terça-feira, abril 16, 2019

A incrível, fascinante y trágica trajetória d'um conservador britânico brasileiro





Em caráter rigorosamente excepcional publicaremos hoje um escrito da lavra dos Srs. Alfredo degli Antelminelli e Gabriel Schmitt, em virtude não só de sua inquestionável excelência literária, mas sobretudo por sua relevância filosófica e moral para o presente momento da vida nacional.  


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A INCRÍVEL, FASCINANTE Y TRÁGICA TRAJETÓRIA D'UM CONSERVADOR BRITÂNICO BRASILEIRO

Alfredo degli Antelminelli & Gabriel Schmitt 

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Bernardo da Silva Ferreira (1993 - 2018) foi um insigne conservador britânico brasileiro. Nasceu na cidade de Catolândia, um município modesto de três mil habitantes no interior da Bahia.

Bernardo desde cedo deu sinais de que seria um predestinado: aos três anos usava plastron e cartola; aos cinco, monóculo e pince-nez; aos seis atormentou de tal modo seus pobres pais para que lhe comprassem uma casaca que o infausto casal, mesmo ao preço de se ver nos umbrais da fome, outra alternativa não teve senão ceder. Lá pelos 10 anos, por fim, passou a exigir dos locais que o chamassem de 'Sir Bernard Smith'.

Como 99% dos brasileiros, ganhou seu primeiro computador na era Lula, e certo dia, navegando pela internet, num artigo da Wikipedia leu a frase "para que o mal triunfe só basta que os homens bons não façam nada", célebre citação do filosofo britânico Edmund Burke. Ó sumo lume do entendimento transfinito! Hosannah nas alturas! Com efeito, esse divo instante foi um divisor de águas na sua vida: a partir de então, fez tudo o que um lídimo conservador britânico brasileiro leva a cabo em sua vida, vale dizer, passou os anos seguintes lendo verbetes na Wikipedia sobre a revolução industrial, Adam Smith, John Stuart Mill e a Era Vitoriana.

Aos 16 anos, Sir Bernard tinha o incrível emprego de estagiário numa mercearia no subúrbio de Vitória da Conquista, onde impressionava (e irritava) todos os colegas e fregueses com suas frases em inglês, tais como 'weRR mustá belevá in te futurÊ' ou ‘absÓlÚtÍ pÓwÉr cÓrrÚpts absÓlÚtelÝ, sempre proferidas na impecável prosódia do pelourinho oxfordiano. Aos 18 anos conheceu o grupo de Facebook "Estudantes Para a Liberdade", onde finalmente encontrou um Shangri-La de excelência Intelectual. Seu entusiasmo com o grupo era tanto que o administrador de da página, um certo Gabriel Vincent, começou a ficar enciumado. Todavia, como não era de bom tom haver um contencioso explícito entre cavalheiros de tão alta estirpe, os dois julgaram que deveriam entreter apenas uma chivalric rivalry, pois a expressão em inglês era muito elegante.

Na casa dos 22 anos, os pais de Bernardo, pessoas simples, mas de muito bom coração, começaram a se preocupar seriamente com a saúde mental de seu rebento: o rapaz dilapidava seus parcos haveres com tomos no original de seus autores preferidos do conservadorismo britânico, mesmo sendo incapaz de lê-los, já que seus conhecimentos no idioma limitavam-se a umas poucas citações e frases feitas.

O jovem, no entanto, era um purista incorrigível e dizia que a tradução para uma língua tão terceiro-mundista quanto o português maculava a formosa obra do pensamento conservador britânico'.  Intensificando a simbiose, um belo dia começou a usar cachecóis e pesados sobretudos, mesmo padecendo sob o inclemente sol de sua terra.  Como se não bastasse, o envolvimento com os "Estudantes para a Liberdade" paulatinamente o levou ao paroxismo: às vésperas de completar 23 anos, fugiu de casa e colocou um anuncio no jornal, onde manifestava a vontade de ser adotado por uma família britânica.

Finalmente, aos 25 anos, chegou à conclusão que define à perfeição o ‘conservadorismo’ britânico, ao bradar, noite alta, para as melancólicas ruas da cidade que jamais o compreendeu: 'sou conservador em moral e costumes, mas liberal em economia!'. Desse momento em diante, a coisa realmente enveredou por um caminho sem volta. Candidatou-se a vereador pelo MBL, mas obteve apenas um voto, o dele mesmo. Frustrado com o insucesso eleitoral, assestou suas baterias contra o primitivo e retrógrado povo do interior da Bahia, que não estava preparado para ideias tão sofisticadas (e chiques) quanto as do conservadorismo britânico que ele advogava. Verberou mormente contra o coronel Justiniano Salviano de Albuquerque, principal mandachuva da política local, que não teria aberto os cofres para a campanha de nosso herói. 

Enfurecido com a audácia de Bernard, o coronel seguiu o Lord Acton do Recôncavo até um motel que este frequentava com muita assiduidade. Ao arrombarem a porta, Justiniano e seus capangas se surpreenderam, pois encontraram o jovem conservador britânico brasileiro com uma boneca inflável que tinha o rosto de Margaret Thatcher. Passado o pasmo inicial, Fagundes, líder dos jagunços, sacou sua pistola e desferiu um balázio no tórax de Bernardo. O sangue escorreu pela tatuagem de peito inteiro que ele fizera, com a figura de Winston Churchill segurando um charuto, e suas palavras finais, já agonizando, foram 'nevVÁ surrENdÁ'. 

Consta que chegando ao Além ele enfim encontrou os autores e políticos britânicos que tanto venerou em vida. Churchill o chamou de 'idiota'; Maggie ‘the milk snatcher’ Thatcher grunhiu; Adam Smith e John Stuart Mill gargalharam; e Chesterton escreveu um artigo desancando-o de alto a baixo.



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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani


Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros







quinta-feira, fevereiro 21, 2019

O MONSTRO



Alphonse van Worden - 1750 AD



That is not dead which can eternal lie.
And with strange aeons even death may die

H.P.Lovecraft  (The Nameless City - 1921)



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Muito do que queria que tivesse acontecido jamais ocorreu; muito do que deveria ter sido, não foi. A grama e os dias de luz sumiram sob prédios e casas em ruínas, dando lugar a noites escuras, cinzas e pó. Aqui não existe mais nada para mim. Só me resta uma tarefa a cumprir antes de partir: tenho uma história para contar. Não me importo se alguém a lerá (se é que ainda haverá alguém para lê-la...); quero apenas contar essa história, pois muito dela eu vi, ouvi e senti. Este é o meu relato, esta é minha vida. Neste relato verto todo o meu ódio, o meu ressentimento, a minha frustração, a minha tristeza e, por fim, a minha indiferença... É preciso, enfim, dizer que o MONSTRO está aqui. 

(...)

E o MONSTRO apareceu. Já não sei precisamente quando, como ou por que, mas tão somente que, certo dia, surgiu o MONSTRO, num cômodo pequeno e escuro de minha casa. Decerto tenho algum vínculo ignoto com o MONSTRO, pois sou obrigada a velar por ele. ELE não fala, não sente, não se move, não ouve, não vê. ELE apenas existe. e em seu mero existir, torna progressivamente mais irreal e tortuosa a minha existência, bem como a de meus filhos. ELE traz consigo um horror mudo, inerte, isto me assusta, me angustia mais que uma grande catástrofe. Tudo está silente, estático, e a convivência com ELE torna-me cada vez mais apática; sinto, por vezes, que talvez tenha sido absorvida por essa criatura. Aos poucos esqueço o gosto da comida, o som da música, e já nem mesmo sei meu próprio nome. Se calhar seria melhor também não falar, sentir, ver ou ouvir, já que assim, quem sabe, estaria sofrendo menos. Não sei por quanto tempo mais eu posso aguentar.

(...)

Minha casa sempre foi muito pacata e ordeira. Todavia, a simples presença do MONSTRO a converteu num abismo de dor, remorso, ódio, exaustão e desespero. E tudo parece emanar do MONSTRO, que dissemina sua danação por cada recanto do que um dia chamei de ‘lar’. Não raro sou acometida por soturnos devaneios, e chego a pensar que tudo se transformará numa ominosa câmara ardente, com o MONSTRO no centro. ELE encolhe paulatinamente, dia após dia; está cada vez mais fraco. Sempre abro a porta do pequeno cômodo na vã esperança de vê-lo morto, mas ELE permanece vivo. Perdi por completo a noção do tempo, pois todos os meus dias se tornaram absolutamente iguais desde que o MONSTRO surgiu. Ele está me dissolvendo. Meus filhos não falam mais comigo, e evitam ao máximo entrar em casa. Exigem que eu faça alguma coisa, que coloque um fim em tudo isso, mas não percebem que isso é impossível; destarte, brigam comigo, acusam-me de ser fraca, como se eu fosse culpada pelo que está acontecendo. “Mate-o!”, eles dizem; mas como fazê-lo? ELE simplesmente permanece vivo, o coração continua batendo, não há como matá-lo. Meus filhos, contudo, não compreendem isso, e sinto-os cada vez mais distantes de mim. Perco, ao fim e ao cabo, o controle sobre minha própria vida essa que agora está atrelada ao destino do MONSTRO. O fim dele será o meu também, pois ele perdurará pulverizando minha mente, até o aniquilamento total de minha consciência. Perco minhas forças, e estou convicta de que o MONSTRO é invencível.

(...)

Um quarto pequenino, mal iluminado; uma cama; um MONSTRO. ELE não provoca medo, mas me deixa paralisada; não provoca horror, mas contemplá-lo é como contemplar o nada, informe matéria sem alma, invólucro inaudito e sem nome, rosto ou expressão. Inefável, inexplicável, incompreensível, assim ELE é. Entretanto, o MONSTRO tem contornos vagamente similares aos de um ser humano. Tem dois lindos olhos verdes que jamais piscam, lábios vermelhos, a pele clara, assim como os parcos fios de cabelos, aparentemente raspados. Não há, contudo, ossos na metade da cabeça, que parece ter sido afundada por um grande traumatismo; seus membros, posteriores e inferiores, são hoje como esquálidas patas d’uma espécie de aracnídeo antediluviano.  Havia, também, um buraco em seu pescoço, que foi revestido por com várias ataduras, posto ser impossível suportar o odor insuportável que exalava do pequeno orifício. O MONSTRO jaz deitado na cama, e não é possível colocá-lo em pé; é como se fosse um Cristo putrefato, crucificado no lenho da abominação; creio que está sempre a dormir, sem jamais se mexer. De longe é possível ouvir as batidas do seu coração. Definha aceleradamente, e está ficando raquítico. Não existem mais vestígios de musculatura, a apenas uma tênue camada de pele reveste os ossos. De inicio, jorrava secreções através do orifício em seu pescoço, empesteando as paredes do cômodo. Com as ataduras, logrei controlar as secreções; no entanto, escaras tenebrosas começaram a aparecer, grandes e profundas feridas, que jamais cicatrizam. Ele goteja sangue pelo cômodo.  Apodrece progressivamente, se alguém tivesse coragem de tocá-lo, perceberia que sua pele está tão fina e ressecada que, caso a puxassem, poderiam arrancar num só movimento todo o tecido dele. O cheio do seu sangue é álacre, a textura da sua carne, que em muitos pontos está à mostra, é semelhante a de um pedaço de carne podre. As moscas estão rondando o quarto, mas todas que se aventuram a provar de sua carne morrem de imediato. São legiões de moscas, que fenecem após um ultimo instante de deleite com essa carne amaldiçoada! À partida o MONSTRO urinava e defecava; agora, todavia, já não excreta mais nada. Está morto em vida, cada vez mais morto, mas sei que jamais perecerá.

(...)

Nos últimos dias, vejo na TV, com absoluta indiferença, notícias sobre um estranho fenômeno: em todo o planeta, centenas de milhares de pessoas estão morrendo, sem qualquer razão aparente.  Cientistas em pânico creem tratar-se d’algum vírus desconhecido e letal, ao passo que os religiosos dizem que é o Apocalipse. Levo um bom tempo até perceber que meus filhos também estão mortos, Como? Por quê? Ninguém sabe. É realmente curioso... julgava-os saudáveis, ao menos aparentemente. Em diabólica epifania, constato que tudo isto está relacionado à presença do MONSTRO. Mesmo no limite de minhas forças, é preciso fazer um derradeiro esforço para matá-lo.  

(...)

Cidades, regiões, países, continentes inteiros, estão desabitados. E não há explicações.

(...)

Em minha cidade, apenas eu e o MONSTRO continuamos vivos. Fiz o possível: por incontáveis horas tentei sufocá-lo com um travesseiro, afogá-lo na banheira, e então  ateei fogo ao MONSTRO. Mas nada surtiu efeito. O coração continuar a bater como se nada tivesse acontecido. ELE não reage a nada, e nem mesmo a morte pode atingi-lo. É hoje tão somente um pedaço carbonizado de carne, e ainda assim, prossegue respirando. Numa ultima e desesperada tentativa de destruí-lo, apanhei um canivete e perfurei, até ficar com os braços dormentes, a superfície desprovida de ossos no crânio do MONSTRO. Retalhei o que pude, e me surpreendi ao verificar que não havia absolutamente mais nada ali. O MONSTRO não tinha qualquer resquício de massa cerebral, estava vazio. Admiti enfim, aterrada, que qualquer tentativa de assassiná-lo era inútil. O MONSTRO existe, inexoravelmente EXISTE, e não há nada que se possa fazer.  

O MONSTRO veio até nós, e consigo trouxe nosso fim.  Só o MONSTRO permanece, e a Terra não pode suportar sua presença.

(…)

Os últimos remanescentes da Humanidade desaparecem; a internet já não funciona, tampouco recebo qualquer transmissão de rádio ou TV; estou isolada e porventura todos já morreram.

(...)

Perambulo sem rumo por estradas desertas. Logo o Universo inteiro irá sucumbir, pois o MONSTRO matou a própria morte, e deseja, flutuando no vórtice da obliteração total, saborear solitariamente seu triunfo. É o reflexo crepuscular, o blasfemo legado de incontáveis civilizações, de milênios de História. Nada mais ‘será’ no crepúsculo de todas as eras... Mas ELE existe...  EXISTE, EXISTE,  EXISTE,  EXISTE, EXISTE, EXISTE, EXISTE,  EXISTE,  EXISTE, EXISTE,  EXISTE, EXISTE, EXISTE........ 

sexta-feira, dezembro 14, 2018

Eis então que num sonho...






Tive hoje um sonho sobremaneira curioso.

Encontrava-me num espaço imenso, úmido e soturno, espécie de amálgama entre os Carceri d'Invezione de Piranesi e as secretarias do Tribunal de Kafka tal como representadas no filme de Orson Welles.


Havia à minha volta uma multidão de vampiros de aparência andrajosa, circulando para lá e para cá em pequenos grupos, murmurando com aspecto preocupado palavras incompreensíveis. Eis então que encontro meu amigo Gabriel Schmitt, com um ar entre assustado e aparvalhado. 


Pergunto-lhe:


- O que você está fazendo aqui? 

- Não sei... recebi uma carta dizendo que deveria estar aqui, sob pena de enfrentar as mais terríveis consequências, e então resolvi vir... mas não sei o motivo.
- Estranho... você não deveria estar aqui... foi algum erro da Organização... mas enfim, já que está aqui, fique calado, não diga uma só palavra. Essas pessoas que você está vendo, todas elas são projeções da minha imaginação, compreende? Só eu e você somos reais aqui... portanto, fique quieto. 
- Mas e você, o que está fazendo aqui? 
- É uma questão complicada, você não entenderia... digamos que se trata de uma disputa patrimonial... um contencioso sobre uma herança.

Nisso aparece Caronte, segurando uma tocha numa das mãos, e um astrolábio na outra. A entidade se dirige a mim:


- Magister, a audiência já vai começar. Acompanhe-me, por favor.


Gabriel, consternado, faz menção de se levantar do assento de pedra onde estava, e diz:


- E agora, o que é que eu faço?


Respondo-lhe:


- Bem... pode vir... mas lembre-se: não diga nem uma palavra sequer!


Infelizmente despertei neste momento.



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Ten. Giovanni Drogo


Forte Bastiani


Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

domingo, agosto 19, 2018

A propósito de Paul Valéry



Alphonse van Worden - 1750 AD


Inclitíssimos irmãos d’armas:

Tenciono hoje pôr à vossa disposição algumas reflexões a propósito de Paul Valéry, que indubitavelmente tem sido uma das referências intelectuais mais constantes e vitais ao longo de minha trajetória.

À moda dos Cahiers do primus inter pares das letras francesas, do incomparável mâitre à penser da literatura universal no século XX, tais reflexões assumirão um caráter essencialmente assistemático, fragmentário; não obstante, se do autor de Ébauche d’un serpent ainda posso (ainda que tão somente, claro está, em caráter de miserável simulacro) emular dos aforismas o estilo, decerto o refulgente descortino crítico de seu gênio é páramo que nem de muitíssimo longe poderia ter a esperança de vislumbrar.

Isto assente, às nossas lides procedamos.


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Valéry foi inelutavelmente uma das inteligências mais fulgurantes da cultura universal em todos os tempos, tendo se demonstrado capaz de articular exemplarmente as seis virtudes que reputo como cardeais no exercício da atividade intelectual: Criatividade / Rigor / Ousadia / Lucidez / Clareza / Profundidade. Trata-se d'um autor / pensador cujo talento multiforme e surpreendente se manifestou, sempre com rara consistência e beleza, nas mais diversas esferas do conhecimento e da arte. Há que frisar, sobretudo, que a trajetória intelectual de Valéry (obra poética inclusa) pode ser definida como uma ampla investigação, de cariz analítico, metódico e sistemático, dos processos operacionais da inteligência no âmbito da atividade criadora; com efeito, tal é a o alpha e o omega de sua obra, vale dizer, a tentativa de identificar uma 'atitude central' a coordenar todas as operações criadoras do intelecto. Tal perspectiva, creio, delineia horizontes de capital importância no bojo da epistemologia, cujo alcance e profundidade ainda estão a ser mapeados, sobretudo no espectro da vasta galáxia que são seus Cahiers.  É mister, outrossim, elencar os demais aspectos cruciais da epopeia valeryana: a autoconsciência progressiva no tocante aos procedimentos e recursos da linguagem, bem como a concentração deliberada nos métodos de composição; a valorização do ostinato rigore (d'après Poe e Mallarmé) como princípio criativo fundamental, em detrimento da inspiração e da espontaneidade, que Valéry em boa medida encara como quimeras românticas; a convicção de que a grande obra de arte não está propriamente no ‘produto acabado’ (quadros, poemas, esculturas etc.) em si, mas no próprio processo de criação, expressão privilegiada da inteligência.

Exemplo lapidar de toda essa refinada ars combinatoria é o célebre poema Le Cimetière marin, composição estruturada com elegância e precisão matemáticas em seus requintados arabescos verbais:


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Ao apreciarmos a ars poetica de Valéry, é possível constatar, pois, que o egrégio vate francês não está propriamente preocupado com o resultado final de seus poemas, mas sim em observar a dinâmica de sua inteligência criativa ao concebê-los. Para Valéry o labor poético é essencialmente uma operação do intelecto; a autoconsciência progressiva no tocante aos recursos e procedimentos da linguagem e a concentração deliberada nos métodos de composição são, destarte, muito mais importantes que elementos vagos como 'espontaneidade', 'inspiração' e 'intuição'. Acrescente-se ainda que não lhe importavam tanto os 'fins', mas sobretudo os 'meios'. Acreditava, pois, que um artista nunca termina efetivamente um trabalho, mas tão somente o 'abandona': o fundamental é o caminho, não o termo, a chegada; e é exatamente por isso que o autor de La jeune parque chega a afirmar que a grande obra de arte não está numa tela, numa escultura ou num poema consumados, mas sim no próprio processo de criação.


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Há uma observação de Valéry que a meu ver reverbera no plano literário a distinção essencial que há em filosofia entre 'analíticos' e 'continentais: a prosa, sobretudo a prosa de não ficção, deve 'terminar'  exatamente onde 'termina' a linguagem, ou seja, ela não deve dizer mais do que o plano semântico da linguagem lhe faculta; a poesia, por outro lado, deve 'COMEÇAR' onde 'termina' a linguagem, isto é, ela emerge justamente quando a linguagem já não mais consegue dar conta daquilo que queremos dizer. Sublinhe-se, ademais, que o aedo francês define poesia como "a permanente hesitação entre som e sentido", vale dizer, a oscilação perpétua entre o dizível e  o indizível, o tangível e o intangível.


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"M. Teste avait peut-être quarante ans. Sa parole était extraordinairement rapide, et sa voix sourde. Tout s’effaçait en lui, les yeux, les mains. Il avait pourtant les épaules militaires, et le pas d’une régularité qui étonnait. Quand il parlait, il ne levait jamais un bras ni un doigt : il avait tué la marionnette. Il ne souriait pas, ne disait ni bonjour ni bonsoir ; il semblait ne pas entendre le « Comment allez-vous ? »"


La Soirée avec monsieur Teste (originalmente publicado em 1896 / expandido na edição póstuma de 1946 com o acréscimo dos textos que formam o Cycle Teste), misto de romance 'abstrato' / ensaio analítico, sem dúvida constitui uma das obras mais singulares e fascinantes de Paul Valéry.

Trata-se d'uma reflexão sobre a dissociação progressiva entre a 'razão pura' e a sensibilidade no seio da personalidade do protagonista. Teste é obcecado pelo ostinato rigore da EXPRESSÃO, não só na esfera conceitual, verbal e formal, mas também no plano dos sentimentos, e até mesmo no âmbito dos mais prosaicos hábitos e ações do cotidiano. Cada pensamento, sentimento, vocábulo, ato ou gesto supérfluo é por ele rejeitado, o que ao fim e ao cabo terminará por levá-lo a 'inviabilizar' a própria VIDA, dimensão inexoravelmente entretecida nas ramagens do fortuito, do arbitrário e do fugaz.

Algo irônicos e melancólicos, os textos do 'Ciclo' talvez sejam uma espécie de originalíssima autobiografia espiritual do autor.


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A meu juízo a inteligência mais privilegiada já surgida em França, era Valéry era movido, conforme já salientei n'outras ocasiões, por uma busca metódica e sistemática pelo ostinato rigore em todos os campos da linguagem.

O autor de Regards sur le monde actuel chega a afirmar, em determinada passagem de seus Cahiers, que uma demonstração matemática ou uma proposição científica lhe proporcionava mais prazer estético que a leitura d'um romance; buscava, assim, lograr um grau máximo de precisão tanto no plano formal quanto na esfera semântica.

Em Sur Bossuet, magnífico ensaio a propósito do notável bispo e teólogo francês, Valéry sustenta que a prosa de Bossuet é de tal modo rigorosa, majestosa e severa que o facto de concordarmos ou não com as ideias advogadas pelo autor não tem a menor importância. E vai além, n'outra passagem dos Cahiers: dar ou não assentimento às concepções d'um pensador não é o que importa, mas sim verificar a solidez de sua 'engenharia textual', a consistência de sua 'arquitetura conceitual'.

E Valéry está certo. Sempre esteve. Sempre estará.


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Todo artista que atinge alguma consagração, isto é, algum nível de reconhecimento crítico, demonstra n'alguma medida deter autoconsciência a propósito dos recursos e procedimentos de que se serve para criar, dos métodos de composição e de suas possibilidades últimas enquanto criador. Paul Valéry talvez tenha sido o autor mais deliberadamente autoconsciente em toda a história da literatura, o que por si só ilustra o grau de excelência que logrou atingir.


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Num de seus magníficos escritos compilados nos volumes de Variété, Valéry declarou que se calhar seu desiderato supremo seria a criação d'uma 'Commedia da inteligência'. Dante escrevera a Divina; Balzac a Humana; Valéry, por seu turno, almejava a da abstração total. Analogamente, chega a afirmar que uma demonstração matemática proporcionava-lhe maior deleite e satisfação estética que a leitura d'um romance.  Por fim, na conferência De l’enseignement de la poétique au Collège de France, especulou sobre a possibilidade de uma história da literatura que não mencionasse autor algum, mas que, com efeito, fosse concebida como uma espécie de "História do Espírito Universal enquanto produtor e consumidor de literatura". Em suma: três exemplos que ilustram à perfeição a 'atitude central' tanto do ars poetica quanto do corpus teórico valeryanos, qual seja, um verdadeiro CULTO da inteligência, não só como uma espécie de apologética suprema da criação, mas inteligência como expressão por excelência da próprio BELO. 


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Em Quelques notes sur la technique littéraire (1889), Valéry afirma o seguinte:

"Tanto mais apreciaremos a arte de nosso tempo quanto mais misteriosa, restrita e inacessível ela for para as multidões. Pouco importa que resulte impermeável à maioria, que seja privilegio duma minoria, alcançável apenas por um punhado de eleitos, para quem é um reino divino do mais alto grau de esplendor e pureza."

Como de hábito está correto o grande luminar das letras francesas. Com efeito, é mister que arte sempre seja apanágio exclusivo d'um cenáculo restrito, perspectiva que hoje, tendo em vista a hecatombe cultural de nossos tempos, precisaria ser advogada com maior veemência ainda. Lembremo-nos sempre: democratização (não só no plano das artes, mas também nas esferas do conhecimento em geral e da política) = vulgarização, diluição, abastardamento.




domingo, junho 03, 2018

Sinopse para uma possível continuação de A Clockwork Orange (1962 - livro / 1971 - filme)






Inglaterra, 1985.

Alex DeLarge aos 30 anos de idade. Após toda a experiência traumática com o tratamento Ludovico; a impiedosa vingança da sociedade após seu retorno; a tentativa de suicídio e anos de internação psiquiátrica etc., nosso protagonista resolve que o melhor a fazer seria adquirir uma base intelectual sólida. Não que tivesse a ilusão de que isto fosse dar algum sentido 'maior' a sua vida, muito menos justificá-la; pensa, não obstante, que talvez seja uma maneira de pô-la em perspectiva, de proporcionar foco e direção ao ódio profundo e inexorável que continua a devorar-lhe as entranhas. Assim sendo, solicita a seu grande fiador no seio do governo, o Min. do Interior, que lhe consiga uma bolsa de estudos em sociologia, filosofia, literatura ou psicologia n'alguma boa instituição de ensino no país. Acionando os canais competentes e submetendo Alex aos trâmites e exames acadêmicos necessários, o min. logra inscrevê-lo na prestigiada escola de ciência política da London School of Economics. A vida universitária de nosso herói decerto não seria das mais fáceis. A grade curricular não desperta maior interesse em Alex; em termos de convívio social, a fama pregressa e a postura altiva certamente não lhe granjeiam grande simpatia entre seus pares. Paulatinamente, contudo, Alex começa por vias transversas a descobrir o 'lado negro da força' de seu campo de estudos: aqui e ali, obras de autores como Carl Schmitt, Georges Sorel, Giovanni Gentile, Ernst Jünger, Francis Parker Yockey, Arthur Moeller van den Bruck, Julius Evola etc. começam a cair em suas mãos, além de textos de líderes políticos como Mussolini, Codreanu, Degrelle, Primo de Rivera, Hitler, Goebbels, Ramiro Ledesma Ramos etc. Outrossim descobre, para seu imenso deleite e fascínio, a figura de sir Oswald Mosley, que logo passa a encarar como modelo de conduta e 'patrono' político. 'Last but DEFINITELY not least', coroando esse processo de metanoia, o momento sublime e determinante para o eterno melômano que Alex sempre foi e sempre será: a descoberta do universo de Richard Wagner, com todas as óbvias e importantíssimas consequências que isso poderia ter para alguém como ele. É sem sombra dúvida como a explosão d'uma supernova no imo do espaço sideral: ora a revolta amorfa e caótica que nele sempre fervilhara tem nome, lógica, propósito.

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Inglaterra, 1995. 

Bom, sem mais delongas: Alex conclui seus estudos, obtendo o grau de mestre e por fim o de PHD. Como obviamente jamais se adaptaria ao meio acadêmico (e o novo governo estava determinado a extinguir sua pensão), passa a dar aulas particulares. Sempre carismático, sobremaneira envolvente e sedutor, ao longo d'alguns poucos anos arregimenta não um simples punhado de alunos, mas sim uma verdadeira legião de fervorosos discípulos.

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Inglaterra, ano 2002 em diante.

E assim o processo evolui de forma orgânica, como se correspondesse ao fluxo natural das coisas, a uma dinâmica praticamente inevitável: Alex converte-se em líder d'uma nova organização política, uma espécie de BUF (British Union of Fascists) da era do nacional-bolchevismo. Em pouco tempo o movimento ganha surpreendentes força e notoriedade, alarmando o establishment político britânico e europeu. Surge então a figura do antagonista: Anthony Greenwall, líder do Labour Party. Intelectual progressista de esquerda (multiculturalista, globalista,europeísta, feminista, gayzista, pró-imigrantes, etc. etc. etc.) Greenwall tem também uma motivação pessoal para se opor ao novo líder: é sobrinho do escritor F. Alexander, uma das mais notórias vítimas de Alex e seus droogs nos áureos tempos da ultraviolência. A trama, enfim, se desenvolve como o titânico confronto ideológico, espiritual e psíquico entre Alex e Anthony, cujos desdobramentos obviamente exercerão decisiva influência sobre os destinos da Grã- Bretanha (e, ao fim e ao cabo, do planeta).

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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros


quarta-feira, maio 02, 2018

A arte do futuro


Alphonse van Worden - 1750 AD

Em seu ensaio The Study of Mathematics (1919), Bertrand Russell afirmou o seguinte a propósito do elemento estético presente na matemática:

Mathematics, rightly viewed, possesses not only truth, but supreme beauty — a beauty cold and austere, like that of sculpture, without appeal to any part of our weaker nature, without the gorgeous trappings of painting or music, yet sublimely pure, and capable of a stern perfection such as only the greatest art can show. 

Mais ou menos à mesma época, o deífico Paul Valéry , num de seus magníficos escritos para série Variété (ora não me recordo precisamente qual), declarou que se calhar seu desiderato supremo seria a criação d'uma 'Commedia da inteligência'. Dante escrevera a Divina, Balzac a Humana; Valéry, por seu turno, almejava a da abstração total. Analogamente, em determinada passagem de seus Cahiers, chega a afirmar que uma demonstração matemática proporcionava-lhe maior deleite e satisfação estética que a leitura d'um romance. Vale lembrar, outrossim, que o escritor francês especulou sobre a possibilidade de uma história da literatura que não mencionasse autor algum, mas que, com efeito, fosse concebida como uma espécie de história do Espírito Universal enquanto produtor de literatura.

Pois bem: socorro-me das reflexões de dois gênios incontestáveis para porventura dar sustentação a uma aspiração sempre mais intensa em minh'alma. Com efeito, desejo cada vez mais uma arte olímpica, imaculada, impassível, glacial, hierática, sublime, mítica, irreal. Uma arte (também no plano literário, convém sublinhar) ao fim e ao cabo inumana, que não pareça brotar de qualquer criador individual, mas sim surgir como emanação involuntária do Cosmo ou inefável manifestação divina. Uma 'arte das esferas' que se propague lenta e indefinidamente por espaços infindos e silêncios eternos, curva assimptótica em direção ao Fogo Sagrado. 

Em suma: ambiciono uma arte praticamente fora do tempo e do espaço, que já nasça clássica e universal, para todos e para ninguém. 





sexta-feira, março 30, 2018

Bauhaus: the Dark Side of the Goth Dub





Prezados confrades: sabem o momento exato em que o reggae deixa de ser reggae, libertando-se do primado da voz, dos sopros e d'outros instrumentos melódicos para se concentrar tão somente na hipnose gerada pela sagrada aliança baixo/bateria, multiplicada ad infinitum em progressão geométrica por sucessivos e cumulativos efeitos de eco, que ricocheteiam uns contra os outros em tonitruante crush collision , reverberam sobre si mesmos e voltam a reproduzir-se indefinidamente em crescente atmosfera de desorientação sônica, gerando novas galáxias turbilhonantes de hipnose rítmica? Trata-se, senhoras e senhores, do dub,um conjunto de técnicas de produção desenvolvidas pelos jamaicanos Lee Scratch Perry e King Tubby a partir de meados da década de 70,  e que desde então  exerceram grande influência sobre o que há de mais ousado na música contemporânea.

Pois bem: e o que isso teria a ver com o Bauhaus, célebre formação britânica atuante entre 1978 – 1983 (para não lembrarmos aqui – misericordiosamente, aliás – as tentativas de revival ocorridas em 1998 e 2008)? Muito mais do que a princípio se poderia pensar.  Pois se é verdade que o Bauhaus foi a banda mais emblemática do chamado goth rock, com seu arsenal de guitarras dissonantes, vozes espectrais, baixo saturado e percussões tribais, Peter Murphy e seus asseclas (Daniel Ash / David J. / Kevin Haskins) criaram uma espécie de trajetória paralela, um teatro de sombras onde os pesadelos expressionistas e inflexões bowieanas de suas composições mais notórias se entrelaçam às pajelanças dub.

Na verdade, o interesse do Bauhaus pelas fantasmagorias de Lee Perry & Cia. vem desde o começo:  já em seu single de estréia, “Bela Lugosi's Dead” (1979), que se tornaria a 'canção-assinatura' de todo o goth rock britânico,  é evidente o entrechoque entre hipnoses percussivas avant funk, sinistras radiações ambient e alucinações dub. Tais elementos eram compartilhados com outros grupos do cenário britânico de então (Pop Group, Cabaret Voltaire, Foetus, Clock DVA, T.A.G.C., etc.), mas a abordagem de nossos amigos é decididamente singular: emanações sulfurosas de tribos africanas em mutação teutônica tocando covers de Can numa missa negra schizo jazz; tambores e sopros espectrais terçando vozes com found sounds alienígenas na floresta cibernética do apocalipse ambiental; África e Europa em transe eletromagnético, intercambiando idiomas secretos em multiformes rituais de hermetismo sônico. É mormente digna de nota a alternância entre dois paradigmas estilísticos: ritmos turbulentos e compassos fragmentários, de um lado; paisagens sonoras ominosas, atmosferas surreais e tramas circulares de ruídos aleatórios, de outro, ambos traduzindo à perfeição o cariz mais 'esotérico' e soturno do Bauhaus.

Assim sendo, em peças como "Terror Couple Kill Colonel", "Satori", "Earwax", "Poison Pen", “Departure”, “Party of the First Part”,  "In Fear of Dub", “Harry”, “1-2-3-4”, “Dave and Danny's Waspie Dub #2”, “Paranoia, Paranoia”, “Here's the Dub” e outras mais, originalmente espalhadas entre compactos e ep's da banda (e hoje compiladas em coletâneas ou encaixadas como bonus tracks nas reedições dos discos de carreira), o ouvinte é presenteado com um exercício de desconstrução sistemática e meticulosa dos fundamentos basilares do rock e do reggae via eletrônica minimal, terremotos percussivos e uma delirante orgia de found sounds / samples oriundos das mais diversas procedências. É o goth rock de fatura punk desdobrando-se num sabbath transpsicodélico de atmosferas obnubiladas através de nuvens eletrônicas de sinsemilla sônica...

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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

domingo, fevereiro 11, 2018

L'Apogée du Sacré

Alphonse van Worden - 1750 AD


Vivre ? Non. — Notre existence est remplie, — et sa coupe déborde ! — Quel sablier comptera les heures de cette nuit ! L’avenir ?… Sara, crois en cette parole : nous venons de l’épuiser. Toutes les réalités, demain, que seraient-elles, en comparaison des mirages que nous venons de vivre ? À quoi bon monnayer, à l’exemple des lâches humains, nos anciens frères, cette drachme d’or à l’effigie du rêve, — obole du Styx — qui scintille entre nos mains triomphales !

La qualité de notre espoir ne nous permet plus la terre. Que demander, sinon de pâles reflets de tels instants, à cette misérable étoile, où s’attarde notre mélancolie ? La Terre, dis-tu ? Qu’a-t-elle donc jamais réalisé, cette goutte de fange glacée, dont l’Heure ne sait que mentir au milieu du ciel ? C’est elle, ne le vois-tu pas, qui est devenue l’Illusion ! Reconnais-le, Sara : nous avons détruit, dans nos étranges cœurs, l’amour de la vie — et c’est bien en réalité que nous sommes devenus nos âmes ! Accepter, désormais, de vivre ne serait plus qu’un sacrilège envers nous-mêmes. Vivre ? les serviteurs feront cela pour nous.


*

"Viver? Não. - Nossa existência está consumada, e sua taça transborda! - Que ampulheta contará as horas desta noite! O futuro? Crê em minha palavra, Sara: acabamos de esgotá-lo. Todas as realidades do amanhã, que seriam em comparação com as miragens que acabamos de experimentar? Qual o sentido de comprar, a exemplo dos timoratos, nossos velhos irmãos, este dracma dourado com a efígie do sonho - óbolo do Estige - que brilha em nossas mãos triunfais?!

A qualidade de nossa esperança já não nos faculta a Terra. O que demandar a esta estrela miserável, onde persiste nossa melancolia, senão pálidos reflexos de tais instantes? A Terra, dizes tu? O que ela alguma vez levou a cabo, aquela gota congelada de lama, cuja Hora tão somente logra mentir no meio do firmamento? É ela, tu não compreendes isso, que se transformou em ilusão! Admite, Sara: destruímos, em nossos corações estranhos, o amor à vida - e de fato nos convertemos em nossas almas! Aceitar viver, doravante, não seria mais do que um sacrilégio para nós mesmos. Viver? Os criados farão isso por nós."

Axël (1890) - Jean-Marie-Mathias-Philippe-Auguste de Villiers de L'Isle-Adam

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O píncaro do ápice do auge do apogeu, o vero PEAK OF THE SACRED do evasionismo místico da gnose romântica, é o matrimônio entre o conde Axël de Auersperg e a princesa Sarah de Maupers, na necrópole subterrânea do castelo dos Auersperg em Baden-Württemberg.

Sabia o casal, não obstante, que o grosseiro mundo material jamais estaria à altura dos deíficos desígnios que excelsamente acalentavam.

Destarte, percebendo que o caráter sublime e preternatural de seus sonhos fatalmente pereceria em contato com a realidade, os noivos decidem suicidar-se, elevando-se dos báratros do mundo material às esferas da Arcana Coelestia, para que a beleza, para que o inefável milagre da beleza imaterial, não se dissipe; matam-se, pois, num vórtice rutilante de êxtase cósmico, e despedem-se com a seguinte sentença, emblema máximo da Aristocracia do Espírito:

Vivre? Les serviteurs feront cela pour nous.

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O alcance dessa obra tão somente pode ser compreendido por aqueles cujo coração é d'algum modo arrebatado pelo imperativo da revolta gnóstica contra a 'Realidade', mesmo que em caráter exclusivamente mitopoético; os demais, faltos de metafísica e sensibilidade poética, chafurdam em charcos obscuros.


domingo, fevereiro 04, 2018

Mark E. Smith (1957 - 2018): um herói (possível) de nosso tempo


Nostalgia. É emblemático constatar ser precisamente este o sentimento recorrente nos melhores necrológios publicados na imprensa britânica a propósito de Mark E. Smith.

Nostalgia sem dúvida inspirada pelo ethos, pelos sentimentos, temáticas e sensibilidades estéticas cultivados pela banda do falecido cantor e letrista, que sempre evocou o que a Inglaterra tinha de mais singular e original, sem poupar seus compatriotas da mais corrosiva ironia, e talvez por isso mesmo outrossim celebrando suas melhores virtudes.

Entre outras coisas, era o reino inconteste do understatement; dos olhares sublimados; de gestos discretos, quase imperceptíveis, mas tão significativos em sua complexa geometria de silêncios... Um país, pois, caracterizado por uma miríade de fascinantes e surpreendentes sutilezas, com sua plêiade de excentricidades sutis e discretas peculiaridades.

Desafortunadamente, contudo, esse país hoje existe apenas nos escritos de figuras como GK Chesterton, Evelyn Waugh e PG Wodehouse; nos filmes de Tony Richardson ou Jack Clayton; nas letras de música de cronistas como Ray Davies e nosso querido Mark. Está a ser paulatinamente substituído, num processo que vem se intensificando desde a década de 90 do século passado, pelo "death twilight kingdom" (TS Eliot) do horror multiculturalista e da barbárie globalista liberal, infestado por hordas de analfabrutos e animonstros que a náusea e o fastio não me permitem ora elencar (e que todos vós obviamente sabeis muito bem quem são...).

Insomma: quem conheceu, conheceu; quem não conheceu, um abraço. E fim de papo.

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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

Entre ruínas fumegantes e sombras ominosas, memórias crepusculares d'um país que já se foi - I

Alphonse van Worden - 1750 AD


Definitivamente alguma coisa se perdeu... se calhar em todo o planeta, mas com absoluta certeza em nosso país... algo de fundamental, algo de extraordinário, de assombroso, de transcendente, que se manifestava até mesmo em episódios e circunstâncias relativamente singelos. Os indícios e exemplos enxameiam, mencionemos um deles colhido hoje ao sabor do acaso. Leio numa crônica de Vinicius de Moraes que em 1942, por ocasião da passagem de Orson Welles pelo Brasil, o poeta brasileiro, desejoso de que o cineasta norte-americano travasse conhecimento com Limite (Mário Peixoto - 1931), após uma série de contratempos enfim conseguiu promover uma sessão da fita.

Pois bem: além, claro está, do maior cineasta de todos os tempos e d'um assaz respeitável homem de letras brasileiro, para essa exibição de um dos filmes mais enigmáticos e densamente poéticos da história da sétima arte estavam presentes, entre outros nomes menos ilustres, as seguintes figuras: a maior atriz da história do cinema (Renée Maria Falconetti); o melhor crítico literário e uma das inteligências mais fulgurantes que já andaram por este país (Otto Maria Carpeaux); um barítono inglês de fama internacional (Frederick Fuller).

Uma simples sessão de cinema... É, alguma coisa definitivamente se perdeu, não é possível...

domingo, maio 21, 2017

O Ocaso do Mestre: um soneto à deriva























Ó preclaríssimos e inclitíssimos irmãos d'armas, savdações cesaropapistas!

Pois bem: cá está a mais núpera emanação um novo produto do humílimo estro poético droguiano; sabedor da índole munificente e longânime que sói caracterizar-vos, espero desfrutar de vosso valedoiro ditirambo!  

O Ocaso do Mestre

Quem muita peçonha sói secretar
Cedo ou tarde acaba por se envenenar
Quem muito perverte, calunia, difama
Cedo ou tarde se enreda em triste trama!

É o caso de solerte, pérfido guru,
Verme maçom e sionista, ó horror!
Que dia após dia se desfaz em bolor
E prestes está, ora porra, a tomar no cu!

Diz-se que a digníssima inquieta está
Pois em desespero o truão cogita
Ideias d’autocídio pra lá e pra cá

Triste sina, tétrica desdita
De lustros de patifaria, eis o aziago fruto
Em breve a ser colhido pelo bruxo prostituto!

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Ten. Giovanni Drogo 

Forte Bastiani


Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

sexta-feira, fevereiro 03, 2017

Tratado Geral do HOMEM-FUNÇÃO - III

Alphonse van Worden - 1750 AD





O panorama atual 

Amiúde associava-se em outros tempos a figura da 'função' a uma postura ideológica e existencial classe 'mérdia', em geral amorfa, indistinta, sem aprofundamento suficiente para ser classificada como 'progressista' ou 'conservadora' mas simplesmente fluindo entre esses dois conforme a conveniência.  Não obstante, tem que estar muito atento, sobretudo no Brasil, à existência crescente d'uma subespécie de 'seres-função': os 'funções' da nova esquerda. A maioria dos estudiosos de funcionologia concorda que a chamada "Era Lula" foi o elemento mais importante para o agravamento do fenômeno em tela.

Com a ascensão do petismo, uma colocação no serviço público passou a ser algo cada vez mais almejado por parcelas crescentes da população. Tal dinâmica, por seu turno, permitiu que o 'funcionalismo de esquerda', que antes via de regra permanecia incubado - já que o indivíduo considerava desonroso trabalhar para o Estado 'burguês' - , tornou-se progressivamente manifesto. Assim sendo, ao tradicional contingente dos 'funções-concurseiros', agregou-se a subespécie dos 'funções' de esquerda que, com o advento de um presidente pretensamente da classe trabalhadora e de um partido tradicionalmente forte entre os servidores públicos, passaram a julgar meritório trabalhar para o 'governo'. 

Em décadas passadas, a esquerda costumava valorizar a formação universitária, mormente nas áreas História, Sociologia e filosofia política. Isso ainda ocorre no meio acadêmico, saliente-se; existe, todavia, entre a nova geração dos 'funções' de esquerda lulopetistas egressos das classes C e D, uma considerável ojeriza em relação à figura do 'intelectual' e á necessidade do estudo formal. Tal manifestação de repúdio ao saber sempre foi relativamente comum entre os elementos conservadores da classe média baixa; todavia, com a eleição de Lula-Dilma, passou a contar com um verniz 'progressista', já que o presidente teria demonstrado que o preparo acadêmico não é importante para um bom governante.

Ironicamente (ou, se calhar, emblematicamente...), contudo, à medida que as classes C e D atingiram um padrão de vida mais confortável, os homens-função que até então estavam cerrando fileiras com o liberalismo de esquerda paulatinamente rumaram para o liberalismo de direita; e com o massacre midiático sistemático a que foram submetidos os governos Lula-Dilma, hoje estes ex-‘funcionalistas’ da nova esquerda se sentem mais confortáveis dentro d’um espectro mais conservador e entreguista, condizente com nosso cenário politico atual. A era Lula-Dilma e o advento de Temer atualmente evidenciam a facilidade do homem função, essa criatura onde tudo é conveniência, de se camuflar e trocar de parâmetros políticos como quem troca de roupa.

Por fim, é instrutivo observar que a esquerda intelectual, iludida pelo fetiche da ascensão da classe trabalhadora, não conseguiu perceber como estes lhe são profundamente hostis e daí sua atual impotência no Brasil atual.

Em suma: o Funcionalismo hoje é liberal e entreguista nos moldes clássicos do tiozão reacionário que escreve em caps lock no Facebook; amanhã, quem sabe, poderá assumir uma configuração totalmente diferente. Não obstante, devemos sempre estar prontos a mapear tais entidades, não importa a camuflagem que usem, e uma vez identificadas, devemos inapelavelmente destruí-las.

sábado, novembro 26, 2016

In Memoriam IX




Indômitos irmãos d'armas:

Fidel Alejandro Castro Ruz foi indubitavelmente o maior líder revolucionário de toda a História da América Latina; um homem que durante mais de meio século encarnou os mais excelsos valores e talantes de nossa gente americana; um tribuno magno da guerra anti-imperialista dos povos da Terra; e, se calhar mais do que qualquer outra coisa, a própria consciência militante das Américas.

Trata-se, com efeito, consoante já dissemos a propósito do falecimento de Hugo Chávez, d'uma perda incomensurável, não somente para o conjunto das forças revolucionárias na América Latina, mas também para os nacional-bolcheviques, evrasianos e partidários da Quarta Teoria Política em todo o mundo.

Caracterizado por um assombroso amálgama entre fé inquebrantável, descortino estratégico, perspicácia tática e idealismo flamejante, Fidel Castro sempre 'combateu o bom combate', seja no plano militar, na esfera da administração pública ou no terreno das ideias. Nos quarenta e sete anos em que esteve à frente do governo de Cuba, nunca transigiu na defesa da soberania, do bem-estar e da liberdade do povo de seu país, e pugnou de forma incansável para que as mesmas conquistas se tornassem patrimônio comum de toda a Humanidade; no último decênio, crepúsculo outonal d'uma vida extraordinária, ainda que restrito ao âmbito da luta ideológica, perseverou na promoção dos mesmos ideais e princípios que marcaram sua atuação política.

Isto posto, declaramos: que para vós se descortinem, infindas e altaneiras, as iridescentes veredas da ARCANA COELESTIA!!!


EXEMPLO VOSSO, LUTA NOSSA!!!




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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

quinta-feira, outubro 20, 2016

Brevíssimas notas sobre a relação entre Teatro e Filosofia

Alphonse van Worden - 1750 AD



- O Teatro pode ser compreendido como a manifestação concreta de dois problemas centrais da Filosofia: IDENTIDADE e REPRESENTAÇÃO.

- A identidade de uma determinada coisa é o que ela simplesmente É. Tal relação, não obstante, nem sempre se estabelece de forma unívoca: a molécula de oxigênio, por exemplo, é sempre idêntica a si mesma, sob qualquer circunstância ou contexto espaço-temporal. Todavia, conceitos como ‘sociedade’ ou ‘justiça’ apresentam uma identidade muito mais problemática, uma vez que se revestem de caráter equívoco e multidimensional. Analogamente, é sumamente difícil determinar a 'identidade', no sentido unívoco do termo, de um indivíduo, já que em cada um de nós converge um feixe multiforme de idéias, sensações, impulsos e sentimentos não raro contraditórios e contrastantes.

- No teatro, esta tragédia da identidade é exercitada de forma exemplar pelo ator, pois este encarna a identidade de uma personagem sem, no entanto, ser ‘idêntico’ a ele, já que sua própria identidade continua presente em cena; forma-se então uma terceira identidade, distinta das anteriores: a do ‘ator enquanto veículo da personagem’.  Forja-se destarte todo um jogo triangular de espelhos que se refletem e se deformam mútua e continuamente.

- O problema da representação, por seu turno, envolve os diferentes modos com que a linguagem, através de diversos arranjos de símbolos e palavras, é capaz de descrever / significar um determinado objeto ou evento. A representação, por mais acurada que seja, jamais será idêntica à realidade que tenciona descrever, o que vige até mesmo no rigoroso universo das teorias científicas; analogamente, ao considerarmos o universo da linguagem, constatamos a presença d’uma distinção substancial entre entidades linguísticas e entidades reais, entre os elementos do discurso e os elementos da realidade. William of Ockham, por exemplo, notável filósofo medieval inglês, afirma não se deve atribuir aos signos (isto é, qualquer sinal gráfico, fonético, etc. criado para representar algum ente real), necessários para descrever e comunicar, nenhuma outra função senão a de representação ou símbolo, cujo significado está em assinalar ou indicar realidades diversas dele.

- O teatro, portanto, também se constitui como tragédia da representação, já que é a tentativa de representar, da forma mais exata possível, contextos e atmosferas, de transfigurar universos conceituais e existenciais, sem que tal intento possa ser levado a efeito em caráter definitivo.

- Com efeito, o dramaturgo, no processo de transcrever para o papel a trama que sua imaginação criou, já está recorrendo a um processo de representação, uma vez que a supracitada trama, organizada e dividida em cenas e atos, não corresponde exatamente ao que antes existia apenas em sua mente. Da mesma maneira, o diretor, ao encenar uma peça, está igualmente levando a efeito um processo de representação, de transposição do texto que tem em mãos para o espaço cênico, envolvendo iluminação, marcações, cenários, trilha sonora, etc. Os atores, por fim, inseridos na concepção que o diretor adota para a montagem de um texto teatral (concepção essa, relembremos, que é apenas uma representação do texto, o qual, por seu turno, é a transcrição do processo mental do dramaturgo), interpretarão / representarão as personagens que lhes forem designadas.

- Trata-se, enfim, d’uma dinâmica em si mesma tão complexa e fascinante que uma figura do porte de Paul Valéry, se calhar o mais importante pensador francês do século XX, sustentava que a observação sistemática dos mecanismos operacionais de sua inteligência era, por si só, mais interessante que o resultado final do próprio processo de criação / representação, até mesmo no que se refere à sua obra poética.   

Tora! Tora! Tora!



Pouco mencionado aqui em nossas plagas, este insólito quarteto nipônico é sem dúvida uma das melhores formações do noise rock nos últimos 20 anos. Formado em 1992 por estudantes do depto. de línguas estrangeiras da Universidade de Tóquio (Yasuko Onuki - vocais / Ichirou Agata - guitarra elétrica, efeitos / Rika mm' - baixo elétrico / Toshiaki Sudoh - bateria), o Melt-Banana existe até hoje, tendo a seu crédito uma discografia das mais interessantes, onde à emblemática blitzkrieg sonora tão característica das vanguardas nipônicas acrescenta-se um notável senso de proporção estrutural.

Parte integrante do mesmo cenário de outros nomes célebres como Ruins e Boredoms, a banda notabilizou-se por sua singularmente criativa reinterpretação do hardcore, onde, à arquetípica velocidade do estilo, agregam-se a atmosfera caótica e fragmentária do rock industrial e a quebradeira esquizoide da no wave. Quem descreve à perfeição a coisa toda é o crítico norte-americano Dan Lett:

"As the subway pulls into Shibuya on the Yamanote Line in Tokyo, nothing can prepare you for the sensory onslaught that awaits. Leaving the station via the Hachiko exit reveals a piercing overload of blinking neon, tennis court-sized media screens, and a relentless and chaotic surge of humanity through the streets that spiral dizzyingly off into the horizon. As a city gripped by paroxysms of furious activity, Tokyo seems to be a very reasonable home for the spasmodic, psychotic hardcore of Melt-Banana."

E é isso mesmo, oh my brothers: Melt Banana é quiçá a melhor transfiguração sonora do rutilante caleidoscópio de imagens e sensações que caracteriza a contemporaneidade japonesa, espécie de 'bomba-relógio sonora' sempre prestes a explodir em velocidade warp, metralhadora giratória disparando para todos os lados múltiplos projéteis de noise concentrado. Merece especial referência a hipercinesia demencial da vocalista Yasuko Onuki, em fascinante contraste com sua eterna aparência de pvteenha hentai; e também o genial Ichirou Agata, que converte sua guitarra numa espécie de sirene alienígena despejando rajadas sucessivas de fúria cauterizante. A 'cozinha', por seu turno, faz o que se espera de uma boa seção rítmica hardcore: simplesmente impulsiona o frenesi melt-bananiano em hyperspeed permanente, dando espaço para que Yasuko e Agata estraçalhem o ouvinte com seu 'teatro da crueldade' sônico.

A banda lançou infinitos singles, ep's e splits, além de, se não me falha a memória, uns 7 ou 8 full lenght. O melhor de sua produção corresponde aos anos entre 1994 e 2000, quando as características acima elencadas atingiram sua mais pura expressão formal; há que conferir especial relevo, contudo, ao segundo álbum dos camaradas: produzido, mixado e gravado por uma trinca de craques (KK. Null, Jim O'Rourke e Steve Albini), Scratch or Stitch não apenas cai sobre o ouvinte como uma verdadeiro ICBM de sonic obliteration, mas também surpreende pela precisão cristalina com que tal engenharia do caos é registrada.

Como de resto ocorre em toda a produção discográfica da fase áurea do Melt-Banana, trata-se d'um álbum extremamente coeso, um bloco monolítico de insanidade sonora onde quiçá não caberia destacar esta ou aquela música; não obstante, contrariando a lógica adrede esposada, é mister ressaltar, em termos de pura truculência schizo-core, peças como Rough Dogs Have Bumps, Buzzer #P, Plot in a Pot, Scratch or Stitch, Iguana in Trouble, Dig Out!, Sick Zip Everywhere e I Hate It!; na esfera dadaísta dos avantêsmicos microtemas psycho-otaku in full effect, Test: Ground 1, Zoo, No Vacancy, Type B for Me e Ten Dollars a Pile; e por fim, como OVNI's abstrusos e inclassificáveis, Eye-Q Trader, Back to the Womb e His Name Is Mickey (At Least She Got Him...).

Em suma, egrégios confrades: BANZAI!!!




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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros