domingo, abril 03, 2011

Manifesto BRUTALISTA









Escrito e publicado originalmente no já remoto ano de 2011; todavia, qualquer semelhança com o presente NÃO é mera coincidência...

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(..) Enquanto isso ao redor da praça... da praça... ah que que se foda o nome da praça, saco, me esqueci mesmo, vai encarar, ô cuzão?! Enfim... esse puta mundo merda ai, esse pais continental que não serve pra porra nenhuma, enfim, jogo de final de campeonato de futebol, fogos explodindo no céu, conclusão:

É SEMPRE O TIME ADVERSÁRIO QUE GANHA TODAS AS PARTIDAS NÃO IMPORTA PARA QUEM VOCÊ TORÇA!

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Evoé proibidões, pagodes, forrós, evoé putinhas de rodeio, evoé vegetais crentes, piranhetes emergentes, ‘senhoras respeitáveis’ e ‘cidadãos de bem’, sim, venham todos, TODOS, a PAZ MUNDIAL!, A PAZ UNIVERSAL!!!, as 'mulheres honestas'', ó amadas 'mulheres honestas'... nojentas e mesquinhas! Venham também, padres pedófilos freqüentadores de bares GLS

Venham todos
 O palco é vosso
 O teatro é vosso
 Também a platéia
 Vinde a mim!             

VENHAM AO VOSSO VERDADEIRO REINO

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"E eu, Tirésias, embora cego, contemplo a cena, e vaticino o restante": cerveja, TV ligada, narradores urrando, uivando, senhoras já de certa idade dando gritos histéricos, pré adolescentes enchendo a caveira de cerveja, outros dando um tapa na pantera, é a alegria do coletivo

É GOOOOOOOLLLLLLLLLLLLL!!!!!

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VOCÊ, sim você mesma que se considera boa mãe... mas que sabe que a sua querida filhinha falta seguidas vezes num ridículo cursinho de pagou-passou e que, quando vai, seu fedor à cerveja e suor e sêmen pode ser percebido à distância... sim, a senhora, que prega a solidariedade num culto de igreja, e nega aos que lhe estão mais próximos qualquer forma de auxílio... não tenha vergonha, venha... somos todos iguais! Assuma-se, celebre junto a mim, seus irmãos e irmãs, sua canalhice e hipocrisia

 POIS TEU É O REINO

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E vocês... sim vocês mesmos, seus merdas, vocês que estão escrevendo essa bosta, e que se acham grandes ‘intelequituais’, e que se sentem 'nobres' por denunciar a degradação da mundo moderno

 Vão tomar no olho do cu!

 Vocês são dois cagalhões, que trocariam de bom grado esse caralho de poeminha, ou seja lá como vocês chama isso, pela buceta sebenta de uma funkeira de morro, ah se não trocariam! Mas venham seus desgraçados do inferno, não se acanhem venham e contemplem sua grande obra!

 A VIDA É MUITO LONGA, A VIDA É, TEU É O REINO

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CHURRASCO DE LAJE SIM, E DAÍ?! PROGRAMA DE AUDITÓRIO SIM, E DAÍ?! SERTANEJO EVANGÉLICO SIM, E DAÍ?! 

Tal como a humanidade estranha a si própria, essa cloaca de mundo que não mais se reconhece acaba! O que lhe parece mais importante: Uma guerra invisível, ou uma rua tão sombria onde bebês acabam morrendo!?



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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte – Deserto dos Tártaros

A propósito do caráter não-científico do marxismo - parte II

Alphonse van Worden - 1750 AD














b) Objeto de estudo bem definido e de natureza empírica; delimitação e descrição objetiva e eficiente de realidade empiricamente observável, isto é, daquilo que se pretende estudar, analisar, interpretar ou verificar por meio de métodos empíricos. 


Os objetos precípuos do marxismo - o 'Processo Histórico' e o 'Trabalho' - não podem ser de forma alguma definidos empiricamente, isto é, a partir da observação direta dos dados concretos fornecidos pela realidade; são, ao contrário, objetos socialmente construídos, cuja constituição decorre da subjetividade humana. Tampouco é possível uma descrição empírica de tais objetos, uma vez que sua consideração pressupõe a participação subjetiva do estudioso, que também participa da construção de tais objetos. O materialismo dialético é, em última instância, apenas uma manifestação particular do idealismo, já que confere um estatuto ontológico de realidade a um construto conceitual, a idéia de matéria. Marx, por conseguinte, ao formular o materialismo dialético, estabelece tão somente mais uma variante filosófica do idealismo, pois não há como escapar deste traço estrutural do materialismo, a saber, o de ser um epifenômeno do idealismo. Assim sendo, categorias exclusivamente conceituais como 'modo de produção', 'forças produtivas', 'luta de classes', etc. são tomadas como instâncias ontologicamente existentes. Em outras palavras: o marxismo fatalmente se insere no quadro das filosofias estéreis que acreditam na realidade de Universais. Ora, a crença na realidade ontológica dos Universais, que existem tão somente como construtos conceituais no processo de sistematização de conhecimentos adquiridos, arruína  qualquer possibilidade de elaboração de um método analítico-científico preciso e consistente.


c) Propósito de conhecer a realidade tal como ela se apresenta, procurando evitar a interferência de pressupostos ideológicos, valores, opiniões ou preconceitos do pesquisador. 


Por mais que os marxistas pretendam ser observadores isentos da realidade que estudam, isto é refutado pelo próprio desígnio formulado por Marx como objetivo central de sua visão de mundo: "Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo", tal como lemos na décima primeira tese sobre Feuerbach (1845). Ou seja: a pretensão de transformar a realidade forçosamente implica a participação do sujeito cognoscente no processo, o que, como não poderia deixar de ser, envolve de maneira inescapável os valores ideológicos, preconceitos e opiniões do mesmo. Podemos mesmo afirmar que o marxismo não faz qualquer sentido se não for encarado como praxis transformadora do mundo, isto é, como guia revolucionário para a ação, talantes completamente avessos à natureza da atividade científica, que se dedica a elaborar uma representação racional do mundo. 


d) Observação controlada dos fenômenos: preocupação em controlar a qualidade do dado e o processo utilizado para sua obtenção. 


Como controlar a observação de fenômenos que transcendem o escopo de vida do observador? Como um pesquisador pode ter controle sobre algo como a 'luta de classes', que escapa a qualquer determinação espaço-temporal precisa e circunscrita ao âmbito do sujeito que a observa? Em suma: os fenômenos abordados pelo marxismo não podem ser verificados empiricamente, uma vez que escapam à própria natureza da observação sistemática, metódica e controlada dos fenômenos, para a formulação de enunciados científicos consistentes.

Significativa parcela dos marxistas comete grave erro, portanto, ao reivindicar para o marxismo a condição de teoria científica. O pensamento marxista é absolutamente brilhante como teoria política da ação revolucionária, como guia revolucionário para a ação, mas sobremaneira precário como visão científica do mundo; ao postular, pois, tal estatuto, seus adeptos tão somente logram expor-lhe os flancos, abrir a guarda para seu aspecto mais frágil e problemático. há que se ressaltar, vale dizer, que um aspecto fundamental do marxismo é tolamente ignorado por seus teóricos 'oficiais': o marxismo não apenas como teoria, mas também como TEOLOGIA política, já que é mister salientar o caráter inequivocamente MESSIÂNICO inerente a todo processo revolucionário.

Na sequência deste ensaio, analisaremos com mais vagar as considerações acima esboçadas, com especial atenção a aspectos de índole epistemológica.

terça-feira, março 01, 2011

A propósito do caráter não-científico do marxismo - parte I

Alphonse van Worden - 1750 AD














Egrégios irmãos d'armas:

Submeto à vossa apreciação a primeira parte d'um ensaio onde pretendo demonstrar que a pretensão da teoria marxista em constituir-se como disciplina científica é de todo insustentável.

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Para que uma teoria possa ser considerada científica, é mister que esteja formulada consoante alguns parâmetros fundamentais, dos quais os mais importantes são os seguintes:


a) observância dos cânones de inferência lógico-dedutiva e dos métodos indutivos para a formulação de premissas, de modo a fundamentar, via método axiomático, a teoria científica que se pretende construir.


Creio que nem o mais radical dos marxistas ortodoxos irá discordar do facto de que somente as ciências experimentais ou exatas são hipotético-dedutivas, isto é, capazes de generalizar observações indutivas em enunciados passíveis de verificação empírica, ou de estabelecer proposições analíticas nos marcos da razão pura. Tal procedimento não pode ser satisfeito pelo marxismo, cujos enunciados não nascem da estrita observação dos dados empíricos, nem tampouco se configuram como enunciados analíticos da razão pura. Consoante a teoria do conhecimento elaborada pelo Círculo de Viena, notadamente por Carnap e Schlick (a qual endosso), para ser dotado de significado um enunciado precisa ser analítico ou passível de verificação empírica. Hume, notável pioneiro de tal perspectiva, advogava a existência de 2 tipos de enunciados dotados de sentido: 'questões de facto' e 'relações entre idéias'. As 'questões de facto', referentes à realidade concreta que nos cerca, são empiricamente comprováveis ou não; as ‘relações entre idéias', por seu turno, concernentes às matemáticas, são construídas por método axiomático. Como podemos contatar, é patente a influência de tal concepção no âmbito dos próceres do positivismo lógico. Vejamos agora como o inglês A.J.Ayer, que conferiu uma formulação mais concisa e simples às concepções do Círculo de Viena, estabelece os termos do 'Princípio de Verificação':

Os enunciados analíticos são tautologias, isto é, proposições verdadeiras por definição, cujo sentido permanece o mesmo sob diferentes arranjos de palavras ou símbolos. São, portanto, tautológicos os enunciados da matemática e da lógica, cuja veracidade prescinde de verificação empírica.


Os enunciados sintéticos (ou apofânticos), por sua vez, são aqueles que afirmam ou negam alguma coisa sobre a realidade sensível, tal como as proposições científicas. Sua validade é determinada, pois, por intermédio de verificação empírica.

Como podemos verificar, os enunciados do marxismo não são sintéticos nem analíticos, uma vez que não são passíveis de verificação empírica (que será objeto de consideração na seqüência deste ensaio), nem tampouco são a priori verdadeiros por definição, ou seja, tautologias como as da matemática e da lógica, que prescindem de verificação empírica.

Há também que observar que as proposições do marxismo são infinitamente reformuláveis a posteriori, isto é, podem ser modificadas caso os fenômenos observados não mais satisfaçam as predições feitas antes a propósito deles.

Vejamos um exemplo assaz ilustrativo: em sua conformação original a teoria marxista advoga que a superação dialética de um modo de produção tão somente ocorre quando as forças produtivas num determinado contexto não mais se enquadram nas relações de produção dadas nesse mesmo contexto, em outras palavras, quando a reprodução social e econômica não é mais possível no âmbito da organização social em tela; destarte, a subversão revolucionária de um modo de produção teria fatalmente de iniciar-se nas sociedades onde a dinâmica do referido modo de produção houvesse esgotado todas as suas possibilidades. Pois muito bem: quando do advento da revolução soviética em 1917, foi óbvia a constatação de que o processo havia ocorrido num país capitalista atrasado, em outros termos, num contexto onde a dinâmica do modo de produção vigente ainda não havia logrado esgotar todas as suas possibilidades; tornava-se necessário, pois, para preservar a pretensa integridade 'científica' do marxismo, providenciar uma correção in extremis para o postulado que fora refutado. Tal 'arranjo' foi obtido através da célebre teoria do "elo mais fraco", segundo a qual a revolução mundial doravante principiaria pela periferia do sistema, ou seja, nas regiões onde as relações capitalistas fossem mais atrasadas e primitivas.

Ora, uma teoria científica não admite reformulações a posteriori: quando os resultados experimentais obtidos não mais se ajustam ao comportamento previsto pelos postulados da teoria, esta deve ser abandonada e substituída por mais acurada e consistente. Se uma dada concepção teórica pode ser indefinidamente amoldável ao sabor de circunstâncias que se lhe revelem desfavoráveis, ela obviamente não poderá pretender-se sob a égide da racionalidade científica. Passando para o terreno da lógica, uma inferência é admitida como válida quando a conclusão obtida se segue inequivocamente das premissas apresentadas; classifica-se, portanto, como válido qualquer argumento cuja conclusão se siga necessariamente de suas premissas.

Desnecessário frisar que o marxismo, pelos móveis acima esboçados, também não atende à essa exigência epistemológica.


quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Considerações a propósito da GRANDE SÍNTESE: repensar a II Guerra Mundial - I

Alphonse van Worden - 1750 AD






Áticos irmãos d'armas:

Consoante já sublinhamos em reiteradas ocasiões, a peregrinação em direção à GRANDE SÍNTESE eurasiana, isto é, a convergência entre as principais correntes filosóficas e ideológicas anticapitalistas e antiburguesas, por um lado; e por outro, as tradições esotéricas da revolta irracionalista contra a 'Sociedade Aberta' ao longo da História será, há que admitir, sobremaneira longa e tortuosa. Há inúmeras arestas e incompreensões mútuas a serem aparadas; séculos de mal-entendidos (não raro disseminados por nossos adversários); ressentimentos; discrepâncias conjunturais de ordem política; enfim, toda uma série de equívocos e distorções, conscientes ou não.

Para tempo, iniciaremos o supracitado ciclo com algumas considerações sobre a milenar rivalidade entre duas potências telurocráticas de fundamental importância para a concretização projeto eurasiano: Alemanha e Rússia.

Trata-se d'um processo que remonta mormente ao século XIII, quando Aleksandr Yaroslavich Nevskij, Príncipe de Novgorod e Vladimir, derrotou a Ordem dos Cavaleiros Teutônicos, sob o comando do príncipe Hermann de Dorpat, na Batalha do Lago Peipus (1242), localizado na fronteira entre a Estônia e a Rússia. (O episódio foi celebrizado pelo cineasta soviético Sergei Eisenstein num filme extraordinário: Aleksandr Nevskij - 1938).

E no âmbito de nosso esforço em aplainar o terreno para a Nova Ordem, uma das etapas mais importantes é a compreensão da II Guerra Mundial como a mais terrível tragédia que se abateu sobre a GRANDE SÍNTESE, adiando-a por várias décadas, quiçá até por séculos. Parece-me claro que o contencioso ancestral entre povos eslavos e germânicos por si só não logra explicar / justificar um conflito da magnitude da II Guerra Mundial.

Lembro-me, a esse respeito, da memorável assertiva d'um saudoso professor de filosofia (de quem tive a honra de ser discípulo n'outros lustros), proferida em tom de divertida boutade, mas sem dúvida portadora d'um acurado senso de verdade: 

"A batalha de Stalingrad foi a manifestação concreta do conflito teórico entre hegelianos de esquerda e de direita".

Com efeito, ele estava certo: a II Guerra Mundial representou, em última instância, a trágica oposição, convertida em mortífera guerra de extermínio, entre dois 'grandes irmãos' que, de certa forma, jamais lograram perceber, de um lado,  a profunda unidade metafísica e teleológica existente entre ambos; e de outro,a comunhão de interesses geopolíticos no âmbito do conflito permanente  entre as duas dinâmicas que ditam o compasso da História: o eurasianismo telurocrático e o atlantismo talassocrático.

Vale salientar, à partida, que a tragédia acima referida não se dá apenas no plano ideológico ou espiritual, mas também na esfera das relações materiais.  A esse respeito, é assaz instrutivo observarmos a situação vivida, tanto pela Alemanha nazista quanto pela URSS stalinista, durante a década de 30 da última centúria.

O aspecto precípuo a ser ressaltado, quero crer, é a irreprochável constatação de que ambas atravessavam uma fase de acelerada expansão econômica.

O país dos soviets, muito embora sacudido até os alicerces pelas ondas sísmicas deflagradas com a 'revolução pelo alto' de Stalin entre 1930 / 31 (processo de coletivização da agricultura, implementação do 'stakhanovismo' super-industrialista de Kuybishev & cia.), esteve blindado contra os efeitos da devastadora crise de 29, e com com isso singrou de vento em popa os oceanos da industrialização, levando a efeito em menos d'uma década o que a Europa Ocidental levou quase 100 anos para realizar. Estima-se, vale dizer, que a URSS, caso a II Guerra não houvesse ocorrido, superaria tanto a economia norte-americana quanto o conjunto das economias desenvolvidas da Europa em menos de 20 anos.

A Alemanha nazista, por seu turno, logrou recuperar-se em tempo record da abissal depressão econômica em que o país esteve mergulhado durante toda a década de 20, através d'uma espécie de 'keynesianismo militar avant la lettre', com o Estado atuando decisivamente como indutor do crescimento; assim sendo, estancou em definitivo a espiral inflacionária que corroía as finanças do país; converteu o desemprego num problema meramente residual; e last but not the least, promoveu um desenvolvimento inaudito em termos de evolução tecnocientífica.



(Continua)

O 'Problema da Indução' em Charles Sanders Peirce

Alphonse van Worden - 1750 AD




Não seria desarrazoado afirmarmos, conforme já salientamos adrede n'outros escritos, que o Problema da Indução origina-se, em boa parte, do fato de pretendermos aplicar nas inferências indutivas os mesmos critérios de validação vigentes no âmbito da lógica dedutiva; poderíamos, talvez, argumentar que o cerne do referido problema está na possibilidade de justificarmos, de um modo não necessariamente dedutivo, os resultados de uma generalização indutiva a partir das premissas existentes.

É precisamente neste sentido que se orientam as reflexões sobre nosso Problema levadas a cabo por Charles Sanders Peirce (1839-1914), filósofo e lógico norte-americano.

Consideremos agora, pois, a seguinte hipótese por ele sugerida: em nossa experiência passada, direta ou indireta, podemos afirmar, com absoluta certeza, que as pedras que arremessadas livremente ao solo de fato caíram no chão. Tal assertiva nos abre duas possibilidades:

(a) ou bem a uniformidade com que todas estas pedras caíram se deve à pura casualidade e não proporciona qualquer fundamento para que possamos esperar que a próxima pedra arremessada caia;

(b) ou então a uniformidade com que as pedras caíram se deve a um princípio geral ativo, e no caso em questão seria pura coincidência que parasse de atuar no momento em que minha previsão está se baseando nele. As pedras caem, constatamos isso.

Como, no entanto, podemos justificar a expectativa de que próxima pedra que arremessemos ao solo também cairá? E este conhecimento deve ser formulado no sentido de que possamos afirmar as proposições a seguir:

(1) eu tenho uma crença justificada de que se arremesso a pedra, ela cairá

E

(2) é verdade que quando arremesso a pedra, ela cai, ou seja, compreende duas instâncias, a justificação da crença e a verificação desta.

Todavia, a verificação só constata a veracidade de casos particulares e, desse modo, não é um meio para justificar um enunciado geral. Mais ainda: é possível conceber que as pedras, ao serem arremessadas, não caiam, tal como aconteceria em um ambiente livre de gravidade. Em outras palavras: existem mundos possíveis onde tal enunciado não é verdadeiro; e se existem condições que inequivocamente falsificam nosso enunciado, como poderemos justificar que sobre se tenha uma crença racional?

Entretanto, argumenta Peirce, nossa experiência demonstra de sobejo que ao soltarmos uma pedra, ela cai (a não ser que estejamos em um ponto de gravidade zero); como tal fato sempre aconteceu, ou existe uma lei causal que está por trás deste fenômeno, ou então sempre foi regido pelo puro acaso; mas, como a probabilidade de que se deva ao acaso é mínima, devemos concluir que da referida experiência é possível inferir uma lei causal.






segunda-feira, janeiro 10, 2011

Breve nota sobre a disjuntiva Inconsciente / Consciente no âmbito do ethos expressionista







A incapacidade em distinguir entre o misterioso universo de brumas imprecisas do Inconsciente, por um lado, e a realidade meridiana que se descortina perante a Consciência, por outro; ou ainda, a enigmática crença de que o ‘reino de sombras’ do Inconsciente se substitui à esfera de ‘certezas’ da Consciência como única e verdadeira REALIDADE, isto é, duas das linhas de força centrais da cosmovisão expressionista, podem também ser encontradas, por exemplo, em obras historicamente posteriores ao movimento, mas que, sem dúvida, reverberam-lhe as características.

Consideremos, por exemplo, a seguinte passagem, um diálogo entre os protagonistas Fridolin e Albertine, presente no belo desfecho de Breve Romance de Sonho (Traumnovelle - 1926), do austríaco Arthur Schnitzler, texto que poderia ser descrito, vale dizer, como uma espécie de entrechoque entre o pesadelo expressionista e as paisagens oníricas do surrealismo:


(..)“O que vamos fazer, Albertine?


Ela sorriu, e após breve hesitação, respondeu: Agradecer ao destino, penso eu, por termos escapado incólumes de todas as aventuras – reais ou sonhadas.


Tem certeza de que é o que você quer também?, perguntou ele. Estou tão certa quanto suspeito que a realidade de uma noite, ou mesmo de toda uma vida, não significa sua verdade mais íntima.


Nem sonho algum é totalmente ‘sonho’, suspirou, baixinho, Fridolin.


Ela tomou a cabeça dele nas mãos, e aninhou-a com carinho sobre o peito. Agora estamos os dois acordados, disse, e por muito tempo.


‘Para sempre’, ele quis acrescentar, mas antes ainda que houvesse pronunciado as palavras, ela colocou-lhe um dedo nos lábios e, como se o fizesse para si mesma, sussurrou: Melhor não perguntar nada ao Futuro."


Percebam, no trecho supracitado, a significativa presença da divisa que proclama que “o expressionista já não vê, mas tem VISÕES”: por um lado, no transcurso da longa, insólita e, até certo ponto, ‘onírica’ aventura noturna de Fridolin (bem como, nos dias seguintes, em sua obsessão por solucionar a série de enigmas desencadeados por aquela noite inicial), um desejo avassalador pela traição amorosa funciona como elemento propulsor; não obstante o adultério jamais chega a se consumar. Por outro, no também longo e intrincado sonho de Albertine, o desejo de traição, ainda que como projeção na esfera abstrata do Inconsciente, é plenamente consumado.

Assim sendo, tanto os protagonistas, quanto nós, leitores, não ‘VEMOS’ qualquer ato de adultério ocorrendo como evento discernível no espaço-tempo; todavia, é inequívoca a ‘VISÃO’ que temos de tal ‘ato’ no universo simbólico do Inconsciente. Como afirmar taxativamente, destarte, que o propósito em tela (isto é, o da traição amorosa) não se realizou, apenas por não ter sido ‘visto’ como ocorrência real? Onde estaria, ao fim e ao cabo, a ‘zona de segurança’, a linha de demarcação em nossa condição humana para verificarmos se algo, sobretudo na esfera do desejo e da vontade, ‘aconteceu’ ou não? Eis, portanto, a grande indagação lançada pelo Expressionismo: Que seria, verdadeiramente, a Realidade Humana? Ou, em outras palavras, qual seria sua manifestação mais genuína? O nebuloso orbe de sonhos, pulsões e desígnios do Inconsciente, ou o plano ‘concreto’ da ação consciente?


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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

Notas de reflexão crítica XX - sobre a dicotomia FÉ / RAZÃO

Alphonse van Worden - 1750 AD




- Proponho-vos à partida, egrégios confrades, a seguinte indagação Sendo o Criador omnipotente e ilimitado, como então a inteligência humana, finita e limitada, poderia afirmar que Ele não poderia, por um desígnio impenetrável de Sua vontade, modificar o fado destinado às Suas criaturas? Não temos, pois, e tampouco jamais teremos, verdadeiro CONHECIMENTO de atributos como 'infinitude', 'omnipresença', 'omnisciência', etc., mas tão somente podemos intuí-los.

- Se há, de facto, omnipotência, tal atributo necessariamente situa-se numa esfera além de toda compreensão, além da razão, do Bem e do Mal, do Ser e do Não-Ser. À guisa de benévola provocação aos corifeus do tomismo, (muito embora julgue ser uma alegação deveras plausível), lanço aqui a seguinte hipótese: a concepção de Deus advogada pelo mainstream escolástico fornece muito mais munição para a argumentação ateísta que o Deus insondável, imprevisível e arbitrário dos 'voluntaristas'. Ou, em outros termos: sempre que Deus é deslocado da esfera da pura FÉ, que prescinde de quaisquer argumentos, para a esfera da FILOSOFIA (onde todo e qualquer argumento é submetido a rigoroso escrutínio analítivo, e é passível, ao menos em termos de estrutura lógica, de refutação), abre-se um flanco para o ateísmo. FÉ é uma dimensão necessariamente irrefutável; já a razão...

