


"Muitos dos soldados na presente guerra estão de tal modo determinados a morrer no campo de batalha, que conduzem seus próprios funerais públicos antes de partir para o front. Isto não comporta nenhum elemento de ridículo para os japoneses. Pelo contrário, é admirado como espírito do verdadeiro samurai, que segue para a batalha sem nenhum pensamento de retornar."


Conforme já tivemos a oportunidade de frisar n’outras ocasiões, tal é, atravessando incólume o manar dos séculos, a atitude do verdadeiro guerreiro, do autêntico kshatriya, homem para quem a guerra é um veículo de realização espiritual; uma esfera à parte, que vai muito além das causas e circunstâncias que condicionam cada conflagração em particular; dimensão cósmica, pois, que se projeta na Eternidade, onde os ‘guerreiros santos’ não podem ser derrotados pelos escravos do ‘Reino da Matéria’, da névoa fátua e efêmera do AGORA, submetidos que estão ao fluxo errático e transitório do Tempo.

Trata-se d’algo que o pragmatismo ocidental, pejado de confiança irrestrita no domínio da técnica sobre a vontade, no primado da superioridade tecnológica em detrimento da força inerente a uma convicção espiritual arcana, jamais logrará compreender. Olvidaram-se, pois, de prestar atenção aos que, lucidamente, e já há muitos lustros, denunciaram a insensata prepotência de tal visão de mundo:


"A energia que de fato molda o mundo emana das emoções - orgulho racial, culto a líderes, crença religiosa, amor à guerra - que os intelectuais liberais descartam como anacronismos e que, em geral, destruíram por completo em si mesmos a ponto de terem perdido todo o poder de ação."

(George Orwell - Wells, Hitler and the World State - 1941)



Cormac McCarthy: um profeta em nosso tempo




Diletos irmãos d'armas:

Após ler e reler o magistral romance The Road, do norte-americano Cormac McCarthy, senti que deveria,  enfatizar a importância que esse livro assume, creio eu, como obra de cunho profundamente cristão.

O enredo é simples, d'uma simplicidade quase franciscana, de maneira que a sinopse apresentada pela editora da versão em português o resume perfeitamente:

Num futuro não muito distante, o planeta encontra-se totalmente devastado. As cidades foram transformadas em ruínas e pó, as florestas se transformaram em cinzas, os céus ficaram turvos com a fuligem e os mares se tornaram estéreis. Os poucos sobreviventes vagam em bandos. Um homem e seu filho não possuem praticamente nada. Apenas uns cobertores puídos, um carrinho de compras com poucos alimentos e um revólver com algumas balas, para se defender de grupos de assassinos. Estão em farrapos e com os rostos cobertos por panos para se proteger da fuligem que preenche o ar e recobre a paisagem. Eles buscam a salvação e tentam fugir do frio, sem saber, no entanto, o que encontrarão no final da viagem. Essa jornada é a única coisa que pode mantê-los unidos, que pode lhes dar um pouco de força para continuar a sobreviver.

Muito bem: nunca antes li qualquer texto (Apocalipse incluso) que me transmitisse, de modo tão intenso e arrebatador, a um só tempo, o lancinante desespero experienciado pelo Homem num 'mundo sem Deus', por lado e, por outro, a presença do Criador como única salvaguarda para a Humanidade.

A obsessão do pai é proteger a vida de seu filho numa apocalíptica 'Waste Land' de ruínas, restos de árvores calcinadas, frio glacial e atmosfera poluída, um cenário de pesadelo também percorrido por luciferinos bandos de assassinos e canibais.

Não obstante, à medida que prosseguimos na leitura, percebemos que não interessa ao pai apenas velar pela sobrevivência física de seu filho, mas também lutar pela integridade de sua alma. E é então que percebemos que a obra  ultrapassa seu escopo meramente ficcional e se converte em veículo para a TRANSCENDÊNCIA.

Podemos, de certo modo, supor que, ao fim e ao cabo, todos os 'sobreviventes' da catástrofe que se abateu sobre o planeta já estão 'mortos', e que, na verdade, são espectros a vagar pelo "Reino crepuscular da Morte", como diria TS Eliot. Não obstante, se mortos estão, ainda não foram julgados...; destarte, The Road revela-se como alegoria sobre a grande tribulação que precede o Juízo. E a grande missão do pai, seu DEVER SAGRADO, é preservar, através da dignidade e inocência inerentes à alma infantil, a própria Palavra de Deus, o sumo sentido de Sua bondade e amor, num mundo onde tudo mais se desintegrou.

Enfim, confrades: recomendo-vos expressamente a leitura desse livro. Trata-se d'uma EPIFANIA.

O autor foi oficial da Força Aérea Norte-Americana, depois graduou-se em Artes e então iniciou carreira como escritor. Tem 74 anos de idade, e consta ser um homem muito recluso. Dele li , além The Road, os romances Blood Meridian, or the Evening Redness in the West; e Cities of the Plain.

Blood Meridian e Cities of the Plain poderiam ser definidos como 'westerns gótico-apocalípticos', apresentando uma visão extremamente sombria, desolada e violenta a propósito da condição humana. Blood Meridian, sobretudo, malgrado seja um livro particularmente brutal e sinistro, tem um cariz metafísico muito intenso, o que me levaria, a esse respeito, a se calhar compará-lo a uma obra como Moby Dick, ou seja, um vasto e ambicioso painel alegórico da revolta do Homem desesperado contra Deus e a Criação.

Em The Road, contudo, penso que há uma transformação emblemática no ethos de McCarthy, que celebra a capacidade do ser humano, apesar de toda a destruição e horror à sua volta, de tornar-se custódio da Palavra de Deus.

Um aspecto a ser destacado é a riqueza estilística do autor, que se serve generosamente de todos os recursos disponíveis em seu idioma. É capaz de elaborar metáforas complexas e surpreendentes e, em muitas passagens, o tom grave, majestoso, solene de sua escrita remete à King James Bible, que talvez seja até hoje o mais belo exemplo de prosa em língua inglesa.

É um escritor de difícil leitura no original, vale frisar ; não obstante, para os que tiverem um bom domínio do idioma inglês, vale à pena encarar o desafio, pois McCarthy é indubitavelmente um mestre em sua arte.





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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros