sábado, outubro 31, 2015

A propósito da parábola "Diante da Lei", de Franz Kafka

 Alphonse van Worden - 1750 AD




Diante da Lei (1919) - Franz Kafka

Diante da Lei há um guarda. Um camponês apresenta-se diante deste guarda, e solicita que lhe permita entrar na Lei. Mas o guarda responde que por enquanto não pode permitir-lhe a entrada. O homem reflete, e pergunta se mais tarde o deixarão entrar. “É possível”, diz o guarda, “mas não agora”. A porta que conduz à Lei está aberta, como de costume; quando o guarda se põe de lado, o homem inclina-se para espiar. O guarda vê isso, ri-se e lhe diz: “Se tão grande é o teu desejo, experimenta entrar apesar de minha proibição. Mas lembra-te de que sou poderoso. E sou somente o último dos guardas. Entre os salões também existem guardas, cada qual mais poderoso que o outro. Já o terceiro guarda é tão terrível que não posso suportar seu aspecto”. O camponês não havia previsto tais dificuldades: a Lei deveria ser sempre acessível para todos, ele pensa; não obstante, ao observar o guarda, com seu abrigo de pele, seu grande e aquilino nariz, sua barba longa de tártaro, rala e negra, resolve que mais lhe convém esperar. O guarda dá-lhe um banquinho, e permite-lhe sentar-se a um lado da porta. Ali espera, dias e anos. Tenta infinitas vezes entrar, e fatiga o guarda com suas súplicas. Com freqüência, este entretém com ele breves palestras, faz-lhe perguntas sobre seu país, e sobre muitas outras coisas; mas são perguntas indiferentes, como as dos grandes senhores, e para terminar, sempre lhe repete que ainda não pode deixá-lo entrar. O homem, que se abasteceu de muitas coisas para a viagem, sacrifica tudo, por mais valioso que seja, para subornar o guarda. Este aceita tudo, com efeito, mas lhe diz: “Aceito para que não julgues ter omitido qualquer esforço”. Durante esses longos anos, o homem observa quase continuamente o guarda: esquece-se dos outros, e parece-lhe que este é o único obstáculo que o separa da Lei. Maldiz sua má sorte, durante os primeiros anos temerariamente e em voz alta; mais tarde, à medida que envelhece, apenas murmura para si. Retorna à infância, e, como em sua longa contemplação do guarda, chegou a conhecer até as pulgas de seu abrigo de pele, também suplica às pulgas que o ajudem e convençam ao guarda. Finalmente, sua vista se enfraquece, e já não sabe se realmente há menos luz, ou se apenas o enganam seus olhos. Mas em meio à obscuridade distingue um resplendor, que surge inextinguível da porta da Lei. Já lhe resta pouco tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências desses longos anos se confluem em sua mente numa só pergunta, que até agora não formulou. Faz sinais ao guarda para que se aproxime, já que o rigor da morte endurece seu corpo. O guarda vê-se obrigado a baixar-se muito para falar com ele, porque a disparidade de estatura entre ambos aumentou bastante com o tempo, em detrimento do camponês. “Que queres saber ainda?”, pergunta o guarda, “és insaciável!”. “Todos aspiram à Lei”, diz o homem ; “como é possível então que durante tantos anos ninguém além de mim pretendesse entrar?”. O guarda compreende que o homem já está para morrer e, para que seus agonizantes sentidos percebam suas palavras, diz-lhe junto ao ouvido com voz tonitruante: “Ninguém mais poderia pretender isso, pois esta entrada estava destinada somente para ti. Agora vou fechá-la”.

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A LEI, que emana das instâncias superiores do TRIBUNAL, parece revelar-se como esfera remota, etérea, de todo inacessível; assim sendo, o camponês desiste de lutar para acessá-la, abandonando por completo qualquer esperança de lograr a própria possibilidade de salvação / redenção, e resignando-se a aceitar expedientes sibilinos e intermediários (os presentes para o Guarda), cuja natureza tão somente pode ser definida como eminentemente inútil, fátua, e até mesmo, ao fim e ao cabo, diabólica. Há que mencionar ainda a profunda influência que o filósofo francês Blaise Pascal (1623 - 1662) exerceu sobre Kafka. Destarte, conforme o crítico literário austro-brasileiro Otto Maria Carpeaux (1900 - 1978) salienta, o problema com que o escritor tcheco se depara em sua obra “teria sido o da Justiça e da Graça. A religião judaica não conhece o dogma que mais preocupou Pascal, o do pecado original; por isso desconhece a Graça divina e só conhece a Justiça divina”. Em outras palavras: se o cristianismo predica a existência de um ‘pecado original’, ele também contempla sua possibilidade de redenção, que é o batismo em Cristo; no judaísmo, por outro lado, se não há ‘pecado original’, somente haverá redenção para os pecados humanos com o advento do Messias. Para o excelso crítico literário, aliás, a obra de Kafka não visa meramente o efeito da expressão ‘literária’, mas se configura como manifestação de sua metafísica, uma “metafísica do terror cósmico”, tal como Carpeaux admiravelmente a define.