domingo, dezembro 31, 2006

Epistolário Transfinito II (excertos...)

Alphonse van Worden - 1750 AD

















(...) hoje se encerra, ó prestante consenhor Drogo, epopéico annus mirabilis, que de infindas glórias os supinos armipotentes do Senhor cumulou! Nas donairosas colinas da aprazível Nação dos Cedros, mais um ingente triunfo obtiveram as precolendas legiões do Partido de Deus, ao passo que as do obnóxio Sion metuendas hostes, do oprobioso revés o vituperioso pó morderam; sob os auspícios da ínclita Persépolis, os excelsos guardiões do propugnáculo da refulgente fé de Shiat Ali, inamovíveis perseveraram na sempiterna alfétena contra as pertinazes endrôminas do soez SATÃ; por fim, nos ígneos páramos de Armaggedom, as horrípilas legiões da ínvia Besta sucumbem à megascópica coragem dos armígeros do deífico Sustentador de Mundos; destarte, ó insigne irmão d'armas, sob o rutilante fanal do CHRISTUS PANTOCRATOR e de علي بن أبي طالب - que tudo veem sem vistos serem -, viridente botaréu do Concento Universal fomos, somos e seremos, sempre a matar e a morrer resignados!

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(...) à diáfana luminescência dos fosfóricos arcobotantes do Bastiani, ó conspícuo mavorte van Worden, altaneira praça que per saecula saeculorum guardamos, até a de todos os tempos inexorável consumação, sob a égide do inaudito Senescal da Guerra Cósmica, ledos estivemos, estamos e estaremos; outrossim, augusto confrade, a famígera cavalleria tartárica, sempre a postos para as sacratíssimas lides do Celestino Prélio, jactante aguarda o divo chamamento do venerando Senhor de todas as Batalhas!


Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Apontamentos sobre o pensamento político católico I - a propósito de Gilbert Keith Chesterton e Hilaire Belloc

Alphonse van Worden - 1750 AD





























Tendo em vista o ominoso, malgrado inelutável, facto de que o vasto experimento político-econômico do socialismo fracassou rotundamente, gestando sociedades que em tudo vão de encontro ao ideário proposto à partida por Marx e Engels, bem como às metas advogadas pelas famígeras jornadas d’Outubro; bem como a também insofismável constatação de que o capitalismo liberal, hoje infrene a reinar por todos os quadrantes da Terra, é um sistema autofágico, a predar progressiva e continuamente suas próprias bases de sustentação estrutural, torna-se imperativa a necessidade de encontrarmos uma opção viável, ou seja, um modelo de organização capaz de, a um só tempo, promover justiça social e crescimento econômico, conciliando assim as principais linhas de fuga dos sistemas socialista e do capitalista.

Enfaticamente refratária tanto às assimetrias inerentes ao capitalismo quanto à hipertrofia estatal do socialismo, a doutrina social da Igreja tornar-se-ia fonte de inspiração, mormente através da célebre encíclica Rerum Novarum (Leão XIII - 1891), de uma das mais profícuas tentativas de estabelecer uma alternativa sólida ao dilema em tela: o ‘distributivismo’ (distributism), propugnado, sobretudo, pelos insignes escritores católicos Gilbert Keith Chesterton (1874 -1936) e Joseph Hilaire Pierre René Belloc (1870 - 1953), ambos britânicos, em volumes como What's Wrong with the World (Chesterton - 1910); The Servile State (Belloc - 1913); The Uses of Diversity (Chesterton - 1921); An Essay on The Restoration of Property (Belloc - 1936).

Em que consistiria, pois, o distributivismo? Basicamente no que já está embutido em seu nome, vale dizer, na máxima distribuição possível da propriedade por todos os homens; preconiza, destarte, que os meios de produção devem pertencer ao maior número de indivíduos possível, e não permanecer sob o controle d'uma minoria proprietária (tal como no capitalismo), ou então sob a égide de um estamento gerencial (conforme ocorre no socialismo).

A perspectiva distributivista alega que, no regime capitalista, a propriedade produtiva é, ao fim e ao cabo, apanágio de uma camada minoritária de cidadãos, que acabam por deter uma influência sobre o conjunto da sociedade muito maior do que o que seria de bom alvitre; e malgrado todos tenham, sob o ponto de vista do formalismo jurídico-institucional, direito à propriedade privada, na prática isto acaba por ser prerrogativa quase exclusiva de uma pequena minoria ou, tal como assevera célebre observação de Chesterton, "too much capitalism does not mean too many capitalists, but too few capitalists" (The Uses of Diversity); por outro lado, há no âmbito socialista a promessa, de jaez igualmente formal, de um regime coletivo de propriedade, onde todos teriam acesso, consoante sua necessidade, aos frutos do trabalho social; todavia, o que na prática se verifica é a concentração progressiva de todos os ativos econômicos nas mãos do Estado, com o poder real delegado a uma reduzida camada de planejadores e administradores. O pensamento distributivista acredita, portanto, que a atomização das diversas instâncias de propriedade produtiva entre os componentes da comunidade irá garantir um acesso mais equânime aos benefícios oriundos do trabalho; conclui-se, ainda, que quanto maior for a capilarização dos ativos econômicos, maior será não apenas a justiça social, mas também o incentivo para que todos se dediquem de bom grado às atividades produtivas, já que a comunidade perceberá de forma direta e inequívoca os maneios do trabalho.

Buscando um paradigma histórico para o estabelecimento d’uma sociedade genuinamente distributivista no mundo hodierno, Chesterton e Belloc remontam à Idade Média: em sua encomiástica concepção da civilização católica, defendem, com efeito, uma filosofia da História que celebra a Idade Média pela abolição da escravatura; pela ampla difusão da propriedade através do povo; por um significativo grau de liberdade individual; e também pelo florescimento do ensino, das artes, da filosofia e da literatura, que fez a Europa emergir do caos desencadeado pela queda do Império Romano do Ocidente; assim sendo, ambos se debruçam sobre a história do período, de modo a identificar seus traços mais emblemáticos; e uma das características a que nossos autores atribuem grande destaque é o facto de que as guildas (corporações de ofício) não raro limitavam a quantidade de propriedade de que cada um podia dispor (por exemplo, limitando o número de empregados), justamente com o fito de evitar a possibilidade de crescimento exagerado de um determinado empreendimento particular, em detrimento dos demais, que poderiam ir à garra. Tal como Aristóteles e o Doutor de Aquino assinalam, se a propriedade privada tem algum objetivo, este é o de assegurar que cada homem e sua família possam levar uma vida digna, servindo à sociedade com os frutos de seu labor; deste modo, se os negócios d’um indivíduo permitem-lhe sustentar condignamente sua família, que direito teria ele de o expandir, eventualmente privando outras pessoas dos instrumentos e recursos necessários ao arrimo de suas respectivas famílias? A consciência cristã medieval cria (e esta é, diga-se de passagem, uma das características axiais de seu ethos) que os indivíduos que se dedicavam à mesma actividade não eram rivais ou competidores, mas sim confrades empenhados de corpo e alma na egrégia lide de providenciar à comunidade bens e serviços necessários; outrossim, como irmãos agregavam-se em corporações, velando pelo bem-estar uns dos outros.

Numa sociedade distributivista, por conseguinte, as pessoas seriam capazes de organizar-se em regime de mutualismo, reunindo-se em cooperativas de produção, comércio e serviço, num sistema onde predominaria a solidariedade como princípio não apenas justo, mas racional e eficaz, de interação humana.

No que concerne à organização social, o distributivismo vê na família trinitária (um homem, uma mulher e uma criança) a unidade mais elementar, a pedra basilar na constituição d'uma sociedade harmoniosa; tal núcleo primordial funcionará como alicerce de unidades familiares mais amplas, multigeracionais e interligadas por laços de consangüinidade, que por sua vez desdobrar-se-ão em comunidades locais, regionais e nacionais, e por fim na ‘família’ humana como um todo. Desta maneira, o modelo de organização econômica proposto por Chesterton e Belloc florescerá a partir da família nuclear, não considerada como mônada estanque e impermeável, mas sim como unidade básica e interdependente da sociedade distributivista; tal concepção é, vale dizer, caudatária da noção de ‘subsidiariedade’ esposada pelo Papa Pio XI na encíclica Quadragesimo Anno (1931), a qual advoga que qualquer atividade produtiva deve ser levada a efeito pela menor unidade possível, de modo a evitar a concentração do poder nas mãos de poucos agentes. Vê-se aqui, portanto, no seio da concepção distributivista, mais uma vez a racionalidade operacional caminhando de par em par com noções de justiça e virtude, pois é facto patente que unidades produtivas menores são em geral mais ágeis e eficazes que macroestruturas burocráticas, pouco importa se de natureza privada ou estatal.

O distributivismo não privilegia, em matéria de ordenamento político, nenhum dos modelos de constituição do Estado existentes, podendo em tese viger tanto sob regimes monárquicos quanto sob republicanos. É mister salientar, contudo, que a doutrina distributivista não se inclina para qualquer extremismo, rejeitando enfaticamente perspectivas de cunho coletivista ou individualista.

Por fim, há que sublinhar a índole em geral pacifista do pensamento distributivista. Chesterton e Belloc opunham-se ao imperialismo britânico, e ambos particularmente condenaram, nos termos mais acerbos, a segunda guerra contra os boers; não obstante, apoiaram o envolvimento de seu país na I Guerra Mundial, a qual encaravam como justa.

Isto posto, ó supinos confrades, cremos vos ter propiciado, nestes infaustos lustros onde todas as convicções se dissolvem num vórtice caótico de nefárias incertezas, importantes subsídios para a questão mais premente da centúria em que vivemos: a formulação d’uma alternativa concreta para o pesadelo do sistema capitalista.




Notas de reflexão crítica II - a propósito da ideologia neocon





- A ideologia neocon, que predica uma espécie de 'liberalismo' pró-imperialista e de índole militarista, representam o auge da contradição ideológica vigente na contemporaneidade; destarte, poucas coisas poderiam ser mais visceralmente antiliberais do que, por exemplo, a política de keynesianismo aplicado que caracteriza o complexo industrial-militar estadunidense, hoje mais do que nunca fomentado pelo intervencionismo da camarilha que governa os EUA; não obstante, estes insólitos 'liberais' não hesitam um segundo sequer em hipotecar seu apoio a tal dinâmica, não lhes importando à mínima que a mesma seja de todo antiliberal.

- Outrossim, tais setores fazem altissonante profissão de fé na imaculada 'democracia' norte-americana, como se esta não fosse tão somente um disfarce institucional para o verdadeiro regime que vige por lá: uma plutocracia inteiramente pautada pelos interesses econômicos do ‘partido do complexo industrial-militar e do capital financeiro’ (ou, como diria mais sucintamente Gore Vidal, o ‘Partido do Dinheiro’), que se divide nas alas ‘republicana’ e ‘democrata’. Há que ter em mente, sobretudo, algo da mais precípua importância: as administrações federais norte-americanas não se pautam pela 'varejo' partidário, pelos ‘arranjos de ocasião’, mas sim por uma política de ESTADO, que implementa / defende os interesses estratégicos de longo prazo dos setores econômicos e militares que lastreiam tal estrutura de poder. Mutatis Mutandis, trata-se d’um amálgama admiravelmente monolítico entre o que o pensador político anglo-americano James Burnham chamava de ‘coletivismo oligárquico’; o que o sociólogo alemão Robert Michels denominava de ‘lei de ferro da oligarquia’; e o que o economista italiano Vilfredo Pareto conceituava como ‘circulação das elites’: a lógica do ‘coletivismo oligárquico’, claramente embutida no complexo industrial-militar estadunidense , bem como na falsa dicotomia entre republicanos e democratas, que encarna de modo exemplar a noção de ‘circulação das elites’, criam um cenário onde a perspectiva democrática é tão somente uma miragem, cujo mero processo de alternância formal no poder é garantido em caráter permanente pela ‘lei de ferro da oligarquia’.

- É muito interessante ver como os neocons (pouco importa se ‘republicanos’ ou ‘democratas’) insistem em afirmar que suas políticas pró-imperialistas e intervencionistas atuam em defesa dos valores da 'democracia' norte-americana, da 'civilização ocidental' e do livre mercado, quando o que ocorre é justamente o oposto: o que a histeria militarista está conseguindo é precisamente colocar em risco a permanência dos valores tradicionais da América, como a liberdade individual, a ausência do Estado e o antimilitarismo. Como é possível constatar através do estudo da História, o militarismo sempre prepara o terreno para um incremento do poder estatal, seja por intermédio de maiores impostos ou do cerceamento às liberdades públicas por razões de 'segurança nacional' (vide o famigerado patriot act). Assim sendo, o que o imperialismo neocon está gestando é justamente o contrário de qualquer projeto liberal autêntico: um Estado-Leviatã armado até os dentes, omnipresente e omnipotente.

- Que seria, portanto, o complexo industrial-militar estadunidense senão uma entidade simbiótica público-privada, uma vez que mesmo que as indústrias de armamentos não sejam de propriedade estatal, tão somente podem existir em função da demanda do Estado? Da mesma maneira, tais empresas não podem funcionar em regime de livre mercado, uma vez que não podem vender livremente seus produtos para qualquer um... ou alguém julga, por exemplo, que a Northrop Corporation pode vender um de seus bombardeiros B-2 Spirit para qualquer um, seguindo os ditames do livre comércio? E a dinâmica em tela não se limita apenas a questões de foro exclusivamente militar; basta recordarmos, a título de ilustração, como surgiu e se desenvolveu a internet...

- A indústria de armamentos é seguramente uma das atividades econômicas mais lucrativas do planeta, de maneira que uma política de Estado imperialista, advogando guerras preventivas como método habitual de intervenção externa, representa um estímulo descomunal, fonte contínua de lucros para tal ramo de atividade.

- Por seu turno, um dos elementos centrais do pensamento econômico keynesiano é a defesa do Estado como agente indutor de desenvolvimento numa economia de mercado, que é justo o que ocorre no país dos grandes paladinos do 'liberalismo' econômico.

- O complexo industrial-militar estadunidense, complexa simbiose público-privada que entrelaça o Pentágono aos principais conglomerados produtores de armamentos do mundo (Northrop Grumman Corporation, McDonnell Douglas, Lockheed Corporation,General Dynamics, etc.), bem como indústrias químicas, biotecnológicas, eletrônicas, etc., é indubitavelmente um dos exemplos mais flagrantes de keynesianismo aplicado nos últimos 50 anos.; constitui, destarte, o principal eixo de sustentação da administração federal norte-americana desde a II Guerra Mundial, influência essa que só fez aumentar com o advento da choldra neocon.

- Logo, os neocons representam uma forma de neokeynesianismo militar de ÓBVIO caráter ANTILIBERAL...

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E na verdade, diletos confrades, estas notas aqui postadas têm por móvel dar ensejo a uma discussão ainda mais ampla e importante, e que poderia ser formulada da seguinte forma:

Considerando os seguintes fatores:

1)O entrelaçamento dinâmico e progressivo entre as finanças globais;

2)o facto de vivermos em sociedades cada vez mais complexas, onde cada ramo e instância da administração pública envolvem decisões altamente técnicas e especializadas;

3)e o primado dos interesses estratégicos do Estado, de longo prazo ou até mesmo permanentes (e que decerto tão somente modificar-se-iam por ocasião d'um processo revolucionário que subvertesse a própria ordem estatal vigente) sobre os desígnios 'varejo partidário' de ocasião, qual seria, ao fim e ao cabo, o poder decisório dos cidadãos nas complexas 'democracias' representativas contemporâneas? Ou, n'outra clave: em que a 'alternância de poder', tendo em conta os fatores acima elencados, proporcionaria a real oportunidade de escolha entre programas políticos efetivamente DISTINTOS?

Em suma, irmãos d'armas: até que ponto a 'democracia' não é apenas uma fraude conveniente, uma encenação protocolar, uma pantomima para persuadir o conjunto da sociedade de que ela detém um poder decisório realmente CONCRETO?



Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

quarta-feira, novembro 01, 2006

Presença de Robert Wise

Alphonse van Worden - 1750 AD






Desde que o estudioso francês de cinema Alexandre Astruc publicou, em 1949, seu célebre artigo Naissance d'une nouvelle avant-garde : la caméra-stylo, onde advogava a noção de que o cineasta, assim como o escritor ou o pintor, 'escreve', 'pinta' com a câmera; e que François Truffaut, ainda crítico de cinema no Cahiers du Cinéma, desenvolveu a chamada politique des auteurs, enfatizando o papel do diretor como autor, isto é, como responsável pelo produto final que o espectador verá na tela, formou-se uma espécie de consenso crítico a enaltecer quase que exclusivamente autores que possuem uma assinatura formal característica, uma estilística que, de certo modo, enfeixa seus trabalhos num opus coerente: Godard, Dreyer, Resnais, Antonioni, Murnau, Eisenstein, etc.; valorizou-se destarte, cada vez mais, não somente a noção de 'roteiro original', mas sobretudo a perspectiva do cinema como expressão de subjetividade autoral, transcendendo gêneros e parâmetros impostas pelo mercado, ou quaisquer outras instâncias alheias a um labor artístico radicalmente pessoal.

Há, não obstante, grandes cineastas que lograram se destacar mesmo estando agrilhoados às estruturas autoritárias e castradoras do studio system, e que criaram, malgrado talvez por vias mais transversas e erráticas, uma obra cuja envergadura se compara ao trabalho dos diretores supracitados; a meu juízo, quiçá o norte-americano Robert Wise seja o melhor exemplo deste tipo de cineasta, que a princípio se afirma mais como artesão talentoso, como laborioso ourives, que como propriamente entidade criativa autônoma, portadora d'uma centralidade autoral, mas em cuja obra, mesmo sob a capa de uma variedade de gêneros preestabelecidos, é possível perceber a mesma personalidade; a mesma marca registrada; o mesmo vigor artístico, enfim, que encontramos nos diretores mais propriamente 'autorais'.




Do legado de Wise é mister salientar, em primeiro lugar, a assombrosa versatilidade do artesão capaz de lavrar, com igual mestria, materiais de índole narrativa ou formal distinta, para não dizer veramente antípodas; assim sendo, pouquíssimos cineastas foram capazes de produzir verdadeiras obras-primas em tantos gêneros diferentes, da ficção científica (The Day the Earth Stood Still - 1951, um dos sci fi mais cool e formalmente elegantes - num gênero onde abunda atroz 'cafonália' - de todos os tempos) aos dramas noir Lady of Deceit - 1947 e The Set Up - 1949, cuja seqüência final na luta de boxe é das mais selvagens de todos os tempos; de filmes de horror como The Haunting - 1963, uma fita criminosamente subestimada, vera fantasmagoria gótica em compasso de intrincado pesadelo freudiano, ou The Curse of the Cat People - 1944, sibilina seqüência para o também clássico Cat People - 1942, de Val Lewton, ao musical The Sound of Music - 1965, notório clássico do diretor; West Side Story - 1961, que é sem dúvida uma das mais originais e criativas adaptações de material literário clássico que o cinema já viu.

Em segundo lugar, é também forçoso destacar o virtuosismo técnico de Wise, cujos enquadramentos, cenografia e fotografia, caudatários em larga medida do expressionismo alemão e dos delírios barrocos de Orson Welles, são via de regra impecáveis, mormente em seus filmes em P&B, onde a câmara, como se finíssimo estilo de bambu nas mãos de um calígrafo nipônico fosse, desenha na tela caligramas e arabescos de requintada fatura, aspergindo silhuetas e sombras que não seriam indignos das diáfanas texturas de um Shubun ou um Sesshu, tal como podemos admirar, por exemplo, no esplêndido The Haunting, com espectros sutilmente sugeridos pela geometria labiríntica de sua hábil montagem ; e nas obras em cor, ainda que parte da excelência formal d'outrora tenha se perdido, a beleza e precisão dos enquadramentos manteve-se imaculada, o que pode ser constatado, por exemplo, na arrojada composição visual de West Side Story, a celebrar os ritmos e circunvoluções estratosféricas da dança moderna.




Por fim, há que recordar o artista que, mesmo sob a impiedosa égide de uma indústria voraz e multitentacular, logrou imprimir às suas obras um cariz humanista e libertário, sempre a exaltar, d'uma forma ou de outra, a inebriante aventura da liberdade humana, traço a meu ver recorrente em toda arte que se pretende digna de ser lembrada. A esse respeito, destaco Wise por me parecer importante sublinhar a possibilidade de obter resultados de alto nível mesmo sob o tacão d’uma estrutura avessa à criatividade e à liberdade; trata-se, creio, de uma questão esquecida por muitos artistas, que ficam a choramingar por não desfrutarem de 'condições ideais' para criar, convenientemente olvidando-se de que é possível fazer arte mesmo nas condições mais adversas, quer do ponto vista político, quer do comercial.

"We're all frankies..."




É com prazer que vos apresento hoje, preclaríssimos confrades, a inesquecível e impagável peça de agit prop sônico, terrorismo contracultural anárquico e neurastenia 'drogoléptica' chamada 23 Minutes Over Brussels (1978 - Red Star / Bronze Records), do duo novaiorquino Suicide, álbum lançado originalmente como flexi-disc encartado num zine, em edição limitada de 1000 cópias. O disco em si é genial, claro, mas a história que o envolve é ainda mais, de modo que merece ser narrada.

No dia 16 de junho de 1978, Alan Vega e Martin Rev encontravam-se na aristocrática capital da Bélgica, mais precisamente no clube Ancienne Belgique, para abrir um concerto de Elvis Costello; como quem conhece a banda pode bem imaginar, a sinistra e morbidamente irônica fusão entre eletrônica primitiva e 'rockabilly mutante de Alpha Centauri com Síndrome de Down' dos caras não era, por assim dizer, a coisa mais compatível com o punk / folk comparativamente 'normal' de Mr. Costello à época. Pois muito bem: com Rev a cargo de seu insólito arsenal de traquitanas eletrônicas (um VCS3 e uma drum machine arcaicos, ambos emprestados, e via de regra avariados!), e Vega soltando sua voz de 'deidade lovecraftiana in a bad mood lendo recitativos de Antonin Artaud numa estação de rádio extraterrestre fora de sintonia', as sublimes litanias do grupo sobre o apocalipse industrial da pós-modernidade começaram a ser despejadas implacavelmente sobre a platéia, pérolas do inferno como Ghost Rider, Rocket USA, Cheree, Dance; o público, a princípio estupefacto, começou depois a apupar a apresentação com enfática e crescente indignação. Alheios a tudo, no entanto, Vega e Rev deram início então ao verdadeiro ritual eletro-industrial de ódio e danação denominado Frankie Teardrop, em versão particularmente neurótica e furiosa. O que até aquele momento era tão somente rejeição estética transformou-se em fúria absoluta, e membros mais exaltados da audiência começaram a subir ao palco para agredir o duo. Nossos heróis conseguiram segurar um pouco as pontas, mas logo multiplicaram ao infinito o caos com uma boutade de todo genial: Vega perguntou ao público se eles queriam ver logo a atração principal, obtendo como resposta urros coletivos de "Elvis, Elvis, Elvis!!!". O insano performer começou então a entoar Frankie Teardrop no compasso da célebre Love Me Tender (um dos clássicos absolutos de uma certa figura chamada Elvis Presley... ) com uma voz absolutamente macabra e aterradora, enquanto Rev mimetizava, de forma esquizofrênica, o ritmo da canção em suas engenhocas. Não é preciso ser uma pitonisa para adivinhar que a abstrusa 'cover' obviamente deu início a um furdunço de vastas proporções, com a turba detonando tudo à sua frente. Todavia, Howard Thompson, amigo da banda, lá estava com um gravador, registrando o inolvidável evento para gáudio geral per saecula saeculorum de todos nós da nação freak!

No mais, conforme Alan Vega, umas poucas horas depois do show, definiria de forma lapidar, "We're all frankies, except some belgians..."






Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

Notas de reflexão crítica I - a propósito da degenerescência burocrática da URSS e da perspectiva de Milovan Djilas

Alphonse van Worden - 1750 AD






- Na medida em que a nomenklatura exercia, no âmbito da sociedade soviética, um controle absoluto sobre o aparato estatal, pode-se dizer que se apropriava diretamente dos excedentes oriundos do processo produtivo, de modo que o 'lucro social' não revertia em benefício da sociedade in totum, mas de uma pequena camada encastelada no comando do Estado e à testa do Partido; nesse sentido, o grande desafio de uma revolução socialista permanece sendo o de assegurar uma gestão efetivamente democrática e coletiva do processo.

- Num Estado operário degenerado poderiam ocorrer distorções políticas, certa preponderância do aparato burocrático, mas não a completa inversão de perspectivas que se verificou na experiência soviética, onde a apropriação do trabalho social voltou a estar concentrada nas mãos de um único estamento, que tomava a seu cargo todos os procedimentos decisórios em termos políticos e econômicos. A ausência, pois, de uma gestão veramente democrática no seio do aparato partidário e da máquina estatal, possibilitou a emergência de uma burocracia rapace e parasita; aliás, com o fim da URSS, num contexto de severa deterioração da economia, foi possível constatar a consumação lógica deste processo, uma vez que, com a privatização em massa das empresas estatais, a classe de administradores públicos de imediato converteu-se em empresariado privado, havendo apenas uma transferência jurídico-formal da propriedade.

- A meu juízo a posição em termos de processo produtivo não constitui o único critério possível para identificarmos a presença de uma classe social, e nisto a análise de Milovan Djilas (1911 - 1995), célebre comunista dissidente jugoslavo, me parece perfeita: a nomenklatura soviética, ainda que não tenha se configurado como formação autônoma em termos de estrutura produtiva, passou a apropriar-se em larga escala do 'trabalho social' de toda a sociedade, e assim forjou-se como nova classe numa acepção ampla do termo; se nova classe não foi em stricto sensu, sem dúvida logrou sê-lo lato sensu por via parasitária.

- Há que admitir, não obstante, que o processo histórico deu razão a Trotsky no sentido de que a expropriação política da burocracia por parte da ação revolucionária do proletariado seria, ao fim e ao cabo, a única forma de impedir que a dinâmica contra-revolucionária acabasse por reinstaurar o capitalismo na URSS. Vale dizer que, no âmbito do mesmo processo, a nomenklatura transformou-se, quase que de maneira automática, seqüencial e orgânica, de estamento administrativo em classe proprietária; de facto, ao nos debruçarmos sobre o vertiginoso ciclo de privatização da economia que se deu com o advento da era Yeltsin, constataremos que grande parte da antiga burocracia gerencial soviética, tanto em termos de setor industrial quanto de financeiro, converteu-se maciçamente em classe proprietária. A expropriação econômica desencadeou-se portanto como epifenômeno lógico-empírico de um processo de expropriação política que já havia se forjado décadas atrás.

- Num primeiro momento poderíamos definir tal dinâmica como uma metamorfose radical, o que de certa refutaria as considerações djlianas: o estamento administrativo transformando-se em alta burguesia proprietária; não obstante, se examinarmos mais acuradamente o fenômeno em tela, veremos que se trata, na verdade, não de uma metamorfose estrutural, mas sim de uma transferência maciça de titularidade nominal, uma vez que os meios de produção já estavam informalmente sob controle total de uma parcela de burocratas; ocorre, por conseguinte, a conversão formal de uma situação que se fazia presente em termos operacionais. Destarte, a 'nova classe' analisada por Djilas já existia nas entrelinhas da sociedade soviética, e tão somente adquiriu plena visibilidade e novo estatuto no período de restauração.

domingo, outubro 01, 2006

As mais belas mortes - IV

Christa Päffgen - AKA Nico (1938? 1943?-1988)





Ao contrário do pitoresco padrão recorrente nas deceduras de stars que aqui relatamos - afogamento em vômito e /ou excrementos, overdoses dos mais variados tipos e feitios, facadas, etc. - o decesso da modelo, atriz e compositora Nico (1938? 1943?-1988), ainda que decerto patético, não esteve isento da idiossincrática louçania melancólica que a caracterizava.

Um dos veros ícones do donaire gauche e maudit no século XX, nossa evanescente e belíssima valquíria gótica sempre foi uma figura das mais crípticas e elusivas; sequer há certeza, por exemplo, sobre a data e local precisos de seu nascimento, algumas fontes indicando 16/10/1938 em Köln, outras 15/03/1943 em Budapest. De qualquer modo, a elegância impassível, a beleza glacial, o charme sibilino, a voz gravemente solene e o ethos espectral foram marcas registradas em sua trajetória, seja como modelo (com inolvidáveis aparições em revistas como Vogue, Elle, Tempo, Vie Nuove, Camera), como atriz (notável como musa junkie do cinema avant garde de Andy Warhol) ou como chanteuse/compositora (notória pelo breve sejour com o VU, mas igualmente fabulosa em sua carreira solo).

Pois muito bem: Nico, que durante toda a vida foi entusiástica e voraz consumidora de heroína, cocaína, benzedrina e outras inofensivas substâncias, decidira a partir de 1986 adotar um estilo de vida mais 'sossegado'. A 18 de julho de 1988, consoante tal disposição, passeava de bicicleta numa aprazível manhã pela paradísiaca ilha de Ibiza, onde residia; foi então encontrada inconsciente por alguns transeuntes, e veio a falecer horas mais tarde, vitimada por uma insolação, se calhar em virtude dos insólitos trajos que envergava, de todo incompatíveis com o calor estival.



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Nancy Laura Spungen (1958-1978)





Como já nos foi possível constatar n'outros tópicos desta ilustre comunidade, rockstars ou wannabe rockstars soem cultivar modalidades de trespasse no mínimo heteróclitas; e a figura de que ora nos ocuparemos foi, indubitavelmente, uma das mais emblemáticas wannabe rockstars de todos os tempos: a meiga Nancy Laura Spungen (1958-1978).

Desde a mais tenra idade nossa doce moçoila revelou-se um primor de doçura e temperança: aos 11 já havia sido submetida reiteradas vezes a sessões de tratamento psiquiátrico; aos 13, perpetrado numerosas tentativas de autocídio; aos 19, então dedicada à augusta lide de groupie, travou conhecimento com Sid Vicious numa viagem a Londres em companhia dos New York Dolls.

Logo instaurou-se um pudicíssimo idílio amoroso entre as duas castas almas, embaladas pelo descomunal consumo de substâncias ilícitas, sururus homéricos e outros hábitos angelicais. Em 1978 o imaculado par de cândidos pombinhos mudou-se para NY por ocasião da excursão dos Sex Pistols pelos EUA. No dia 12 de outubro do mesmo ano, como píncaro refulgente de tão pulcro himeneu, nossa heroína (com trocadilho, por favor) foi encontrada, de calcinha e soutien tão somente trajada, no chão de um quarto do conspícuo Chelsea Hotel: havia sido esfaqueada por Sid até à morte na altura do estômago.



Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

segunda-feira, setembro 11, 2006

LUX AETERNA

























Ó áticos confrades d'armas: é transcorrido um lustro desde a conspícua jornada em que derribadas foram as ominosas Torres Negras, de Moloch e Baal, ímpias deidades, néfario totem; e hoje, excelsos mujahideen, de supino gáudio pejam-se nossos corações, uma vez que o inolvidável sucesso foi de AMIR UL-MOMINEEM, ingente Sustentáculo do Universo e Senescal dos Arcanos Transfinitos, a rutilante signa para o exórdio da deífica Guerra Cósmica contra os do fero SATÃ imanes hostes!


Allahu Akbar...Allahu Akbar...Allahu Akbar!!!






Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

sexta-feira, setembro 01, 2006

Searching for Soultrane

Alphonse van Worden - 1750 AD





The Olatunji Concert: The Last Live Recording sem sombra de dúvida integra, ao lado de Machine Gun (Peter Brötzmann) e Spiritual Unity (Albert Ayler), a trinca dos mais DEVASTADORES e GENIAIS discos de jazz que este vosso escriba já teve a oportunidade de conhecer até hoje. É decerto um registro mal gravado, com muitas oscilações de volume e até mesmo alguns drop outs na fita master; a meu ver, contudo, tal característica contribui decisivamente, por incrível que pareça, para a aura de inaudita e sobrenatural intensidade cósmica que emana do álbum, uma vez que o mergulho sem volta nos mais abscônditos báratros da Arcana Coelestia almejado por Coltrane não poderia ser traduzido, creio eu, por uma sonoridade harmônica, cristalina, mas tão somente pela própria materialização sonora do caos primordial dos páramos deíficos; destarte, me parece de sobejo razoável asseverar que se Coltrane alguma vez conseguiu transfigurar em termos estéticos sua a um só tempo extática e agônica demanda por transcendência espiritual, tal intento foi logrado com pleno e assustador êxito pelo Olatunji Concert, vero dérèglement absolu de tous les sens nos píncaros do SAGRADO.

Ogunde é a encarnação estética de um ritual de magia arcana no imo do mais recôndito heart of darkness africano: irracionalista, brutal, incontrolável, selvagem, obscura, um avassalador tornado de solos e ritmos veramente indescritíveis de tão intensos e arrebatadores; e a propósito de My Favorite Things.... bem, o que dizer de tamanho colosso....? A versão presente em Live in Japan (1966) pode ter 23 minutos a mais e, de certa maneira, ser até mais intrincada, mas em termos de puro desvario, de obliteração sônica in extremis de tudo aquilo que o senso comum classificaria como 'música', de blasfema conjuração de miríades de Supernovas explodindo nos vórtices mais remotos do espaço sideral, simplesmente empalidece diante de sua co-irmã de 1967: de facto, trata-se de algo tão inacreditável e estratosfericamente visceral, tão esmagador em sua vulcânica energia vital, que é capaz de mergulhar o ouvinte num estado de profunda desorientação mental, beirando mesmo a mais obnubilante ataraxia de todos os sentidos. O maelstron 'transjazzístico' tem início de forma aparentemente despretensiosa e contida, com um envolvente solo de baixo urdido pelo saudoso Jimmy Garrison; ao fim e ao cabo de quase 8 minutos de hipnose, faz-se anunciar, ameaçador, o primeiro uivo espectral do sax de Coltrane, e então hell breaks loose num dos mais walpúrgicos sabbath supersônicos que já escutei. O que temos aqui não são meros músicos, mas sim ciclópicas deidades lovecraftianas, Coltrane convertido em Surtr; Sanders em Kali; Rashied Ali em Ahriman; e assim sucessivamente, todos de súbito convertidos em titânicos espíritos de aniquilação / recriação do kháos transmutado em kósmos e da cosmogonia desintegrada em inefável kháosmosis, trovejante polifonia de clarins descomunais vertendo catadupas de magma incandescente e AAAAAAAAAAAAHHHHH!!!!!!!!!...


As mais belas mortes - III

Moritz Schlick (1882-1936)






































E aqui chegamos a um dos relatos mais lôbregos desta nossa ainda tão núpera série.

O filósofo, lógico e matémático germânico Moritz Schlick (1882-1936) é um dos ídolos deste vosso humílimo escriba. Ao lado de Carnap, Feigl, Nëurath e Hahn, foi um dos fundadores do célebre Círculo de Viena, assim como um dos mais destacados proponentes do positivismo lógico; seus trabalhos em tópicos como epistemologia, lógica matemática e filosofia da linguagem são de incomensurável relevância, sempre caracterizados por grande originalidade, suprema perspicácia e assombrosa capacidade analítica.

Prossigamos contudo, sem mais delongas, com nosso doloroso mister, por mais horribile dictu que nos seja: com o ascenso do nacional-socialismo na Alemanha e na Áustria, boa parte dos integrantes do Círculo emigrou para Inglaterra e EUA; Shlick, entretanto, decidiu permanecer em seu posto na Universidade de Viena, muito embora condenasse a ideologia nazi nos termos mais severos. Tal atitude converteu o eminente filósofo em persona non grata para os círculos nazistas, levando ao hórrido desenlace que agora relataremos: no dia 22 de junho de 1936, Schlick, que subia as escadarias da Universidade para ministrar uma aula, foi abordado por um antigo aluno, então convertido ao nazismo. Transtornado, o sicofanta protestou a propósito de um trabalho que havia sido recusado pelo mestre; Schlick ripostou-lhe categoricamente as alegações, ao que o ínvio sacripanta sacou uma pistola e desferiu um balázio letal no peito do egrégio professor.


Post-Scriptum:

O horrífero sequaz nacional-socialista foi detido e setenciado, mas logo transformou-se em figura popular entre os extremistas de direita, sendo retratado pela imprensa reaccionária como 'herói nacional' em luta contra a filosofia pretensamente 'judaica' e 'anti-ariana' do Círculo de Viena; pouco depois da nefasta ocisão, o celerado recebeu liberdade condicional; e em 1938, com o advento do Anschluss, tornou-se um destacado membro do Partido Nazista Austríaco.

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Nikos Poulantzas (1936-1979)
































Mortes violentas e/ou espalhafatosas não são de modo algum, como os fidalgos leitores desta comunidade já devem ter advertido, apanágio de rockstars e outros seres extravagantes; já pudemos aqui abordar, com bem lembrais, o horrífero atentado que subtraiu a vida do lógico austríaco Moritz Schlick. Hoje, todavia, falaremos da defunção do filósofo marxista grego Nikos Poulantzas (1936-1979) (va benne, estava mais para um filosofante 'marxóide', mas tal maledicência não vem ao caso no momento...).

Poulantzas formou-se em direito na cidade de Atenas, e depois prosseguiu seus estudos em França e Alemanha, especializando-se na questão do Estado moderno. Em Paris tornou-se o discípulo favorito de outro notório detraqué, o estruturalista Louis Althusser (sobre o qual ulteriormente falaremos n'outro tópico). No dia 3 de outubro de 1979, agarrado a vários livros, Poulantzas arrojou-se do décimo-primeiro andar de um edifício popular nos arrabaldades de Paris (13 arrondissement). No bilhete de despedida pelo filosófo legado encontrou-se a seguinte observação, sobremaneira lúgubre e severa: "eu não suportava mais ser um escombro ideológico".



Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

terça-feira, agosto 01, 2006

O 'Estado Judeu' : fenomenologia da mistificação ideológica no reino encantado do doublethink

Alphonse van Worden - 1750 AD





Há já muitos lustros o escritor inglês George Orwell advertiu que "a corrupção da política começa com a corrupção da linguagem". Sábia e veraz constatação d'um ominoso fenômeno, cujos efeitos metíficos podem ser constatados em toda parte, e que o próprio autor britânico soube tão bem ilustrar em seus romances alegóricos, mormente em 1984, onde, por intermédio do doublethink, mefistofélico processo de solipsismo coletivo induzido pelo Estado, cada um dos lemas do Partido Ingsoc inculcava na mente de seus membros , mediante hipnótica e reiterada repetição, exatamente o oposto do que a realidade dos factos dispunha.

Podemos amiúde verificar o uso do escalfúrnio procedimento denunciado por Orwell não apenas nas declarações e comunicados de cunho estatal das grandes 'democracias' ocidentais, mas também na imprensa soi disant 'independente', malgrado em termos práticos funcione cada vez mais como althusseriano Aparelho Ideológico do Estado; destarte, movimentos populares antiimperialistas de libertação nacional (Hamas, Hizbollah, ETA, etc.) são classificados como 'terroristas'; um presidente continuamente submetido ao veredicto de mecanismos populares de consulta, tal como Hugo Chávez, recebe o apodo de 'autoritário'; o monopartidarismo mitigado a viger nos EUA, onde temos um 'Partido do Complexo Industrial-Militar e do Capital Financeiro' dividido nas alas Republicana e Democrata, converte-se em 'democracia representativa'; e assim sucessivamente, num peremptório e obsceno manar de fraudes mentais cuidadosa, insidiosa e implacavelmente veiculadas pelos mass media através de todos os quadrantes do 'mundo livre' (quiçá a mais emblemática, patética e mentirosa de todas as quimeras ideológicas da contemporaneidade).

A grande maioria dessas patranhas peçonhentas é moeda de diversionismo ideológico corrente nos aparatos de doutrinação em massa da Sociedade do Espetáculo ('democracia representativa', 'livre comércio', 'globalização', etc.); mesmo que por vezes aparentemente aposentadas, elas permanecem em estado de animação suspensa nos , prontas para retornar à baila assim que se tornam necessárias às horríferas lides de entorpecimento da opinião pública e /ou aliciamento de consciências.

Isto posto, discorramos um pouco a propósito d'uma destas engenhosas ficções políticas de inequívoco sabor orwelliano, um exemplar hoje particularmente nas mais insuspeitas oficinas de falsificação ideológica do planeta: 'Estado Judeu'.

Da mesma maneira que a maior parte de suas congêneres, a expressão em tela via de regra apresenta-se como mera instância descritiva d'um estado de coisas, isto é, como representação objetiva de um determinado fenômeno ou situação, algo como um enunciado científico, em cuja tessitura não há elementos de índole subjetiva. Assim sendo, não sentimo-nos, ao empregá-la, como cúmplices e /ou vítimas duma operação de desvirtuamento intencional da realidade, mas tão somente fazendo uso de uma fórmula descritiva axiologicamente imparcial; não obstante, ao examinemos com mais vagar e acuidade o termo ‘Estado judeu’, ser-nos-á fácil constatar os ínvios desígnios que se ocultam por trás de sua aparente e estudada neutralidade, dos quais dois nos parecem ser os mais destacados:

Em primeiro lugar, há a pretensão de definir o Estado de Israel como entidade representativa par excellence da totalidade do povo judaico; ora, isto não passa d’uma endrômina insidiosa, pois à partida pressupõe a existência d'um absurdo isomorfismo entre 'religião' / 'cultura' (que pode ser judaica, muçulmana, católica, etc.) e 'nacionalidade' (que pode ser israelense, francesa, brasileira, etc.). Desta maneira, o Estado de Israel pode no máximo arvorar-se em representante político dos cidadãos israelenses, mas nunca do conjunto dos judeus em escala planetária, tal como a denominação 'Estado Judeu' falaciosamente dá a entender. Vale também salientar que Israel nada mais é que a materialização histórica do projeto político sionista, que ambiciona ser a encarnação máxima da weltanschauung judaica, mas que de forma alguma logra nem tampouco jamais logrará sê-lo; insere-se, por acaso, no ethos sionista, toda a ampla tradição da esquerda comunista judaica, refratária aos talantes sionistas desde os tempos de Leon Pinsker (1821-1891) e Theodor Herzl (1850 - 1905)? E a vastíssima miríade de judeus religiosos ultra-ortodoxos, visceralmente contrária, por motivos de cunho teológico (basicamente crêem que a diáspora judaica só deverá terminar por ocasião do advento do Messias) à existência do Estado de Israel, e que pugnam, através de movimentos de expressão mundial como Satmar, Munkacs, Neturei Karta, Malochim, Hazon Ish, etc., pela devolução à ummah palestina de todas as terras hoje ocupadas pelo moloch sionista? Não há como afirmar, portanto, que o sionismo representa a universalidade judaica, trata-se d’um ardil absurdo, que não resiste à análise.

Em segundo lugar, numa operação de mistificação ideológica ainda mais deletéria, há o deliberado tentame de estabelecer uma confusão deliberada entre as perspectivas anti-sionista e anti-semita, com o fito de pespegar a pecha de 'anti-semita' a qualquer um que se atreva a criticar o Estado sionista, uma vez que se estaria a condenar en bloc um pretenso 'Estado Judeu'. Pois muito bem: a quem interessa lançar mal de tal expediente falacioso? Mormente a três setores igualmente nefários:

a) a extrema-direita neocon à testa de Washington, que vê em Israel a salvaguarda ideal, o 'cão de guarda', a 'cabeça de ponte' no Oriente médio em defesa dos interesses do Complexo industrial-militar, indústria petroquímica inclusa.

b) a extrema-direita fundamentalista born again christian norte-americana, com seus tresloucados desvarios sobre os EUA como 'Nova Jerusalém'.

c) a canalha sionista genocida, racista e filonazista permanentemente no poder em Israel, não importa se com o Likud, com os trabalhistas ou eventualmente com a nova agremiação criada pelo criminoso de guerra Ariel Sharon.

Por outro lado, tal mixórdia ideológica, de todo inverídica e pérfida, é rejeitada veementemente por toda a esquerda antiimperialista, pelos defensores da causa palestina e partidários dos AUTÊNTICOS valores do judaísmo, amplo arco que inclui, apenas para citar judeus, desde pensadores como Noam Chomsky e Ralph Schoenman aos rabinos ortodoxos do Neturei Karta.

A propósito, enfim, do ínvio contubérnio existente entre o sionismo e certos setores da direita norte-americana, devo dizer que a meu ver trata-se do fenômeno mais nefasto da política mundial nas últimas décadas. Creio, com efeito, ser inegável o caráter histórica e atavicamente excludente, racista (como releitura oportunista da noção bíblica de 'povo eleito') e expansionista (todo o projeto, igualmente de fundo religioso, do Eretz Israel) do sionismo. Tais elementos não são circunstanciais ou contingentes no âmbito da ideologia sionista, mas sim sua própria raison d'être, sem a qual ela não existiria.

Vale dizer ainda que o sionismo advoga exatamente os mesmos princípios centrais da ideologia nazista, a saber:

1) uma estratégia política baseada na pretensão de superioridade de um povo 'eleito' (no caso sionista através d'uma releitura oportunista e mentirosa da noção bíblica de 'povo eleito, e na formulação nazista, por intermédio de hipóteses pseudocientíficas a propósito da 'superioridade racial' ariana).

2) política de expansionismo militar imperialista, projeto igualmente de índole mítica, baseado nas lendas relativas ao Eretz Israel, isto é, o equivalente religioso do lebensraum ou 'espaço vital', que advogava a necessidade de maior espaço para os arianos em detrimento das terras eslavas à leste.

Concluindo, ó insignes confrades:

Consoante pudestes verificar, sempre que vos virdes diante de um termo político ou econômico que pareça não se ajustar muito bem à realidade que tenciona significar, é mister proceder a todo um processo de atento desmonte dos sibilinos ardis conceituais embutidos em cada um deles, pois somente assim podereis escapar à toda sorte de torpes artifícios ideológicos diuturnamente perpetrados pelos envenenadores da consciência pública nos meios de comunicação.

As mais belas mortes - II

Yukio Mishima (1925-1970)





Kimitake Hiraoka (1925-1970), dito Yukio Mishima, famígero homem de letras, militante fascista e sociopata nipônico, padeceu transpassamento de notável dessuetude.

O preclaro escritor, vale dizer, nunca foi figura das mais usitadas; consta, por exemplo, que na infância sentia atração sexual pela imagem de São Francisco Xavier, tendo-lhe inclusive prestado páticos preitos nos 'templos de Onan'...

Ora procedamos, todavia, à decedura em tela: a 25 de novembro de 1970, Mishima, acompanhado por seus correligionários de TATENOKAI (movimento político de extrema-direita nostálgico do regime militar japonês das décadas de 30-40), tomou de assalto o campo de Ichigaya, Quartel-General em Tóquio do Comando Leste das forças armadas japonesas. A tresloucada brigada de insurrectos envencilhou o comandante da unidade, barricando-se em seu escritório; isto feito, Mishima assomou à sacada do edifício e, de acordo com o talante do movimento, principiou a arengar a soldadesca, tentando convencê-la a cerrar fileiras para promover um golpe de estado restaurando a monarquia absoluta sob a égide d'uma ditadura militar. Baldos foram, no entanto, tais intentos, uma vez que os militares, em tremebundo alarido, apuparam-no e ameaçaram-no nos termos mais amarescentes; à Mishima, em estado d'ânimo sobremaneira astroso, nada mais restou senão cometer seppuku, o solene suicídio ritual dos samurais nipônicos, ato que foi rematado, consoante às mais prístinas tradições do bushido, por sua decapitação, levada a cabo pelo confrade Hiroyasu Koga.


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Euclides da Cunha (1866-1909)






















Déifico arcano das letras brasileiras, o impertérrito Euclides da Cunha (1866-1909) teve, no entanto, uma cacotanásia das mais vexatórias e patéticas.

Em 1905 sua extremosa esposa Ana Emilia, então com 30 anos, travou conhecimento com um belo efebo de 17 anos, Dilermando de Assis, cadete da Escola Militar. A despeito da disparidade de idades, teve então princípio um rumoroso idílio amoroso, passando inclusive nosso Homero dos trópicos pelo supino labéu de registrar como seus dois frutos do ignominioso adultério. Em 1909 a situação tornou-se veramente insustentável, e Ana mudou-se no dia 14 de agosto para a casa de Dilermando.

No dia 15, por volta das 10 horas da manhã, Euclides bateu à porta do ínvio Dilermando, sendo recebido por seu irmão, Dinorah; tresvariado, o egrégio erudito desferiu-lhe dois balázios, o segundo alojando-se na nuca. Dilermando, por sua vez, foi alvejado na virilha e no peito; atirador exímio, o armígero amásio tencionou desarmar Euclides com disparos no pulso e na clavícula. O insigne galardão da cultura nacional tentou evadir-se, mas um tirázio fatal de Dilermando acertou-lhe as costas. Ao filho Solon, que lá estava quiçá tentando reconduzir a mãe ao lar desfeito, o pai moribundo disse: "perdôo-te"; ao escalfúrnio militar: "odeio-te"; e, por fim, à mulher: "honra... perdôo-te".

Post-Scriptum

No dia 4 de julho de 1916, Quidinho (Euclides da Cunha Filho), aspirante da Marinha, logrou encontrar-se com o homizieiro de seu pai no Cartório do 2º Ofício da 1ª Vara de Órfãos, no Rio de Janeiro. Sacou então sua pistola, ferindo Dilermando; este, por sua vez, ripostou com três disparos, matando o infausto herdeiro.


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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

quinta-feira, julho 13, 2006

Às armas, Mavortes do Senhor!



Ò CHRISTUS PANTOCRATOR, preternatural Sustentador de Mundos, da Arcana Colestia supino magister: cá dos mírificos contrafortes do Bastiani oiço que no divo País dos Cedros, seus tiésteos, sanguissedentos do Armadggedom taróis o crúévil SATÃ uma vez mais troar fez, assim reencetando o metuendo gládio cósmico! Destarte, é de sobejo não procrastinável e excelso mister assegurar-te que em máximo alerta a Cavalleria Tartárica já está, disposta a incontinente precipitar-se em formidanda cavalgata ao mais evanescente aceno Teu!!!

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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

domingo, julho 02, 2006

Warum hörst du dir nicht Faust an?




Já amiúde manifestei, ó supinos confrades, minha predileção especialíssima pelo Faust, mas creio que ainda não detalhei a razão principal de meu sempre crescente fascínio pela banda. Pois bem: tal encantamento se deve sobretudo ao facto de que a lendária formação germânica logra conjurar, sempre com naturalidade e surpreendente fluidez, o mais perfeito equilíbrio dinâmico entre RUÍDO e POESIA, CAOS e LIRISMO, TERROR e HUMOR. Assim sendo, temos, por exemplo, em Miss Fortune (que encerra o Clear Album), ao fim e ao cabo de violenta tempestade elétrica de microfonias abissais, cânticos sinistros e alucinações eletrônicas, um lírico recitativo a duas vozes em compasso de trovar medieval, rematado de forma evocativamente enigmática pelos belíssimos versos "...and at the end realize that/ nobody knows/ if it really happened" (rutilante metalingüagem a colocar em questão a própria existência do que acabamos de vivenciar...) ; So Far, emanação mais freneticamente acid rock da banda, culmina com ...In the Spirit, número a um só tempo cômico e poético, em ritmo de cabaret/music hall lisérgico; Faust Tapes, por seu turno, apoteose da desorientação fragmentária kraut, apresenta peças como Der Baum, cíclica paisagem de tambores esparsos, cordas minimalistas e vozes em superposição entoando, em mesmerizante hipnose, uma apologia a um só tempo plácida e inquietante à tranqüilidade doméstica.

Há que salientar que um disco tão brilhante e emocionante quanto Faust Tapes realmente desafia minha capacidade de análise: não sei bem o que dizer sobre ele, e temo perpetrar um aluvião de asneiras em quaisquer tentâmenes que venha a levar a cabo; não obstante, consoante estabeleci antes, o álbum em tela é sem dúvida o ápice da banda em termos de desconstrução paródica não somente do rock’n’roll, mas do próprio parâmetro de linearidade inerente à tradição da música pop. Assim sendo, não importa para nossos admiráveis terroristas sônicos estabelecer um fluxo discursivo contínuo e coerente, mas sim conjurar caóticas miríades de micronarrativas musicais transfigurando vozes espectrais, desvario eletrônico, ruídos ambientais, pastiches variados e anarquia infrene, para então fundi-las, subvertê-las, desintegrá-las e reconstituí-las numa espécie de nebulosa do caos em permanente metamorfose.

Isto posto, alguns bons anos de atenta e apaixonada audição das epifanias faustianas me levaram a compreender melhor aquele que talvez seja o grande 'segredo' desses teutônicos geniais, mormente do álbum em tela: a beleza extraterrestre que emana de suas passagens melódicas. Se antes me fascinavam sobretudo os momentos de dadaísmo sônico dos arcanos kraut, isto é, o terrorismo fragmentário das colagens noise e das justaposições imprevisíveis, hoje constato quão importante é para o efeito global da banda o contraponto onírico de seus momentos mais serenos, justamente pelo facto de que o ethos alienígena que caracteriza o Faust neles se processa de uma forma sutil e envolvente. Tomemos em consideração, por exemplo, uma composição como Flashback Caruso, uma sedutora balada de modulações psych folk gradativamente pervertida por drones agônicos de moog, num magistral efeito de estranhamento progressivo; ou então a maravilhosa Chére Chambre, um surreal monólogo em stream of conciousness de Jean Hervé Peron, embalado por bucólicas tramas de violões, onde a críptica, alucinatória ambiência do poema em prosa colide / irmana-se com o caráter meditativo e plácido da música que o acompanha.






Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

quinta-feira, junho 08, 2006

In Memoriam II

Alphonse van Worden - 1750 AD



Ó preclaro confrade d'armas Abu Musab al-Zarqawi, longânime e intimorato armígero do mirífico AMIR UL-MOMINEEM, que para ti se descortinem as transcendentes alamedas da Arcana Coelestia!!!


quinta-feira, junho 01, 2006

Hadaka No Rallizes: the acid dawn of the Rising Sun



A garage hermétique transpsicodélica do arquipélago do Sol Nascente é uma cornucópia aparentemente infindável de deleite e perplexidade para os cultores do psych rock em seu estágio mais extremo e esmerilhante de desorientação sônica. Formações tais como Fushitsusha, Taj Mahal Travellers, Flower Travellin’ Band, High Rise, AMT, Musica Transonic, Mainliner, Boris, etc. são sublimes exercícios de puro delírio sem quaisquer concessões e recuos, explorando com máxima audácia todos os desvãos da psicodelia, da plácida hipnose dos devaneios de folk psicoativo até colossais maremotos elétricos transbordantes de white noise e brutalismo percussivo. E na raiz de todo este estraçalhamento psíquico de garagem, influenciando de forma decisiva a siderurgia sonora japonesa ulterior, está a mitológica banda que ora iremos abordar: Hadaka No Rallizes / Les Rallizes Dénudés.

Como todo lost classic que se preza, não seria possível falar em HNR sem referir sua acidentada trajetória. Pois muito bem: a banda formou-se em novembro de 1967 na Universidade de Kioto, tendo como eixo criativo e existencial precípuo a críptica e mefistofélica figura de Takashi Mizutani, um misantropo nosferatu neogótico envolto em eterno couro preto e óculos escuros impenetráveis. Entre 1968-69 o grupo tocou bastante ao vivo, mormente em festivais universitários, happenings políticos e também em parceria com uma trupe local de teatro avant-garde, tornando-se conhecido pelos teores excruciantemente altos de microfonia e distorção de suas maciças jams psicosônicas. Desde o começo Mizutani e sua gang estavam intimamente ligados à esquerda revolucionária japonesa, tendo participado de numerosas demonstrações estudantis contra a Guerra do Vietnã e da ocupação da Univ. de Kioto em 1969, em protesto contra a presença militar imperialista dos EUA no arquipélago japonês. Em 1970, um dos integrantes da formação original, o baixista Moriyasu Wakabayashi, seria preso em virtude de sua participação no chamado ‘incidente Yodo-Go’, quando membros do movimento guerrilheiro Sekigun (Exército Vermelho Japonês) seqüestraram um avião comercial e o desviaram para a Coréia Popular. Mizutani também estava envolvido com o Sekigun, de modo que os concertos de seu grupo em larga medida logo se tornariam eventos clandestinos; conta-se que num deles, por exemplo, a banda tocou numa escola secundária, distribuindo para a platéia de estudantes cópias mimeografadas de textos de Hegel, Lenin, Che Guevara, Cervantes, Nietzsche e Ed Sanders.

Malgrado o Hadaka No Rallizes tenha continuado a apresentar-se com regularidade no decorrer das décadas de 70 e 80, nenhum registro fonográfico seria lançado neste longo período, e as sessões de gravação em estúdio tampouco foram algo freqüente na rotina do grupo. Em 1991, quando quase ninguém mais sequer lembrava de sua existência, o grupo, numa inesperada reviravolta, criou um selo (Sixe) e lançou 3 álbuns simultaneamente:'67-'69 Studio and Live, Mizutani - Les Rallizes Dénudés e '77 Live, todos em limitadíssimas edições que logo se tornariam raridade e passariam a ser disputadas a tapas e preços exorbitantes por legiões de ansiosos arquivistas do underground. A banda voltaria à obscuridade após este surpreendente surto de atividade, encerrando definitivamente suas atividades em 1996.

Dos três álbuns oficiais lançados em 91 (pois há toneladas de bootlegs em vinil, CD e CD-R, sobretudo nos últimos 3 anos), '77 Live é indubitavelmente o melhor, apresentando o HNR em seu habitat natural, o palco, quando a banda escancarava as portas de percepção em tonitruantes workouts de noise rock demencial, com patente destaque para o gerador hellraiser de alucinações psicodélicas seriais em que Mizutani converte sua guitarra elétrica, em fascinante contraste com o tom old fashion e alicerçado nas tradições de rock singing de seus vocais; e se nas gravações de estúdio os camaradas costumavam praticar um acid / psych rock relativamente ‘estruturado’, ao vivo a coisa realmente muda de figura, e como...! Imaginai, pois, um Velvet Underground marciano com transtorno de personalidade borderline, integrado por pinheads viciados em benzedrina e munidos de instrumentos de enésima categoria, tocando uma interminável Sister Ray dentro de um pântano radioativo, com o som saindo por uma vitrolinha mono defeituosa mas amplificada por 1000 PA’s, e tereis uma vaga idéia do que vós encontrareis pela frente neste álbum...




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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

Em defesa do 'Populismo'!

Alphonse van Worden - 1750 AD






Reaparece um espectro sobre as Américas - o espectro do populismo. Todos os poderes do Novo Mundo estão a conjugarem-se para a santa caçada a esse espectro, os lambe-botas do Império, os jornalistas e políticos 'sérios', os intelectuais soi disant 'bem pensantes'.

Unem-se todos os sabichões e homens probos, pois, na satanização ritual da besta-fera populista, ora encarnada sobretudo no venezuelano Hugo Chávez e no boliviano Evo Morales, cujos maus exemplos de soberania e desassombro político suscitam reações indignadas nos que desejam ver o continente eternamente agrilhoado às estruturas de submissão internacional; assim sendo, não se pode permitir que Chávez, por exemplo, promova o surgimento do poder popular de base via círculos bolivarianos, nem tampouco o resgate da dívida social de seu país por meio das missiones; da mesma forma, deve Morales ser impedido de prosseguir em sua lídima defesa do patrimônio energético boliviano. Aliás, trata-se da mesma sórdida e espúria 'indignação' que se voltou no Brasil contra Getúlio Vargas e João Goulart; no México contra Lázaro Cárdenas; em Cuba contra Fidel Castro; na Guatemala contra Jacobo Arbenz; na própria Bolívia contra Juan José Torres; no Peru contra Velasco Alvarado; na Nicarágua contra Sandino; em El Salvador contra Farabundo Martí; na Argentina contra Perón; enfim, contra todos os que, com maior ou menor acerto, de forma mais ou menos revolucionária, com maior ou menor êxito e permanência, tentaram de alguma forma implementar reformas sociais profundas em nosso continente; reestruturar nossas economias nacionais em bases soberanas e voltadas para o desenvolvimento humano; promover a defesa da cultura nacional e das matrizes simbólicas mais profundas de nossa gente; libertar nossos países da obscena ingerência política, econômica e cultural dos Eua; em suma, contra todas as tentativas de mudar o destino de nosso continente, de desbravar novos horizontes de justiça social e prosperidade econômica.

Cá no Brasil esta perseguição inquisitorial deita raízes intelectuais mormente no cardinalato das ciências sociais uspianas, esfera onde todos, dos Florestan Fernandes aos FHC; dos Giannoti aos Ianni; dos Weffort aos Bresser; enfim, todos os apóstolos do "padrão científico de trabalho" (como se a sociologia tivesse real lastro científico, que piada!) contra a riqueza literária da tradição ensaística de nosso pensamento social (algo patente na produção intelecual isebiana, por exemplo), os 'sumo-sacerdotes' do 'credo' paulistocêntrico, quer sejam tucanos, quer sejam petistas, em uníssono se irmanam no 'horror sagrado' a Getúlio Vargas, a João Goulart, a Francisco Julião, a Leonel Brizola, a Miguel Arraes; ou então, no plano acadêmico, a Alberto Torres, a Werneck Sodré, a Gilberto Freyre, a Guerreiro Ramos, a Darcy Ribeiro, a Vieira Pinto. Não admitem, pois, que os alicerces para o desenvolvimento econômico auto-sustentável de nosso país tenham sido lançados durante o tão demonizado regime do Estado Novo, nem que a cultura nacional tenha sido pela primeira vez pensada e planejada em bases autóctones e sistemáticas (vide Gustavo Capanema, Mário de Andrade, Villa-Lobos, etc.) exatamente durante este mesmo período; tampouco se lembram de iniciativas cruciais como o DASP, que estruturou todo o aparato do serviço público no Brasil, ou da criação de empresas como a Petrobrás e a CSN, fundamentais para a industrialização de nosso país; da mesma forma, menosprezam com grande leviandade o significado do progressista governo Jango, quando pela primeira e única vez estiveram em pauta reformas verdadeiramente substantivas da estrutura do Estado e da sociedade brasileira; também se olvidam, vergonhosamente, da trajetória de lutas de um Brizola ou de um Arraes, homens que defenderam a democracia e a dignidade do povo brasileiro à custa de grandes sacrifícios pessoais. Tudo isto, pois, é vilipendiado em nome do marco zero da ‘modernidade’ política em nosso país, isto é, o advento da dupla dinâmica PT-PSDB, os gloriosos avatares da social-democracia 'iluminista', que vieram como heróicos 'paladinos' para resgatar o Brasil das trevas do autoritarismo (sem no entanto jamais atentarem tanto para o pior aspecto do legado da ditadura militar, que foi a submissão estrutural de nossa economia a mecanismos exógenos de controle; quanto para o que houve de melhor, isto é, a adoção de um projeto de desenvolvimento nacional para o Brasil, um 'norte' claro, preciso e meridiano, com amplos investimentos em infra-estrutura), bem como para evitar que a ‘irresponsabilidade’ de líderes carismáticos desvie nossa país da cartilha ditada pelos centros de poder internacionais.

Todos estes enciclopedistas de fancaria, políticos ‘responsáveis’ e homens de imprensa ‘sérios’, confluem para o mesmo cantochão monocórdio: abaixo o populismo! Não obstante, há algo de profundamente inconfessável nessa 'cruzada' secular, um ‘não dito’ nebuloso e tenebroso: o ódio senhorial desses augustos 'fidalgos' não está voltado tão somente contra determinados políticos ou ideologias, mas também contra a própria alma do homem latino-americano, contra nossos povos atavicamente emotivos, místicos, messiânicos e fatalistas, de todo avessos aos ideais ‘civilizados’ de ultramar, cultuados em prosa e verso por essas elites exógenas que tencionam escravizar nossos corações e mentes a credos que não nos representam. Destarte, o que denominam ‘populismo’ é a vera expressão política de nosso ethos mais recôndito e vital, a emanação mais profunda de nossos desígnios e sonhos, o alpha e o omega de nossa imorredoura luta por dignidade e independência. Tais pseudo-aristocracias detestam, em suma, a própria alma do povo.

Não obstante, meus caros confrades, o generoso sonho dos grandes caudilhos libertários permanece vivo, não só como memória histórica mas como combate hodierno! Não nos envergonhemos, pois, de prosseguir na refrega pelo resgate político, econômico, cultural e existencial de nosso continente, seja através da luta política tradicional, seja por intermédio das teologias messiânicas da ação revolucionária que estão a emergir. E pouco incomoda-nos o facto de que os envenenadores da consciência pública nos pespeguem o rótulo de ‘populistas’! Assumiremos esta ou qualquer outra alcunha, pois o que realmente importa é a infrene defesa dos ideais históricos de nossa gente!

segunda-feira, maio 01, 2006

Iran Atomique

Alphonse van Worden - 1750 AD






Ó fádico Custódio do Concento Universal, supino Alcaide da Guerra Cósmica, que Tudo vê sem visto Ser, à República Islâmica do fero átomo consagra os formidandos arcanos, de modo que maculá-la o horrípilo Satã não possa!


Banzai!!! - III


























Desde os idos de 1996, quando o guitarrista, enciclopédia ambulante de música weird e auto-proclamado guru patafísico japonês Makoto Kawabata, egresso de experiências delirantes com formações tais como Mainliner e Musica Transonic, decidiu criar a banda / comuna sônico-místico-transcendental Acid Mothers Temple & The Melting Paraiso U.F.O. (Underground Freak Out), o universo vem sendo assolado por um abstruso maremoto cósmico de ultra-psicodelia psicótico-mind blowing de proporções absurdamente inauditas: Kawabata e sua impagável troupe de psycho-freaks (uma extravagante entidade polimórfica cujo número de integrantes varia entre 4 e 15 componentes) lograram, pois, resumir / reciclar / sublimar / expandir toda a multitentacular garage hermétique da psicodelia ao longo dos anos, levando à máxima perfeição um mister em que os filhos do Sol Nascente se revelam particularmente eficazes: o reprocessamento criativo de tradições culturais alienígenas.

Como descrever o mefistofélico sabbath sônico conjurado pelo AMT? Pensem numa espécie de usina nuclear musical, onde foram precipitados como combustíveis todo o krautrock de matriz psicodélica (Guru Guru, Ash Ra Tempel, Amon Düül II, Brainticket, Cosmic Jokers, etc.); ‘artefactos’ desarvorados da cena psych européia dos anos 60-70 (Le Stelle di Mario Schifano, Parson Sound, Älgarnas Trädgård, Alrune Rod, Povl Dissing, etc.); os titãs transatlânticos da psicodelia estadunidense (de nomes notórios como Blue Cheer e Jimi Hendrix à monstruosidades terminais como Father Yod, Anal Magic & Rev. Dwight Frizzell, Cromagnon, etc.); anomalias britânicas da estirpe de Hapshash & The Coloured Coat, Deviants, etc.; a alquimia eletrônico-minimal de Terry Riley, Steve Reich e outros luminares. Considerada toda essa assombrosa plêiade de influências, tentem agora imaginar tudo isso levado às últimas conseqüências da desmesura sônica intergalática, arsenal esse ambientado em diversas formulações, que variam desde narcolépticos e gentis drones de corte folk-psicoativo a descomunais maelstrons elétricos encharcados de avassaladoras microfonias guitarrísticas over the top, assombrações apavorantes de teclados space rock em colapso nervoso e magma percussivo estraçalhante... can you dig it…?

Consegui até agora reunir, devo dizer, apenas 7 ‘emanações’ do AMT, uma fração modesta de seu vastíssimo output, considerando que a prolífica gang de Kawabata lança de 5 a 6 discos por ano desde sua fundação, num montante que já atinge mais de 40 álbuns. Todavia, o álbum em tela - Electric Heavyland, lançado em 2002 pelo selo canadense Alien8 - tem sido considerado pelos mais refinados experts em AMT como a mais intensa e insana tempestade de desespero eletromagnético e devastação mastodôntica já urdida pela banda. Tal avaliação crítica não poderia ser, creio eu, mais precisa e acertada: o que temos aqui são 3 assombrosas, avassaladoras jams ultra/mega/hiper-psicodélicas, avalanches incontroláveis de white noise desfechadas por Kawabata formando walls of sound de energia vulcânica em estado magmático, ladeadas pelos a um só tempo lancinantes e hipnóticos space whispers de Cotton Casino, as devastadoras rajadas metálico-percussivas de Koizumi, a catatonia trovejante do baixo de Tsuyama e as espectrais muralhas alucinatórias de found sounds e efeitos eletrônicos produzidas pelos synths de Higashi e Casino. Descrever estas faixas em detalhe, tal como alguns resenhadores pateticamente tentaram fazer, me parece uma lide de todo insensata e improfícua, pois elas formam um continuum cuja coerência e significado tão somente se desvelam através de uma visão de conjunto.

Enfim... that’s all, folks, mas com a velha e cautelosa dica de costume: é uma obra aconselhável apenas para os mais afeitos a turbulentos cataclismas sonoros, isto é, para maníacos dotados de ouvidos devidamente ‘formatados’ por anos e mais anos de experiência com mutilações sonoras da mais alta periculosidade e octanagem, não digais depois que não vos avisei!

























Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

sábado, abril 08, 2006

A cultura de massas norte-americana e sua dimensão simbólica




Por mais que dela tentemos escapar, bem como fazer-lhe frente, a fabulação mitológica da cultura pop norte-americana é extremamente fascinante e hipnótica, operando com assustadora eficácia em todos os níveis, do mais evidente mainstream ao mais recôndito underground.

Seu principal instrumento de persuasão é, a meu ver, o sonho da liberdade individual irrestrita, seja num registro de jaez conformista, enfatizando a livre iniciativa capitalista, o ideal do self made man, seja num plano contestatário, sublinhando a revolta contra os velhos parâmetros e instituições. O que importa, pois, em todos os níveis, é a ênfase na capacidade de o indivíduo construir seu próprio destino, 'inventar' seu próprio modo de vida. Assim sendo, creio existir um invisível elo, um fio condutor, um jogo de linguagem que logra estabelecer um vasto arco conceitual abrangendo desde uma Britney Spears a um Jim Morrison. Não quero aqui aventar, é mister salientar, a hipótese conspiratória de um planejamento central coordenando tudo isto, mas apenas apontar a existência de uma weltanschauung latente neste universo cultural: a crença de que 'se você quiser, você pode'. Obviamente esta noção envolve um perigoso cariz reaccionário, já que desconsidera a necessidade da articulação coletiva como expediente mais importante num processo de transformação, mas também me parece trazer embutida em si um elemento progressista, que é a possibilidade de o indivíduo suplantar a circunstância de uma estrutura social, em escala micro ou macro, que lhe é desfavorável.

Há ainda outros aspectos relevantes que poderiam ser abordados, e sirvo-me aqui, para efeito de ilustração, de um tipo de filme para adolescentes muito comum na Holywood dos anos 80, obras a meu juízo extremamente sedutoras em termos de fabulação simbólica e imagética como Sixteen Candles (1984), The Sure Thing (1985), The Breakfast Club (1985), Pretty in Pink (1986), Ferris Bueller's Day Off (1986), Can't Buy Me Love (1987), etc. (boa parte deles dirigidos/escritos e/ou produzidos pelo genial John Hughes).

O aspecto mais paradoxal nestas produções reside no facto de que, a despeito de serem legítimos produtos mainstream da Indústria Cultural, não raro veiculam mensagens de conteúdo decididamente libertário e humanista. Ganchos temáticos arquetípicos tais como, por exemplo, o garoto tímido, gorducho e sensível ficar com a menina mais bonita da escola no baile de formatura, derrotando o capitão brutamontes do time de rugby; a mocinha desajeitada e pouco atraente, porém doce e sincera, e que no final consegue conquistar o rapaz mais disputado da escola; o garoto que à partida quer apenas sexo e romances passageiros, mas que aos poucos descobre a importância de um relacionamento com lastro afetivo forte; o latino, o negro, o homossexual, o aborígene, de início rejeitados pelo establishment oficioso dos 'louros, altos e fortes' da turma, mas depois plenamente aceitos, em aliança com seus colegas mais solidários; o jovem que de forma lúdica logra desafiar a autoridade constituída, seja na família, na escola ou n'outro âmbito, são situações que, a despeito de seu caráter eventualmente frívolo e pueril, comportam uma dimensão simbólica muito poderosa, uma vez que não somente configuram o triunfo do 'pequeno' e do 'fraco' sobre o 'grande' e o 'forte', mas também a vitória dos sentimentos autênticos, bem como dos valores de solidariedade e amizade, sobre o imperativo dos valores materiais, do egoísmo ou elitismo cruel.

Bem sabemos, claro está, que tudo isto é no mais das vezes uma cornucópia de ilusões idilícas com objetivos meramente lucrativos, mas é também inegável, quero crer, a presença larvar de uma dimensão potencialmente libertária nestes produtos, de uma mensagem subliminar de liberdade.

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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

sábado, abril 01, 2006

Apontamentos sobre o pensamento político católico II - a propósito de Thomas Stearns Eliot

Alphonse van Worden - 1750 AD





O significado de Thomas Stearns Eliot (1888 - 1965) para a literatura universal é uma questão que hodiernamente dispensa maiores considerações; não há, pois, vertente crítica, seja qual for sua orientação conceitual, que ignore o imenso valor e influência da obra do poeta e dramaturgo anglo-americano. As cadências ásperas e dissonantes; a sintaxe fragmentária e labiríntica; a desconcertante polissemia de acentos verbais; as analogias inusitadas; o complexo sistema intertextual de citações e alusões às mais diversas obras e autores, são hoje elementos plenamente incorporados ao labor poético contemporâneo, inelutáveis conquistas artísticas de nossa época; outrossim, a obra crítica do autor concernente a temas literários, ainda que não desfrute da mesma unanimidade valorativa, é também tida na mais alta conta, mormente em função de sua consistência analítica, erudição criativa e extremo rigor no manejo das fontes. Obras como The Sacred Wood (1920); Shakespeare and the Stoicism of Seneca (1928); The Use of Poetry and the Use of Criticism (1933); Elizabethan Essays (1934); ; On Poetry and Poets (1957) não são, portanto, alvo de maiores controvérsias na atualidade.

O ditoso fado acima esboçado, não obstante, ainda não foi encontrado pela produção ensaística do autor relativa a questões político-sociais. Tendo se definido como “um anglo-católico em religião, um classicista em literatura e um monarquista em política”, Eliot passou a ser considerado pela esquerda acadêmica, dominante em termos de estudos culturais nos dois lados do Atlântico, como uma espécie de duplo esquizofrênico, onde estariam esdruxulamente justapostas duas naturezas pretensamente antitéticas: o ‘revolucionário’ em matéria poética e o ‘reaccionário’ na esfera política. É mister salientar, em primeiro lugar, que não há um ‘par ordenado’ a priori necessariamente conjugando vanguardismo estético e ideológico numa equação permanente; há na história das idéias e das artes numerosos exemplos que desmentem tal assertiva da forma mais cabal: Dante, Calderón de La Barca, Goethe, Coleridge, etc., homens conservadores em lides políticas e inovadores em termos literários; em segundo lugar, devemos sublinhar que a obra poética de Eliot é ‘revolucionária’ no sentido mais recôndito e fecundo do termo, configurando-se como summa dialética e dinâmica da tradição cultural européia e de procedimentos estéticos renovadores; finalmente, é também preciso asseverar que o conservadorismo político está desde sempre presente na literatura eliotiana, e não apenas a partir de sua notória inflexão mística com Ash Wednesday (1930) e Sweeney Agonistes (1932); já em The Wasteland (1922), poema via de regra considerado como ponto culminante da inovação literária eliotiana, estão de todo evidentes as principais linhas de fuga de seu pensamento político: a) a permanente e grave reflexão sobre o contraste entre os valores perenes da civilização ocidental e o esvaziamento progressivo de tal legado nas manifestações religiosas e culturais da modernidade, caracterizadas por uma vacuidade histriônica e neurótica; b) a crítica do pragmatismo militante do homem contemporâneo, ser avesso ao substrato mítico e religioso que lastreia seus alicerces históricos e culturais, em ruptura flagrante com as raízes mais atávicas de sua própria existência; c) a necessidade, no seio do Ocidente, de um amplo processo de ascese espiritual; em The Hollow Men (1925), por seu turno, a indignação flamejante do poeta chega às raias do desespero metafísico, por completo descrente de quaisquer possibilidades de redenção para o Ocidente, sentimento patente em versos tão severos quanto pungentes: This is the dead land / This is cactus land / Here the stone images / Are raised, here they receive / The supplication of a dead man's hand / Under the twinkle of a fading star (III, 40-45). No esteio do supracitado turning point religioso, este profundo desalento progressivamente assumiria contornos mais contemplativos, até converter-se em serena meditação a propósito dos destinos da humanidade, como podemos constatar através da leitura dos Four Quartets (1935-42), pináculo maior da maturidade poética do autor; e é precisamente sobre a contrapartida teórica deste processo que iremos nos debruçar na nota em tela, adotando como balizamento as reflexões de Eliot acerca do declínio do Ocidente, temática presente sobretudo em The Idea of a Christian Society (1940) e Notes Toward a Definition of Culture (1948).

As convicções do poeta a respeito da decadência da cultura ocidental no bojo de uma sociedade caótica e destituída de ideais, universo agonizante e descrente, onde os valores tradicionais foram abandonados em nome de perversões tais como a psicanálise, o materialismo marxista e a filosofia nietszcheana, estão intimamente ligadas a seu medievalismo, isto é, à concepção da Idade Média como auge da civilização européia; neste particular é sem dúvida um pensador caudatário de toda uma linhagem do pensamento conservador dos séculos XVIII e XIX: Edmund Burke, Novalis, Joseph de Maistre, Louis de Bonald, Donoso Cortés, Otto Weininger, etc. De especial relevo no âmbito de nossa análise me parece ser a insigne figura de Georg Philipp Friedrich Freiherr von Hardenberg (1772 - 1801), dito Novalis, que para além do elegíaco hermetismo de seus magníficos Hymnen an die Nacht (1800) e da mística beleza do romance inacabado Heinrich von Ofterdingen (1801), foi também autor do ensaio de teologia política Die Christenheit oder Europa (1799); nesta instigante peça de apologética cristã, o escritor prussiano advoga um retorno à Idade Média, cuja unidade harmônica poderia regenerar uma Europa convulsionada por dissensões políticas e religiosas. A noção de um ‘todo’ uno e coerente, ou seja, de uma cosmovisão passível de articular de forma convergente e coesa as instâncias política, social, religiosa e cultural, bem como de conferir um sentido transcendente e maior à existência, é a perspectiva dominante neste escrito, consoante sua notável abertura nos revela: “Belos, esplêndidos tempos: a Europa era terra cristã, e a Cristandade habitava una este recanto de mundo humanamente configurado...”; esta mesma disposição, conforme veremos a seguir, desempenha um papel precípuo no pensamento eliotiano.

Para o autor anglo-americano, o ápice da civilização foi indubitavelmente atingido durante a Idade Média, quando a sociedade, a religião e as artes refletiam de forma exemplar um acervo comum de valores e princípios. A síntese cultural que o período medieval logrou alcançar, portanto, transfigura um modelo ideal de comunidade européia, unificando de modo harmonioso a vida no continente em seus mais diversos aspectos; destarte, toda a História ulterior nada mais seria que a ominosa crônica da paulatina degenerescência desse ideal, em processo que tem como marco simbólico inicial a morte de Dante Alighieri (1265 - 1321): a cristandade se decompõe em Estados independentes; a Igreja em seitas e heresias; o conhecimento em saberes especializados; a fé em ceticismo. O termo de tal trajetória seria o Ocidente contemporâneo, ‘terra devastada’ onde o poeta testemunha “a desintegração da cristandade, a deterioração de uma crença e de uma cultura comuns”. Eliot argumenta que não há como assumir uma posição intermediária ou indiferente no tocante a esta tétrica involução, afirmando que “há duas e apenas duas hipóteses sustentáveis a respeito da vida: a católica e a materialista”; assim sendo, ou nos batemos em defesa da ordem augusta e serena da Civitate Dei católica (muito embora Eliot não acreditasse ser exeqüível a restauração tout court da civilização medieval, mas sim de seu espírito norteador, numa perspectiva de cariz ‘restitucionista’ também advogada por figuras como Hilaire Belloc (1870 - 1953), por exemplo), ou então estaremos satanicamente a favor do pesadelo materialista. Qualquer visão de mundo que não se identifique integralmente com um dos pólos supracitados, como toda sorte de teologia protestante, o liberalismo ou o socialismo fabiano, não passa de repulsiva manifestação de hesitação timorata frente ao confronto essencial que nos envolve.

Malgrado certos elementos de sua teologia política sejam compartilhados por alguns autores de esquerda da mesma época, como o gravurista e poeta inglês William Morris (1852 - 1942), nostálgico das tradições de vida comunitária do medievo, e o escritor e militante anarquista alemão Gustav Landauer* (1870 - 1919), que descrevia o mundo capitalista como um universo corrompido e decadente, “de uma sinistra feiúra”, Eliot se inscreve na linhagem conservadora que já mencionamos, de que também fazem parte autores tão díspares quanto Charles Maurras (1868 - 1952), G.K.Chesterton (1874 - 1936) ou Ezra Pound (1885 - 1972), isto é, na esfera dos que deploram os horrores da modernidade capitalista mas não advogam uma via de superação revolucionária para a mesma; é melhor, pois, encarar como irreversível a decadência do Homem, nos diria Eliot, que imaginá-lo operando exclusivamente ao sabor de sua orgulhosa autoconsciência, de todo alheia aos desígnios salvíficos da Providência. Há, portanto, plena consciência do capitalismo como “desencantamento do mundo” (Weber), mas já não se crê na possibilidade de ‘reencantá-lo’ (o que só poderia ser logrado, em parte, por meio da criação artística) através de um improvável regresso ao orbe integrado e harmônico da cristandade medieval.

A despeito do significativo orbe de talantes, conceitos e propósitos que as separam, há uma evidente e nítida confluência entre utopias ‘regressivas’ e ‘progressivas’, de que modo que não é descabido especular sobre a viabilidade de um cenário quiçá quimérico, mas que nos é muito caro: a formulação de um ecumenismo político-teológico anticapitalista, capaz de contemplar a um só tempo o ‘ontem’ e o ‘amanhã’.



* Landauer também acalenta, vale sublinhar, grande nostalgia da cristandade medieval: “a cristandade, com suas torres e seteiras góticas (...) com suas corporações e fraternidades, era um povo no sentido mais poderoso e mais elevado da palavra: fusão íntima da comunidade econômica e cultural com o laço espiritual". Ou seja, há também, e isto é sumamente interessante em se tratando de um autor de esquerda, o desejo pelo retorno a uma concepção de sociedade unitária, una, harmônica, onde todas as esferas estão integradas sob a égide de um sentido maior.