sábado, dezembro 01, 2007

Notas de reflexão crítica X - a propósito de Hans Reichenbach

Alphonse van Worden - 1750 AD






- A propósito dos horizontes e linhas de demarcação do conhecimento científico, sobre os quais temos dito alguma coisa neste espaço, não poderíamos deixar de mencionar a figura exponencial de Hans Reichenbach (1891-1953), insigne lógico e filósofo alemão, mormente no que tange às suas considerações sobre o problema da justificação dos procedimentos indutivos.

- Um dos elementos axiais na epistemologia reichenbachiana é o postulado, ou seja, uma proposição que julgamos, ao menos em caráter temporário, como inequivocamente verdadeira, ainda que não possamos afirmar se de fato o é; habitualmente postulamos os eventos que possuem um grau máximo de probabilidade, isto é, acreditamos que o que se configura como mais provável é o que efetivamente ocorrerá; esta é, pois, a forma racional de atuação, sendo também o método de que quase sempre nos servimos, visto ser o mais prático. A finalidade da indução, argumenta Reichenbach, consiste em encontrar uma série de eventos cuja freqüência convirja num limite, em virtude do qual se formula um postulado cego, isto é, efetua-se a melhor previsão possível lastreada em experiências prévias, adotando o princípio de que apenas por intermédio de repetidas observações poderemos saber quão acertada foi a previsão estabelecida; se os dados obtidos confirmam o postulado cego e convergem para o limite previsto, constataremos sua precisão. Em outras palavras: se o limite existe, tal é o procedimento para encontrá-lo. A partir do limite, por conseguinte, já se torna possível atribuir um valor de probabilidade ao postulado cego, que desta maneira pode ser convertido em uma proposição dotada de significado.

- Esta forma de conceber a indução, é forçoso sublinhar, não almeja ter um caráter histórico. Reichenbach não pretendia asseverar que é forçosamente deste modo que se deve proceder ao fazermos ciência: seu intento, convém salientar, era levar a efeito una reestruturação racional do conhecimento científico, elaborar uma espécie de apologética da ciência; e é por esta razão, pois, que procurou enfatizar a diferença entre contexto de descoberta e contexto de justificação: o primeiro diz respeito às causas e móveis potencialmente presentes na gênese de uma premissa científica, que podem ser de natureza social, existencial, cultural, política, econômica, etc.; o segundo, por seu turno, relaciona-se aos critérios de cientificidade capazes de fundamentar de modo racional e consistente as hipóteses formuladas, de modo a estruturá-las num sistema conceitual coerente e ordenado. Para Reichenbach, a distinção nítida entre os referidos contextos é sobremaneira importante, uma vez que permitiu à epistemologia formular com clareza critérios de análise lógica universais e inequívocos, passíveis de verificar com precisão a validade científica de um enunciado.

- Tal procedimento, vale dizer, sem dúvida confere maior rigor e eficácia à investigação científica, uma vez que lhe proporciona maior clareza e densidade lógica na avaliação dos resultados da experiência. Destarte, o estatuto científico de uma teoria depende basicamente de seu contexto de justificação, sendo o contexto de descoberta algo de importância marginal, mormente psicológica. Desta maneira, portanto, as hipóteses teóricas são postuladas especulativa e livremente, mas sua ulterior fundamentação depende de rigorosos critérios lógicos que balizam o necessário cotejo com os fatos experimentais que elas pretendem descrever. É necessário salientar, argumenta Reichenbach, que malgrado o contexto de descoberta possa ser irracional, o contexto de justificação habitualmente coincide com o modo como os cientistas apresentam seus resultados ao público, ou seja, com uma estrutura compacta e coerente, desprovida de quaisquer incongruências ou elementos arbitrários; é também mister não confundir a distinção entre estes dois contextos com a postura indutivo-dedutiva ou com a hipotético-dedutiva, tendo em vista de que o contexto de justificação não é de caráter dedutivo, mas se trata de uma reconstituição do argumento que lhe confere coerência e o despoja do que a princípio eram somente conjecturas ou apostas especulativas, procedendo, pois, de maneira essencialmente indutiva; delineia-se portanto, na perspectiva de Reichenbach, como a justificação pragmática do indutivismo científico.

- Os contextos propostos por Reichenbach estabelecem, portanto, uma linha de demarcação epistemológica sobremaneira útil e precisa. seja nebulosa, muito pelo contrário. Há, pois, uma nítida distinção entre, por um lado, o momento de postulação de uma hipótese, para o qual vários elementos circunstanciais e subjetivos podem concorrer e, por outro, o momento em que essa mesma hipótese será fundamentada, isto é, será cotejada com os dados experimentais que tenciona descrever. Acrescento ainda que, tendo em mente que a descrição sistemática de um conjunto de fenômenos será sempre fatalmente mais ou menos aproximativa, me parece bastante profícuo raciocinar nos termos do que o matemático e epistemólogo brasileiro Newton da Costa denomina de 'quase-verdade', isto é, soluções que se revelam 'verdadeiras' até que, mediante a descoberta de um novo arranjo conceitual, a estabelecer uma aproximação ‘correspondencial’ mais exata entre objeto e sistematização teórica que as anteriormente vigentes, uma nova solução 'quase-verdadeira' seja formulada.

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