sábado, fevereiro 21, 2009

Estamos convosco, Bispo Williamson!




Queremos apenas que Vossa Excelência Reverendíssima saiba que estamos convosco neste lôbrego momento em que tão oprobiosa injustiça se perpetra contra vossa excelsa figura!


Saudações,

Cap. Alphonse van Worden
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Ten. Giovanni Drogo

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Idealismo e Honestidade: marcas registradas do Islã político

Alphonse van Worden - 1750 AD






"Outro aspecto que merece atenção nesse contexto é a simplicidade e a modéstia dos líderes do Hamas e de suas principais personalidades. Essas virtudes sempre proporcionaram uma grande popularidade ao grupo. Seus líderes mais conceituados ainda vivem lado a lado com as pessoas pobres e comuns. O xeque Ahmed Yassin viveu e posteriormente foi assassinado no mesmo campo de refugiados onde sua família foi forçada a se estabelecer quando ele era uma criança em 1948."

"Mesmo Ismail Haniyeh, o primeiro-ministro do governo do Hamas, recusou-se a deixar sua modesta casa de classe baixa e se mudar para a residência confortável de primeiro-ministro. Na primeira reunião do gabinete do governo do Hamas, que durou seis horas, em 5 de abril de 2006, Haniyeh e seus ministros tiveram no almoço sanduíches bem simples de homous e falafel comprados em um estabelecimento local."

"O gabinete declarou que reduziria pela metade os salários de todos os ministros e membros do parlamento, e que só os pagaria quando todos os outros palestinos tivessem recebido seus salários. Aziz Duwaik, o presidente do parlamento, outra personalidade do Hamas, recusou-se a receber um carro especial com segurança a proteção. Segundo ele, seu desejo era “nunca custar um centavo a mais ao orçamento do governo”.

"(...) Os palestinos comparam esse comportamento simples e próximo do comportamento do povo, com o estilo de vida esbanjador e arrogância da alta liderança do derrotado movimento Fatah e antigos membros da autoridade palestina.”

Hamas: Um Guia para Iniciantes - Khaled Hroub (Difel, 2008)


As passagens acima, de autoria d'um jornalista palestino adepto do secularismo e insuspeito de qualquer facciosismo em relação ao HAMAS, demonstram à perfeição a significativa diferença existente entre os movimentos políticos de orientação islâmica e os partidos políticos ‘convencionais’, árabes ou não: vale dizer, o profundo idealismo, insofismável probidade e inquebrantável firmeza de propósitos que caracterizam os militantes e líderes de organizações como Hamas, Hizbollah, Jaish al Mahdi, etc., em flagrante oposição ao desencanto, oportunismo e improbidade que são hoje as marcas registradas do processo político vigente nas grandes ‘democracias’. Reparai, áticos irmãos d'armas, a título de ilustração, a que ponto veramente estarrecedor pode chegar a inversão de valores no âmago do Ocidente:


” – É preciso, sobretudo, entender como funciona a cabeça de um homem de costumes tão toscos, que diz tantos disparates publicamente e que não age como os governantes em geral, sejam eles democratas ou ditadores” — contou ao GLOBO um funcionário do governo americano, sob condição de anonimato."

O Globo - Rio, 18 de janeiro de 2006


Sabei vós quais seriam esses costumes tão 'toscos'? A própria reportagem responde em parágrafo ulterior:


"Ele continua vivendo num pequeno apartamento e, embora disponha de limusines, às vezes transita por Teerã, em especial nos fins de semana, ao volante de um carro iraniano que adquiriu 30 anos atrás. E, como fazia na época em que era prefeito de Teerã (eleito em 2003), em vez de almoçar num salão do palácio, alguns dias come em seu próprio gabinete um lanche que leva de casa, preparado por sua mulher."


Ou seja, Ahmadinejad é qualificado por um membro do establishment político norte-americano como homem 'tosco' por conservar seu estilo de vida probo, modesto e austero mesmo estando à testa da presidência da república. Destarte, "não age como os governantes em geral, sejam eles democratas ou ditadores", isto é, não é corrupto e venal, sendo por isso apodado como um homem 'tosco'...

Perante tão cabais e emblemáticas evidências, é mister acrescentar mais alguma coisa...?

domingo, fevereiro 01, 2009

Notas de reflexão crítica XVIII - sobre a questão do messianismo revolucionário no âmbito da perspectiva marxista

Alphonse van Worden - 1750 AD






- Não é difícil constatar que o marxismo amiúde sói estar de olhos vendados para a eclosão de qualquer processo revolucionário que não siga as categorias 'dialéticas' delineadas em seu quadro de referência.

- Aliás, está na hora de todos reconhecermos que, filosoficamente falando, o marxismo é insustentável. Tal insustentabilidade já se configura nas próprias raízes filosóficas do marxismo, duas vertentes filosóficas estéreis: o idealismo hegeliano e o materialismo metafísico feurbachiano. O idealismo hegeliano padece de um vício de origem: a crença na realidade ontológica das Idéias, o que destrói qualquer possibilidade de elaboração de um método analítico preciso e consistente; o materialismo, por sua vez, é em última instância apenas uma manifestação particular do idealismo, já que confere um estatuto ontológico de realidade a um construto conceitual, a idéia de 'matéria'. Marx, por conseguinte, ao formular o materialismo dialético, estabelece tão somente mais uma variante filosófica do idealismo, pois não há como escapar deste traço estrutural do materialismo, a saber, o de ser um epifenômeno do idealismo. Assim sendo, categorias exclusivamente conceituais como 'modo de produção', 'evolução dialética' do processo histórico, etc. são tomadas como instâncias ontologicamente existentes. Em outras palavras: o marxismo fatalmente se insere no quadro das filosofias estéreis que acreditam na realidade de 'Universais'.

- Isto posto como hipótese preliminar de desmonte do ilusionismo filosófico presente no marxismo, é mister reconhecer que a estreiteza esquemática do marxismo ortodoxo não logra, com efeito, dar conta de todo o espectro de causas por trás da jihad revolucionária islâmica no mundo hodierno. Ao apontar o fator econômico como elemento determinante na dinâmica da História, o pensamento marxista não atenta para o facto de que o conflito cultural - partindo da definição de 'cultura' como o conjunto de manifestações simbólicas de uma dada civilização ou nação - é também um fator de destacadíssima relevância. O 'motor da História' não pode, portanto, ser reduzido a uma única 'energia-matriz', resultando, ao contrário, de uma miríade de fatores, d'entre os quais o cultural se reveste de grande importância, assim como o econômico, o político, etc.

- Portanto, o que há de fecundo, de interessante no marxismo não é sua estrutura analítica do processo histórico, que se revela inconsistente e falha, mas sim seu significado como teoria política da ação revolucionária. E digo mais: deve-se ressaltar que um aspecto fundamental do marxismo é criminosamente ignorado por seus teóricos 'oficiais', vale dizer, o marxismo não como teoria, mas sobretudo como TEOLOGIA política da ação revolucionária; é preciso, pois, salientar o caráter inequivocamente MESSIÂNICO inerente a todo processo revolucionário. A revolução não é de modo algum uma categoria 'racional'.

- Nesse sentido, cito aqui algumas passagens de Glauber Rocha, um dos mais ousados e criativos pensadores revolucionários do Século XX , presentes em seu manifesto Eztetyka do Sonho(1971):


"Na medida em que a desrazão planeja a revolução, a razão planeja a repressão".

"A revolução é a anti-razão que comunica as tensões e rebeliões do mais irracional de todos os fenômenos que é a pobreza".

"A revolução, como possessão do homem que lança sua vida rumo a uma idéia, é o mais alto astral do misticismo".

"As revoluções se fazem na imprevisibilidade da prática histórica que é a cabala do encontro das forças irracionais das massas pobres".

"A revolução é uma mágica porque é o imprevisto dentro da razão dominadora".


- Reparai, diletos confrades, que Glauber sintetiza de forma magistral a natureza messiânica e mítica da Revolução, a dimensão mística, irracional, imprevisível e emocional presente intrinsecamente em todo processo revolucionário. Dessa forma, a pretensão marxista de se formular como análise 'científica' do processo revolucionário é um completo absurdo, um retumbante non sequitur conceitual. A 'revolução' não é, portanto, como já adrede tantas vezes sublinhamos, um fenômeno que possa ser interpretado por uma analítica científica, isto é, que insira na esfera dos pressupostos epistemológicos e metodológicos da razão científica; ao contrário, a revolução afigura-se muito mais como fenômeno de cunho mítico-religioso, impermeável a análises racionalistas.

- Não há como negar que o fundamentalismo islâmico desempenha hoje um papel revolucionário muito mais relevante que as modalidades tradicionais contempladas pelo pensamento marxista. A tipologia categorial estreita do marxismo não consegue, pois, compreender que Sheykh Usammah Bin Laden possa ser, como de fato o é, ao mesmo um 'warlord' medieval e um líder revolucionário insofismavelmente contemporâneo (mormente em sua notável consciência do poder cada vez maior da mídia eletrônica), ou seja,uma figura onde o arcaico e novo estão entrelaçados de forma indissolúvel.

- A perspectiva marxista, ao deixar de reconhecer o caráter legitimamente REVOLUCIONÁRIO do fundamentalismo islâmico, irá cometer mais um grave erro em seu já significativo legado histórico de trágicos equívocos.

PainKiller: oceans of aural terror




Muito embora considere que John Zorn tenha se transformado, de uns 10 anos para cá, num picareta de marca maior ou, na melhor das hipóteses, numa máquina de reprocessamento / diluição ad infinitum de suas matrizes estéticas, os trabalhos que gravou com o PainKiller e o Naked City são simplesmente geniais, classificando-se até hoje entre o que há de mais brutal, original e surpreendente no âmbito do avant rock.

O disco em tela, lançado em 1994, representa a outra face do espectro estilístico explorado pela demoníaca tríade formada por Zorn, Bill Laswell e Mick Harris: se Guts of a Virgin (1991) e Buried Secrets (1992) estão pejados de mercuriais explosões de schizocore concentrado, Execution Ground, ao contrário, desdobra-se epicamente em gigantescos oceanos magmáticos de terror sonoro in extremis. A estética proposta pela banda é uma nebulosa metamórfica de avant hardcore, free jazz, ambient noise e dub, com longas passagens de fantasmagoria instrumental bombardeadas pelos morteiros percussivos de Harris e pela fuzilaria avant noise do sax de Zorn, ambos multiplicados ao infinito por estarrecedores efeitos de echo e delay, enquanto Laswell providencia a argamassa sonora com a hipnose fantasmática de seu baixo.

No disco 2, que apresenta estratosféricas versões ambient dub para Pashupatinath e Parish of Tama, a coisa toda começa a assumir contornos a um só tempo mais contemplativos e ameaçadores. Samples de abissais cânticos Gelug-pa abrem as comportas para um fluxo subterrâneo de percussões lemurais, bramidos agônicos de saxofone e vozes espectrais, sob a oscilação contínua e trovejante da usina subsônica de Laswell. A atmosfera lograda é decididamente sombria e luciferina, BAD TRIP, paranóia, visões funéreas, acenos alucinógenos de Kenneth Anger, litanias sepulcrais, basiliscos venenosos, Missa dos Vermes, na floresta um sabbath infernal, onde o Baphomet, vociferando maldições terríveis, traça um pentagrama com sangue impuro, enquanto, em louvor a seu Mestre, enquanto sacerdotisas corrompidas profanam um crucifixo sob o eflúvio de miasmas lunares.

Há que destacar também o extraordinário trabalho do produtor Oz Fritz, mormente no disco 2, onde a lisergia alienígena das versões ambient evoca o inesquecível trabalho de engenharia sonora logrado por Teo Macero em Bitches Brew; vale, por fim, louvar a qualidade técnica do registro, sobretudo no que se refere à percussão, que é simplesmente DEVASTADORA, de modo que cada simples rufada de bateria soa como um verdadeiro tiro de Dicke Bertha derrubando tudo pela frente.
Um adendo: quem curtir esse álbum não pode deixar de conferir Talisman (Live in Nagoya), outro exemplar arrasador do PainKiller oceanic dub subsonic noise terror version full mode ON. Acrescente-se ainda outro notável disco ao vivo do projeto, Live in Osaka, que se não tem a mesma qualidade cristalina de registro que caracteriza Talisman (Live in Nagoya), é também uma eloqüente demonstração do que o trio era capaz de fazer. Ainda com a formação original (Zorn - Laswell - Harris), há Rituals - Live in Japan, que ao contrário dos dois álbuns anteriores, retrata a vertente Guts of a Virgin / Buried Secrets do espectro 'painkilleriano'. O repertório é excelente, claro, mas infelizmente a percussão foi mixada d'um modo estranhamente agudo e 'artificial', o que a meu juízo acaba por prejudicar bastante o resultado final. Em todo caso, vale conferir.

Por fim, no bojo da interminável comemoração dos 50 anos de Zorn, o volume XII da série 50th Birthday Celebration registra um concerto comemorativo do PainKiller em NY, no ano de 2003. Na bateria temos Hamid Drake substituindo Mick Harris, com Mike Patton assumindo as pirações vocais anteriormente a cargo (nas apresentações ao vivo) de Yamatsuka Eye e Keiji Haino. A qualidade da gravação é magistral, mas a meu ver o disco é um equívoco: malgrado seja um excelente baterista ('tecnicamente' superior a Mick Harris, inclusive), o approach mais classicamente jazzístico de Drake não combina com a sonoridade do PainKiller, e no que tange a Mike Patton, temos o que considero como uma de seus performances menos inspiradas.

Enfim, preclaros irmãos d’armas: submetei-vos à destruição sonora em regra do PainKiller!



















Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros