segunda-feira, dezembro 31, 2007

Epistolário Transfinito III (excertos...)

Alphonse van Worden - 1750 AD



























(...) e eis então, ó famígero confrade Drogo, qu'ogano hoje se colma! Tão memoroso quanto seu pervinco antecessor decerto não foi, é mister assinalar, mas nocentes seríamos caso olvidássemos as palmas logradas. À partida há que celebrar ditoso evento, já no apagar das luzes da presente elipse solar transcorrido: o auspicioso, veramente fádico, sicariato da oprobiosa vulgívaga de Karachi, sob a venturosa égide do ingente Sustentador de Mundos indubitavelmente sucedido; destarte, que seu anojoso espírito padeça, sob o do fero Iblis horrípilo azorrague, toda a metuenda plêiade de flagícios nos flamantes mármores de Jahannam existentes! Igualmente muliado seria, com efeito, que não nos regozjássemos com as eviternas demonstrações de nobreza, galhardia e imorredoura obstinação de nossos longânimes irmãos persas, bem como de nossos formidandos fraters da conspícua 'Terra entre 2 Rios', que das perenes colunas de Pasárgada às airosas colinas de Salah al Din, pertinacíssimos prosseguem no titânico gládio contra as terrulentas pravidades do obnóxio SATÃ; do CHRISTUS PANTOCRATOR e de علي بن أبي طالب - que tudo veem sem vistos serem -, portanto, fomos, somos e inexoravelmente seremos o incerne aríete, pois sob Seu sempiterno arnês fulgurantes estivemos, estamos e estaremos, a matar e a morrer em júbilo empenhados!


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(...) à vítrea resplendência dos fantasmáticos contrafortes do Bastiani, ó excelso armífero van Worden, contritos a velar e vigiar, na ínclita fé dos Eleitos irmanados, porfiaremos até o Tempo do Fim do Tempo, visto sabermos que na insondável teleologia do egrégio Custódio da Arcana Coelestia, se na Eternidade vicejamos, é no Século que pelejamos; dessarte, emérito condottiere da audaz Guarda Valona, em nossa deífica missão jamais esmorecemos, nossas hostes sempre diligentes na supina faina da Celestial Contenda, jolizes sob a égide do almo Condestável da Guerra Cósmica!


Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

sábado, dezembro 15, 2007

20 anos de TRIUNFOS e GLÓRIAS!!!

Alphonse van Worden - 1750 AD








Ó impertérrito Criador e Sustentador de Mundor, ínclito e divo Custódio da Fé dos Eleitos, alvíssaras!!! Há 20 anos aspergiste o rutilante aljôfar da Sabedoria Divina sobre a ummah palestina, e na sempiterna terra de Gaza então emergiu o mirífico Harakat al-Muqawama al-Islamiyya, a abençoada Resistência Islãmica, que a todos nós instrui, edifica, sublima e exalta com seu perene exemplo de coragem, fé, dignidade e persistência!


Allahu Akbar...Allahu Akbar...Allahu Akbar!!!

Louvor eterno à Resistência Islâmica!!!




sábado, dezembro 01, 2007

Nazismo & Sionismo: os 'Grandes Irmãos'




No que é um capítulo lamentável, mas sintomaticamente pouco conhecido, da História contemporânea, a ideologia sionista recebeu entusiástico apoio do regime hitlerista, uma vez que efetivamente representava uma 'solução' para o 'problema judeu': o acordo de transferência promovendo a emigração de judeus alemães para a Palestina, implementado em 1933 e abandonado tão somente por ocasião da II Guerra Mundial, é um patente, inequívoco e ESCABROSO exemplo da estreita colaboração entre lideranças sionistas e o regime nazista. Por intermédio de tal acordo, que estabeleceu uma rede de campos de treinamento para colonos judeus em toda a Alemanha, de modo a prepará-los para a 'terra prometida', o Terceiro Reich fez mais pela causa sionista que qualquer outro governo na época; afinal de contas, tanto nazistas quanto sionistas acalentavam um grande objetivo em comum: a criação de um Estado sionista, um gigantesco 'gueto' como solução para o 'problema judaico'.

De resto, os sionistas não estavam preocupados com a salvação das vidas judaicas, mas somente com a criação de um Estado judeu na Palestina. Em 7 de dezembro de 1938, Ben Gurion, que anos depois seria o primeiro Chefe de Estado sionista, declarou o seguinte: "se me fosse dado escolher entre salvar todas as crianças judias na Alemanha levando-as para a Inglaterra, e apenas metade delas conduzido-as para o Eretz Israel, eu escolheria a segunda opção, pois temos de levar em consideração não apenas as vidas dessas crianças, mas também a História do povo de Israel" (Yvon Gelbner, Zionist policy and the fate of European Jewry, Yad Vashem studies).

Eis, portanto, o nobre pensamento do maior dos próceres sionistas: às favas com a vida das crianças judias, o que importa é a 'História' do povo judeu, leia-se, o projeto político sionista!

Aliás, o próprio fundador da moderna ideologia sionista, Theodor Herzl (1860-1904), acreditava que o anti-semitismo europeu era um grande aliado para a causa sionista, tal como podemos ler numa estarrecedora passagem de seus "Diários": "os anti-semitas serão nossos amigos mais fiéis, e os Estados anti-semitas nossos mais firmes aliados" (Theodore Herzls Zionistische Schriften, Leon Kellner, ed. Ester Teil, Berlin: Judischer Verlag, 1920, p. 190). Profético, não é mesmo...? Há que frisar, aliás, que Herzl era 'useiro e vezeiro' na oprobriosa arte de acumpliciar-se com os mais acerbos inimigos de seu povo: em 1903, por exemplo, obteve de Vyacheslav von Plehve, ministro do interior do Império Russo entre 1902 / 1904 e notório promotor de pogroms anti-semitas , a promessa de "apoio material e moral na medida em que certas de suas medidas práticas sirvam para diminuir a população judia na Rússia”(Le sionisme, étude de droit international public, Paris, Jouve, 1920, p. 399 ss).

Herzl, vale dizer, era muito admirado pelo célebre Adolf Eichmann, ele mesmo, o luciferino coordenador da 'Solução Final'. Durante os primeiros anos do regime nacional-socialista, ainda na década de 30, Hitler encarregou Eichmann de administrar a questão judaica. Após a leitura de Der Judenstaat, de Theodore Herzl, e de "História do Sionismo", de Josef Böhm, Eichmann passou a simpatizar com a causa dos sionistas, a qual considerava 'idealista'.

Na década de 30, quando ainda não se cogitava o extermínio físico dos judeus, o governo hitlerista adotou a tática da “desassimilação” cultural, acentuando a identidade religiosa dos judeus que viviam sob seu domínio. Robert Weltsch, editor-chefe do jornal sionista Jüdische Rundschau, publicação voltada para a comunidade judaica, exortava entusiasticamente seus leitores: “Use-a com orgulho, a Estrela Amarela!”.

A etapa subseqüente ao processo de “desassimilação” foi a transferência de contingentes significativos de judeus para a Palestina. Rudolf Kastner, outro desses 'nobres paladinos' sionistas, foi, de facto, quem negociou pessoalmente com Eichmann a deportação dos judeus da Hungria para a Palestina. Os trens eram vigiados pelas SS, para garantir que os deportados chegassem em segurança a seu 'novo lar'.
Enquanto isso, o regime nazista continuava a destinar generosos recursos para entidades sionistas. Entre 1935 e 1936, já no âmbito das primeiras deportações de judeus, as organizações sionistas de captação de recursos receberam três vezes mais dinheiro do que no biênio 1931/32, período imediatamente anterior à ascensão do regime nazi. Vale também sublinhar que a circulação do semanário sionista de Robert Weltsch subiu de algo entre cinco e sete mil para aproximadamente 40 mil exemplares.

Por fim, é também mister ressaltar que a cooperação entre nazistas e sionistas sobreviveu inclusive à eclosão II Guerra Mundial. Em janeiro de 1941, uma organização de extremistas sionistas - a 'Organização Militar Nacional' (Irgun Zvai Leumi), também conhecido como Lehi ou 'Grupo de Stern', em homenagem a seu fundador Avraham Stern - propôs a diplomatas alemães em Beirute uma aliança político-militar. Eis aqui os termos mais importantes de tal documento:


The NMO which is very familiar with the goodwill of the German Reich government and its officials towards Zionist activities within Germany and the Zionist emigration program takes the view that: 1.Common interests can exist between a European New Order based on the German concept and the true national aspirations of the Jewish people as embodied by the NMO. 2.Cooperation is possible between the New Germany and a renewed, folkish-national Jewry. 3.The establishment of the Jewish state on a national and totalitarian basis, and bound by treaty, with the German Reich, would be in the interest of maintaining and strengthening the future German position of power in the Near East.

On the basis of these considerations, and upon the condition that the German Reich government recognize the national aspirations of the Israel Freedom Movement mentioned above, the NMO in Palestine offers to actively take part in the war on the side of Germany.

This offer by the NMO could include military, political and informational activity within Palestine and, after certain organizational measures, outside as well. Along with this the "Jewish" men of Europe would be militarily trained and organized in military units under the leadership and command of the NMO. They would take part in combat operations for the purpose of conquering Palestine, should such a front be formed.

The indirect participation of the Israel Freedom Movement in the New Order of Europe, already in the preparatory stage, combined with a positive-radical solution of the European-Jewish problem on the basis of the national aspirations of the Jewish people mentioned above, would greatly strengthen the moral foundation of the New Order in the eyes of all humanity.

The cooperation of the Israel Freedom Movement would also be consistent with a recent speech by the German Reich Chancellor, in which Hitler stressed that he would utilize any combination and coalition in order to isolate and defeat England.


(in: David Yisraeli, The Palestinian Problem in German Politics 1889-1945 , Israel, 1947, pp. 315-317)


Vale ainda sublinhar que entre os anos de 1943 e 1948, tal organização foi dirigida por ninguém mais ninguém menos que Menachen Begin, futuro primeiro-ministro de Israel entre 1977 e 1983. Ou seja: um dos principais líderes políticos da História do Estado sionista colaborou DIRETAMENTE com o regime nazista durante a II Guerra Mundial. Difícil imaginar, creio eu, coisa mais sórdida e obscena.

No que concerne à questão dos marxistas judeus que eventualmente flertaram, em algum momento de sua trajetória política, com o sionismo, e que por vezes serve de duvidoso álibi para o horror sionista em certos setores da esquerda, é mister salientar o seguinte: o movimento 'real' jamais refletiu as concepções de tais pensadores, de figuras como, por exemplo, o teórico e militante trotskista belga Abraham Leon (autor de uma obra célebre, A Questão Judaica: uma interpretação marxista), mas sim o autoritarismo genocida, racista, terrorista e imperialista do Irgun Zvai Leumi, do Palmach, do Mossad, do Shin Bet, de figuras deletérias como Ben Gurion (aquele mesmo crápula que não se importava com a sorte de idosos e crianças judaicos, desde que seu projeto político fosse levado à frente), Golda Meir, Menachem Beguin, Moshe Dayan, Yitzhak Shamir, Ariel Sharon, Benjamin Netanyahu e outros odiosos carniceiros e assassinos. Infelizmente, portanto, assim como o socialismo efetivamente existente jamais correspondeu às idéias de Trotsky, Rosa Luxemburg ou Nikolay Bukharin, o sionismo REAL nunca teve a face de Abraham Leon (que aliás romperia com o movimento em 1940) ou Isaac Deutscher, mas sim a ominosa efígie dos criminosos de guerra acima referidos.

Vale lembrar, por fim, que os tão condenados atos de 'barbárie' atribuídos a movimentos como o HAMAS e a JIHAD ISLÂMICA foram cometidos em primeiro lugar na região por grupos sionistas; haja visto, por exemplo, o massacre da aldeia de Deir Yassin, no subúrbio ocidental de Jerusalém, quando a 9 de abril de 1948, 254 mulheres, crianças e idosos árabes foram assassinados no local por militantes do Irgun e do Palmach, então liderados pelos futuros primeiros-ministros israelenses Menachem Beguin e Yitzhak Shamir; ou então o ataque, promovido pelo Irgun, contra o King David Hotel em Jerusalem, o QG das forças de ocupação britânica na Palestina,
em 22 de julho de 1946, com 92 vítimas fatais. Destarte, os que condenam o terrorismo palestino veladamente celebram a prática dos mesmíssimos atos por parte dos Eua e de seu criado sionista... vejam, aliás, que curiosa inversão de causa/conseqüência: o terrorismo estatal sionista, que desde 1948, com notável e fervoroso apoio estadunidense, martirizou a vida do povo palestino, é tido como 'reação' à guerra popular de libertação nacional palestina, quando a verdade dos factos dispõe exatamente o contrário, isto, a luta palestina como conseqüência do imperialismo genocida do moloch sionista.






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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

Notas de reflexão crítica X - a propósito de Hans Reichenbach

Alphonse van Worden - 1750 AD






- A propósito dos horizontes e linhas de demarcação do conhecimento científico, sobre os quais temos dito alguma coisa neste espaço, não poderíamos deixar de mencionar a figura exponencial de Hans Reichenbach (1891-1953), insigne lógico e filósofo alemão, mormente no que tange às suas considerações sobre o problema da justificação dos procedimentos indutivos.

- Um dos elementos axiais na epistemologia reichenbachiana é o postulado, ou seja, uma proposição que julgamos, ao menos em caráter temporário, como inequivocamente verdadeira, ainda que não possamos afirmar se de fato o é; habitualmente postulamos os eventos que possuem um grau máximo de probabilidade, isto é, acreditamos que o que se configura como mais provável é o que efetivamente ocorrerá; esta é, pois, a forma racional de atuação, sendo também o método de que quase sempre nos servimos, visto ser o mais prático. A finalidade da indução, argumenta Reichenbach, consiste em encontrar uma série de eventos cuja freqüência convirja num limite, em virtude do qual se formula um postulado cego, isto é, efetua-se a melhor previsão possível lastreada em experiências prévias, adotando o princípio de que apenas por intermédio de repetidas observações poderemos saber quão acertada foi a previsão estabelecida; se os dados obtidos confirmam o postulado cego e convergem para o limite previsto, constataremos sua precisão. Em outras palavras: se o limite existe, tal é o procedimento para encontrá-lo. A partir do limite, por conseguinte, já se torna possível atribuir um valor de probabilidade ao postulado cego, que desta maneira pode ser convertido em uma proposição dotada de significado.

- Esta forma de conceber a indução, é forçoso sublinhar, não almeja ter um caráter histórico. Reichenbach não pretendia asseverar que é forçosamente deste modo que se deve proceder ao fazermos ciência: seu intento, convém salientar, era levar a efeito una reestruturação racional do conhecimento científico, elaborar uma espécie de apologética da ciência; e é por esta razão, pois, que procurou enfatizar a diferença entre contexto de descoberta e contexto de justificação: o primeiro diz respeito às causas e móveis potencialmente presentes na gênese de uma premissa científica, que podem ser de natureza social, existencial, cultural, política, econômica, etc.; o segundo, por seu turno, relaciona-se aos critérios de cientificidade capazes de fundamentar de modo racional e consistente as hipóteses formuladas, de modo a estruturá-las num sistema conceitual coerente e ordenado. Para Reichenbach, a distinção nítida entre os referidos contextos é sobremaneira importante, uma vez que permitiu à epistemologia formular com clareza critérios de análise lógica universais e inequívocos, passíveis de verificar com precisão a validade científica de um enunciado.

- Tal procedimento, vale dizer, sem dúvida confere maior rigor e eficácia à investigação científica, uma vez que lhe proporciona maior clareza e densidade lógica na avaliação dos resultados da experiência. Destarte, o estatuto científico de uma teoria depende basicamente de seu contexto de justificação, sendo o contexto de descoberta algo de importância marginal, mormente psicológica. Desta maneira, portanto, as hipóteses teóricas são postuladas especulativa e livremente, mas sua ulterior fundamentação depende de rigorosos critérios lógicos que balizam o necessário cotejo com os fatos experimentais que elas pretendem descrever. É necessário salientar, argumenta Reichenbach, que malgrado o contexto de descoberta possa ser irracional, o contexto de justificação habitualmente coincide com o modo como os cientistas apresentam seus resultados ao público, ou seja, com uma estrutura compacta e coerente, desprovida de quaisquer incongruências ou elementos arbitrários; é também mister não confundir a distinção entre estes dois contextos com a postura indutivo-dedutiva ou com a hipotético-dedutiva, tendo em vista de que o contexto de justificação não é de caráter dedutivo, mas se trata de uma reconstituição do argumento que lhe confere coerência e o despoja do que a princípio eram somente conjecturas ou apostas especulativas, procedendo, pois, de maneira essencialmente indutiva; delineia-se portanto, na perspectiva de Reichenbach, como a justificação pragmática do indutivismo científico.

- Os contextos propostos por Reichenbach estabelecem, portanto, uma linha de demarcação epistemológica sobremaneira útil e precisa. seja nebulosa, muito pelo contrário. Há, pois, uma nítida distinção entre, por um lado, o momento de postulação de uma hipótese, para o qual vários elementos circunstanciais e subjetivos podem concorrer e, por outro, o momento em que essa mesma hipótese será fundamentada, isto é, será cotejada com os dados experimentais que tenciona descrever. Acrescento ainda que, tendo em mente que a descrição sistemática de um conjunto de fenômenos será sempre fatalmente mais ou menos aproximativa, me parece bastante profícuo raciocinar nos termos do que o matemático e epistemólogo brasileiro Newton da Costa denomina de 'quase-verdade', isto é, soluções que se revelam 'verdadeiras' até que, mediante a descoberta de um novo arranjo conceitual, a estabelecer uma aproximação ‘correspondencial’ mais exata entre objeto e sistematização teórica que as anteriormente vigentes, uma nova solução 'quase-verdadeira' seja formulada.

quinta-feira, novembro 01, 2007

Notas de reflexão crítica IX - a propósito de Slobodan Milosevic e da secessão jugoslava

Alphonse van Worden - 1750 AD




- A despeito de todo o implacável e sistemático processo de satanização levado a efeito nos últimos 15 anos pela mídia mainstream ocidental, Slobodan Milosevic foi uma importante liderança antiimperialista, tendo especialmente lutado contra as deletérias, deveras criminosas, injunções germânicas na península balcânica, mormente sobre as ex-repúblicas iugoslavas da Croácia e Eslovênia, às quais Berlim tencionava ver sob sua esfera de influência política e econômica. Destarte, Milosevic foi obrigado a recorrer à força das armas para tentar manter a unidade da federação iugoslava, processo em que, como de sobejo sabemos, não teve sucesso.

- Vale também recordar a selvagem agressão militar sofrida pela então já mutilada federação iugoslava em 1999, quando forças da OTAN, 'Grande Satã' à testa, brutalmente bombardearam o país entre 24 de março a 10 de junho, assassinando milhares de civis e envenenando o meio-ambiente com armas de destruição em massa, mediante o emprego de 31 mil projéteis recobertos com urânio empobrecido durante a guerra (e cerca de 10 mil nos ataques preliminares em 1995) através de jatos A-10 Thunderbolt e tanques M1A1 Abrahms. Estima-se que o bombardeio de Kosovo causou pelo menos 10 mil mortes por câncer nos Bálcãs nos anos seguintes, e não só nas áreas diretamente atingidas; vale assinalar, aliás, que na Sérvia, bombardeada por milhares de projéteis recobertos com urânio empobrecido, a radiação era 30 vezes superior ao normal, e mesmo ao Norte da Grécia, a mais de 100 quilômetros da área de conflito, a radioatividade aumentou 25%.

- Convém também sublinhar que a morte de Milosevic ocorreu em circunstâncias sumamente suspeitas, tendo inclusive Borislav Milosevic, irmão mais velho do ex-presidente, culpado o atual governo sérvio e o tribunal das Nações Unidas pelo sucedido.

- A mídia ocidental difundiu a quimérica narrativa de que a Sérvia 'invadiu' a província de Kosovo, levando a cabo por conseguinte um ato de agressão contra a população local. Ocorre que o Kosovo é parte integrante da Sérvia desde prístinas eras, de maneira que não poderia ter sido 'invadido'; saliente-se, outrossim, o facto de que constitui um lugar sagrado para os de fé cristã-ortodoxa, destarte revestindo-se de grande força simbólica para a maioria dos sérvios. Tratava-se, pois, não de uma invasão estrangeira seguida de ocupação militar, mas sim de uma guerra civil travada entre o governo central e uma província separatista. Ademais, vale também lembrar que esta mesma mídia, tão escrupulosa e implacável na denúncia das 'atrocidades' perpetradas pelos sérvios, nunca demonstrou em interesse em divulgar o contínuo processo de intimidação e coerção da minoria sérvia pela maioria albanesa, sobretudo a partir de meados da década de 70, quando Tito teve a infeliz idéia de reformar a constituição jugoslava, concedendo maior autonomia às províncias de Kosovo e Vojvodina.

- É mister, outrossim, enfatizar que a gestão Milosevic não atendia aos interesses do capital internacional: além de não liderar um governo neoliberal como o de Franjo Tuđman na Croácia, por exemplo, o presidente sérvio privilegiava as relações econômicas com a Rússia, tradicional aliada dos sérvios, o que desagradava sumamente a Alemanha, sequiosa para converter todo o Leste Europeu em feudo exclusivo para seus conglomerados industriais e financeiros, no imo do processo de 'recolonização' econômica do Leste Europeu sob os auspícios da nação teutônica. Que fique, portanto, bem claro e assente: quem açulou o quanto pode os nacionalismos croata e esloveno foram os governos de Helmut Kohl e Gerhard Schröder, que possuem enorme responsabilidade em relação aos trágicos eventos ocorridos nas ex-repúblicas jugoslavas.

- O pragmatismo, desafortunadamente tão necessário em política, não raro nos obriga a optar pelo 'mal menor': Milosevic foi, sim, um líder político autoritário, até mesmo cruel, mas a Jugoslávia, sob sua égide, era um obstáculo para o projeto de 'reconquista' colonial do leste europeu pela UE, Alemanha à testa; nesse sentido, portanto, a meu juízo desempenhou um papel positivo.

- Por fim, uma observação de índole pessoal: conheço alguns brasileiros que viveram em Belgrado nos anos 70 e 80, e de facto tais pessoas atestam que a Sérvia efetivamente era uma sociedade multi-étnica harmoniosa e pacífica, ao passo que vicissitudes a esse respeito eram palpáveis nas demais províncias jugoslavas; de resto, a manipulação midiática denunciada por analistas isentos como o norte-americano Michael Parenti, segue o velho padrão 'orwelliano' que pauta a grande mídia soi disant democrática: satanizar ao máximo o inimigo, imputando-lhe crimes imaginários ou hiperdimensionando os existentes, na mesma medida em que se ocultam as atrocidades perpetradas pelos aliados. Assim sendo, Franjo Tuđman, notório criminoso de guerra e nostálgico do governo pró-nazi de Ante Pavelić e sua Ustaše, é cantado em prosa e verso como amante da paz e promotor de privatizações, ao passo que Slobodan Milosevic, governante de legado não mais violento que, por exemplo, um Fidel Castro, se converte numa espécie de Pol Pot eslavo.



Breve nota sobre a estupidez anticlerical

Alphonse van Worden - 1750 AD






Excelsos irmãos d'armas!

Amiúde vemos, aqui e alhures, psitacídeos anticlericais que, faltos d’uma argumentação minimamente consistente e coerente, vivem a trouxe-mouxe atacando a Igreja por dá cá aquela palha; disparando toda sorte de estultícias e parvoíces, e não raro recorrendo aos mais grosseiros chistes e patranhas, chegam às raias do mais rompante irracionalismo e da mais solerte ignorância ao torpemente negarem o óbvio ululante: a ingente, decisiva importância da Igreja para a civilização ocidental! Destarte, o móvel desta breve nova é demonstrar quão estólidas e disparatadas são tais cavilações.

A importância e influência da Igreja são de tal monta que não há, com efeito, sequer como propriamente mensurá-las com precisão, que dirá avaliá-las em detalhe... basta assinalar, creio eu, que o próprio 'Ocidente' (ou, caso prefiram, a 'civilização' / 'cultura' ocidental), essa grande síntese dialética entre as tradições greco-romana e cristã, é obra forjada pela Igreja.

Na medida, pois, em que a Igreja forjou a grande síntese entre as tradições greco-romana e cristã, e com isso criou a própria noção de 'Ocidente', bem como os alicerces de nossa civilização, ela fatalmente condiciona e determina todo o nosso universo conceitual. De maneira que o indivíduo ocidental, mesmo rompendo com a Igreja, permanece nos marcos do processo civilizacional que a Igreja instaurou. Ou seja, até mesmo para se posicionar contra a Igreja, o sujeito provavelmente terá de recorrer a um aparato conceitual que, em larga escala, foi gestado sob a égide da própria Igreja... ou seja, não há escapatória: mesmo contra a Igreja, estais inelutavelmente dentro dela! Aliás, vale também relembrar que ao longo dos séculos a Igreja tem acompanhado, em irônica e silente contemplação, as exéquias de inúmeros de seus pretensos coveiros...

De resto, a influência da Igreja é de tal modo multifacetada e abrangente, de tal maneira complexa e pervasiva, que se manifesta mesmo nos contextos aparentemente mais insuspeitos... desejais um exemplo? Sabeis qual foi uma das maiores influências de Lenin em sua concepção de partido revolucionário? Ninguém mais ninguém menos que Íñigo López de Loyola (1491 - 1556), mais conhecido como Santo Inácio de Loyola, fundador da Societatis Iesu, a celebérrima Ordem Jesuíta, assombrai-vos! Lenin tinha grande admiração pelos métodos de Loyola, que serviram como modelo de organização e código de conduta para a Companhia de Jesus, sem dúvida a mais disciplinada, aguerrida e eficaz ordem da história da Igreja Católica, os 'soldados da Igreja'. Assim sendo, Ullianov modelou o regimento interno do Partido Bolchevique, sobretudo em seu aspecto de máquina partidária monolítica e disciplinada, bem como integrada por revolucionários 'profissionais', a partir dos ordenamientos de Loyola.

Vede, portanto, diletos confrades, que esplêndida e emblemática ironia: o ínclito 'santo guerreiro' exerceu significativa influência sobre a obra mais importante do famígero ateu materialista que fundou o bolchevismo e liderou a primeira revolução proletária da História!

Rock'n'roll - 'sempre igual e, ainda assim, sempre diferente'




Amiúde observo, em numerosos veículos de informação dedicados à crítica musical, certa tendência crítica que altissonante proclama, como primado d'uma operação analítica 'séria', a necessidade de nos atermos exclusivamente à 'música' que estamos a escutar, sem atentarmos para a carga simbólica que lhe é adjacente; ora bem: tal clivagem é de todo inexeqüível e, de resto, indesejável, por duas razões muito simples.


1)
Em primeiro lugar, tal perspectiva não leva em consideração uma cabal evidência: toda manifestação da subjetividade humana (esfera em que, claro está, se incluem as obras de arte) comporta uma dimensão simbólica que lhe é indissociável. Tal carga simbólica é constituída pelos diferentes códigos de valores (ou 'contravalores', caso nadem contra a corrente) transmitidos socialmente de geração em geração através de culturas distintas; destarte, toda manifestação artística comporta, em caráter inalienável , um cariz simbólico, uma 'atitude', um acervo de valores, uma determinada visão de mundo.

Isto posto, é possível identificar 3 'fases' sucessivas na apreensão individual de uma obra de arte:

a) A primeira fase corresponde à intuição sensível imediata da obra, fenômeno de todo refratário a qualquer operação analítica; em outras palavras, trata-se, recorrendo aqui a um termo kantiano, de um 'juízo sintético a priori, por intermédio do qual estabelecemos, sem mediações e injunções paralelas, nossa primeira e insofismável impressão 'positiva' ou 'negativa' a propósito de uma determinada manifestação, impressão que poderá ser ratificada ou reformulado no decurso das etapas seguintes da apreciação estética.

b) A segunda fase, que inaugura a operação analítica propriamente dita, se instaura sob a égide da dimensão simbólica conjurada pela obra em tela. É, pois, o momento em que a 'personalidade' da obra, em cotejo com nosso quadro de valores, irá condicionar parcialmente nossa atitude em relação a mesma, reforçando ou enfraquecendo a impressão inicial.

c) A terceira fase, por fim, é aquela em que consideramos a excelência 'técnica' da obra, isto é, o nível de realização dos elementos que lhe são específicos em termos de puro labor técnico; observe-se que, malgrado seja de todas as fases mais puramente 'consciente' e racional, ela tão somente se faz presente num quadro já previamente condicionado e determinado pelas fases anteriores. Assim sendo, é apenas o remate da operação analítica, mas não seu fundamento.


2) Conforme assinalamos acima, "toda manifestação da subjetividade humana comporta uma dimensão simbólica que lhe é indissociável". Ora, esta característica está particularmente presente no objeto que aqui mais nos interessa e apaixona, o rock'n'roll; com efeito, creio ser de sobejo IMPOSSÍVEL pensar o rock'n'roll sem levar em conta sua inserção atávica num movimento contracultural muito mais amplo e profundo, que deita raízes nas vanguardas históricas do século XX, na explosão da cultura de massas nos 40/50, na literatura beat, d'entre outros influxos. Desta maneira, não seria irrazoável afirmar que as dimensões sociológica e simbólica do rock assumem uma importância que rivaliza com sua relevância como fenômeno puramente musical.

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Consideremos agora a frase que dá nome ao tópico: "o rock'n'roll é sempre igual e, mesmo assim, é diferente"; trata-se, creio, de uma reflexão que se estriba em dois fatores precípuos:

a) Existiria, perguntou eu, alguma 'unidade estética' no rock? Em outras palavras: há parâmetros, constantes musicais SEMPRE presentes em todas as vertentes do rock em seus mais de 50 anos de existência? A meu juízo, NÃO. Trata-se, desde o berço, de um gênero musical que nasce sob o signo d'uma intensa miscigenação estética, incorporando elementos das mais distintas fontes; não há, destarte, uma corrente principal dando unidade formal ao rock'n'roll, que surge, cresce e se difunde como voragem antropofágica a agregar / deglutir / reprocessar toda sorte de informação possível, modus operandi que, aliás, se faz presente na cultura pop como um todo. De modo que, de Elvis Presley a Orthrelm, passando por Kinks, Neu!, Kiss, Nurse With Wound e Arctic Monkeys, não há como identificar um unidade formal discernível.

b) Não obstante, há, assim acredito, a nítida presença de uma 'unidade ética' no âmbito do rock'n'roll, isto é, de um ethos que perpassa, em maior ou menor grau, de forma mais ou menos consciente, de modo mais ou menos autêntico, toda a multiforme galáxia do gênero. Tal modo de ser pode ser sintetizado, a meu ver, numa única palavra: INSATISFAÇÃO. Rock'n'roll, portanto, é 'desarrumar o arrumado'; dar murro em ponta de faca; nadar contra a corrente; apostar no 'errado' quando tudo está 'certo'; é desassossego, dissintonia, descompasso, dissonância, desarmonia; é, enfim, a sensação de que algo está fora de lugar, de que as coisas não encaixam, de que o que presentemente 'é' não necessariamente precisa 'ser'.

Unindo a agora as duas pontas da argumentação proposta, explica-se pq o rock'n'roll é "sempre igual e, mesmo assim, é diferente": é sempre igual pq é SEMPRE epifenômeno de insatisfação e desacerto com o mundo; e, por outro lado, é SEMPRE diferente, pois de Little Richards a Mainliner, de Carl Perkins a The Heads, de Rolling Stones a Merzbow, vive em permanente reinvenção estética, sempre incorporando novos elementos, ou a 'velhos' formatos nova configuração, simbiose contínua e dialética entre 'o que foi', 'o que é' e 'o que pode vir a ser', caleidoscópio em perpétua metamorfose.


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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

segunda-feira, outubro 08, 2007

Breve nota a propósito de abstruso lugar-comum




Não raro é possível observar, diletos irmãos d'armas, mormente no seio de certos risíveis conventículos de soi disant 'intelectuais de esquerda', a presença de ignaro preconceito contra as escolas filosóficas de orientação analítica, as quais soem identificar, de forma sobremaneira estapafúrdia e sem o menor fundamento, com posições políticas conservadoras.

Vale lembrar, à título de ilustração, que o Círculo de Viena, ínclita tertúlia de filósofos analíticos germânicos, foi implacavelmente perseguido pelo establishment acadêmico nacional-socialista... bem ao contrário, vale dizer, de outros autores, tais como, por exemplo, o famigerado Heidegger.

Aliás, é também mister recordar que o manifesto inaugural do Círculo (A concepção científica do mundo – O Círculo de Viena, publicado em 1929 e assinado por Carnap, Neurath e Hahn) cita alguns autores que exemplificariam e serviriam de inspiração para "concepção científica do mundo" ali advogada. Entre os mencionados estão, entre outros: Leibniz, Comte, Spencer, Russell e... Marx; vale dizer que a princípio não concordo com a inclusão deste último, mas é interessante mencionar o facto, de modo a desmistificar o tolo clichê que equaciona 'analíticos = conservadores'.

Por fim, o supracitado Otto Neurath, que do ponto de vista 'organizacional' e militante era o líder do movimento, se dizia marxista na linha do austro-marxismo. Chegou, inclusive, a participar do governo revolucionário da Baviera em 1918. Moritz Schlick, por seu turno, também era um homem de esquerda, posição política que, aliás, chegou a lhe custar a própria vida, vítima que foi dos balázios de um sicofanta nazi.

Reparai, portanto, diletos confrades, como são injustas, sordidamente inverídicas, certas avaliações apressadas: Nietzsche, por exemplo, um acerbo reaccionário, inequívoca fonte de inspiração para a ideologia nazi, é até hoje exaltado em prosa e verso por de 'libertários' de todas as latitudes, ao passo que homens da cepa de um Neurath, que militou no movimento comunista, ou de um Russell, grande humanista, sempre a postos contra toda forma de opressão, são absurdamente identificados com posições políticas direitistas.

Curiosa inversão de perspectivas, não é mesmo?



Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

segunda-feira, outubro 01, 2007

Notas de reflexão crítica VIII - a propósito da aleatoriedade inerente aos empreendimentos humanos

Alphonse van Worden - 1750 AD





















 - Visto não podermos prever a totalidade das conseqüências de nossos ações, bem como a impossibilidade de controlarmos inteiramente o curso de nossos iniciativas, um inexorável componente de aleatoriedade estará fatalmente presente em QUALQUER empreendimento humano; trata-se, com efeito, da inequívoca presença d'algo que não pode ser previsto, mensurado ou calculado, e que não raro exerce uma influência decisiva em determinados circunstâncias, mormente quando da prevalência da ação individual ou de um grupo restrito de indivíduos, tal como, por exemplo, num atentado terrorista.

- Tomando aqui em consideração a hipótese do atentado político, se determinado disparo falha o alvo por um milímetro que seja, isto ocorre de forma aleatória, independente de nossa vontade, pois desejávamos que o alvo em tela fosse atingido; destarte, o facto de, por exemplo, o Papa João Paulo II não ter sido assassinado por Mehmet Ali Agca em 1981, não se deve a qualquer arranjo de estruturas históricas em movimento, mas ao simples evento aleatório de o disparo ter acertado, em lugar do coração de Sua Santidade, uma medalha que ele portava ao peito. Escusado dizer que a morte de JP II naquele momento histórico, e em circunstância tão peculiar e violenta, teria conseqüências de considerável envergadura não apenas para a Igreja, mas para a geopolítica mundial.

- A possibilidade de erro, inerente às lides humanas, implica que variáveis aleatórias sempre estarão presentes no imo de qualquer ação que possamos levar a cabo. Continuando com o exemplo da tentativa de assassinato do Papa: Ali Agca visa alvejar o coração do Sumo Pontífice; situa-se à melhor distância possível do alvo; tenta calcular o melhor ângulo para fazer o disparo; estica o braço; e, enfim, faz o disparo.

- Congelemos agora o curso dos acontecimentos no exato momento em que o projétil emerge da arma de Agca: até o instante que ora isolamos na dinâmica espaço-temporal em tela, o concurso do elemento aleatório foi desprezível, malgrado não de todo ausente, conforme verificaremos. Destarte, fatores como a decisão de Agca em assassinar João Paulo II; a determinação das organizações (a KGB soviética / a NSS búlgara / a Stasi alemã-oriental / todas em conjunto, isto agora não importa) que eventualmente contrataram Agca para levar a cabo o atentado; as circunstâncias históricas, conjunturais e estruturais, de ordem estratégica e ideológica, que levaram tais agentes sociopolíticos à tentativa de eliminar a vida do Papa, são obviamente elementos de cunho objetivo, racionalmente deliberados, planejados, calculados, executados.

- Não obstante, há pelo menos um componente de jaez fortuito ocorrendo antes do átimo fatal que isolamos no fluxo do espaço-tempo: a posição de Agca no momento do disparo, se pensarmos no 'empurra-empurra' e em todos os incidentes que soem ocorrer em meio a aglomerações humanas, decerto não poderia ser estabelecida previamente com precisão, envolvendo, pelo contrário, um fortíssimo componente contingencial.

- Voltemos agora ao instante infinitesimal em que o balázio sai da arma de Agca. Muito bem: deste momento em diante, até a instante em que o projétil, após descrever uma dada trajetória, se aloja no corpo do Papa, a presença de fatores de ordem aleatória passa a ser precípua. Senão vejamos: a possibilidade de algum circunstante perturbar o equilíbrio de Agca, ou pelo menos de desviar, por um milímetro que seja, o braço que sopesa a arma; a eventualidade de Wojtyla desviar-se (para cima ou para baixo; para a esquerda ou para a direita; para frente ou para trás), mesmo que infimamente, da posição original em que estava no instante exato em que Agca assesta a pistola e faz pontaria; a circunstância de alguém (um guarda-costas, um cardeal, alguma outra autoridade presente) se posicionar à frente de JP II no hora do disparo; as condições atmosféricas (velocidade do vento, densidade do ar, etc.); etc, etc, etc., são alguns exemplos de fatores de âmbito rigorosamente aleatório que certamente interfiram, e de maneira decisiva, no decurso da efeméride que estamos aqui a considerar.

- Imbuídos quiçá d'uma vetusta e ultrapassada concepção determinista, poderíeis aqui avocar a presumida 'inevitabilidade' das leis da física. Pois bem: consoante sabemos hoje, através da mecânica quântica, um componente de indeterminação, de aleatoriedade mesmo, está presente na própria ontologia do objeto de conhecimento físico. Na mecânica clássica e relativística, o estado de qualquer sistema físico isolado, em um dado instante de tempo, fica precisa e completamente determinado pelo conhecimento, empiricamente adquirido, dos valores que correspondem à posição e ao momento linear de cada uma das partes desse sistema naquele instante de tempo; não há lugar, portanto, para valores probabilísticos. Não obstante, conforme a mecânica quântica demonstra, a interpretação de uma observação experimental de um sistema físico é algo mais complexo, envolvendo fatores de ordem contingencial. Poderá consistir de uma única leitura, cuja precisão terá de ser avaliada, ou então poderá consistir de um conjunto intrincado de dados, como no caso de uma fotografia de gotículas d'água na câmara de Wilson; em ambos os casos, o resultado só poderá ser expresso em termos de uma distribuição de probabilidades que diga respeito, por exemplo, à posição e ao momento linear das partículas do sistema. A teoria então poderá prever a distribuição de probabilidades para tempos futuros, mas não poderá ser experimentalmente verificada, em qualquer um desses instantes futuros, com base no resultado experimental segundo o qual os valores das posições, ou dos momentos lineares, estejam dentro dos limites preditos, em uma observação específica. A mesma experiência terá de ser realizada repetidas vezes, de maneira que os valores das posições e dos momentos lineares se distribuam de modo a configurar o esquema de probabilidades predito. A mecânica quântica introduz, por conseguinte, o conceito de probabilidade, e mesmo o de indeterminação ou aleatoriedade, na própria definição ontológica de estado físico.

- Em suma, caríssimos confrades: a única alternativa de que podeis dispor à patente constatação da presença do elemento aleatória em todas as empresas humanas, é a crença numa Inteligência Superior instaurando, desde a criação do Universo, uma predeterminação absoluta e fatal de todos os eventos per saecula saeculorum, até a consumação escatológica de todos os tempos; ou seja, uma perspectiva intelectualmente cabível, mas de todo avessa às evidências do pensamento científico.

The march of the chromed insanity




Eles já foram descritos por um crítico norte-americano como "Can tocando covers de Stooges no Hospício Central de um Estado totalitário intergaláctico"; e muito embora também possamos mencionar referências como Faust, Silver Apples e Hawkwind, penso que a supracitada definição não poderia ser mais exata: ao lado de outros nomes fundamentais como Père Ubu, Electric Eels e Suicide, os californianos do Chrome foram sem dúvida uma das formações mais inovadoras do underground estadunidense nos anos 70, levando a efeito uma fusão extremamente criativa e perturbadora entre psicodelia eletrônica em curto circuito, hard rock sideral de Alpha Centauri, sci fi apocalíptica, paranóia junkie e o nascente punk rock; ou seja, uma alquimia cyberpunk, na mais legítima acepção do termo, conjurando atmosferas pejadas duma estranhíssima e decididamente alienígena lisergia.

Em Half Machine Lip Moves , que é o terceiro trabalho dos caras, o desarvorado mix proposto pela banda atinge sua melhor e mais radical formulação, em rajadas sucessivas de vozes espectrais eletronicamente reprocessadas, tapes surreais, guitarras distorcidas e synths alucinógenos, tudo ancorado numa seção rítmica agressiva e metronômica. O aspecto mais fascinante do álbum é justamente a simbiose entre a virulência punk e a lisergia space; assim sendo, TV as Eyes, Zombie Warfare (Can’t Let You Down) e You’ve Been Duplicated soam como geniais aberrações 'cromossônicas', entes blasfemos urdidos por um Dr. Moreau movido a heroína, hipnose motorik e rock'n'roll mutante de garagem; por outro lado, em peças como Mondo Anthem, a faixa-título e Critical Mass, a banda tira o pé do acelerador para investir pesadamente, via hábil assemblage de efeitos de estúdio e found sounds, na construção de texturas ominosas e paisagens entorpecidas, evidenciando, destarte, a faceta mais experimental desta singular formação norte-americana.

Em suma, meus egrégios confrades: Half Machine Lip Moves é não apenas uma das grandes obras-primas da história do avant rock, mas também um 'elo perdido' crucial para os que pretendam mapear as origens do que há de melhor no rock contemporâneo.






Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

sábado, setembro 01, 2007

Notas de reflexão crítica VII - a propósito do pensamento político de Novalis





Conforme nos foi possível observar em escrito anterior, as convicções do poeta anglo-americano T.S.Eliot a respeito da decadência da cultura ocidental estão intimamente relacionadas a seu medievalismo, ou seja, à concepção da Idade Média como auge da civilização européia; neste particular, trata-se, sem sombra de dúvida, de autor caudatário de toda uma linhagem do pensamento conservador dos séculos XVIII e XIX: Edmund Burke, Novalis, Joseph de Maistre, Louis de Bonald, Donoso Cortés, Otto Weininger, etc. No âmbito da presente nota, trataremos da notável figura de Georg Philipp Friedrich Freiherr von Hardenberg (1772 - 1801), dito Novalis.

Descendente d’uma insigne linhagem de aristocratas prussianos, Novalis foi um emblemático representante da vertente, por assim dizer, mais soturna, fatalista e propriamente ‘germânica’ do romantismo alemão, ao lado de nomes como Johann Gottfried Herder (1744 - 1803), Ludwig Tieck (1773 - 1853) e E.T.A. Hoffmann (1776 - 1822). Plena de passagens caracterizadas pelo mais delirante evasionismo poético, sua obra também apresenta, contudo, algumas reflexões de índole filosófica (tal como podemos observar em seus célebres 'fragmentos') , bem como de âmbito político, ainda que sob a égide d'uma weltanschauung intrinsecamente idealista. Assim sendo, para além do elegíaco hermetismo de seus magníficos Hymnen an die Nacht* (1800); da etérea beleza dos romances inacabados Heinrich von Ofterdingen (1801 - obra em que apresenta o célebre arquétipo da ‘flor azul’ como inatingível ideal de transfiguração mitopoética da existência, uma espécie de réplica romântica ao ‘romance de formação’ Wilhelm Meister , de Goethe, que Novalis encarava como demasiado prosaico) e Die Lehrlinge zu Sais (1798 / 99 - texto de profunda inspiração esotérica, muito influenciado pelos escritos do místico cristão Jakob Böhme); e da densidade filosófica dos aforismos compilados em Blüthenstaub (Pollen) (1798), o escritor prussiano também foi autor do ensaio de teologia política Die Christenheit oder Europa (1799); nesta esplêndida peça de apologética cristã, Novalis advoga um retorno à Idade Média, cuja unidade harmônica poderia regenerar uma Europa convulsionada por dissensões políticas e religiosas; seria, pois, o caminho para o reencantamento do mundo moderno, fragmentado e desprovido de um sentido maior. A noção de um ‘todo’ uno e coerente, ou seja, de uma cosmovisão capaz de articular de forma convergente e coesa as instâncias política, econômica, cultural e religiosa, bem como de conferir transcendência à vida social, é a perspectiva dominante neste escrito, consoante sua notável abertura nos revela: “Belos, esplêndidos tempos: a Europa era terra cristã, e a Cristandade habitava una este recanto de mundo humanamente configurado...”. Assim sendo, o autor crê que a Europa deixara de ser um paraíso sobre a terra devido à evolução das relações comerciais, que gerou o esfacelamento do continente em vários estados nacionais beligerantes; e enquanto o continente não retornar à unidade transcendente em Cristo, Novalis, deveras sombrio, assevera que “o sangue correrá através da Europa”, sublinhando que apenas “a religião será capaz de ressuscitar a Europa, bem como de dar segurança a seu povo... e o resto do mundo aguarda pela ascensão e reconciliação da Europa, de maneira a somar-se a ela e assim ingressar no Paraíso”.

O declínio do universo fechado, unitário e integrado da Gemeinschaft (comunidade) rural; a entrada no mundo dos negócios, do prosaísmo cotidiano que esmaga a poesia e a espiritualidade; a passagem, enfim, da humanidade em perfeita harmonia com o seu meio, para uma nova concepção de homem marcada pela instrumentalização mercantil de suas relações, pela busca desenfreada da propriedade, bem como do saber desvinculado de elevação espiritual, constituem, para Novalis, os grandes males que então enfermavam o continente: “O ódio à Religião (...) transforma a música do universo, infinita e criadora, em um matraquear uniforme de um moinho monstruoso que é impulsionado pela tempestade do acaso e, nadando sobre ela, é um moinho em si, sem arquiteto ou moleiro, e na verdade um autêntico perpetuum mobile, um moinho que mói a si mesmo”. Na origem de tão ominosa situação está o culto insensato do saber filosófico desvinculado da fé religiosa, que o autor localiza na França iluminista. Consoante Novalis, a resposta à crise moderna viria da Alemanha (e aí temos uma das fontes ideológicas do futuro nacionalismo germânico), que caminha “à frente dos demais países europeus, com o seu passo lento, mas seguro”: ao invés de se dedicar à guerra, à especulação e aos partidarismos estéreis, ela peregrina em direção a uma época de elevação cultural e espiritual.

Em contraposição à pérfida realidade da Europa em que vivia, o poeta alemão nos apresenta, pois, um modelo de organização social no sentido kantiano, a saber, transcendental, de uma “idéia reguladora” capaz de assegurar a reconciliação desse homem decaído com seu meio; assim sendo, concebe o catolicismo como a única religião capaz de reconciliar uma Europa fragmentada. Verifique-se, a título de ilustração, como nosso autor descreve de maneira idealizada as relações entre o poder temporal e o espiritual no medievo: “Os príncipes apresentavam suas disputas ao pai da Cristandade, depositavam solicitamente a seus pés as coroas e os esplendores, e, enquanto membros dessa alta corporação consideravam até uma glória concluir o ocaso da vida, entre solitárias paredes de um convento, em divinas meditações”. Novalis tenciona, com efeito, projetar na Idade Média um modelo transcendente de sociedade que deveria guiar as transformações do presente; há, portanto, um potencial revolucionário em tal perspectiva 'restitucionista'; e a ‘Idade de Ouro’, vale dizer, a ‘Paz Perpétua’ idealizada por Kant, podem ser atingidas se esse potencial vier a lume. O poeta/filósofo deve ser o arauto privilegiado dessa transformação. Para Novalis a modernidade, o protestantismo e o Iluminismo representaram passos equivocados na trajetória da humanidade, obstando a manifestação dessa autêntica dinâmica de sublimação espiritual. Mais que uma instância ideal a ser 'restaurada' simplesmente no plano simbólico, a Europa católica converte-se, pois, em transcendência a ser concretizada de maneira integral, potencializando o que o ethos medieval tinha de mais puro e augusto.

Por fim, à guisa de conclusão, devemos reconhecer ser cada vez mais premente a necessidade de regenerar espiritualmente a Europa: à leste, sob o primado do Patriarca de Moscou; à oeste, sob a égide do Sumo Pontífice de Roma.

E tal mister, como a leitura dos parágrafos acima tão bem o demonstra, está longe de ser uma preocupação recente: a partir do século XVIII, pois, numa dinâmica que até hoje permanece viva, numerosos pensadores atentado para este tópico de fundamental importância.

Destarte, a pergunta que se impõe é a seguinte: seria o ideal de Novalis, e tantos outros ilustres autores, ainda plenamente realizável no mundo contemporâneo...? Decerto que não, mormente em termos de organização econômica; quero crer, todavia, que é algo parcialmente exeqüível como movimento cultural, e que, portanto, seria possível pugnar por tal iniciativa, que seria não apenas sobremaneira salutar para o continente europeu, mas também para todos nós que, cultural e espiritualmente, somos herdeiros do Velho Mundo.

O grande busílis radica, contudo, na trágica incompreensão, por parte de muitos cristãos, de que tanto o socialismo quanto o liberalismo são tão somente as 'duas cabeças de Janus' do grande inimigo histórico da fé cristã: o iluminismo.

O movimento que tenho em mente deveria partir d'um esforço concreto, verdadeiramente efetivo, de convergência entre ortodoxos e católicos. Ora, as razões que conduziram ao Cisma de 1054 são hoje, em sua esmagadora maioria, questões históricas inteiramente mortas, ou então sutis bizantinismos teológicos que, sejamos francos, hoje só interessam à 'meia dúzia de três' doutíssimos nefelibatas.

Enfim, mesmo havendo um legado de incompreensões mútuas, de arestas a serem aparadas, é mister superar tais contenciosos em nome d'um móvel infinitamente mais importante: a preservação da Cristandade, isto é, do pilar central de nossa fé, de nossa cultura, de nosso próprio destino.




* Abrindo aqui um parêntese, cito aqui, como exemplo de estupenda prosa poética de Novalis, uma passagem do segundo hino: “Por que a manhã deve sempre retornar? O despotismo do dia nunca terá fim? A atividade profana consome a visita angélica da noite. Nunca chegará o dia em que o sacrifício oculto do Amor arderá eternamente? Veio o tempo da Luz; porém, o domínio da Noite é eterno e ilimitado. A duração do sono é eterna. Sono Sagrado, servo dedicado da Noite, não se preencha de júbilo no trabalho mundano do dia. Os tolos julgam-te mal, nada conhecendo do sono exceto a sombra que lanças piedosamente sobre nós no crepúsculo da noite real. Eles não te sentem no fluxo dourado das videiras, no óleo mágico da árvore das amêndoas, e no suco marrom do pomo da papoula. Eles não sabem que és tu quem assombra o seio da bela dama, e transforma em Céu a sua nobreza; jamais suspeitam que és tu, guardiã do Céu, quem envia a eles as antigas histórias, mensageira silenciosa dos segredos infinitos, portadora da chave para a morada dos abençoados”.

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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

Algumas considerações sobre a violência

Alphonse van Worden - 1750 AD






Ao longo das últimas duas décadas, a violência, em toda a sua perversa multiplicidade de formas e modalidades, se tornou um elemento estrutural da sociedade brasileira, uma patologia renitente que não se limita a surtos episódicos, mas se converte mais e mais numa tétrica aberração, algo como uma feroz endemia que se perpetua em estado de permanente epidemia. Latente ou manifesta, a violência grassa no Brasil contemporâneo sem fronteiras ou limites de ação, contaminando a totalidade do organismo social.

Todavia, causa-me profunda consternação verificar, seja nos meios acadêmicos ou jornalísticos, o reducionismo, a tacanha estreiteza conceitual, a superficialidade assombrosa que caracterizam as reflexões de nossos ‘intelectuais’ sobre um fenômeno tão multifacetado e complexo como o da violência. Em sua esmagadora maioria, tais análises se limitam a definir a violência como uma espécie de ‘corolário lógico’ do problema socioeconômico. Em outras palavras: a violência seria tão somente uma decorrência necessária da pobreza. “Somos violentos porque somos pobres e desiguais”, parecem proclamar nossos ‘teóricos’ da violência o tempo todo! Parece-me evidente o caráter primário, limitado e mesmo falacioso de semelhante abordagem. Vejamos como essa fraude pode ser demonstrada a partir de um simples exemplo: partindo-se de uma hipotética veracidade do ponto de vista acima esboçado, como poderíamos explicar a existência de países com problemas socioeconômicos mais graves que os do Brasil, e que no entanto apresentam índices de violência muito menores? E, por outro lado, como compreender a ocorrência de escabrosos índices de violência em países muito mais desenvolvidos que o nosso? Não pretendo aqui, claro está, dizer que os problemas socioeconômicos não estão envolvidos na gênese da violência; mas tampouco posso admitir a redução de um fenômeno multidimensional a uma causa unilateral.

É de facto uma tarefa árdua, ainda que de saída descartemos os reducionismos e simplificações mal-intencionadas, estabelecer o intrincado conjunto de causas que se conjugam na gestação da violência. Gostaria de tecer aqui, contudo, algumas considerações sobre este tema fundamental, ainda que certamente me faltem sabedoria e capacidade para tanto.

A meu juízo, o fenômeno primordial que se encontra na raiz, na origem, no âmago constitutivo de todas as formas de violência é o que chamo de ‘MISÉRIA’. E em que consiste esta instância que aqui denomino como ‘Miséria’? Salientarei inicialmente um detalhe que me parece óbvio, mas que não o é para muita gente: trata-se de algo que de modo algum está restrito ao plano socioeconômico. O que entendo por ‘Miséria’ é, na verdade, um fenômeno que se divide em quatro manifestações fundamentais: a ‘miséria socioeconômica’, a ‘miséria cultural’, a ‘miséria moral’ e a ‘miséria espiritual’. A primeira delas é a manifestação mais evidente e superficial do fenômeno; a última, a mais sutil e profunda. Uma sociedade violenta é, portanto, uma estrutura que está contaminada pelas 4 manifestações da ‘miséria’.

Verifiquemos agora alguns aspectos dos elementos que acabei de apresentar. A meu ver, as 4 facetas da ‘miséria’ são, de certo modo, igualmente graves e preocupantes. No entanto, é mister ressaltar uma distinção de caráter crucial existente entre elas. As duas primeiras manifestações da ‘miséria’, a ‘socioeconômica’ e a ‘cultural’, podem ser identificadas e caracterizadas de um modo relativamente simples; as demais formas, a ‘moral’ e a ‘espiritual’, já não podem ser diagnosticadas com a mesma facilidade. A ‘miséria socioeconômica’, sendo um problema objetivo, tangível, pode ser mitigada através de medidas e procedimentos de cunho político e administrativo. A ‘miséria cultural’, ainda que apresente um maior grau de complexidade, é também um problema que está no âmbito da razão prática, da ação política humana. Mas com o advento da ‘miséria moral’, já estamos nas trevas de um terrível abismo, uma região abissal que não mais pode ser iluminada pela mera ação institucional do Estado ou dos demais agentes sociais. Se no espectro da ‘miséria socioeconômica’ temos a carência material, e com a ‘miséria cultural’ enfrentamos a carência de informação, a ‘miséria moral’ traz à tona um espectro ainda mais sombrio: a carência de ‘valores’. Como pode um homem viver em harmonia sem um acervo de valores morais solidamente adquiridos e consolidados? E como pode uma sociedade erigir-se sobre alicerces ‘humanos’ destituídos de valores?

Tendo atravessado as 3 primeiras etapas de nosso percurso, desembarquemos neste momento no último círculo do Inferno: a ‘miséria espiritual’. A ‘miséria espiritual’ se configura como o estágio final de degradação, o fruto maldito dos mais depravados e abjetos miasmas da ‘miséria moral’. O indivíduo que é dominado pela ‘miséria espiritual’ se transforma num orco cinéreo onde nada mais pode vicejar, vagando sem rumo pelos desertos da ‘terra devastada’, “(...) What is that sound high in the air, Murmur of maternal lamentation, hooded hordes swarming Over endless plains, stumbling in cracked earth Ringed by the flat horizon only...”, tal como descreve T.S. Eliot, em admirável passagem de sua obra-prima The Waste Land. O ‘miserável espiritual’ não está apenas carente de valores morais; a própria capacidade de adquirir e mensurar valores morais, inerente à condição humana, foi nele destruída de forma irremediável. A ‘miséria moral’, a despeito de sua gravidade, ainda pode ser revertida, no quadro de uma ampla revisão dos valores morais sobre os quais desejamos cimentar nossa sociedade; já no tocante ao câncer que é a ‘miséria espiritual’, acredito que o máximo que podemos fazer é lutar, com todas as forças à disposição de nossos corações e mentes, para que sua metástase corrosiva não se alastre ainda mais por nosso já debilitado organismo social.

Voltando a falar das manifestações epidérmicas da ‘miséria’, é necessário salientar que a miséria ‘sócio-econômica’, além de ser, em comparação à suas ‘irmãs’, a manifestação mais passível de identificação e caracterização, é também aquela que pode ser encontrada com mais facilidade: aloja-se nos setores da população sem acesso a padrões dignos de saúde, habitação, alimentação e educação. No que tange à ‘miséria cultural’, a questão já se torna um pouco mais complicada. Acredito ser patente a constatação de que a ‘miséria cultural’ está presente, na maioria das vezes, no mesmo contingente que é afetado pela ‘miséria sócio-econômica’. E quando, entrementes, nos deparamos com formas mais sofisticadas, discretas e sorrateiras de ‘miséria cultural’? Como diagnosticar estas emanações insidiosas que silenciosamente aluem as orgulhosas e fúteis ‘certezas’ de uma parcela significativa de nossa pretensa ‘elite’ intelectual? Esta ‘miséria cultural’ versão ‘luxo’ parece atingir de forma mais contundente, diga-se de passagem, precisamente os setores que mais se arrogam o papel de ‘salvadores da pátria’, posição que jamais se lhes atribuiu e que sequer possuem condições de ocupar, mas que usurpam e defendem com uma arrogância inaudita!

Mas se ainda podemos, com alguma segurança, mapear os itinerários e movimentos das ‘misérias’ sócio-econômica e cultural, o que fazer diante das ‘misérias’ moral e espiritual? Onde estas bestas imundas se refugiam, de que sórdidos expedientes e sortilégios se servem para melhor se disfarçarem? É com melancólica ironia que enuncio o seguinte paradoxo: sendo dentre as quatro manifestações mencionadas as de mais árdua determinação e localização, as ‘misérias’ moral e espiritual são, contudo, de sobejo as mais ‘democráticas’, espalhando-se sem preconceitos de qualquer espécie por todos os setores da sociedade. É decerto civilizado e de ‘bom tom’ demonstrar indignação quando as ‘misérias’ moral e espiritual são encontradas nas classes menos favorecidas. Mas e quando se ocultam no imo, no ‘heart of darkness’ dos mais abastados, dos privilegiados? Sendo mais preciso e enfático: e quando as formas mais putrefactas de ‘miséria espiritual’ se aninham na alma dos intelectuais, dos pensadores, dos sacerdotes, dos artistas, daqueles que deveriam ser as ‘antenas da raça’, e não seus traiçoeiros Baalberiths, que deveriam engendrar sabedoria, bondade e beleza, mas que incubam em seu ventre bestial os mais estarrecedores ‘ovos da serpente’? A despeito do sem número de dificuldades que tal processo encerra, é preciso hoje, mais do que nunca, denunciar os falsos profetas, desmistificar suas patranhas e hipócritas ‘tendas dos milagres’, desvelar, enfim, o “Mal que há por trás da Máscara”, na flamejante imagem que Herman Melville colocou nos lábios de seu Capitão Ahab.

Tendo enumerado os 4 aspectos que constituem o fenômeno em questão, quero reiterar que a violência não se produz com a presença de apenas um ou outro de seus componentes, ou mesmo com a mera justaposição de todos eles, mas somente a partir do entrelaçamento dinâmico de suas quatro causas. Se pretendemos mudar alguma coisa, o primeiro passo é pararmos de mentir para nós mesmos: a violência nunca foi, não é nem tampouco jamais será tão somente um epifenômeno acidental da pobreza, mas foi, é e sempre será a conjunção dialética das ‘misérias’ sócio-econômica, cultural, moral e espiritual.

À guisa de conclusão a esta breve exposição, ó diletos confrades, lanço aqui uma advertência, porventura ingênua, evidente para os que simplesmente olham com olhos de ver, mas invisível para os que buscam abrigo nos devaneios da ilusão ou nos torpes labirintos da mentira: as quatro manifestações da ‘Miséria’ que acima descrevi, estas quatro aterradoras ‘amazonas do Apocalipse’ secular e sua trajetória de ódio e desolação, estão presentes de forma avassaladora no Brasil contemporâneo, bem como em todas as sociedades onde a violência sem limites instala seu primado. E aqueles que possuem o dom, transfigurado em sagrada missão, de celebrar a Cerimônia Solar da Verdade e do Bem, não podem jamais se transformar em macabros oficiantes da Missa Negra da Mentira e Perversidade!

quarta-feira, agosto 22, 2007

O Tribunal da Eternidade e a desumanização do Homem sob o Estado Contemporâneo em Franz Kafka

* O ensaio que se segue, originalmente publicado neste espaço a 30 / 05 / 2003, foi de tal forma modificado nos últimos meses que julgamos por bem não apenas editá-lo, mas sim republicá-lo.







Um dos aspectos mais importantes da obra de Franz Kafka (1883-1924) é a sua crítica implacável dos fundamentos do Estado moderno, sobretudo no que concerne à mecanização da vida contemporânea e ao surgimento de uma elite administrativa altamente burocrática, hierarquizada e despótica. Ou seja, uma análise sobre as conseqüências políticas, espirituais, morais e filosóficas que a modernidade, de um modo geral, desencadeou na estrutura social.

Há que frisar, antes de mais nada, que a crítica de Kafka à modernidade não se limita a denunciar a opressão que emana da autoridade legalmente constituída, ou seja, da autoridade que se reveste de legitimidade jurídico-institucional, mas também o absurdo embutido na ‘autoridade’ que emerge / se organiza como instância paralela de poder, às margens, portanto, do ordenamento júridico-administrativo em vigor numa determinada sociedade. Assim sendo, num breve relato como UM VELHO MANUSCRITO (1919), por exemplo, o autor descreve um contexto em que o conjunto da sociedade presencia, com um misto de apatia e horror, a consolidação de um poder paralelo, o qual, caso não seja detido incontinente, fatalmente se substituirá ao aparato legal vigente, instaurando novas modalidades de domínio e coerção quiçá ainda mais ominosas.

É possível afirmar que a crítica kafkiana da modernidade se constitua, até hoje, na questão que mais interessou aos estudiosos da obra do escritor tcheco. O sociólogo franco-brasileiro Michael Löwy trata, em um dos capítulos de seu livro REDENÇÃO E UTOPIA (1989), justamente desta faceta da obra de Kafka. Löwy procura detectar os elementos que determinam esta visão crítica, a maneira como Kafka irá articular essa problemática no conjunto de seu trabalho. De que forma, pois, Kafka irá enfrentar o desafio de uma modernidade opressiva e desumana, eis o escopo da reflexão de Löwy.

No livro ROMANTISMO E POLÍTICA (1984), escrito em colaboração com Robert Sayre, Löwy, ao estabelecer uma tipologia das figuras do romantismo, associa Kafka à visão de mundo do 'romantismo libertário'. O romantismo libertário, ou anarquista, opõe ao capitalismo industrial e ao Estado centralizado a utopia revolucionária de uma federação de pequenas comunidades, valendo-se de valores populares pré-capitalistas. Proudhon, Bakunin e Kropotkin são alguns dos pensadores que deram as primeiras formulações teóricas desta visão. O representante literário mais típico desta corrente seria o escritor alemão Gustav Landauer, dirigente da Comuna de Munique, brutalmente assassinado pela contra-revolução bávara em 1919. Landauer não apenas é radicalmente hostil ao Estado burguês, mas também a toda e qualquer forma de governo centralizado. Para ele, o mundo capitalista é um universo corrompido e decadente, “de uma sinistra feiúra”. Ainda que, como reconhece Löwy, Kafka não esteja inteiramente identificado com os pontos de vista do romantismo libertário, é forçoso reconhecer que as preocupações de sua obra são, em um certo sentido, extremamente semelhantes às de Landauer. Löwy escreve que, se Kafka não se vincula de uma maneira direta, como Landauer, à herança do romantismo alemão, ele está intimamente ligado a toda uma corrente romântica “anti-burguesa” européia: Schopenhauer, Baudelaire, Kierkegaard, Strindberg, etc. Kafka é um crítico radical, assim como muitos outros autores de sua época, da civilização industrial. Sua particularidade consiste, afirma Löwy, no caráter negativo que esta postura assume em sua obra. Em Kafka, tanto o messianismo judaico quanto a utopia libertária, dimensões que exercem um papel fundamental em seus escritos, se apresentam como crítica negativa, e não como positividade de realização. É precisamente desta segunda dimensão, a utopia libertária, que pretendo tratar neste trabalho.

De acordo com o relato de Löwy, Kafka freqüentou, entre 1909 e 1912, reuniões dos diversos círculos anarquistas de Praga. Segundo depoimentos dos anarquistas tchecos Michal Kacha e Michal Mares, o escritor era um ouvinte atento, embora não tomasse parte nas discussões. Mares acrescenta que Kafka lia com muito interesse obras de pensadores anarquistas como Vera Figner, Kropotkin, Bakunin, Emma Goldmann, etc. O escritor, sentindo um ódio profundo por seu emprego no Departamento de Seguros Sociais, se “indignava com a sorte dos operários mutilados e das viúvas pobres enredados nos labirintos jurídicos e administrativos do Departamento”. É possível, portanto, “que a rebelião de Kafka contra seu emprego burocrático tenha sido uma das fontes do componente libertário de seus escritos”, assevera Michael Löwy. A aversão de Kafka à mentalidade burguesa, burocrática, hierarquizada e arrogante, assume conotações nitidamente anarquistas, de contestação decidida ao próprio princípio da autoridade.

Mesmo que sua participação em atividades anarquistas possa ser considerada apenas um “episódio da juventude”, e que, após 1912, Kafka tenha se aproximado dos círculos judaicos e sionistas de Praga, a dimensão anarquista permanece muito viva em sua obra. Em 1920, numa conversa com Gustav Janouch, relatada por Löwy em sua obra, o escritor qualifica os anarquistas de Praga como “homens muito gentis e alegres, tão gentis e amigáveis que nos vemos obrigados a acreditar em cada uma de suas palavras”. Kafka irá insistir sempre no caráter opressivo e autoritário do regime existente, numa formulação que o mantém próximo das teses anarquistas, por enfatizar muito mais o caráter 'político' e 'humano' da opressão capitalista do que propriamente seus aspectos econômicos, como faz o marxismo. Kafka desconfia fortemente dos movimentos operários, prevendo que, após a revolução, “logo avançam os secretários, os burocratas, os políticos profissionais, todos os sultões modernos que se preparam para tomar o poder(...) a revolução se evapora, resta apenas o lodo de uma nova burocracia”, numa imagem que poderia ser interpretada como uma antevisão sombria da barbárie stalinista.

O 'anarquismo' de Kafka não era, obviamente, uma convicção política doutrinária e militante, mas sim uma afinidade espiritual, como ressalta Löwy, uma identificação profunda com o sentimento anti-burguês e anti-capitalista das idéias anarquistas. “A utopia libertária não é objeto de nenhuma ‘demonstração’ nos romances de Kafka. Percebe-se apenas no modo profundamente crítico com que é representada a face obsessiva e omnipresente da não-liberdade: a autoridade”, define o sociólogo.

O anti-autoritarismo é, portanto, uma característica que se tornará cada vez mais significativa na obra de Kafka, “num movimento de universalização e abstração crescente: da autoridade paterna e pessoal para a autoridade administrativa e impessoal”.

Inicialmente, Kafka relaciona a autoridade política e social à autoridade do pai. Na famosa CARTA AO PAI, assim como no conto O VEREDICTO (1912), a autoridade que é questionada é a autoridade pessoal e identificada na figura do pai. A opressão não é ainda fruto do conjunto das forças sociais, mas da estrutura interna da esfera privada, é a opressão orgânica das relações familiares sob o signo do poder patriarcal. Entretanto, no decorrer da obra de Kafka, a autoridade vai progressivamente se desvinculando de uma figura específica ou de um contexto doméstico, adotando um caráter impessoal, anônimo e pateticamente arbitrário, que irá se exprimir em toda a sua crueldade e sadismo no conto NA COLÔNIA PENAL (1919) e, sobretudo, no grande romance inacabado O PROCESSO (1925) e O CASTELO (1926).

NA COLÔNIA PENAL é talvez o texto de Kafka em que o absurdo da autoridade é apresentado da maneira mais brutal e desumana. Um soldado em uma colônia francesa é condenado à morte por indisciplina. Sua sentença é executada por uma máquina de tortura que, por intermédio de um sistema de agulhas, escreve repetidas vezes em seu corpo a seguinte inscrição: “Honra teus superiores”. Como observa com astúcia Michael Löwy, o personagem principal deste pesadelo não é nem o explorador, que é convidado para assistir ao suplício, nem tampouco o oficial, o prisioneiro ou mesmo o comandante. O protagonista é, sem dúvida, a Máquina. Neste contexto, pois, a autoridade atinge o ápice da abstração: ela já não é mais fruto da ação humana, mas duma instância mecânica que se emancipou, estabelecendo o seu primado. “Ao longo da explanação do oficial, a Máquina aparece progressivamente como sendo um fim em sii”, descreve Löwy. O prisioneiro é 'oferecido' à Máquina, para que esta possa levar a cabo sua obra-prima. O próprio oficial não passa de um servidor da máquina, sacrificando-se, no final do texto, a “esse insaciável Moloch”. Para Michael Löwy, a autoridade aparece no conto “em sua figura mais alienada, mais reificada, enquanto mecânica ‘objetiva’: fetiche produzido pelos homens, ela os subjuga, os domina e os destrói”. Eis aí, expressa com toda a clareza do estilo sóbrio, sereno e conciso de Kafka, a sua profunda desconfiança em relação à sociedade industrial, que desumaniza o indivíduo, mecanizando sua existência e reduzindo os espaços para a ação de sua interioridade, dissolvendo a condição humana numa massa de reflexos indistintos condicionada por esquemas pré-fabricados. O texto, escrito pouco antes da I Guerra Mundial, ainda que publicado após seu fim, é uma advertência macabra sobre as conseqüências, na estrutura social e nas relações de poder por ela entretecidas, de um processo de industrialização e mecanização acelerado, que diviniza a máquina e o progresso em detrimento das aspirações tradicionais do homem. Eficiência, eis a nova palavra de ordem, que substitui os anseios por liberdade e justiça. A conclusão do conto é uma afirmação cabal do caráter negativo da crítica de Kafka, uma afirmação trágica da impotência do homem diante dos novos monstros gerados pelo sonho da razão.



Todavia, é no romance O PROCESSO que o caráter anti-autoritário da obra de Kafka irá se exprimir em toda a sua plenitude. A autoridade impessoal e hierárquica ocupa, assim como na “Colônia...”, o lugar central. O bancário Joseph K. é o cidadão entregue às instâncias de um aparelho burocrático inescrutável, controlado por forças invisíveis, cujo poder é inteiramente arbitrário, sem quaisquer justificações morais, racionais ou filosóficas. Uma autoridade silenciosa e inacessível, que está acima do bem e do mal, num plano que não pode ser contestado. Ao contrário daqueles que pretendem ver na saga de K. uma crítica ao Estado imperial Austro-Húngaro, O PROCESSO é sim uma crítica feroz ao que há de mais 'moderno' no Estado: seu caráter impessoal e anônimo, que o transforma em estrutura tautológica cujos objetivos residem apenas em sua auto-reprodução.

Joseph K. é preso num certo dia, e ninguém sabe explicar-lhe o porquê. É interrogado por funcionários que se recusam a esclarecer a natureza do delito que porventura teria cometido; é julgado num tribunal que lhe impede todo o acesso aos juízes, entidades misteriosas cujos propósitos e desígnios nunca são claramente apresentados; é pretensamente representado por um advogado que trata seus clientes de um modo arrogante, humilhante e brutal, como fica demonstrado no tratamento dispensado ao comerciante Block; finalmente, é executado, sem nenhuma explicação, como “se fosse um cão”, numa metáfora recorrente em outras obras de Kafka.

A ausência da lei, como assevera Löwy, “é completada em O PROCESSO pela presença de uma poderosa organização legal que Joseph K. denuncia com indignação”. O personagem não hesita em apontar o verdadeiro objetivo de tal organização: “E qual o sentido, senhores, dessa grande organização? Mandar prender inocentes e mover-lhes processos sem razão”, proclama K. em uma audiência, evidenciando o caráter que a máquina judiciária do Estado assume perante suas vítimas: uma estrutura burocrática e hierarquizada, impessoal e anônima, imprevisível, arrogante e impiedosa. Talvez o sentido dessa organização, que se movimenta no vácuo produzido pela ausência da lei, seja o de provar que não há mais inocentes, que somos todos culpados, que “Nous sommes tous des assassins”, como no título de um velho filme de André Cayatte. E é essencialmente essa culpabilidade metafísica, que não possui local ou sujeito, que acaba sendo incorporada por Joseph K. Se no início do romance, K. pensa em rebelar-se, recusando-se a seguir as determinações do Tribunal, ele acaba, extenuado, por curvar-se às regras do jogo. A repetição reiterada, por parte de todos, da evidência cabal de sua culpa, mesmo que esta nunca seja esclarecida, acaba por subjugar K., que, no final, permite que o levem e matem sem resistência, como a um cão. “A vergonha que deve sobreviver a Joseph K. (última palavra de O PROCESSO) é a de ter cedido sem resistência a seus carrascos”, conclui Löwy. Mais uma vez, a crítica de Kafka se assume como negatividade. O final não traz a redenção para Joseph K., mas sua vergonhosa e inglória destruição , uma morte que não envolve a glória ou a dignidade da morte da heróica vítima de uma grande injustiça, mas a aniquilação fria, sórdida e mesquinha de um cidadão anônimo, de um reles homem das multidões, na acepção dada por E.A. Poe em sua bela narrativa.

É mister assinalar, malgrado tal observação seja relativamente óbvia, que uma obra literária da estatura do opus kafkiano comporta diversas possibilidades exegéticas; assim sendo, vale comentar aqui, mesmo que en passant, uma das hipóteses de leitura teológica de sua obra. Abordaremos, para tanto, uma passagem particularmente enigmática do capítulo VII de O PROCESSO, onde o pintor Titorelli apresenta a Joseph K. as três modalidades de absolvição existentes: a) absolvição real; b) absolvição aparente; c) dilação indeterminada. Titorelli convence K. da absoluta impossibilidade de se obter uma absolvição definitiva, alegando que tão somente as instâncias superiores do Tribunal, de todo inacessíveis tanto aos réus quanto a seus representantes, podem emitir sentenças dessa natureza; destarte, o pintor dissemina o joio da descrença na alma de K., que assim abandona por completo qualquer esperança de lograr uma absolvição definitiva (ou seja, a própria possibilidade de salvação / redenção), resignando-se a aceitar expedientes sibilinos e intermediários, cuja natureza, consoante uma leitura teológica, tão somente pode ser definida como eminentemente diabólica. Há que mencionar também a profunda influência que o filósofo francês Blaise Pascal (1623 - 1662) exerceu sobre Kafka. Destarte, conforme o crítico literário austro-brasileiro Otto Maria Carpeaux salienta, o problema com que o escritor tcheco se depara em sua obra “teria sido o da Justiça e da Graça. A religião judaica não conhece o dogma que mais preocupou Pascal, o do pecado original; por isso desconhece a Graça divina e só conhece a Justiça divina”. Em outras palavras: se o cristianismo predica a existência de um ‘pecado original’, ele também contempla sua possibilidade de redenção, que é o batismo em Cristo; no judaísmo, por outro lado, se não há ‘pecado original’, somente haverá redenção para os pecados humanos com o advento do Messias. Conforme Carpeaux observa, “Em O PROCESSO, K. é preso, denunciado, condenado e executado por causa de um crime do qual se sabe inocente porque o desconhece: seria o pecado original.”Para o excelso crítico literário, aliás, a obra de Kafka não visa meramente o efeito da expressão ‘literária’ , mas se configura como manifestação de sua metafísica, uma “metafísica do terror cósmico”, tal como Carpeaux admiravelmente a define.

A mesma questão relativa ao absurdo da autoridade emergirá em O CASTELO (1926) sob forma mais rarefeita e enigmática: o agrimensor K. é convocado ao castelo para realizar uma tarefa que não somente permanece obscura , mas sequer chega a ser propriamente reconhecida pelas misteriosas e inacessíveis autoridades que o contrataram; assim sendo, perambula sem rumo pelo vilarejo ao pé da ominosa cidadela, encarcerado num hipnótico labirinto de inextricáveis injunções burocráticas e anseios delirantes dos aldeões locais. Numa passagem particularmente memorável, onde o protagonista conversa com o prefeito a propósito de sua desconfortável situação, este último lhe diz o seguinte, à guisa de assombrosa ‘explicação’ para o imbroglio burocrático que se gestou: “(...) Se existem autoridades de controle? Existem apenas autoridades de controle. Evidentemente, não se destinam a descobrir erros no sentido grosseiro da palavra pois não ocorrem erros, e mesmo que aconteça um, como no seu caso, quem tem o direito de dizer, de forma definitiva, o que é um erro? (...) se um processo segue o caminho certo, como é a regra, ele chega á repartição correspondente o mais tardar em um dia, sendo despachado nesse mesmo dia ainda; se porém erra o caminho, tem de percorrer o caminho errado com bastante zelo, dada a excelência da organização, caso contrário ela não o acha e então é evidente que demora muito tempo.” Ou seja: se a existência de erros não pode ser admitida, quando porventura ocorre um equívoco, a administração não deve corrigi-lo, mas sim prosseguir até o fim no trâmite aberto por ele, de maneira que não se possa colocar em questão a excelência operacional dos dispositivos de controle. Eis, portanto, desvendada pela percuciente visão de Kafka, a própria essência do pesadelo burocrático: um erro tão somente pode ser ‘retificado’ por outro erro, e assim sucessivamente numa progressiva geometria do caos onde toda distinção entre ‘verdadeiro’ e ‘falso’ perde completamente sua razão de ser.

É fascinante notar a afinidade espiritual existente entre O PROCESSO e toda uma corrente da ficção contemporânea, a chamada literatura distópica, que consiste numa série de utopias negativas que projetam em sociedades futuristas as inquietações da modernidade. Tome-se, por exemplo, o romance NÓS (1923), obra do engenheiro soviético Yevgeny Zamyatin, no qual dois cidadãos de um estado policial, onde todos vivem em apartamentos totalmente envidraçados e são identificados por números, sofrem uma perseguição misteriosa e acabam sendo executados. Há indícios de que o delito cometido pelo engenheiro D-503 e pela rebelde I-330 seja uma relação amorosa não autorizada pelo governo, mas as motivações reais de sua culpa permanecem obscuras. O que predomina são os desígnios inexplicáveis de uma autoridade tirânica, que não oferece justificativas para seus atos. No notável 1984 (1948), do escritor inglês George Orwell, o enredo é semelhante: Winston Smith e Julia, funcionários subalternos do estado totalitário Oceania, são capturados e condenados por razões que permanecem nebulosas. Nos cárceres do Estado, são submetidos, sem julgamento, a um tratamento excruciante de lavagem cerebral que os converte em autômatos sem vontade própria, metáfora radical da desumanização moderna tão temida por Kafka. A rebeldia imputada ao casal pelo governo carece de qualquer fundamento ou prova, sendo talvez apenas fruto de um mal-estar muito vago e precariamente articulado. Novamente, o que importa não são os motivos ou atos, mas a ação implacável de uma autoridade intolerante e inacessível, encarnada em um arquétipo fantasmático, o Big Brother. É a encarnação perfeita da impessoalidade da autoridade moderna: uma instância a que não podemos recorrer tendo em vista não existir. O escritor tcheco Karel Tchápek, em A GUERRA DAS SALAMANDRAS (1935), retoma, invertendo os sinais, a problemática da desumanização do homem moderno: em seu romance, uma colônia de salamandras é humanizada pelo colonizador holandês. Atingindo a civilização, os répteis cometem, nas palavras do autor, “os mesmos absurdos que o gênero humano: despotismo, injustiça, nacionalismo, imperialismo e, finalmente, a guerra”. A civilização das salamandras não se revela menos brutal que a dos homens, e acaba por, ironia cruel, se voltar contra seus criadores, do mesmo modo que a máquina em NA COLÔNIA PENAL. Em sua desastrosa tentativa de humanizar os animais, o ser humano revela-se cada vez mais animalizado, paradoxo levado ao extremo pela narrativa furiosamente satírica e paródica de Tchápek. Em seu mirífico O INCRÍVEL CONGRESSO DE FUTUROLOGIA (1971), o polonês Stanislaw Lem prefigura uma sociedade onde o homem já não mais pode distinguir entre dados objetivos e subjetivos. Por intermédio de sofisticados alucinógenos, maciçamente pulverizados na atmosfera e em todos os ambientes, o Estado não apenas controla a subjetividade de seus cidadãos, mas se torna capaz de produzir o próprio Universo físico e mental de seus súditos, evocando de certa forma, malgrado em termos mais puramente fantasistas, a tão caracteristicamente kafkiana atmosfera de ominosa, claustrofóbica alienação espiritual, de brumas e ameaças espectrais onde a realidade sensível se dissolve na oscilação inquietante do inefável. Em O PALÁCIO DOS SONHOS (1990), por fim, o albanês Ismail Kadaré propõe, em notável peça de fantasmagoria política, o cenário de um tétrico ministério encarregado de coletar, selecionar e interpretar os sonhos de todos os súditos otomanos, com o fito de controlar os destinos do Império por intermédio da manipulação deliberada da última fronteira da subjetividade humana: seu universo onírico; destarte, o Tribunal/Palácio dos Sonhos não mais se contenta em ter sob sua égide somente a vida ‘real’ dos cidadãos, mas agora também tenciona agrilhoar-lhes até mesmo nas diáfanas tessituras do inconsciente.

A diferença entre estas obras e O PROCESSO reside no fato de que o livro de Kafka não é, de modo algum, uma obra profética ou puramente especulativa. Ainda que, em um certo sentido, tenha previsto a dinâmica da justiça em um Estado totalitário como a URSS ou a Alemanha nazista, Kafka se refere, como reitera Löwy, à “natureza alienada e opressiva do Estado normal, legal e constitucional”. Nas palavras do próprio romance: “K. vivia bem num Estado de direito, a paz reinava em toda parte, todas as leis estavam em vigor, quem portanto ousava assaltá-lo em sua casa?”. Kafka condena os fundamentos gerais do Estado moderno, e não apenas as distorções ocasionais de um regime de exceção. Neste sentido, O PROCESSO é muito mais ousado do que as obras de Orwell ou Zamyatin. Em Kafka, o futuro já existe e está no meio de nós. Não há o recurso tranquilizador a um futuro remoto, mas a presença incômoda de um agora que nos assalta. É difícil nos identificarmos com Winston Smith ou D-503, mas o mesmo não ocorre com Joseph K. A força do personagem de Kafka está em sua plausibilidade. A impressão que se produz é que o leitor pode um dia despertar na mesma situação de K. É como se o livro transmitisse, nas entrelinhas, uma mensagem sinistra: você também não está seguro. É provável que o poder de sugestão de Kafka, esse pintor de pesadelos vivos, consista precisamente neste sortilégio: depois do advento de sua obra, jamais voltaremos a estar seguros outra vez.



Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros