terça-feira, abril 01, 2008

As mais belas mortes - VI

Isidore Lucien Ducasse, dito Comte de Lautréamont (1846-1870)





O egrégio vate gaulês Isidore Lucien Ducasse (1846-1870), dito Comte de Lautréamont, é sem dúvida credor de menção em nosso donairoso sítio; vale dizer que de sua brevíssima existência pouquíssimo sabe-se de concreto: há ciência de que veio ao mundo na deleitável cidade de Montevidéu, filho de um funcionário da representação consular francesa na capital cisplatina; consta também que a família retornou à pátria natal quando nosso rapazote tinha 10 anos, de modo a inscrevê-lo num renomado lycée parisiense. A partir deste episódio, contudo, os factos da vida de Lautreámont esfumam-se nas sibilinas evanescências do impreciso. Há quem diga, por exemplo, que teria tomado parte como communard nos eventos de 1870, mas desta presuntiva efeméride não há registo conclusivo.

Pois muito bem: por que cargas d´água estamos aqui a falar de Lautréamont? De certeza sua obra-capital, o volume de prosa lírica Les Chants du Maldoror, impertérrita celebração mefistofélica da crueldade infrene em todas as suas latitudes, reserva flamejantes páginas ao culto ominoso da 'indesejada das gentes'; isto, todavia, não bastaria para reservar ao luciferino bardo um nicho entre os mais belos passamentos, uma vez que outros excelsos entusiastas da morte foram ‘galardoados’ (se me permitis uma inocente ironia) com trespasses no mais das vezes sobremaneira prosaicos; o que há, pois, de notável na decedura de Lautréamont é que NADA de exacto, à exceção do ano em que se deu, sabe-se a seu respeito, sendo todas as considerações a propósito tão somente vagas especulações sem esteio documental ou factual taxativo... destarte convenhamos, áticos confrades: que exício poderia ser mais esteticamente adequado para alguém como o espectral Lautréamont?



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Thomas Mann (1875-1955)





Há de ser quiçá uma lenda sem grande respaldo histórico, mas de modo algum poderíamos nos furtar a relatar a excêntrica circunstância em que se teria dado o passamento do ático escritor alemão Thomas Mann (1875-1955).

No último lustro de sua vida, já retirado à vila de Kilchberg ( ao pé de Zurique - Suiça), consta que este luminar das letras teutônicas teria em sonhos recebido a informação de que morreria num dado dia 11, sem indicação de mês ou ano; assim sendo, a cada dia 11, Mann recolhia-se na mais absoluta e contrita imobilidade, esperando as 12 badaladas do dia seguinte para enfim adormecer tranquilo; na virada de 11 para 12 de agosto de 1955, após cumprir mais uma tormentosa e afadigante vigília, Mann dirigiu-se a seus aposentos aliviado ao ver mais vez adiado o inefável encontro marcado com a 'indesejada das gentes'; todavia, ao observar casualmente um relógio no segundo andar, constatou, para sua imensa aflição, que este ainda assinalava as 23 horas do dia 11; angustiado, consultou uma empregada a propósito da discrepância de horários e, ao constatar que de facto ainda estava no aziagamente pressago décimo-primeiro dia, viu-se assaltado por tamanho pavor e consternação que terminou por falecer vítima duma síncope fulminante.



Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

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