sábado, outubro 01, 2011

Ad Majorem Dei Gloriam I - Sancta Inquisitio

















______________________________________


Ten. Giovanni Drogo

 Forte Bastiani

 Fronteira Norte – Deserto dos Tártaros

Os argumentos neo-dualistas na perspectiva 'fisicalista' de John Perry - I

Alphonse van Worden - 1750 AD
































No primeiro capítulo de seu livro Knowledge, Possibility and Consciousness (2001), John Perry nos diz que sua estratégia geral no decorrer da obra será a de defender uma versão do fisicalismo que adote as visões do senso comum sobre a realidade e a importância do caráter subjetivo da experiência. O autor denomina sua versão da concepção fisicalista como fisicalismo antecedente. A tese central de Perry procura evidenciar que os argumentos neodualistas fatalmente impingem ao fisicalismo doutrinas de que ele prescinde.

 Logo na abertura do livro Perry afirma que uma maneira de explicar o objetivo de seu livro seria dizer que ele constitui uma tentativa de demonstrar a coerência filosófica de uma passagem do filme Fantastic Voyage (Richard Fleischer, 1966). Na passagem supracitada os personagens estão atravessando, em seu microscópico submarino, o cérebro do cientista que devem salvar. Há uma espécie de vapor azul que surge em certa parte do cérebro, atraindo a atenção da equipe de resgate. Estarrecido Arthur Kennedy diz para Rachel Welch: “Veja, somos os primeiros a verdadeiramente ver pensamentos humanos”.

O episódio apresentado no filme de Fleischer assume ser concebível a possibilidade de que alguém observe, usando seus sentidos físicos, pensamentos ou experiências de outrem. Para Perry, essa é uma constatação óbvia, uma vez que acredita que nossos pensamentos e experiências constituem eventos em nossos cérebros. No entanto, como salienta o autor, a tradição filosófica consideraria como absurda semelhante concepção. Leibniz nos convida a imaginar um cérebro do tamanho de um moinho, que poderíamos percorrer e examinar tudo que estivesse acontecendo. De acordo com o filósofo alemão não veríamos nada semelhante a um pensamento ou experiência. O filósofo inglês A. C. Ewing, endossando o ponto de vista de Leibniz, afirma que conhecemos através da experiência o que significa sentir uma dor, as reações fisiológicas a essa dor, sabendo que essas duas instâncias são totalmente diferentes. As características mentais e fisiológicas de um estado cerebral podem pertencer a uma mesma substância, mas são diferentes em termos qualitativos, no sentido em que são dois conjuntos de qualidades distintos.

No entender de Perry, Leibniz e Ewing enfatizam o fato de que estar tendo uma experiência é inteiramente diferente daquilo que se supõe ser a percepção do que poderia ser um estado ou processo cerebral; ambos concluiriam que experiências e pensamentos não são estados ou processos cerebrais. Perry define essa concepção da seguinte maneira: dizer que isto, a sensação que estou percebendo quando, por assim dizer, olho para dentro, é isto, a coisa sobre a qual estou lendo, parece apenas um disparate. O absurdo derivará de quão diferente são as propriedades que notamos – as características subjetivas de nossa experiência - daquelas que imaginamos ver ou ler sobre. Esse argumento será denominado por Perry como argumento do lapso da experiência (experience gap argument, no original em em inglês).

O argumento do lapso da experiência poderia ser inicialmente rejeitado, nos diz Perry, pelo seguinte motivo: se tudo que acontece no universo é físico, então minha consciência deve ser física, e esta sensação deve ser física, a despeito de quão estranho isso pareça. No entanto, como o próprio autor reconhece, o supracitado argumento estabelece alguns problemas filosóficos que devem ser analisados mais acuradamente.

 Em primeiro lugar, deve ser destacado o problema apresentado pela relação de identidade. Identidade, tal como Perry a define, é simplesmente a relação que um objeto tem consigo mesmo e com nenhum outro. É, pois, a relação que se estabelece entre a e b quando existe apenas uma coisa que é simultaneamente a e b; se a e b são idênticos, devem então compartilhar suas propriedades, pois há apenas uma coisa cujas propriedades estão em questão.

À partida, tal definição parece favorecer o argumento do lapso da experiência. De facto, as propriedades que encontramos num estado do qual estamos subjetivamente conscientes, a sensação de dor, parecem bastante diferentes das propriedades associadas a qualquer estado cerebral identificado fisicamente. Um estado cerebral irá, por exemplo, envolver certas partes do cérebro, enquanto minha sensação de dor parece estar localizada em minha mão na medida em que possui uma localização corporal. No entanto, nos diz Perry, se atentarmos mais uma vez para a questão suscitada pelo problema da identidade, veremos que as coisas não são tão simples quanto pareciam à primeira vista. Não é suficiente demonstrar que as que as propriedades que descobrimos sobre a, considerado de uma maneira, são distintas das propriedades que associamos a b, considerado de uma outra forma. É necessário que demonstremos claramente que a não possui uma propriedade existente em b. escreve o autor: suponhamos que Arthur Kennedy e Raquel Welch estão em meu cérebro tendo sensações visuais sobre as diversas coisas que nele estão ocorrendo. Eu tenho uma sensação de dor. A questão não é saber se suas sensações visuais e minha sensação de dor são sensações de uma mesma coisa; é, ao contrário, saber se minha sensação em si mesma, a dor, é o estado, propriedade ou processo sobre o qual suas sensações visuais se referem. A dor que tenho é o estado cerebral que eles observam? Um mero apelo à lógica da identidade e à intuição de Ewing não são suficientes para provar o dualismo de propriedades, isto é, que características fisiológicas e mentais podem hipoteticamente pertencer a uma mesma substância, mas diferem em qualidades; nem tampouco, assevera Perry, um apelo à possibilidade de identidades informativas e até mesmo surpreendentes, porém verdadeiras, será suficiente para refuta-lo. A questão permanece: podemos realmente conceber a idéia de que esta sensação, este aspecto do que ocorre dentro de mim, seja ela uma dor de dente, uma dor de cabeça, o perfume de uma gardênia ou o sabor de um nabo, é um aspecto de meu cérebro que alguém, uma Raquel Welch em miniatura, poderia, a princípio, ver?

Perry afirma que tal concepção é plausível. A partir deste o ponto, o cerne de sua argumentação será dirigido contra três argumentos de filosóficos analíticos contemporâneos, que Perry encara como desenvolvimentos elaborados e variações do argumento do lapso da experiência: o argumento do zumbi, o argumento do conhecimento e o argumento modal. A posição sustentada por tais argumentos é denominada pelo autor como neo-dualismo.