terça-feira, agosto 01, 2006

O 'Estado Judeu' : fenomenologia da mistificação ideológica no reino encantado do doublethink

Alphonse van Worden - 1750 AD





Há já muitos lustros o escritor inglês George Orwell advertiu que "a corrupção da política começa com a corrupção da linguagem". Sábia e veraz constatação d'um ominoso fenômeno, cujos efeitos metíficos podem ser constatados em toda parte, e que o próprio autor britânico soube tão bem ilustrar em seus romances alegóricos, mormente em 1984, onde, por intermédio do doublethink, mefistofélico processo de solipsismo coletivo induzido pelo Estado, cada um dos lemas do Partido Ingsoc inculcava na mente de seus membros , mediante hipnótica e reiterada repetição, exatamente o oposto do que a realidade dos factos dispunha.

Podemos amiúde verificar o uso do escalfúrnio procedimento denunciado por Orwell não apenas nas declarações e comunicados de cunho estatal das grandes 'democracias' ocidentais, mas também na imprensa soi disant 'independente', malgrado em termos práticos funcione cada vez mais como althusseriano Aparelho Ideológico do Estado; destarte, movimentos populares antiimperialistas de libertação nacional (Hamas, Hizbollah, ETA, etc.) são classificados como 'terroristas'; um presidente continuamente submetido ao veredicto de mecanismos populares de consulta, tal como Hugo Chávez, recebe o apodo de 'autoritário'; o monopartidarismo mitigado a viger nos EUA, onde temos um 'Partido do Complexo Industrial-Militar e do Capital Financeiro' dividido nas alas Republicana e Democrata, converte-se em 'democracia representativa'; e assim sucessivamente, num peremptório e obsceno manar de fraudes mentais cuidadosa, insidiosa e implacavelmente veiculadas pelos mass media através de todos os quadrantes do 'mundo livre' (quiçá a mais emblemática, patética e mentirosa de todas as quimeras ideológicas da contemporaneidade).

A grande maioria dessas patranhas peçonhentas é moeda de diversionismo ideológico corrente nos aparatos de doutrinação em massa da Sociedade do Espetáculo ('democracia representativa', 'livre comércio', 'globalização', etc.); mesmo que por vezes aparentemente aposentadas, elas permanecem em estado de animação suspensa nos , prontas para retornar à baila assim que se tornam necessárias às horríferas lides de entorpecimento da opinião pública e /ou aliciamento de consciências.

Isto posto, discorramos um pouco a propósito d'uma destas engenhosas ficções políticas de inequívoco sabor orwelliano, um exemplar hoje particularmente nas mais insuspeitas oficinas de falsificação ideológica do planeta: 'Estado Judeu'.

Da mesma maneira que a maior parte de suas congêneres, a expressão em tela via de regra apresenta-se como mera instância descritiva d'um estado de coisas, isto é, como representação objetiva de um determinado fenômeno ou situação, algo como um enunciado científico, em cuja tessitura não há elementos de índole subjetiva. Assim sendo, não sentimo-nos, ao empregá-la, como cúmplices e /ou vítimas duma operação de desvirtuamento intencional da realidade, mas tão somente fazendo uso de uma fórmula descritiva axiologicamente imparcial; não obstante, ao examinemos com mais vagar e acuidade o termo ‘Estado judeu’, ser-nos-á fácil constatar os ínvios desígnios que se ocultam por trás de sua aparente e estudada neutralidade, dos quais dois nos parecem ser os mais destacados:

Em primeiro lugar, há a pretensão de definir o Estado de Israel como entidade representativa par excellence da totalidade do povo judaico; ora, isto não passa d’uma endrômina insidiosa, pois à partida pressupõe a existência d'um absurdo isomorfismo entre 'religião' / 'cultura' (que pode ser judaica, muçulmana, católica, etc.) e 'nacionalidade' (que pode ser israelense, francesa, brasileira, etc.). Desta maneira, o Estado de Israel pode no máximo arvorar-se em representante político dos cidadãos israelenses, mas nunca do conjunto dos judeus em escala planetária, tal como a denominação 'Estado Judeu' falaciosamente dá a entender. Vale também salientar que Israel nada mais é que a materialização histórica do projeto político sionista, que ambiciona ser a encarnação máxima da weltanschauung judaica, mas que de forma alguma logra nem tampouco jamais logrará sê-lo; insere-se, por acaso, no ethos sionista, toda a ampla tradição da esquerda comunista judaica, refratária aos talantes sionistas desde os tempos de Leon Pinsker (1821-1891) e Theodor Herzl (1850 - 1905)? E a vastíssima miríade de judeus religiosos ultra-ortodoxos, visceralmente contrária, por motivos de cunho teológico (basicamente crêem que a diáspora judaica só deverá terminar por ocasião do advento do Messias) à existência do Estado de Israel, e que pugnam, através de movimentos de expressão mundial como Satmar, Munkacs, Neturei Karta, Malochim, Hazon Ish, etc., pela devolução à ummah palestina de todas as terras hoje ocupadas pelo moloch sionista? Não há como afirmar, portanto, que o sionismo representa a universalidade judaica, trata-se d’um ardil absurdo, que não resiste à análise.

Em segundo lugar, numa operação de mistificação ideológica ainda mais deletéria, há o deliberado tentame de estabelecer uma confusão deliberada entre as perspectivas anti-sionista e anti-semita, com o fito de pespegar a pecha de 'anti-semita' a qualquer um que se atreva a criticar o Estado sionista, uma vez que se estaria a condenar en bloc um pretenso 'Estado Judeu'. Pois muito bem: a quem interessa lançar mal de tal expediente falacioso? Mormente a três setores igualmente nefários:

a) a extrema-direita neocon à testa de Washington, que vê em Israel a salvaguarda ideal, o 'cão de guarda', a 'cabeça de ponte' no Oriente médio em defesa dos interesses do Complexo industrial-militar, indústria petroquímica inclusa.

b) a extrema-direita fundamentalista born again christian norte-americana, com seus tresloucados desvarios sobre os EUA como 'Nova Jerusalém'.

c) a canalha sionista genocida, racista e filonazista permanentemente no poder em Israel, não importa se com o Likud, com os trabalhistas ou eventualmente com a nova agremiação criada pelo criminoso de guerra Ariel Sharon.

Por outro lado, tal mixórdia ideológica, de todo inverídica e pérfida, é rejeitada veementemente por toda a esquerda antiimperialista, pelos defensores da causa palestina e partidários dos AUTÊNTICOS valores do judaísmo, amplo arco que inclui, apenas para citar judeus, desde pensadores como Noam Chomsky e Ralph Schoenman aos rabinos ortodoxos do Neturei Karta.

A propósito, enfim, do ínvio contubérnio existente entre o sionismo e certos setores da direita norte-americana, devo dizer que a meu ver trata-se do fenômeno mais nefasto da política mundial nas últimas décadas. Creio, com efeito, ser inegável o caráter histórica e atavicamente excludente, racista (como releitura oportunista da noção bíblica de 'povo eleito') e expansionista (todo o projeto, igualmente de fundo religioso, do Eretz Israel) do sionismo. Tais elementos não são circunstanciais ou contingentes no âmbito da ideologia sionista, mas sim sua própria raison d'être, sem a qual ela não existiria.

Vale dizer ainda que o sionismo advoga exatamente os mesmos princípios centrais da ideologia nazista, a saber:

1) uma estratégia política baseada na pretensão de superioridade de um povo 'eleito' (no caso sionista através d'uma releitura oportunista e mentirosa da noção bíblica de 'povo eleito, e na formulação nazista, por intermédio de hipóteses pseudocientíficas a propósito da 'superioridade racial' ariana).

2) política de expansionismo militar imperialista, projeto igualmente de índole mítica, baseado nas lendas relativas ao Eretz Israel, isto é, o equivalente religioso do lebensraum ou 'espaço vital', que advogava a necessidade de maior espaço para os arianos em detrimento das terras eslavas à leste.

Concluindo, ó insignes confrades:

Consoante pudestes verificar, sempre que vos virdes diante de um termo político ou econômico que pareça não se ajustar muito bem à realidade que tenciona significar, é mister proceder a todo um processo de atento desmonte dos sibilinos ardis conceituais embutidos em cada um deles, pois somente assim podereis escapar à toda sorte de torpes artifícios ideológicos diuturnamente perpetrados pelos envenenadores da consciência pública nos meios de comunicação.

As mais belas mortes - II

Yukio Mishima (1925-1970)





Kimitake Hiraoka (1925-1970), dito Yukio Mishima, famígero homem de letras, militante fascista e sociopata nipônico, padeceu transpassamento de notável dessuetude.

O preclaro escritor, vale dizer, nunca foi figura das mais usitadas; consta, por exemplo, que na infância sentia atração sexual pela imagem de São Francisco Xavier, tendo-lhe inclusive prestado páticos preitos nos 'templos de Onan'...

Ora procedamos, todavia, à decedura em tela: a 25 de novembro de 1970, Mishima, acompanhado por seus correligionários de TATENOKAI (movimento político de extrema-direita nostálgico do regime militar japonês das décadas de 30-40), tomou de assalto o campo de Ichigaya, Quartel-General em Tóquio do Comando Leste das forças armadas japonesas. A tresloucada brigada de insurrectos envencilhou o comandante da unidade, barricando-se em seu escritório; isto feito, Mishima assomou à sacada do edifício e, de acordo com o talante do movimento, principiou a arengar a soldadesca, tentando convencê-la a cerrar fileiras para promover um golpe de estado restaurando a monarquia absoluta sob a égide d'uma ditadura militar. Baldos foram, no entanto, tais intentos, uma vez que os militares, em tremebundo alarido, apuparam-no e ameaçaram-no nos termos mais amarescentes; à Mishima, em estado d'ânimo sobremaneira astroso, nada mais restou senão cometer seppuku, o solene suicídio ritual dos samurais nipônicos, ato que foi rematado, consoante às mais prístinas tradições do bushido, por sua decapitação, levada a cabo pelo confrade Hiroyasu Koga.


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Euclides da Cunha (1866-1909)






















Déifico arcano das letras brasileiras, o impertérrito Euclides da Cunha (1866-1909) teve, no entanto, uma cacotanásia das mais vexatórias e patéticas.

Em 1905 sua extremosa esposa Ana Emilia, então com 30 anos, travou conhecimento com um belo efebo de 17 anos, Dilermando de Assis, cadete da Escola Militar. A despeito da disparidade de idades, teve então princípio um rumoroso idílio amoroso, passando inclusive nosso Homero dos trópicos pelo supino labéu de registrar como seus dois frutos do ignominioso adultério. Em 1909 a situação tornou-se veramente insustentável, e Ana mudou-se no dia 14 de agosto para a casa de Dilermando.

No dia 15, por volta das 10 horas da manhã, Euclides bateu à porta do ínvio Dilermando, sendo recebido por seu irmão, Dinorah; tresvariado, o egrégio erudito desferiu-lhe dois balázios, o segundo alojando-se na nuca. Dilermando, por sua vez, foi alvejado na virilha e no peito; atirador exímio, o armígero amásio tencionou desarmar Euclides com disparos no pulso e na clavícula. O insigne galardão da cultura nacional tentou evadir-se, mas um tirázio fatal de Dilermando acertou-lhe as costas. Ao filho Solon, que lá estava quiçá tentando reconduzir a mãe ao lar desfeito, o pai moribundo disse: "perdôo-te"; ao escalfúrnio militar: "odeio-te"; e, por fim, à mulher: "honra... perdôo-te".

Post-Scriptum

No dia 4 de julho de 1916, Quidinho (Euclides da Cunha Filho), aspirante da Marinha, logrou encontrar-se com o homizieiro de seu pai no Cartório do 2º Ofício da 1ª Vara de Órfãos, no Rio de Janeiro. Sacou então sua pistola, ferindo Dilermando; este, por sua vez, ripostou com três disparos, matando o infausto herdeiro.


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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros