domingo, abril 13, 2008

Paixão Revolucionária, Mito e Mística

*O artigo que se segue, originalmente publicado neste espaço a 02/07/06, foi objeto d'algumas ligeiras malgrado significativas alterações, de maneira que julgamos por não apenas editá-lo, mas sim republicá-lo.


Alphonse van Worden - 1750 AD







"O mito move o homem na história. Sem um mito a existência do homem não tem nenhum sentido histórico. A história, fazem-na os homens possuídos e iluminados por uma crença superior, por uma esperança sobre-humana; os demais constituem o coro anônimo do drama. A crise da civilização burguesa mostrou-se evidente desde o instante em que esta civilização constatou a carência de um mito.(...)"

"A burguesia já não tem mito algum. Tornou-se incrédula, cética e niilista. O mito liberal renascentista envelheceu demasiadamente. O proletariado tem um mito: a revolução social. Em direção a esse mito move-se com uma fé veemente e ativa. A burguesia nega; o proletariado afirma. A inteligência burguesa entretém-se numa crítica racionalista do método, da teoria e da técnica dos revolucionários. Que incompreensão! A força dos revolucionários não está na sua ciência; está na sua fé, na sua paixão, na sua vontade. E uma força religiosa, mística, espiritual. É a força do Mito. A emoção revolucionária, como afirmei em um artigo sobre Gandhi, é uma emoção religiosa. Os motivos religiosos deslocaram-se do céu para a terra. Não são divinos; são humanos, são sociais."

José Carlos Mariátegui - O Homem e o Mito (1925), publicado originalmente na revista Amauta, e depois na coletânea de ensaios El Alma Matinal.


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Escrevesse nos dias de hoje, o eminente marxista peruano seria obrigado a concluir que hodiernamente também o movimento revolucionário tornou-se carente não apenas de mito, mas também de capacidade de invenção.

O que se vê, pois, na atualidade, é uma esquerda que está ou agrilhoada a concepções mediocremente legalistas e institucionais de ação política, para melhor ocultar sua covarde capitulação à ordem capitalista; ou então uma esquerda pseudo-revolucionária de todo estéril e improfícua, uma vez que se limita a reverberar as estratégias revolucionárias d'outrora, que se bem correspondiam ao contexto em que foram gestadas, hoje já não mais se revelam capazes de responder com eficácia às tarefas do presente.

Trata-se, portanto, d'um cenário sobremaneira ominoso: de um lado, uma 'esquerda' que renunciou por completo à transformação revolucionária da sociedade capitalista, quando muito acenando para mudanças de forma meramente retórica e oportunista; de outro, uma ruína ideológica dos tempos idos, que não apenas matraqueia os estrátegas do passado sem absorver-lhes o que de útil ainda possam ter, mas é também incapaz de compreender o contexto em que vive para assim formular novas estratégias de ação.

A propósito dos setores reformistas não há muito que se possa fazer: baldas são quaisquer expectativas de que voltem a exercer um papel sequer minimamente progressista, haja visto, por exemplo, o resultado de uma governo como a de Lula à testa do Brasil, que se limita a exercer o papel de mero gestor do sistema capitalista, sem a mais mínima preocupação em lançar os alicerces d'um futuro processo de transformação substantiva de nossa sociedade; destarte, tornou-se tão somente, para lançar mão aqui de bela imagem cunhada por Fernando Pessoa, um desprezível "cadáver adiado que procria" os mesmos horrores, ignomínias e malefícios de qualquer outro governo conservador que já tenha assolado nossas plagas. É mister d'uma vez por todas abandonar qualquer expectação no que tange á possibilidade de recuperar tais facções para a ação política revolucionária: à lógica do capital estão e estarão de todo submissas per saecula saeculorum.

Se algum laivo d'esperança inda nos resta, por conseguinte, encontrá-lo-emos nas hostes da esquerda que ainda nutre ambições revolucionárias (para não mencionarmos aqui a vastíssima galáxia da 'revolução conservadora', que ulteriormente será objeto d'outro artigo), pois esta ainda cultiva o necessário e feraz mito da transformação social: ainda que decerto árdua, há, de facto, em relação a tais elementos, uma empreitada passível de realização e, quero crer, pleno êxito.

Em primeiro lugar, é necessário à esquerda que ainda acalenta alguma pretensão transformativa d'uma vez por todas assimilar a lição ministrada há já tantos lustros por autores como Mariátegui, Sorel e Peguy: a 'revolução social' não é um fenômeno que se possa interpretar mediante uma analítica científica, já que não pode ser compreendido à luz dos pressupostos epistemológicos e metodológicos da razão lógico-demonstrativa; ao contrário, afigura-se muito mais como fenômeno de cunho mítico-religioso, impermeável a abordagens racionalistas. Há portanto que reconhecer a natureza essencialmente messiânica e mítica da Revolução, a dimensão mística, irracional, imprevisível e emocional presente intrinsecamente em todo processo revolucionário. A dimensão simbólico-messiânica é o alicerce em que se assenta o eixo do fenômeno político, que nada mais que uma versão laica do processo religioso. A ação revolucionária é, pois, Mito e Mística, é fome do Absoluto, mergulho nos báratros da imponderabilidade, salto temerário na escuridão inefável. Não há como negar, por exemplo, que o islâ militante desempenha hoje um papel revolucionário muito mais relevante que as modalidades tradicionais contempladas pelo pensamento marxista. A tipologia categorial estreita do marxismo não consegue, pois, compreender que um Osamah Bin Laden possa ser, como de fato o é, ao mesmo tempo um warlord medieval e um líder revolucionário contemporâneo, ou seja,uma figura onde o 'arcaico' e 'novo' estão entrelaçados de forma indissolúvel; o que vai ao encontro, vale dizer, do que um gênio profético da estatura de Glauber Rocha asseverava já há alguns lustros:


"Na medida em que a desrazão planeja a revolução, a razão planeja a repressão".

"A revolução é a anti-razão que comunica as tensões e rebeliões do mais irracional de todos os fenômenos que é a pobreza".

"A revolução, como possessão do homem que lança sua vida rumo a uma idéia, é o mais alto astral do misticismo".

"As revoluções se fazem na imprevisibilidade da prática histórica que é a cabala do encontro das forças irracionais das massas pobres".

"A revolução é uma mágica porque é o imprevisto dentro da razão dominadora".

Eztetyka do Sonho
(1971)


À primeira lide, portanto, corresponde a um processo de radical reformulação de sáfaros preconceitos adrede esposados, ao abandono de panoramas d'ação e de pensamento inadequados à conjuntura presente; é sem sombra de dúvidas uma empresa complexa, uma vez que abdicar de certos hábitos e reflexos condicionados é algo que não raro resulta num doloroso processo de autotransformação psicológica; todavia, a segunda tarefa que se apresenta à esquerda revolucionária tradicional é ainda mais fragosa e intrincada.

Salientei acima o imperativo premente que representa para a esquerda contemporânea apreender corretamente os ensinamentos de Mariátegui; contudo, tão somente absorvê-los sem ulterior reelaboração não é de forma alguma suficiente: há que ir além deles, pois não basta reconhecer que Política é também Mito e Mística, mas sobretudo constatar que fora dos horizontes do Mito não há mais qualquer possibilidade revolucionária. E para tanto, é forçoso compreender as metamorfoses estruturais, tanto econômicas quanto políticas, do capitalismo nos últimos 100 anos.

A Revolução de Outubro, mito central do paradigma revolucionário no século passado, ocorreu num contexto histórico em que a indústria ocupava a centralidade da atividade econômica capitalista; assim sendo, como de sobejo o admitem até mesmo marxistas heterodoxos como Mariátegui, coube ao proletariado, protagonismo no supracitado processo, situação que teria se repetido, decerto de forma ainda mais cabal caso uma revolução comunista houvesse eclodido na Alemanha ou em Inglaterra, por exemplo. Não menos patente, todavia, é o facto de que o movimento operário veio perdendo força, substância e representatividade ao longo do século XX em função das metamorfoses estruturais do sistema produtor de mercadorias, cuja capacidade de explorar trabalho atrofia-se paulatinamente sobretudo a partir das décadas de 60-70; nas outrora afluentes sociedades capitalistas da Europa Ocidental, da Ásia e da América do Norte, pois, verifica-se mais e mais a presença de um desemprego que não é mais meramente conjuntural, mas estrutural, fenômeno que sobrecarrega em escala crescente os sistemas previdenciários e coloca em xeque um welfare state construído por um século de lutas sindicais. Ainda que em menor escala e velocidade, vale dizer, o mesmo fenômeno vem ocorrendo no âmbito das economias periféricas.

A dinâmica constante que levou ao desenvolvimento da microeletrônica, da automação dos processos produtivos e da computação desencadeou, portanto, uma série de transformações de suma importância no âmbito das estruturas dinâmicas do capitalismo: o eixo de sustentação do sistema deslocou-se radical, e quiçá definitivamente, do setor secundário para o terciário, da economia 'real' para a 'virtual' . Desta maneira, com a expansão acelerada do setor terciário no bojo da revolução informática, e agora no bojo dos primeiros e sombrios sinais de esgotamento desta 'terceira onda capitalista', emergem como sujeitos históricos privilegiados as legiões de excluídos por este processo, isto é, um 'neolumpesinato' que, ao contrário do lumpenproletariat tradicional, é formado não raro por indivíduos qualificados, mas que não mais conseguem viabilizar-se economicamente no seio de uma entropia crescente das atividades econômicas produtivas. Utilizo aqui o termo 'neolumpesinato' com o fito de sublinhar dois pontos que me parecem cruciais: em primeiro lugar, o facto de que os assalariados do setor terciário não possuem a consciência de classe e a coesão organizativa que o proletariado industrial revelou em seus momentos mais gloriosos, dos quais, claro está, a revolução soviética é o mais eloqüente exemplo; e, em segundo lugar, tendo em mente a legião de excluídos desencadeada pela progressiva 'fadiga' do setor terciário em sua capacidade de agregar nova mão-de-obra. Tal desgaste, aliás, revela como os ciclos de crescimento real de atividade econômica no âmbito do sistema produtor de mercadorias são cada vez mais breves; é facto, por exemplo, que não se geram novos postos de trabalho na UE há pelo menos 20 anos. Assim sendo, vislumbro um 'neolumpesinato' formado, por lado, pelos assalariados do setor terciário e, por outro, pelos excluídos em virtude da precoce decrepitude demonstrada pelo supracitado boom.

Não obstante, o facto de este neolumpesinato estar muito mais aparelhado para compreender o mundo em que vive do que seu correlato passado é, diga-se de passagem, assaz alvissareiro, em termos de esperanças para uma futura mobilização revolucionária.

Estamos sob a égide, conforme já assinalei outras vezes, d'uma verdadeira paralaxe estrutural, que desloca o eixo do processo econômico de forma irreversível da esfera produtiva para a twilight zone do setor terciário, bem como para a esfera puramente especulativa. A atividade industrial perde sua centralidade como locus privilegiado de onde o sistema extrai os recursos para sua auto-reprodução ampliada e, outrossim, o proletariado industrial perde sua centralidade como sujeito privilegiado dos processos revolucionários de superação do sistema produtor de mercadorias; doravante, tal papel estará a cargo de um nebuloso, cambiante e metamórfico neolumpesinato mais ou menos 'especializado', um lumpenproletariat pós-moderno atomizado/gerado pela implosão do setor terciário na atual conjuntura do sistema produtor de mercadorias que é hoje a verdadeira classe revolucionária. O sujeito revolucionário hodierno identifica-se, por conseguinte, com as legiões de excluídos pelo virtual achatamento do setor secundário e pelo esgotamento progressivo da capacidade de absorção do setor terciário, ou seja, o supracitado neolumpesinato gerado pelas metamorfoses do sistema produtor de mercadorias nas últimas décadas.

E eis então que aqui chegamos ao cerne da questão que nos ocupa, ou seja, a natureza dos processos revolucionários no mundo contemporâneo. O que afinal poderá mobilizar o 'neolumpesinato' a superar o estado d'apatia em que se encontra para enveredar pelas sibilinas sendas da transformação revolucionária? Creio firmemente que a clave puramente 'política' não mais poderá servir como força motriz capaz de desencadear qualquer processo revolucionário duradouro no imo do contexto hodierno do Capitalismo; não mais acredito, dessa maneira, na possibilidade da organização política de classe como veículo para a superação dialética do sistema produtor de mercadorias, mas tão somente na emergência de teologias messiânicas da ação revolucionária, que encaro como a única possibilidade de provocar um curto-circuito na própria razão dominadora do Capital, giroscópio conceitual em que se assenta todo o seu edifício. Hoje, mais do que nunca, a instância determinante em última instância não é mais a infraestrutura material, mas sim a superestrutura ideológica; há, pois, uma relação de superveniência desta em relação àquela. O assalto derradeiro e definitivo à ordem estabelecida se dará pela mente, pelo espírito, não pela matéria, pela concretude. O resultado? Imprevisível, um precipitar-se no escuro, um mergulho abissal no oceano ignoto do porvir, como de resto o é e sempre será qualquer transformação revolucionária. Não obstante, os perigos do abismo podem ao menos ser mais estimulantes que a letargia da planície!

terça-feira, abril 08, 2008

Sapientia Universalis III

Alphonse van Worden - 1750 AD
























"Comme les heritiers veritables de Heraclites, les NB aporteront le FEU sur la terre, et leur Cause irrationelle humiliera la sagesse de ce monde, de la societe ouverte de ces etres qui ne sentent aucune nostalgie des Origines, aucune douleur existencielle d'etre separe de l'Etre Pur, aucun soif de l'initiation et de la realisation spirituelle.

Au dela de la gauche et de la droite, la Revolution une et indivisible dans la trinite impossible qui uni dialectiquement Troisieme Rome, Troisieme Reich et Troisieme International.

Regnum des NB, leur Empire de la Fin s'est la realisation parfaite de la plus grande Revolution, continentale et universelle. C'est le retour des Anges, la ressurection des Heros, la revolte du Coeur contre la dictature de la Raison.

Cette DERNIERE REVOLUTION est affaire de l'Acephal, de l'Acephal porteur de la Croix, du Faucil et du Marteau, couronne par la Svastica Eternelle."

Aleksandr Dugin - La métaphysique du National-Bolchevisme (1997)




terça-feira, abril 01, 2008

Breve nota sobre o conceito de 'GUERRA TOTAL'

Alphonse van Worden - 1750 AD







- Na modalidade de confronto armado que corresponde à GUERRA TOTAL, vige tão somente a dinâmica 'amigo / inimigo' tal como concebida por Carl Schmitt, excluindo quaisquer considerações de ordem moral, normativa ou filosófica; bem como o que Ernst Jünger denominou de ‘mobilização total’ (totale Mobilmachung) da sociedade industrial em prol de um estado de guerra permanente.

- Assim sendo, o que é lícito fazer com o 'inimigo' não aceitamos que se faça com o 'amigo', e vice-versa. Não há justiça, nem tampouco qualquer senso de proporção ou cálculo frio numa GUERRA TOTAL, mas apenas matar ou morrer.

- É mister retirar, destarte, todos os véus da hipocrisia e da 'boa consciência', a fim de reduzirmos analiticamente o fenômeno da GUERRA TOTAL à sua essência mais primeva, atávica e definitiva: matar ou morrer.

- No âmbito da GUERRA TOTAL não há, pois, procedimentos mais ou menos 'hediondos', circunstâncias mais ou menos 'civilizadas', pois tal conflagração visa à destruição do inimigo, tanto de seu capital humano quanto de sua infra-estrutura material. Mais: visa o aniquilamento do próprio substrato simbólico e espiritual que informa a civilização inimiga, de modo que no terror indiscriminado e absoluto não apenas contra a população civil, mas também contra monumentos históricos e tesouros artísticos, radica não um jaez aleatório, circunstancial, 'colateral' da GUERRA TOTAL, mas sim seu móvel mais precípuo e transcendental, sua própria mefistofélica raison d'être, enfim; destarte, massacres como Lidice, Mi Lai, Wiriamu, Sabrah e Chatillah, Katim, Fossas Ardeatinas, Gueto de Varsóvia, etc, etc, etc.; ou então bombardeios contra alvos mormente não-militares como Dresden, Hiroshima, Coventry, etc, etc, etc., não são 'danos colaterais' ou 'erros lamentáveis', mas o próprio alpha e omega da GUERRA TOTAL, expressão manifesta de seu ethos mais consumado.

- Portanto, não há como eludir a brutalidade inaudita e escalfúrnia da GUERRA TOTAL, restando tão somente duas atitudes: negar-se terminantemente a envolver-se em conflagrações armadas, seja direta ou indiretamente; ou então tomar partido de um dois lados e advogar sua vitória, custe o que custar.

- Obviamente há conflagrações menores, motivadas por questões parciais, como a conquista de uma passagem para o mar, ou a abertura comercial de uma determinada região; não obstante, quando falamos de uma GUERRA TOTAL com pleno engajamento ideológico e material de toda uma sociedade, o móvel supremo é sim aniquilar o inimigo, destruindo-lhe por completo suas bases de sustentação em todos os planos da existência.

- Nos últimos 100 anos esse tipo de conflito ocorreu de modo particularmente emblemático nos Balcãs (no início e no fim do século); na invasão da URSS pela Wehrmacht ; e na guerra que até hoje segue dilacerando a Palestina.

- Assim são, por conseguinte, as GUERRAS TOTAIS, a mobilizar todos os músculos, cérebros, nervos e almas de uma noção. Tais conflagrações não contemplam qualquer tipo de prurido moral ou consideração de ordem ética. Acreditamos, vale dizer, que a jihad antiimperialista palestina envolve precisamente um conflito dessa natureza.

As mais belas mortes - VI

Isidore Lucien Ducasse, dito Comte de Lautréamont (1846-1870)





O egrégio vate gaulês Isidore Lucien Ducasse (1846-1870), dito Comte de Lautréamont, é sem dúvida credor de menção em nosso donairoso sítio; vale dizer que de sua brevíssima existência pouquíssimo sabe-se de concreto: há ciência de que veio ao mundo na deleitável cidade de Montevidéu, filho de um funcionário da representação consular francesa na capital cisplatina; consta também que a família retornou à pátria natal quando nosso rapazote tinha 10 anos, de modo a inscrevê-lo num renomado lycée parisiense. A partir deste episódio, contudo, os factos da vida de Lautreámont esfumam-se nas sibilinas evanescências do impreciso. Há quem diga, por exemplo, que teria tomado parte como communard nos eventos de 1870, mas desta presuntiva efeméride não há registo conclusivo.

Pois muito bem: por que cargas d´água estamos aqui a falar de Lautréamont? De certeza sua obra-capital, o volume de prosa lírica Les Chants du Maldoror, impertérrita celebração mefistofélica da crueldade infrene em todas as suas latitudes, reserva flamejantes páginas ao culto ominoso da 'indesejada das gentes'; isto, todavia, não bastaria para reservar ao luciferino bardo um nicho entre os mais belos passamentos, uma vez que outros excelsos entusiastas da morte foram ‘galardoados’ (se me permitis uma inocente ironia) com trespasses no mais das vezes sobremaneira prosaicos; o que há, pois, de notável na decedura de Lautréamont é que NADA de exacto, à exceção do ano em que se deu, sabe-se a seu respeito, sendo todas as considerações a propósito tão somente vagas especulações sem esteio documental ou factual taxativo... destarte convenhamos, áticos confrades: que exício poderia ser mais esteticamente adequado para alguém como o espectral Lautréamont?



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Thomas Mann (1875-1955)





Há de ser quiçá uma lenda sem grande respaldo histórico, mas de modo algum poderíamos nos furtar a relatar a excêntrica circunstância em que se teria dado o passamento do ático escritor alemão Thomas Mann (1875-1955).

No último lustro de sua vida, já retirado à vila de Kilchberg ( ao pé de Zurique - Suiça), consta que este luminar das letras teutônicas teria em sonhos recebido a informação de que morreria num dado dia 11, sem indicação de mês ou ano; assim sendo, a cada dia 11, Mann recolhia-se na mais absoluta e contrita imobilidade, esperando as 12 badaladas do dia seguinte para enfim adormecer tranquilo; na virada de 11 para 12 de agosto de 1955, após cumprir mais uma tormentosa e afadigante vigília, Mann dirigiu-se a seus aposentos aliviado ao ver mais vez adiado o inefável encontro marcado com a 'indesejada das gentes'; todavia, ao observar casualmente um relógio no segundo andar, constatou, para sua imensa aflição, que este ainda assinalava as 23 horas do dia 11; angustiado, consultou uma empregada a propósito da discrepância de horários e, ao constatar que de facto ainda estava no aziagamente pressago décimo-primeiro dia, viu-se assaltado por tamanho pavor e consternação que terminou por falecer vítima duma síncope fulminante.



Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros