sábado, novembro 26, 2016

In Memoriam IX




Indômitos irmãos d'armas:

Fidel Alejandro Castro Ruz foi indubitavelmente o maior líder revolucionário de toda a História da América Latina; um homem que durante mais de meio século encarnou os mais excelsos valores e talantes de nossa gente americana; um tribuno magno da guerra anti-imperialista dos povos da Terra; e, se calhar mais do que qualquer outra coisa, a própria consciência militante das Américas.

Trata-se, com efeito, consoante já dissemos a propósito do falecimento de Hugo Chávez, d'uma perda incomensurável, não somente para o conjunto das forças revolucionárias na América Latina, mas também para os nacional-bolcheviques, evrasianos e partidários da Quarta Teoria Política em todo o mundo.

Caracterizado por um assombroso amálgama entre fé inquebrantável, descortino estratégico, perspicácia tática e idealismo flamejante, Fidel Castro sempre 'combateu o bom combate', seja no plano militar, na esfera da administração pública ou no terreno das ideias. Nos quarenta e sete anos em que esteve à frente do governo de Cuba, nunca transigiu na defesa da soberania, do bem-estar e da liberdade do povo de seu país, e pugnou de forma incansável para que as mesmas conquistas se tornassem patrimônio comum de toda a Humanidade; no último decênio, crepúsculo outonal d'uma vida extraordinária, ainda que restrito ao âmbito da luta ideológica, perseverou na promoção dos mesmos ideais e princípios que marcaram sua atuação política.

Isto posto, declaramos: que para vós se descortinem, infindas e altaneiras, as iridescentes veredas da ARCANA COELESTIA!!!


EXEMPLO VOSSO, LUTA NOSSA!!!




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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

quinta-feira, outubro 20, 2016

Brevíssimas notas sobre a relação entre Teatro e Filosofia

Alphonse van Worden - 1750 AD



- O Teatro pode ser compreendido como a manifestação concreta de dois problemas centrais da Filosofia: IDENTIDADE e REPRESENTAÇÃO.

- A identidade de uma determinada coisa é o que ela simplesmente É. Tal relação, não obstante, nem sempre se estabelece de forma unívoca: a molécula de oxigênio, por exemplo, é sempre idêntica a si mesma, sob qualquer circunstância ou contexto espaço-temporal. Todavia, conceitos como ‘sociedade’ ou ‘justiça’ apresentam uma identidade muito mais problemática, uma vez que se revestem de caráter equívoco e multidimensional. Analogamente, é sumamente difícil determinar a 'identidade', no sentido unívoco do termo, de um indivíduo, já que em cada um de nós converge um feixe multiforme de idéias, sensações, impulsos e sentimentos não raro contraditórios e contrastantes.

- No teatro, esta tragédia da identidade é exercitada de forma exemplar pelo ator, pois este encarna a identidade de uma personagem sem, no entanto, ser ‘idêntico’ a ele, já que sua própria identidade continua presente em cena; forma-se então uma terceira identidade, distinta das anteriores: a do ‘ator enquanto veículo da personagem’.  Forja-se destarte todo um jogo triangular de espelhos que se refletem e se deformam mútua e continuamente.

- O problema da representação, por seu turno, envolve os diferentes modos com que a linguagem, através de diversos arranjos de símbolos e palavras, é capaz de descrever / significar um determinado objeto ou evento. A representação, por mais acurada que seja, jamais será idêntica à realidade que tenciona descrever, o que vige até mesmo no rigoroso universo das teorias científicas; analogamente, ao considerarmos o universo da linguagem, constatamos a presença d’uma distinção substancial entre entidades linguísticas e entidades reais, entre os elementos do discurso e os elementos da realidade. William of Ockham, por exemplo, notável filósofo medieval inglês, afirma não se deve atribuir aos signos (isto é, qualquer sinal gráfico, fonético, etc. criado para representar algum ente real), necessários para descrever e comunicar, nenhuma outra função senão a de representação ou símbolo, cujo significado está em assinalar ou indicar realidades diversas dele.

- O teatro, portanto, também se constitui como tragédia da representação, já que é a tentativa de representar, da forma mais exata possível, contextos e atmosferas, de transfigurar universos conceituais e existenciais, sem que tal intento possa ser levado a efeito em caráter definitivo.

- Com efeito, o dramaturgo, no processo de transcrever a trama que sua imaginação criou para o papel, já está recorrendo a um processo de representação, uma vez que a supracitada trama, organizada e dividida em cenas e atos, não corresponde exatamente ao que antes existia apenas em sua mente. Da mesma maneira, o diretor, ao encenar uma peça, está igualmente levando a efeito um processo de representação, de transposição do texto que tem em mãos para o espaço cênico, envolvendo iluminação, marcações, cenários, trilha sonora, etc. Os atores, por fim, inseridos na concepção que o diretor adota para a montagem de um texto teatral (concepção essa, relembremos, que é apenas uma representação do texto, o qual, por seu turno, é a transcrição do processo mental do dramaturgo), interpretarão / representarão as personagens que lhes forem designadas.

- Trata-se, enfim, d’uma dinâmica em si mesma tão complexa e fascinante que uma figura do porte de Paul Valéry, se calhar o mais importante pensador francês do século XX, sustentava que a observação sistemática dos mecanismos operacionais de sua inteligência era, por si só, mais interessante que o resultado final do próprio processo de criação / representação, até mesmo no que se refere à sua obra poética.   

Tora! Tora! Tora!



Pouco mencionado aqui em nossas plagas, este insólito quarteto nipônico é sem dúvida uma das melhores formações do noise rock nos últimos 20 anos. Formado em 1992 por estudantes do depto. de línguas estrangeiras da Universidade de Tóquio (Yasuko Onuki - vocais / Ichirou Agata - guitarra elétrica, efeitos / Rika mm' - baixo elétrico / Toshiaki Sudoh - bateria), o Melt-Banana existe até hoje, tendo a seu crédito uma discografia das mais interessantes, onde à emblemática blitzkrieg sonora tão característica das vanguardas nipônicas acrescenta-se um notável senso de proporção estrutural.

Parte integrante do mesmo cenário de outros nomes célebres como Ruins e Boredoms, a banda notabilizou-se por sua singularmente criativa reinterpretação do hardcore, onde, à arquetípica velocidade do estilo, agregam-se a atmosfera caótica e fragmentária do rock industrial e a quebradeira esquizoide da no wave. Quem descreve à perfeição a coisa toda é o crítico norte-americano Dan Lett:

"As the subway pulls into Shibuya on the Yamanote Line in Tokyo, nothing can prepare you for the sensory onslaught that awaits. Leaving the station via the Hachiko exit reveals a piercing overload of blinking neon, tennis court-sized media screens, and a relentless and chaotic surge of humanity through the streets that spiral dizzyingly off into the horizon. As a city gripped by paroxysms of furious activity, Tokyo seems to be a very reasonable home for the spasmodic, psychotic hardcore of Melt-Banana."

E é isso mesmo, oh my brothers: Melt Banana é quiçá a melhor transfiguração sonora do rutilante caleidoscópio de imagens e sensações que caracteriza a contemporaneidade japonesa, espécie de 'bomba-relógio sonora' sempre prestes a explodir em velocidade warp, metralhadora giratória disparando para todos os lados múltiplos projéteis de noise concentrado. Merece especial referência a hipercinesia demencial da vocalista Yasuko Onuki, em fascinante contraste com sua eterna aparência de pvteenha hentai; e também o genial Ichirou Agata, que converte sua guitarra numa espécie de sirene alienígena despejando rajadas sucessivas de fúria cauterizante. A 'cozinha', por seu turno, faz o que se espera de uma boa seção rítmica hardcore: simplesmente impulsiona o frenesi melt-bananiano em hyperspeed permanente, dando espaço para que Yasuko e Agata estraçalhem o ouvinte com seu 'teatro da crueldade' sônico.

A banda lançou infinitos singles, ep's e splits, além de, se não me falha a memória, uns 7 ou 8 full lenght. O melhor de sua produção corresponde aos anos entre 1994 e 2000, quando as características acima elencadas atingiram sua mais pura expressão formal; há que conferir especial relevo, contudo, ao segundo álbum dos camaradas: produzido, mixado e gravado por uma trinca de craques (KK. Null, Jim O'Rourke e Steve Albini), Scratch or Stitch não apenas cai sobre o ouvinte como uma verdadeiro ICBM de sonic obliteration, mas também surpreende pela precisão cristalina com que tal engenharia do caos é registrada.

Como de resto ocorre em toda a produção discográfica da fase áurea do Melt-Banana, trata-se d'um álbum extremamente coeso, um bloco monolítico de insanidade sonora onde quiçá não caberia destacar esta ou aquela música; não obstante, contrariando a lógica adrede esposada, é mister ressaltar, em termos de pura truculência schizo-core, peças como Rough Dogs Have Bumps, Buzzer #P, Plot in a Pot, Scratch or Stitch, Iguana in Trouble, Dig Out!, Sick Zip Everywhere e I Hate It!; na esfera dadaísta dos avantêsmicos microtemas psycho-otaku in full effect, Test: Ground 1, Zoo, No Vacancy, Type B for Me e Ten Dollars a Pile; e por fim, como OVNI's abstrusos e inclassificáveis, Eye-Q Trader, Back to the Womb e His Name Is Mickey (At Least She Got Him...).

Em suma, egrégios confrades: BANZAI!!!




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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

sábado, outubro 01, 2016

A propósito da relação entre Cristianismo e Judaísmo

Alphonse van Worden - 1750 AD





Preclaríssimos irmãos d'armas:

Bem sei que nós, católicos, devemos obediência tanto ao magistério da Igreja quanto ao Bispo de Roma; não obstante, há certos eventos, mormente nos últimos cinquenta anos, que são simplesmente INACEITÁVEIS para qualquer católico que se preze. O pior deles, se calhar, é a declaração Nostra Aetate, promulgada por Paulo VI em 1965. Nela está disposto, a flagrante contrapelo de todo o magistério da Igreja, que os judeus devem ser inocentados de sua culpa coletiva no tocante ao assassinato de Jesus Cristo; enfatiza-se, ademais, os (muito poucos) elementos concordes entre judaísmo e catolicismo.

Ora bem, não é necessário ser um Doutor de Aquino ou um Petrus Lombardus, isto é, uma doutíssima autoridade nos misteres da exegese, para verificar que, através da simples leitura dos evangelhos, fica absolutamente patente a culpa coletiva dos judeus em relação à Paixão de Cristo. Citemos apenas, a esse respeito, Mt 27,17-25:


17 Pilatos dirigiu-se ao povo reunido: Qual quereis que eu vos solte: Barrabás ou Jesus, que se chama Cristo? 

18 {Ele sabia que tinham entregue Jesus por inveja.} 

19 Enquanto estava sentado no tribunal, sua mulher lhe mandou dizer: Nada faças a esse justo. Fui hoje atormentada por um sonho que lhe diz respeito. 

20 Mas os príncipes dos sacerdotes e os anciãos persuadiram o povo que pedisse a libertação de Barrabás e fizesse morrer Jesus. 

21 O governador tomou então a palavra: Qual dos dois quereis que eu vos solte? Responderam: Barrabás! 

22 Pilatos perguntou: Que farei então de Jesus, que é chamado o Cristo? Todos responderam: Seja crucificado! 

23 O governador tornou a perguntar: Mas que mal fez ele? E gritavam ainda mais forte: Seja crucificado!

24 Pilatos viu que nada adiantava, mas que, ao contrário, o tumulto crescia. Fez com que lhe trouxessem água, lavou as mãos diante do povo e disse:

25 Sou inocente do sangue deste homem. Isto é lá convosco!
E todo o povo respondeu: Caia sobre nós o seu sangue e sobre nossos filhos!


Trata-se, com efeito, d'uma passagem cristalina, incontrastável, inelutável, insofismável: a judiaria, reunida pelo Sinédrio, condena Jesus Cristo à morte de forma categórica, em uníssono. E ainda proclama: "caia sobre nós o seu sangue e sobre nossos filhos!", o que faz com que os judeus, através dos séculos até os dias de hoje, outrossim sejam culpados pela morte de Cristo! Não há, pois, o que discutir, o que tergiversar.

De resto, Amiúde faz-se mister relembrar mesmo aquilo que de sobejo é conhecido; assim sendo, confrades, recordemos aqui algumas observações de Jesus Cristo a propósito dos fariseus, pais do judaísmo rabínico (Mt 23:13-19;27-35):


13 Mas ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que fechais aos homens o reino dos céus; e nem vós entrais nem deixais entrar aos que estão entrando.

14 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que devorais as casas das viúvas, sob pretexto de prolongadas orações; por isso sofrereis mais rigoroso juízo.

15 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós.

16 Ai de vós, condutores cegos! pois que dizeis: Qualquer que jurar pelo templo, isso nada é; mas o que jurar pelo ouro do templo, esse é devedor.

17 Insensatos e cegos! Pois qual é maior: o ouro, ou o templo, que santifica o ouro?

18 E aquele que jurar pelo altar isso nada é; mas aquele que jurar pela oferta que está sobre o altar, esse é devedor.

19 Insensatos e cegos! Pois qual é maior: a oferta, ou o altar, que santifica a oferta?

(...)

27 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia.

28 Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniqüidade.

29 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que edificais os sepulcros dos profetas e adornais os monumentos dos justos,

30 E dizeis: Se existíssemos no tempo de nossos pais, nunca nos associaríamos com eles para derramar o sangue dos profetas.

31 Assim, vós mesmos testificais que sois filhos dos que mataram os profetas.

32 Enchei vós, pois, a medida de vossos pais.

33 Serpentes, raça de víboras! como escapareis da condenação do inferno?

34 Portanto, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas; a uns deles matareis e crucificareis; e a outros deles açoitareis nas vossas sinagogas e os perseguireis de cidade em cidade;

35 Para que sobre vós caia todo o sangue justo, que foi derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que matastes entre o santuário e o altar.


E outrossim a supina autoridade de S. Paulo de Tarso, que afirma de forma insofismável, cristalina, que os judeus não apenas são, SIM, coletivamente culpados pelo assassinato de Cristo, mas também inimigos ferozes da Cristandade através dos tempos (1 Tessalonicenses 2: 14-16):


14 Porque vós, irmãos, haveis sido feitos imitadores das igrejas de Deus que na Judéia estão em Jesus Cristo; porquanto também padecestes de vossos próprios concidadãos o mesmo que os judeus lhes fizeram a eles,

15 Os quais também mataram o Senhor Jesus e os seus próprios profetas, e nos têm perseguido; e não agradam a Deus, e são contrários a todos os homens,

16 E nos impedem de pregar aos gentios as palavras da salvação, a fim de encherem sempre a medida de seus pecados; mas a ira de Deus caiu sobre eles até ao fim.


Atentai: "a ira de Deus caiu sobre eles até ao fim", isto é, ou serão admitidos no seio do Altíssimo quando reconhecerem no Cristo seu messias e salvador, ou terão seus nomes apagados do Livro da Vida. TERTIUM NON DATUR!

E ainda o insigne apóstolo, a propósito da ruptura da aliança entre Deus e o povo judeu por ocasião do deicídio, em Romanos 11: 11-24:


11 Digo, pois: Porventura tropeçaram, para que caíssem? De modo nenhum, mas pela sua queda veio a salvação aos gentios, para os incitar à emulação.

12 E se a sua queda é a riqueza do mundo, e a sua diminuição a riqueza dos gentios, quanto mais a sua plenitude!

13 Porque convosco falo, gentios, que, enquanto for apóstolo dos gentios, exalto o meu ministério;

14 Para ver se de alguma maneira posso incitar à emulação os da minha carne e salvar alguns deles.

15 Porque, se a sua rejeição é a reconciliação do mundo, qual será a sua admissão, senão a vida dentre os mortos?

16 E, se as primícias são santas, também a massa o é; se a raiz é santa, também os ramos o são.

17 E se alguns dos ramos foram quebrados, e tu, sendo zambujeiro, foste enxertado em lugar deles, e feito participante da raiz e da seiva da oliveira,

18 Não te glories contra os ramos; e, se contra eles te gloriares, não és tu que sustentas a raiz, mas a raiz a ti.

19 Dirás, pois: Os ramos foram quebrados, para que eu fosse enxertado.

20 Está bem; pela sua incredulidade foram quebrados, e tu estás em pé pela fé. Então não te ensoberbeças, mas teme.

21 Porque, se Deus não poupou os ramos naturais, teme que não te poupe a ti também.

22 Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas para contigo, benignidade, se permaneceres na sua benignidade; de outra maneira também tu serás cortado.

23 E também eles, se não permanecerem na incredulidade, serão enxertados; porque poderoso é Deus para os tornar a enxertar.

24 Porque, se tu foste cortado do natural zambujeiro e, contra a natureza, enxertado na boa oliveira, quanto mais esses, que são naturais, serão enxertados na sua própria oliveira!


Será que após reler tais passagens alguém ainda cometeria o desatino de falar em 'civilização judaico-cristã'?! A expressão 'civilização judaico-cristã', além de ser ofensiva para qualquer cristão que se preze, está fundamentalmente errada. O judaísmo é o grande inimigo histórico do cristianismo, em todos os sentidos. Sinagoga e Igreja opõem-se através dos tempos num conflito primordial e irreconciliável, que perpassa todas as esferas da ação humana.

Nossa civilização é essencialmente ROMANO-CRISTÃ, síntese essa histórica e politicamente consagrada pelo Édito de Tessalônica, quando o Imperador Teodósio I, em 380 d.C, converteu o cristianismo em religião oficial de Estado do Império Romano. Portanto, não aceitem que tentem nos misturar com a judiaria!

NÃO ACEITEM TAMANHA IMPOSTURA!!!


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Quanto ao ABISMO que separa o judaísmo da fé cristã, citemos tão somente algumas afirmações contidas do Talmud:


1) Ele e seus discípulos praticaram feitiçaria e magia negra, lideraram judeus erradamente ao interior da idolatria, e foram patrocinados por poderes estrangeiros, gentios, para o propósito de subverter a adoração judaica (Sanhedrin 43a). 

2) Ele foi sexualmente imoral, adorava estátuas de pedra (um tijolo é mencionado), foi cortado fora do povo judeu por sua maldade, e recusou a arrepender-se (Sanhedrin 107b; Sotah 47a). 

3) Ele ensinou bruxaria no Egito e, para executar milagres, usou procedimentos que envolviam cortar sua carne, que é também explicitamente banido na Bíblia (Shabbos 104b). 

4) Gittin 57a. Diz que Jesus está no inferno, sendo fervido em "excrementos quentes". 

5) Kallah 51a."Os anciãos estavam uma vez sentados no portão quando dois jovens passaram por ele; um cobriu sua cabeça e o outro descobriu sua cabeça. Daquele que descobriu sua cabeça, o Rabi Eliezer advertiu que ele é um bastardo. Rabi Joshua advertiu que ele é o filho de uma niddah (uma criança concebida durante um período de menstruação de uma mulher). Rabi Akiba disse que ele é tanto um bastardo quanto um filho de uma niddah


Isto para não mencionar todas as barbaridades ditas a propósito dos gentios (qualificados como animais inumanos), da religião cristã, de nossos evangelhos, etc. Onde está, portanto, "o tão grande patrimônio espiritual comum aos cristãos e aos judeus" que a supracitada declaração tanto exalta?!

Fica, destarte, muito difícil não acreditar nas teorias conspiratórias que sustentam que certos rabinos e conselheiros judeus exerceram decisiva influência sobre o Concílio Vaticano II.

Por fim, reiteremos uma vez mais a verdade óbvia e ululante: a força matriz, o fio condutor da História do Ocidente foi, é e continua sendo o conflito primordial e irreconciliável, em todos os aspectos da experiência humana, entre a Igreja e a Sinagoga, o Cristianismo e o Judaísmo.

segunda-feira, julho 18, 2016

Götterdämmerung in Rio, or do you wanna Ragnarök with me, babe?



No curso de sua longeva e exitosa carreira, o saxofonista alemão Peter Brötzmann recebeu o epíteto de ‘iron lungs’. Trata-se, a meu juízo, de apodo dos mais injustos e inadequados. O ferro, como bem sabeis, oxida, enferruja, quebra; não é o caso de Brötzmann, que permanece inoxidável e inquebrantável do alto de seus veneráveis 75 anos de idade, mandando brasa em seus instrumentos de sopro com o mesmo vigor de um uruk-hai nas forjas de Isengard. Assim sendo, doravante passarei a chamá-lo de Peter 'ADAMANTIUM LUNGS' Brötzmann.

Na apresentação de ontem à noite no agradabilíssimo estúdio Audio Rebel (Botafogo - Rio de Janeiro), o público presente pôde constatar que permanecem intactos os poderes do ciclope germânico como magnetizador do fogo dos deuses; grão-mestre da sustained sonic obliteration; monstrorum artifex da matéria sonora em combustão espontânea; não é preciso, pois, recorrer a artifícios condescendentes como 'lenda viva' ou outras asneiras do mesmo naipe para apreciar o cidadão. De resto, vale sempre frisar que o negócio aqui não é roquinho mequetrefe-geriátrico ou jazzinho emasculado de sala de espera de consultório médico não, putada... É, pelo contrário, uma verdadeira FORÇA DA NATUREZA.

Pois em verdade vos digo, meus filhos: o que tivemos hoje no outrora aristocrático, mas ainda excelso bairro da zona sul carioca, foi Sturm und Drang de primeiríssima ordem. Brötzmann, claro está, dispensa maiores considerações: é um monólito titânico e incomparável de fúria, paixão, caos e lirismo, ionizando a atmosfera com seus leads e solos flamejantes; ou, em outras palavras: é como se as esquadrilhas de Ju 87, Heinkel He 111, Dornier Do 17 e outras valquírias de aço da Legion Condor se amalgamassem num só homem para pulverizar a Guernica das convenções estéticas habituais do jazz.

E a seção rítmica que com ele forma o trio Full Blast também é avassaladora: o baixo pesadíssimo, hiper-saturado e explodindo em tonitruantes frequências graves de Marino Pliakas inequivocamente pertence à ínclita linhagem de figuras como Brian Gibson, Alain Ballaud, Bernard Paganotti e outras deidades lovecraftianas em forma de músico, capazes de transformar as quatro cordas em legítimas armas de destruição em massa; o baterista Michael Wertmüller, por seu turno, com suas viradas à velocidade da luz e explosões concentradas de fuzilaria percussiva, é uma divisão Panzer entrando de sola no gueto de Varsóvia no mais puro estilo none will survive / take no prisoners full mode ON.
Enfim, caríssimos: um evento inolvidável, arrebatador, emocionante, transcendente. Quem viu, viu; e quem não viu, que vá chorar na cama que é lugar quente.

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Ten. Giovanni Drogo 

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

terça-feira, julho 05, 2016

Dubadelic: considering Time as officially...ended...

Alphonse van Worden - 1750 AD




The cross was a mushroom... and the mushroom was also the Tree of Good and Evil... the philosophical stone of the alchemists was LSD... the Book of the Dead is a trip... the Holy Trinity begins with an opium poppy... and the gnostic gospels describe a mescaline experience... 

The whole Universe is nothing but... a superstition... and every reality is... only an opinion, which turns out be... the high point of nothingness dissolved at the inner void of the SACRED...

The Blessed SOUND of... NOTHING... being dissolved in a swirling, ever evolvin' and never stoppin' neverness of... mystic SOUND...

Yeah, man, you need that bad... fuck all the frequencies, blur all the images, pump up the brain machine, melt your synapses, blow your mind and... turn on, tune in, drop out...

No, this is not the beggining, but only... the END...?

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Enfim, caríssimos confrades... sabem o momento exato em que o reggae deixa de ser reggae , abandonando voz, melodia, sopros e outros instrumentos melódicos para concentrar-se tão somente na hipnose gerada pela sagrada aliança baixo/bateria, multiplicada ad infinitum em progressão geométrica por sucessivos e cumulativos efeitos de eco, que ricocheteiam uns contra os outros em tonitruante crush collision , reverberam sobre si mesmos e voltam a reproduzir-se indefinidamente em crescente atmosfera de desorientação sônica, gerando novas galáxias turbilhonantes de hipnose rítmica? Acrescente-se a isso samples alienígenas, efeitos eletrônicos estratosféricos e uma atmosfera de caos alucinógeno e o resultado é DUBADELIC. Take it at your own risk, folks, you've been advised
...





domingo, junho 12, 2016

OS HERDEIROS DA TERRA - Gabriel Schmitt




Caros irmãos d'armas: 

Como bem sabeis, as solitárias vigílias cá no Bastiani não raro se revestem dos mais astrosos sobretons. Sob os de Selene ominosos e infrenes eflúvios, pelo tártaros aguardamos, noite após noite, madrugada após madrugada, em espetral silêncio mergulhados, de maiores expetações já destituídos, a matar e a morrer resignados, pois este é o nosso inexorável fado...  

Eis então que o ordenança me entrega uma missiva, a mim dirigida pelo diletíssimo confrade Alphonse van Worden, contendo um poema em prosa lavrado pelo estro de Gabriel Schmitt, núpero e promissor cadete das Legiões Transfinitas; é obra de vigorosa malgrado cuidadosa ourivesaria, prenhe de imagens poderosas e profundas cavilações; desejo, pois, que mediteis atentamente a propósito dela.   

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Ten. Giovanni Drogo 

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

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OS HERDEIROS DA TERRA 


Gabriel Schmitt

*

Terror! Um horizonte incandescente de infinito terror!
Adiante os estandartes do nosso libertador terrorismo.
Que faz tremer em sincero temor nosso torpe inimigo?

*

Tenacidade! Isto é uma fortaleza de sentinelas, cavaleiros e soldados!
Lunáticos idealistas de sentidos aguçados em vigília intermitente perambulando pelas ruelas de uma cidade sombria.
Devemos realmente resistir a tentação de derramar óleo fervente nos invasores?

*

Tirania! Instauremos o sagrado teísmo da teocracia!
O fútil teatro da democracia extirparemos com os tiros dos fuzis.
Sem titubear deceparemos a cabeça da democracia ocidental?

*

Tragicomédia! Tremulou a bandeira velha do vil cadáver!
Este jaz com a cabeça guilhotinada e os ossos trincados.
Iremos guarda-la numa tétrica tigela e oferta-la a tórridas hordas?

*
Teorias! Inúteis e melindrosas fluindo através do rio da morte!
Esquecidas, mutiladas e jogadas em tenebrosas caldeiras.
Existe alguém para incinera-las nas termas de fogo do inferno?

*
Treva! Eis o destino final do outrora dito invencível inimigo!
Uma tumba desolada e inabitada a qual sol algum jamais tocou.
Rodeada por tímidos e esparsos tributos de velhos cegos?

*
Testemunhem! Uma nova terminologia construída a partir das ruínas decadentes!
Signos solares e símbolos lunares trançados como numa bela cabeleira de mulher.
Formosos troféus em marcha rumo a eternidade transfinita?

*

Teologia! Sem tréguas ou tratados nossas tensões extinguimos!
A tez límpida vislumbra com olhos fixos o absoluto.
Quem deve se tornar herói que irá nos guiar para fora da caverna?

*
Terra! Eis o solo santificado à nossa espera desde os mais prístinos tempos!
Dançaremos ao redor da fogueira do alvorecer ao anoitecer embalados pelo som da música das esferas.
O pão, o vinho, as arvores, o azeite, a oliveira, o crescente, a tocha, a cruz, os monges, os comuns, quantos virão conosco?

*

Que importa? No fim seremos nós que iremos herdar a terra.

quinta-feira, março 24, 2016

Epistolário Transfinito V (excertos...)

Alphonse van Worden - 1750 AD





Desejo sentir a morte, a destruição, o horror e o kaos pulsando em minhas veias, consumindo minha alma, exaltando minha vontade...

Desejo incinerar cidade atrás de cidade, vila atrás de vila, aldeia atrás de aldeia, até que delas nada mais reste senão montículos de cinzas fumegantes...

Desejo massacrar centenas de milhares de civis inocentes, até que deles nada mais reste senão pilhas de ossos calcinados...

Desejo torturar dezenas de milhares de prisioneiros de guerra, até que deles nada mais reste senão postas de carne exangues...

Ibant obscuri sola sub nocte per umbram...

sábado, fevereiro 06, 2016

Breve receita para criar um país digno




 A polícia deve bater nos vagabundos;

- o povo honrado e trabalhador deve bater nos policiais a soldo da opressão capitalista;

- e todos juntos, até mesmo os vagabundos, devem bater nos olavetes, esquerdistas pós-modernos e liberais. 

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Ten. Giovanni Drogo 

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

sexta-feira, fevereiro 05, 2016

Notas de reflexão crítica XXI - sobre o besteirol feminista

Alphonse van Worden - 1750 AD






- Tendo em vista que o chamado 'instinto maternal', tal como as feministas soem afirmar em prosa e verso, não é um dado natural, mas tão somente uma construção social; e ainda que tal construção social se reveste d'um caráter substancialmente opressivo, posto agrilhoar as mulheres ao dever de criar seus filhos com amor e carinho, é mister concluir que nosso querido Murray Rothbard, um dos grão-mestres de ancaps e libertarians em todas as latitudes, formulou a solução perfeita para tão ominoso jugo: o direito de os pais transacionarem livremente seus filhos no mercado.

- Isto posto, humildemente proponho, no esteio do insigne pensador norte-americano, uma solução para o grave problema do amor filial, outrossim uma construção social de índole tirânica, uma vez que cuidar de pais idosos é amiúde um grande estorvo: ao invés de conserva-los em casa, ou até mesmo pagar-lhes um asilo, poderíamos vendê-los ao matadouro mais próximo, ou ainda simplesmente arremessá-los da ponte Rio-Niterói.

- Se o amor entre pais e filhos é essencialmente uma construção social, como explicar o facto, tão corriqueiro e por todos observável, de um bebê instintivamente sorrir e esticar os bracinhos quando vê a mãe?

- Se o amor maternal e o amor filial são 'construções sociais', devemos forçosamente concluir que o amor conjugal outrossim o é, não é verdade? Pois bem: como explicar então a satisfação instintiva, indescritível, que um homem experimenta ao sentir-se amado por uma mulher, e vice-versa?

- Outra coisa: todos reconhecem que os homens são fisicamente mais robustos, mais fortes que as mulheres, correto? É também óbvio que estes terão melhor desempenho que aquelas no que se refere a atividades que exijam vigor físico, não é mesmo? Assim sendo, indago: a preferência no emprego de homens em ofícios que requerem força física será uma 'construção social'?

- E para arrematar, uma pequena provocação, à guisa de food for thought: se o Islã é uma religião essencialmente 'machista', 'opressora', 'cruel', 'medieval', etc., etc., etc., por que então a República Islâmica do Irã é um dos países com maior percentagem em termos mundiais de mulheres estudando em instituições universitárias?

Ah, essas feministas me matam de rir...!

sábado, dezembro 19, 2015

Epistolário Transfinito IV (excertos...)

Alphonse van Worden - 1750 AD




 Ó diletíssimos e preclaríssimos irmãos d'armas: (...) há já alguns lustros tenho experimentando um vasto e crescente sentimento de distanciamento, deslocamento, desprendimento, dissociação, supremo alheamento no tocante a todos os meus atos, pensamentos e circunstâncias; é como se pertencessem a outro, e não a mim. Eu não sou mais eu mesmo, compreendeis? Sou um outro. É o outro quem pensa, age, sente. Ora sou tão somente espectador desse outro que por acaso, apenas por mero acaso, vive em mim.




sábado, novembro 14, 2015

Comunicado urgente às Legiões do Império Transfinito

Alphonse van Worden - 1750 AD




Diletíssimos irmãos d'armas:

A 'boa consciência' demo-liberal-secularista não estabelece como imperativo humanitário (ou seria, na verdade, para atender às necessidades do mercado de trabalho num continente com taxas de natalidade cada vez mais baixas?) receber os 'refugiados'? Pois bem, o que ocorre agora na França é apenas consequência.

Não há alternativa: ou a Europa volta a ser a Societas Christiana por excelência, o propugnáculo da fé cristã sob a égide de ECCLESIA ET IMPERIVM, ou mergulhará numa espiral crescente de caos e violência.

quinta-feira, novembro 05, 2015

República Popular da China: o enigma dentro de um enigma

 Alphonse van Worden - 1750 AD

*artigo para o MBA em Relações Internacionais da FGV.




Expressiva parcela dos economistas e cientistas políticos preocupa-se em demasia com a dimensão ‘protocolar’, o ordenamento formal da política; ou, n’outras palavras, com sua superfície jurídico-institucional, mas não com a essência do fenômeno político, ou seja, com a natureza substancial das estruturas de poder que se cristalizam ou não num determinado Estado / formação social ao longo do tempo.

A esse respeito, reveste-se de suma utilidade observar, mesmo que sumariamente, dois casos emblemáticos: o chinês e o russo.

Reiterando o que acima asseveramos, devemos estar sempre atentos, pois, ao que está por trás do mero aspecto formal do ordenamento jurídico-institucional numa dada sociedade: em praticamente 5000 anos de História, por exemplo, a China jamais mudou de sistema de governo; sempre foi e, até onde se pode fazer qualquer previsão, sempre será um império governado por um imperador e seus mandarins, a despeito deste ou daquele modelo de organização econômica, etc. Mao Zedong ou Deng Xiaoping nada mais foram que imperadores sob outro título e protocolo, assim como o PCC é tão somente um 'mandarinato vermelho'. Portanto, ainda que a organização política específica denominada ‘PCC’ venha a acabar, será substituída por outra oligarquia de mandarins com as mesmíssimas características e atribuições, sob a égide d'um imperador, seja qual for o título ou designação que venha a assumir.

O caso russo, outrossim, é análogo ao caso chinês: desde o momento em que o país se constituiu como entidade estatal, não conheceu qualquer sistema de governo de caráter não-autoritário. E isto rigorosamente nada tem a ver com o modelo de organização econômica vigente em cada período: tanto sob o modo de produção asiático quanto sob o feudalismo, o capitalismo emergente, o socialismo ou a restauração capitalista, a Rússia viveu sob um sistema político autocrático, vertical e centralizado. Por conseguinte, jamais conheceu qualquer sistema de governo 'democrático', e qualquer governante que eventualmente cometer o catastrófico erro de tentar modificar isto, decerto malogrará fragorosamente; Gorbachev, por exemplo, que chegou a timidamente ensaiar algo nesse sentido, teve menos de 5% dos votos válidos ao candidatar-se à presidência russa em 1996, e é até hoje figura deveras impopular no panorama político do país.

Em suma: da mesma forma que Mao Zedong ou Deng Xiaoping foram tão somente 'imperadores vermelhos', Stalin & Cia. foram nada mais que 'tzares vermelhos'. E tal panorama não se modifica através de mudanças de modelo de organização econômica: sob as reformas capitalistas, a China continua governada por um 'Imperador vermelho' e seu 'mandarinato vermelho' (o PCC); do mesmo modo, a Rússia pós-restauração da economia de mercado segue governada por um 'tzar presidencial' e seu aparato burocrático-administrativo rigidamente hierarquizado e omnipresente (antes a burocracia tzarista, depois o PCUS e agora a coalizão de 'partidos-fantoche' organizada por Vladimir Putin).

Destarte, quero crer que o problema consiste em acreditar, pois, que as sociedades humanas são determinadas em última instância pelo fator econômico, ignorando, portanto, as fundamentais esferas da cultura, do substrato simbólico-religioso e da política como instância específica. Tal viés analítico leva seus proponentes a hiperdimensionar as diversas possibilidades de organização institucional de um Estado em detrimento da substância político-cultural que informa este mesmo Estado, isto é, o que é passível de mudança em detrimento dos elementos permanentes no seio do Ethos nacional. Enfim: as formas institucionais mudam, mas, n’alguns contextos, a substância política permanece.

Mas concentremo-nos doravante na República Popular da China, que é o objeto precípuo de análise neste artigo.

A partir de todo o interesse despertado pela China nas últimas décadas, mormente no que se refere às marcantes especificidades do modelo chinês, proponho as reflexões que se seguem como locus privilegiado para debatermos, aquele que é, sem dúvida alguma, o país mais enigmático e paradoxal do mundo contemporâneo.

Não há hoje, creio, país que suscite tamanho número de indagações a um só tempo complexas e fascinantes, tanto para economistas quanto cientistas políticos, sociólogos e historiadores; trata-se, com efeito, d'uma portentosa dor de cabeça para as ciências sociais compreender o que realmente se passa no 'Império do Centro', sobretudo nos termos da seguinte questão, também de âmbito mais geral: quais as verdadeiras relações ou, em outras palavras, como se dão as interconexões entre Política, Economia e Sociedade Civil?

A República Popular da China, a partir da onda de choque, tanto simbólico-institucional quanto político-administrativa, desencadeada pela morte de Mao Zedong em 1976, deu início, já em 1978, a um amplo programa de reestruturação econômica. Desde então, o processo chinês, ainda que com movimentos pendulares de maior ou menor intensidade, tem se caracterizado por um norte estratégico nítido: abertura econômica + manutenção do monopólio do poder político por parte do PCC. Trata-se, portanto, de liberalizar a atividade econômica, de flexibilizar relações trabalhistas e mecanismos de gestão, sem, contudo, renunciar ao controle operacional de todo o processo por parte do mandarinato vermelho. Assim sendo, todas as iniciativas de abertura econômica são estritamente condicionadas pelos desígnios e necessidades estratégicas do Estado chinês; há que frisar, aliás, o sucesso do regime na implementação dessa sutil dialética, pois o Partido não apenas conservou intacto o monopólio do poder, mas logrou fazê-lo ao mesmo tempo em que promove um duradouro ciclo de intensíssimo desenvolvimento econômico capitalista.

Ainda que se possa indagar a propósito da viabilidade ulterior de tal dinâmica, ou seja, sobre por quanto tempo mais o PCC, que tão hábil vem se revelando na improvável dialética de, a um só tempo, centralizar o poder político e abrir a economia, conseguirá tão prodigiosa mágica socioeconômica, há que reconhecer que, até o momento, tudo está ocorrendo conforme o talante do aparato dirigente. Mesmo o desafio representado, por exemplo, pela comunicação em tempo real, com a massificação da internet, tem sido enfrentado com eficácia pelo Estado, que estabelece um maciço bloqueio do conteúdo online disponível. Além de limitar o acesso a determinados sites, o governo chinês também logra impedir a pesquisa de certos assuntos em mecanismos de busca. Os dispositivos de controle passam ainda pelo redirecionamento de páginas para sítios equivalentes; pela necessidade de autorização prévia do governo para o funcionamento de provedores de internet; e pela canalização de todo o conteúdo online para ‘portas da entrada’, as gateways, onde ocorre uma fiscalização / filtragem geral do tráfego internético. Mesmo o emprego de sistemas de comunicação por VPN (Virtual Private Network), isto é, a criação de redes privadas de acesso, com trocas constantes de endereço de IP para burlar os mecanismos de controle, não garante a privacidade dos usuários, como bem o demonstra o número constante de detenção de dissidentes políticos por intermédio de dados colhidos pela chamada Great Firewall of China.

Não obstante, não há como ignorar as consideráveis tensões e contradições inerentes ao processo chinês. Com efeito, é patente hoje que o PCC está cada vez mais enredado num dilema de resolução sumamente intrincada: o Partido sabe que, a intensificar-se o processo de abertura, sua inexorável conseqüência lógica na esfera política será a perda do monopólio do poder, o que com razoável grau de certeza é passível de mergulhar o país numa crise de proporções inimagináveis; ao mesmo tempo, a melhor, mais sólida e inquestionável justificativa para a manutenção do regime de partido único é justamente o progresso econômico logrado pelo processo de abertura; assim sendo, o aparato dirigente do Império do Centro tem a seu cargo uma empreitada das mais árduas e intrincadas: conservar a unidade territorial do país e o domínio do Partido sem arrefecer a força motriz do desenvolvimento material.

Conseguirá o PCC levar a bom termo tal intento? Trata-se d'outra complexa questão.

Outro aspecto, de índole a meu ver crucial para o debate que aqui nos entretêm, passa sem dúvida pelas relações que se estabelecem entre o Estado e a Sociedade. Penso não haver grandes dúvidas, por exemplo, a propósito da constatação que, em termos estritamente econômicos, a China é hoje um país estruturado em bases capitalistas: malgrado o Estado ainda atue como grande indutor e fiador do processo econômico, há vários setores importantes da economia já nas mãos da iniciativa privada; o país adota uma legislação deveras flexível e favorável às atividades do setor financeiro; as leis trabalhistas praticamente inexistem (licença-maternidade, férias e folgas remuneradas, ou outros direitos trabalhistas do mesmo jaez), não havendo, portanto, a estrutura de seguridade social presente, em maior ou menor medida, já há décadas nas grandes economias mundiais (tanto assim é que há hoje uma facção do PCC, tida como a 'esquerda' do Partido, que está a bater-se pela implementação d'uma legislação trabalhista e d'uma rede de previdência social veramente efetivas); total ausência de controle no emprego de energias ‘sujas’, o que está a gerar um crescente problema ambiental no país; estímulo contínuo e sistemático ao consumo interno, de maneira a equilibrar a balança comercial e gerar superávit fiscal de forma artificial; maciço subsídio estatal a diversos setores produtivos, assim propiciando às mercadorias chinesas preços imbatíveis na arena do comércio internacional; política de tolerância velada relação à pirataria e falsificação de produtos, inclusive suscitando de denúncias a respeito do suposto envolvimento de agências governamentais com redes ilegais de atacado e varejo; um panorama, enfim, a exibir todas as características ultrapredatórias de um modelo ‘hipercapitalista’ , cuja agressividade e voracidade são de fazer inveja à Inglaterra vitoriana.

Por outro lado, e porventura em conseqüência do que foi adrede exposto, não se pode de forma alguma considerar a sociedade chinesa como uma sociedade liberal; muito pelo contrário: o ordenamento institucional vigente continua adotando o monopólio da representação política pelo PCC, que exerce rígido controle sobre todos os mecanismos e instâncias administrativas do país, tanto na esfera executiva quanto em termos de poder legislativo e judiciário. Trata-se, outrossim, d’uma sociedade rigidamente hierárquica e controlada de cima para baixo, com presença maciça da autoridade estatal em todos os níveis, mormente na educação e nos meios de comunicação. Então, pergunta-se: é possível a convivência entre uma economia liberal e uma sociedade sob forte controle do Estado?

A essa altura alguém poderia trazer à baila o notório exemplo chileno, pois de fato o regime autoritário de Pinochet implementou no país políticas econômicas de cunho decididamente monetarista durante as décadas de 70 e 80. Todavia, é mister sublinharmos dois aspectos importantes: a) a economia chilena era e é infinitamente menos complexa e multifacetada que a chinesa; b) muito embora o regime 'pinochetista' possa ser classificado como um regime autoritário, não me parece cabível qualificá-lo como 'totalitário', pois jamais houve no Chile algo sequer vagamente similar à estrutura de controle social, cultural, político e econômico do PCC, cujo imperativo sobre a sociedade chinesa se capilariza uniformemente em todos os níveis. De maneira que a indagação permanece em pauta: é possível o convívio entre totalitarismo político e liberalismo econômico? Se possível, seria um modelo estável e duradouro ou, pelo contrário, um contexto inevitavelmente fadado a gerar, porventura já a médio prazo, pontos de estrangulamento insuperáveis?

Por fim, é mister assinalar que, em termos geoestratégicos, descortina-se para a sempiterna Catai um cenário deveras alvissareiro: a progressiva consolidação dos laços estabelecidos pela SCO-Shanghai Cooperation Organisation, tratado de segurança mútua firmado em 2001 entre os governos de Rússia, China, Casaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão, envolvendo cooperação militar de alto nível entre os Estados signatários. Vale também sublinhar que, d'entre os países que participam da organização na condição de 'Estados-observadores' inclui-se a República Islâmica do Irã, que já pleiteou seu ingresso definitivo na entidade; consta, enfim, que receberá o status de país-membro em 2016.

Será este porventura, aqui fazendo um despretensioso exercício de futurologia, o embrião d'um futuro Imperium euro-asiático, supina encarnação do ethos telurocrático?

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Muito bem: tendo em vista os elementos que apresentei nos parágrafos anteriores, proponho por fim as seguintes indagações:

1) Tendo em vista que, no horizonte da China contemporânea, Política e Economia evoluem em direções opostas, quais seriam as verdadeiras relações ou, em outras palavras, como se dão as interconexões entre Política, Economia e Sociedade Civil?

2) Logrará o PCC conservar a unidade territorial do país e o domínio do Partido sem arrefecer a força motriz do desenvolvimento material?

3) É possível a convivência entre uma economia liberal e uma sociedade totalitária?


4) Se possível, seria um modelo estável e duradouro ou, pelo contrário, um contexto inevitavelmente fadado a gerar, quiçá já a médio prazo, pontos de estrangulamento insuperáveis?



sábado, outubro 31, 2015

A propósito da parábola "Diante da Lei", de Franz Kafka

 Alphonse van Worden - 1750 AD




Diante da Lei (1919) - Franz Kafka

Diante da Lei há um guarda. Um camponês apresenta-se diante deste guarda, e solicita que lhe permita entrar na Lei. Mas o guarda responde que por enquanto não pode permitir-lhe a entrada. O homem reflete, e pergunta se mais tarde o deixarão entrar. “É possível”, diz o guarda, “mas não agora”. A porta que conduz à Lei está aberta, como de costume; quando o guarda se põe de lado, o homem inclina-se para espiar. O guarda vê isso, ri-se e lhe diz: “Se tão grande é o teu desejo, experimenta entrar apesar de minha proibição. Mas lembra-te de que sou poderoso. E sou somente o último dos guardas. Entre os salões também existem guardas, cada qual mais poderoso que o outro. Já o terceiro guarda é tão terrível que não posso suportar seu aspecto”. O camponês não havia previsto tais dificuldades: a Lei deveria ser sempre acessível para todos, ele pensa; não obstante, ao observar o guarda, com seu abrigo de pele, seu grande e aquilino nariz, sua barba longa de tártaro, rala e negra, resolve que mais lhe convém esperar. O guarda dá-lhe um banquinho, e permite-lhe sentar-se a um lado da porta. Ali espera, dias e anos. Tenta infinitas vezes entrar, e fatiga o guarda com suas súplicas. Com freqüência, este entretém com ele breves palestras, faz-lhe perguntas sobre seu país, e sobre muitas outras coisas; mas são perguntas indiferentes, como as dos grandes senhores, e para terminar, sempre lhe repete que ainda não pode deixá-lo entrar. O homem, que se abasteceu de muitas coisas para a viagem, sacrifica tudo, por mais valioso que seja, para subornar o guarda. Este aceita tudo, com efeito, mas lhe diz: “Aceito para que não julgues ter omitido qualquer esforço”. Durante esses longos anos, o homem observa quase continuamente o guarda: esquece-se dos outros, e parece-lhe que este é o único obstáculo que o separa da Lei. Maldiz sua má sorte, durante os primeiros anos temerariamente e em voz alta; mais tarde, à medida que envelhece, apenas murmura para si. Retorna à infância, e, como em sua longa contemplação do guarda, chegou a conhecer até as pulgas de seu abrigo de pele, também suplica às pulgas que o ajudem e convençam ao guarda. Finalmente, sua vista se enfraquece, e já não sabe se realmente há menos luz, ou se apenas o enganam seus olhos. Mas em meio à obscuridade distingue um resplendor, que surge inextinguível da porta da Lei. Já lhe resta pouco tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências desses longos anos se confluem em sua mente numa só pergunta, que até agora não formulou. Faz sinais ao guarda para que se aproxime, já que o rigor da morte endurece seu corpo. O guarda vê-se obrigado a baixar-se muito para falar com ele, porque a disparidade de estatura entre ambos aumentou bastante com o tempo, em detrimento do camponês. “Que queres saber ainda?”, pergunta o guarda, “és insaciável!”. “Todos aspiram à Lei”, diz o homem ; “como é possível então que durante tantos anos ninguém além de mim pretendesse entrar?”. O guarda compreende que o homem já está para morrer e, para que seus agonizantes sentidos percebam suas palavras, diz-lhe junto ao ouvido com voz tonitruante: “Ninguém mais poderia pretender isso, pois esta entrada estava destinada somente para ti. Agora vou fechá-la”.

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A LEI, que emana das instâncias superiores do TRIBUNAL, parece revelar-se como esfera remota, etérea, de todo inacessível; assim sendo, o camponês desiste de lutar para acessá-la, abandonando por completo qualquer esperança de lograr a própria possibilidade de salvação / redenção, e resignando-se a aceitar expedientes sibilinos e intermediários (os presentes para o Guarda), cuja natureza tão somente pode ser definida como eminentemente inútil, fátua, e até mesmo, ao fim e ao cabo, diabólica. Há que mencionar ainda a profunda influência que o filósofo francês Blaise Pascal (1623 - 1662) exerceu sobre Kafka. Destarte, conforme o crítico literário austro-brasileiro Otto Maria Carpeaux (1900 - 1978) salienta, o problema com que o escritor tcheco se depara em sua obra “teria sido o da Justiça e da Graça. A religião judaica não conhece o dogma que mais preocupou Pascal, o do pecado original; por isso desconhece a Graça divina e só conhece a Justiça divina”. Em outras palavras: se o cristianismo predica a existência de um ‘pecado original’, ele também contempla sua possibilidade de redenção, que é o batismo em Cristo; no judaísmo, por outro lado, se não há ‘pecado original’, somente haverá redenção para os pecados humanos com o advento do Messias. Para o excelso crítico literário, aliás, a obra de Kafka não visa meramente o efeito da expressão ‘literária’, mas se configura como manifestação de sua metafísica, uma “metafísica do terror cósmico”, tal como Carpeaux admiravelmente a define.