sábado, dezembro 31, 2005

Epistolário Transfinito I (excertos...)

Alphonse van Worden - 1750 AD


























(...) e outrossim n’este ano que ora finda, ó ático confrade Drogo, o supino Senescal da Guerra Cósmica ínclitas vitórias amiúde facultou-nos; não obstante, os do escalfúrnio SATÃ nefários desígnios jamais mitigam-se; e justo nos criselefantinos páramos da excelsa Pérsia, onde as insignes hostes do Arcano Celestino seu mais fádico triunfo consubstanciaram, tenciona a fera Besta concentrar suas ignominiosas lides. Baldos serão, contudo, os infandos tentâmenes do das Trevas contumelioso Mestre: à de Arum sempiterna sombra impávidos estaremos, sob a mirífica égide do CHRISTUS PANTOCRATOR e de علي بن أبي طالب - que tudo veem sem vistos serem -, para da sacral Ecclesia e da pia Ummah o pertinaz e férreo arnês sermos, uma vez mais a matar e a morrer resignados!


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(...) como bem sabeis, ó egrégio irmão van Worden, à fantasmática penumbra dos deíficos contrafortes do Bastiani, solazes velam e perseveram as tartáricas legiões, sob os rutilantes auspícios do inefável Sustentador de Mundos; e ao mais evanescente sinal de Seu divo talante, indômitos marcharemos, pois nada mais ao sacro armígero logra aprazer que o joliz engajamento no hierático mavorte do Senhor!

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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Dark Magus Übber Alles! - I




A meu juízo Agharta (1975) representa não apenas o ápice, a consumação estética da chamada 'fase elétrica' de Miles Davis, mas também de sua obra como um todo, sendo ainda um dos 10 melhores discos da história do Jazz. Para compreendê-lo, todavia, é mister recuar alguns anos em relação à data de seu lançamento, mais precisamente até 1969, ante-sala do mesmerizante turbilhão artístico com que o 'Dark Magus' aturdiria/maravilharia o mundo da música durante sete anos (Devo salientar que a trajetória de Miles até esse período, a despeito de sua enorme importância, não me interessa nem um pouco).

A década de 60 presenciava um Miles Davis caminhando perigosamente em direção à obsolescência artística. As circunvoluções do bebop e do cool jazz haviam ficado para trás, e Miles rejeitara enfaticamente a revolução free capitaneada por Ornette Coleman e Albert Ayler, não tanto por conservadorismo estético, pecado de que não se pode acusar-lhe, mas quiçá por vaidade; afinal de contas, não fora ele a lançá-la, o que para seu ego ciclópico já era razão mais do que suficiente para recusar-lhe qualquer mérito...; não obstante, hoje sabemos que o irrequieto trompetista, insatisfeito com os contornos que sua carreira vinha assumindo, estava urdindo em silêncio sua própria revolução: a fusão supersônica entre jazz, acid rock, música contemporânea e funk, cujo prelúdio, ainda que timidamente, viria à luz em 1968 com In a Silent Way. O marco fundamental, não obstante, estava reservado para o próximo ano...

Emoldurado por uma capa lisérgica, com seus longos temas, ora climáticos ora frenéticos, conduzidos por Miles com seu trompete guindado aos confins do espaço sideral pelos alucinantes cut ups e assombrosos efeitos de echo e delay criados pela arrojada produção de Teo Macero, Bitches Brew (1969) teve o efeito de uma bomba nuclear sobre o universo jazzístico, deixando a crítica a um só tempo perplexa, indignada e embevecida; não bastasse o impacto estético, converter-se-ia desde o princípio em grande sucesso de vendas, proporcionando a Miles margem de manobra para continuar experimentando bem como o pretexto ideal para uma série de injustas e patéticas acusações de sell out. Felizmente alheio a tais injunções, o mestre aprofundaria/ampliaria nos anos seguintes os postulados de sua 'revolução elétrica', lançando uma série contínua de discos memoráveis, tanto de estúdio como ao vivo, d'entre os quais poderíamos destacar A Tribute to Jack Johnson (1970 - seu disco mais rock'n'roll); Live-Evil (1970); Black Beauty: Miles Davis at Fillmore West (1971); On the Corner (1972 - algo como Stockhausen on acid trocando figurinhas com Hendrix em clima de street funk cibernético em NY); In Concert: Live at Philharmonic Hall (1973), etc., até chegar ao zênite de seus poderes como magnetizador do fogo dos deuses no biênio 1974-75, cujo primeiro fruto seria o mefistofélico Dark Magus (1974); não obstante, 1975 testemunharia um Miles ainda mais avassalador e implacável, com o lançamento de 2 massacres sonoros gravados num mesmo dia ao vivo em Osaka, no Japão: Pangaea (que registra o concerto da noite, uma pajelança bárbara from Jupiter and beyond the Infinite) e, claro está, o álbum em tela neste pedaço d'escrita (que documenta o concerto da tarde).

Agharta é um estraçalhante maremoto magmático de eletricidade demencial em estado bruto conjurado por guitarras e metais em fúria, uma ominosa floresta equatorial de percussões tonitruantes e o Senhor das Trevas comandando o artaudiano ritual de destruição com as imprecações apocalípticas de seu luciferino trompete conectado ao vácuo turbilhonante do inner void of the sonic neverness; apelando aqui para o gênio crítico de Julian Cope, trata-se d'uma verdadeira "blueprint for 3rd Eye Travel" via lancinante "sustained sonic obliteration". A esta altura do campeonato Miles já não compunha 'canções' propriamente ditas, mas sim dava livre curso a uma desenfreada improvisação coletiva a partir de alguns poucos temas preestabelecidos, os quais não raro só eram nomeados a posteriori. É exatamente o caso de Prelude (Parts I e II) e Interlude, minhas peças prediletas no álbum, dois incomparáveis cataclismos de deep funk fusion schizo electric meditational voodoo jazz from Hell em combustão espontânea despejando raios e trovões para todos os lados ou, como diria Cope, " the sound of all seven CDs from the Stooges' Funhouse boxed set played simultaneously throughout the house on small inferior ghetto blasters". Ladeando estas sulfúricas emanações de garage hermétique transmental, Miles ainda nos oferece magníficas versões para Maiysha (onde temos os únicos e breves interlúdios de suavidade em todo o álbum) e Theme from Jack Johnson (ainda mais malévola, rock'n'rollin, lúbrica e venenosa que sua irmã de estúdio)

Insomma, confrades: uma obra-prima indispensável para todos os amantes da aventura musical sem fronteiras e limites.






Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Apontamentos sobre o pensamento político marxista – I: a próposito de Nikolay Bukharin

Alphonse van Worden - 1750 AD





Estive a ler nas últimas semanas, ó egrégios irmãos d'armas, um tomo dos mais interessantes: trata-se de uma compilação de artigos e ensaios do iminente prócer bolchevique e teórico marxista Nikolay Bukharin (1888-1938), organizada pelo renomado historiador soviético Roy Medvedev (autor, d’entre outras obras, do monumental Let History Judge, até hoje o melhor livro já escrito sobre a barbárie stalinista). O volume reúne textos publicados originalmente entre 1918 e 1936, em sua maioria nos diários Pravda e Izvestiia. Há, decerto, algumas peças menos inspiradas, até mesmo revoltantes, sobretudo no biênio 1927-28, ápice do duunvirato Stalin-Bukharin, com especial demérito para a cínica condenação da ‘Plataforma dos 46’ e a obscena celebração pelo expurgo da ‘Oposição de Esquerda’; todavia, o número e qualidade dos momentos luminosos compensa de sobejo os supracitados deslizes, nomeadamente os magníficos artigos escritos entre 1929-1936, vazados na críptica, epigramática e fascinante linguagem ‘esópica’, estratégia diversionária muito característica na imprensa soviética submetida ao tacão stalinista, d’entre os quais se destacam os célebres Notas de um Economista (1930), seu ‘testamento’ em matéria de pensamento econômico, e o belíssimo Caminhos da História: Pensamentos em Voz Alta (1936), um pungente testamento político e existencial.

O que, entretanto, tenciono discutir na presente nota são dois temas constantes no pensar de Bukharin, e que me parecem particularmente relevantes à luz dos sinistros desdobramentos ulteriores da verdadeira tragédia de Ésquilo em que se converteu a Revolução Soviética. A primeira questão, alvo de numerosos textos do líder bolchevique entre 1918-1922, é a terrível suspeita de que a necessária violência revolucionária estava servindo como pretexto para que um sem-número de sociopatas e criminosos aderissem à insurreição de Outubro, com o fito de dar livre curso a vendettas pessoais, ressentimentos homicidas e toda sorte de arbitrariedades e taras truculentas. Consternado com tais eventos, Bukharin advertia para a necessidade do Partido Bolvechique, de um lado, e do Estado soviético, de outro, exercerem o máximo de cuidado e rigor na filiação de novos militantes e na arregimentação de novos funcionários. É mister recordarmos, vale dizer, que Lenin também externou em seus últimos artigos as mesmas preocupações de Bukharin, advertindo repetidamente para o facto de que o Partido precisava exercer a mais estrita disciplina e vigilância no tocante à admissão de novos membros; aliás, o saudoso Ulianov concluiu, no último lustro de sua existência, que a nomeação de Stalin para o cargo de Secretário-Geral havia sido um erro, pressentindo que o líder georgiano abriria as portas do Partido num afluxo indiscriminado de novas filiações, com o fito de fortalecer seu poder no aparato; não obstante, mais do que qualquer outro bolchevique ilustre, Bukharin deplorava a permanência de tendências chivovnik de cunho ‘asiático-imperial’ no seio do Partido e da administração soviética, sublinhando a necessidade vital de cada indivíduo a serviço da Revolução desempenhar suas lides de forma ponderada e sensível, promovendo a fraternidade socialista e a emulação dos bons exemplos. Para Bukharin, uma interface solidária e confiável entre o novo Estado proletário e o povo seria quiçá o instrumento mais importante do Partido no sentido de aprofundar e consubstanciar as conquistas soviéticas. A nefária ‘Revolução pelo Alto’ promovida pela camarilha stalinista, macabro ritual de inaudita violência institucional contra o povo em máximo grau de selvageria e crueldade, arrojou por terra as preciosas lições ministradas por Bukharin, que, aliás, também foram encampadas por Lênin em seus últimos anos de vida.

A segunda temática, de certa maneira correlata a primeira e de caráter ainda mais axial, diz respeito à ‘Paz Civil’ advogada por Bukharin como viga mestra nos procedimentos do Estado soviético pós-guerra civil. De acordo com insigne bolchevique, superadas a ameaça da contra-revolução e as convulsões econômicas do ‘Comunismo de Guerra’, o Estado e o Partido deveriam adotar procedimentos, tanto administrativos quanto político-ideológicos / persuasivos, de jaez decididamente pacífico, estimulando a colaboração e o entendimento entre os diversos setores da sociedade soviética. Em termos econômicos, tal iniciativa se manifestaria na smychka campo-cidade, estabelecendo que o compasso de crescimento da atividade industrial deveria ser ditado em simetria perfeita com o fortalecimento do setor agrícola, salientando a importância da sinergia gerencial como linha de fuga essencial em termos de política econômica; no que concerne à questão social, a ‘Paz Civil’ se traduz como ênfase numa política de tolerância e serenidade, isto é, de cooperação solidária entre o Estado e a sociedade no esforço conjunto de implementação harmoniosa da ordem socialista; na esfera cultural, enfim, tais preceitos se formulam como estímulo à diversidade fecundante e criativa de escolas e expressões artísticas, elemento crucial para o aprimoramento intelectual do próprio socialismo. Mais uma vez, contudo, o advento da era stalinista abortaria os ideais acalentados por Bukharin: com a adoção da malévola teoria segundo a qual a luta de classes se intensifica com a consolidação do socialismo, a URSS mergulhou num frenesi maníaco de violência irracional que destruiu os ainda frágeis alicerces da nova ordem.

À luz das concepções acima esboçadas torna-se possível, quero crer, uma melhor compreensão do confronto ideológico entre a 'direita' bukharinista, de um lado, e a 'esquerda' trotskista, de outro, que convulsionou e fraturou o poder soviético nos anos 20. Houve, pois, uma ominosa 'dissonância cognitiva' de parte a parte: Bukharin, por um lado, hiperdimensionou a ênfase que o programa econômico da esquerda conferia ao ritmo da industrialização soviética, nele identificando um caráter artificialmente otimista e exagerado. Bukharin acreditava na possibilidade de construção do 'Socialismo num só país', mas nos termos gradualistas da smycha campo-cidade, e não sob o ditame alucinante do super-industrialismo 'stakhanovista' à la Kuybishev-Stalin, o qual equivocadamente associou à plataforma da esquerda, superestimando as semelhanças pontuais que existiam entre o programa econômico de Trotsky-Preobhazensky (sobretudo no que tange ao conceito de 'Acumulação Primitiva Socialista') e as teses super-industrialistas da facção stalinista. O 'predileto de todo o Partido' cria, por conseguinte, que Preobrazhensky e Trotsky pretendiam esmagar os mercados camponeses, promovendo uma industrialização às expensas do setor agrícola; a facção staliana, por sua vez, habilmente ocultou seus intentos ulteriores, sustentando por questões de aliança estratégica de momento as posições bukharinistas. Preobhazensky e Trotsky, por fim, hipertrofiaram o significado da moderação bukharinista em termos de projeto econômico, ignorando o facto de que a distinção entre as idéias de ambos os grupos era de grau, e não de gênero; ao mesmo tempo, não atentaram devidamente para as concepções políticas de Bukharin, que defendia com veemência, assim como a Esquerda, a democracia partidária, advogando a necessidade de ampla liberdade de discussão interna.

Há também que salientar, por fim, que Bukharin entusiasmou-se em demasia com sua concepção da smychka campo-cidade como via preferencial para um crescimento econômico sólido e auto-sustentável, bem como para a edificação de uma sociedade pacífica e harmoniosa. O excelso teórico bolchevique parecia acalentar uma visão de cunho 'organicista-naturalista', isto é, que o processo de construção do socialismo seria quase um epifenômeno automático, desta maneira hiperdimensionando o potencial da via gradualista de desenvolvimento. Para Bukharin, a economia camponesa paulatinamente evoluiria para a coletivização por intermédio de três vias: a) a industrialização progressiva possibilitaria a mecanização dos processos agrícolas; b) a introdução pelo Estado de intrumentos e práticas de gestão econômica mais modernas e racionais; e, finalmente, c) a introdução de novas técnicas via incentivo à pesquisa científica. Desafortunadamente, contudo, tal concepção da sociedade soviética, quiçá excessivamente gradualista, logo seria atropelada com uma crueldade sem quartel pelo delírio economicista do stalinismo.