- É razoável supor que o Altíssimo, o Criador de tudo que existe, detenha os atributos da omnipotência, da omnisciência, etc., mas não creio que possamos afirmar taxativamente de que modo os utiliza, nem com que talante. Não há, por exemplo, como conceber a noção de omnipotência sem que a mesma envolva o poder de agir irrracionalmente, e até mesmo malevolamente, pelo menos à luz dos limitados recursos do entendimento humano.

- É mister, sobretudo, que os católicos atentem para o seguinte: ateus podem somente CONVIVER com o credo quia absurdum, mas não podem combatê-lo. Ninguém pode combater a força d'uma convicção que prescinde argumentos. Carl Schmitt, grande pensador católico, sabiamente afirma não haver "cadeia de argumentação lógica capaz de resistir à força de imagens míticas, primordiais" (Der Leviathan in der Staatslehre des Thomas Hobbes - 1938). Ao que acrescento: aquele que visceralmente CRÊ nada precisa provar ou demonstrar, pois sua fé está além, muito além de qualquer argumento. O ateu intelectualmente capaz (o ateísmo primitivo, raivoso, é irrelevante, claro está) é capaz de refutar as mais sutis e laboriosas 'demonstrações' da existência de Deus; não obstante, NADA pode fazer contra a simplicidade d'uma convicção que se basta a si mesma.

- Para aquele que realmente crê, nada pode ser mais fátuo, mais inútil, que discutir os 'porquês' de sua fé. A fé convicta está sempre um passo além de qualquer questionamento, por uma razão muito simples: ela não tem necessidade de formular a questão. É como Santo Atanásio asseverava: "se o mundo estiver errado, então Atanásio será contra o mundo". Com efeito, em nada importa que uma, duas, 10, 100, 1000, 1.000.000, 1.000.000 de vozes proclamem contínua e obsessivamente o contrário: o homem imbuído d'uma convicção tão sólida quanto serena dispensa a anuência ou não dos que o cercam, por mais qualificado que tais elementos possam ser.

- Em verdade, diletos irmãos d'armas, só podemos ter fé genuína no que vai de encontro à razão. Aquilo que somos capazes de compreender (ou pelo menos temos a potência de compreender) não constitui objeto de fé, mas de conhecimento. Não há como conceber que um ato de fé seja passível de entendimento.

- Decerto toda religião necessariamente possui um corpus doutrinário, ou seja, um conjunto de princípios (alguns de índole dogmática, outros não) que expressam as crenças, tradições e valores professados por uma determinada confissão religiosa. Tal corpus, claro está, como qualquer conjunto de teses ou preceitos, é concebido / organizado de forma racional. Não obstante, a ESSÊNCIA, o SUBSTRATO metafísica que informa o imo d'uma religião é, sem dúvida, uma dimensão que está além da razão, e que não pode formulada através de argumentos formalmente lógicos e racionalmente sustentados. Tomemos em consideração, por exemplo, o dogma da Santíssima Trindade: de que modo poderíamos formulá-lo racionalmente como proposição?

- Devemos, portanto, egrégio confrades, como amiúde tenho vos advertido, advogar as idéias do Venerabilis Inceptor William of Ockham, estabelecendo, assim, uma demarcação nítida entre Fé e Razão, Teologia e Filosofia.

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Swans: exercises on aural carnage and sonic rituals of punishment

























Eis aqui, para vosso imenso gáudio, mais uma pérola from my vynil vaults .

Muito bem: eis que nem sempre, ínclitos confrades, o que se denomina como ' rock industrial' caracterizou-se pela monótona pasmaceira eletrônica pseudo-metalizante de bandas como NIN, Ministry, KMFDM, etc. Não obstante, houve um tempo, mais especificamente entre 1977 e 85, em que o termo designava um conjunto de artistas, provenientes sobretudo da Inglaterra, dos EUA e da Alemanha, que empregavam fontes não-musicais (tais como sucata industrial, found sounds , tapes , distorção eletrônica, etc.) em suas composições; formações como Throbbing Gristle, Einstürzende Nëubaten, Test Department, SPK, Blech, Cassiber, Foetus, Whitehouse, NON, Psychic TV, Factrix e, claro está, os mefistofélicos novaiorquinos dos Swans, banda em tela na presente postagem.

A sonoridade dos caras já foi descrita por um crítico britânico como " Sister Ray , do Velvet Undergroud, a 16 RPM e mergulhada num pântano"; de facto, trata-se duma descrição brilhante, assaz acurada: claustrofóbica, ominosa, morosa, catatônica e avassaladora, nos primeiros anos a banda era crueldade sonora em estado bruto, alicerçada na bateria monomaníaca e detonações industrialistas do suiço Roli Mosimann; na guitarra dilacerante e agônica de Norman Westberg; no baixo hipnótico de Harry Crosby; e, claro está, nas insanas imprecações e escalafobéticos ruídos aleatórios perpetrados pelo insano vocalista Michael Gira, líder da banda e também responsável pela cinérea atmosfera de pesadelo kafkiano e perversão sádica que emanava das letras.

O estraçalhante Cop (1984), segundo LP deles é, a meu juízo, o ponto culminante da fase áurea da banda (ao lado de Public Castration Is a Good Idea, uma carnificina sonora gravada ao vivo em 1986).

Cop é o bramir sinistro d'uma siderúrgica envolta em brumas de resíduos industriais, onde homens e máquinas urram de dor, ódio e desespero, comandados por um H.A.L 9000 em disfunção operacional. Assim sendo,  a atmosfera que emana de suas faixas é nebulosa, soturna e ameaçadora, uma espécie de representação sônica da 'zona' interdita de Stalker, percorrida por legiões de espectros abissais. E em meio a a essa universo de inaudito terror, o ouvinte atento, ao detectar, por exemplo, boa parte das matrizes sonoras que hoje informam a ala mais extrema do metal / noise contemporâneo (Burning Witch, Halo, Cortisol, Khanate, Stumm, Aluk Todolo, etc.), perceberá quão influentes esses camaradas ainda são.























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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte – Deserto dos Tártaros

Expressionismo / Romantismo: duas visões de mundo - I

Alphonse van Worden - 1750 AD




A percepção que se tem do Romantismo e do Expressionismo não raro restringe-se, até mesmo nos meios cultos, aos aspectos mais especificamente 'estéticos', isto é, ao legado artístico-literário de tais movimentos.

Tal concepção não poderia ser mais reducionista: tanto o romantismo quanto o expressionismo (ainda que este último em menor escala) transcendem sobremaneira a esfera de movimentos artísticos, afirmando-se, em verdade, como VISÕES DE MUNDO.

Assim sendo, logram uma ressonância infinitamente mais profunda e abrangente, pois refletem, muito mais que um determinado acervo de padrões estéticos, não só perspectivas filosóficas, políticas e espirituais, mas, sobretudo, facetas permanentes da própria condição humana.

E muito embora a cosmovisão expressionista seja caudatária do ethos romântico, é precisamente a este respeito que podemos identificar a diferença crucial entre ambos: enquanto o romantismo se estabelece como revolta contra a 'Realidade' de âmbito IDEALISTA, o expressionismo encarna a mesma atitude de revolta sob um cariz NIILISTA.

Ou seja: o espírito romântico contempla a possibilidade de uma ‘realidade alternativa’ em relação ao ‘desencantamento do mundo’ (Max Weber) gerado pelo advento do iluminismo. Tal talante transformativo pode, por seu turno, revestir-se tanto d’um caráter RESTITUCIONISTA quanto dum matiz REVOLUCIONÁRIO.

No primeiro caso, postula essencialmente o retorno a um Tradionswelt , ou seja, uma ‘Idade de Ouro’, que vai decididamente de encontro ao caráter utilitário, pragmático e 'quantificável' da modernidade, em nome dos valores perenes d'uma Ordem transcendente, atemporal, pautada pelos princípios da HONRA, da LEALDADE, da REALIZAÇÃO ESPIRITUAL, da CORAGEM, da RENÚNCIA e do ASCETISMO MATERIAL, o que podemos claramente diagnosticar, por exemplo, na obra de um poeta e pensador como o alemão Friedrich Von Hardenberg, dito Novalis, mormente em seu ensaio A "Cristandade ou a Europa" (1799), onde o autor advoga um retorno à Idade Média sob os auspícios da Igreja, cuja unidade harmônica poderia regenerar espiritualmente uma Europa convulsionada por dissensões políticas e religiosas; ou então através dos romances medievalistas de seu compatriota Achim Von Arnim, animados por uma fervorosa apologética católica, bem como em numerosos outros autores do período.

Em se tratando da variante revolucionária, temos a projeção no futuro d’uma nova Humanidade liberta dos grilhões do materialismo, do egoísmo e da injustiça (a esse respeito, poderíamos citar a figura do inglês William Blake, e seu célebre poema "The French Revolution" (1791), por exemplo, onde os eventos do processo revolucionário decorrido em França entre 1789 / 1794 são transfiguradas à luz d’uma concepção mítica da História, encarada como processo em direção à sublimação total do Espírito; ou ainda o também inglês John Keats, que em composições como "Ode to Liberty" (1820), retrata o futuro como esfera de realização d’uma radiosa utopia de Amor e de Beleza, expressão suprema de todas as virtudes que, em épocas passadas, eram apenas um anseio fugidio.

Nos marcos do expressionismo, por outro lado, já não há qualquer esperança de redenção para a Humanidade, tanto no ‘passado’ quanto no ‘futuro’; seu espírito de revolta assume, portanto, um caráter de desespero cósmico, de urro primal e apocalíptico contra o sumo horror d’uma Realidade que já não mais pode ser transformada. Não por acaso, vale dizer, a poesia, o cinema, a música, a pintura, a gravura e o teatro expressionistas estão pejados de imagens recorrentes de decomposição, desintegração, putrefação, corrupção, depravação, cinismo, brutalidade, crueldade e aniquilamento, não raro evocadas com uma espécie de prazer sádico, de exaltação mórbida (considere-se, a esse respeito, o ominoso universo poético de autores como Georg Tralk (este de nacionalidade austríaca), August Stramm e Gottfried Benn.

Benn, constitui, aliás, um exemplo emblemático da contínua simbiose e interpenetração entre o expressionismo e o romantismo: a princípio um dos grandes nomes da poesia expressionista, afastou-se paulatinamente de seus horizontes iniciais e, no decorrer da década de 30, imbuído d’uma perspectiva inequivocamente romântica, gravitou em torno do Nacional-Socialismo, pois cria que o regime seria capaz de criar uma ‘Nova Esparta’, habitada por um povo de heróis (não devemos nos esquecer, há que ressaltar, que a própria ideologia nazista, que sem dúvida constitui uma manifestação de romantismo político, tampouco estava isenta de contradições – na Conferência de Bamberg (1926), por exemplo, a maioria do partido, sob a liderança de Hitler, adotou uma perspectiva mais conservadora, rejeitando a orientação mais nitidamente socialista e revolucionária que os irmãos Otto e Georg Strasser tencionavam imprimir ao movimento; a ‘Noite das Facas Longas’ (1934), com o expurgo de Ernst Rohm e da cúpula dirigente das SA, etc.).

Percebe-se, também, o influxo d’uma ‘antilógica’ do sonho – ou, mais especificamente falando, do pesadelo, no tocante ao expressionismo alemão -, onde as fronteiras entre passado, presente e futuro se desintegram, convertendo-se num fluxo subterrâneo e contínuo de espectros, penitências, temores, tormentos. Trata-se, enfim, não seria irrazoável sublinhar, d’uma lôbrega, sinistra celebração da MORTE, bem como de todas as angústias, terrores e maldições que assaltam o ser humano. Assim sendo, a arte e a literatura expressionistas conjuram uma atmosfera claustrofóbica, sufocante e soturna, sempre permeada por um enigmático senso de catástrofe iminente; e o homem, outrossim, é descrito/percebido como joguete inerme e impotente nas mãos do Destino, sempre insondável e ameaçador.

Por fim, é mister assinalar outra distinção fundamental entre as visões de mundo expressionista e romântica: o expressionismo, mergulhado num horizonte de trevas e desesperança, não é passível de ‘politização’, ou seja, de plasmar-se em ‘combustível’ ideológico para qualquer forma de ação política. O romantismo, por seu turno, ao acalentar a possibilidade de transformação radical da Realidade, torna-se, pois, plenamente permeável à ação e pensamento políticos, fenômeno amiúde verificável, saliente-se, tanto no que tange à sua vertente restitucionista, quanto no que concerne à sua faceta revolucionária (dimensões que não raro se interpenetram, registre-se).

Assim sendo, poderíamos aqui mencionar autores como o alemão Ernst Jünger, a um só tempo predicando, de um lado, nostalgia da gemeinschaft (comunidade) orgânica do medievo germânico, o primado d’uma ‘Aristocracia do Espírito’, formada por guerreiros, pensadores e poetas; e, de outro, e a premente necessidade, de maneira a proteger a nação de qualquer ameaça externa, de um Estado de ‘Mobilização Total’ ("Die Totale Mobilmachung" - 1930) da sociedade industrial em prol de um esforço de guerra permanente.

A esse respeito, destaca-se, como emblemático exemplo inicial de sua capacidade de trabalhar a partir de diferentes linhas de fuga, na obra de Jünger o extraordinário "In Stahlgewittern" (Tempestades de Aço - primeira edição em 1920 / edição definitiva em 1961). O supracitado volume constitui tanto um relato de vigoroso e implacável realismo (e, ao mesmo tempo, pejado de êxtase delirante) sobre suas experiências como tenente do exército alemão na I Guerra Mundial, quanto um dionisíaco ensaio sobre a guerra como veículo de sublimação ascética e realização espiritual.

O escritor alemão encara a experiência bélica, portanto, como derradeira oportunidade para o homem contemporâneo, ser avesso ao substrato mítico e religioso que lastreia seus alicerces históricos e culturais, livrar-se do pragmatismo medíocre e conformista, para então alçar-se à olímpica esfera das virtudes de um legítimo Kshatrya (o arquétipo védico do Guerreiro), para quem o combate tem sua recompensa em si mesmo, ainda que não seja coroado pela vitória; ou, em outras palavras: um homem para quem a guerra é uma esfera que vai muito além das causas e circunstâncias que condicionam cada conflagração em particular, estabelecendo-se, ao contrário, como dimensão cósmica que se projeta na ETERNIDADE, onde os autênticos kshatriya não podem ser derrotados pelos escravos do 'Reino da Quantidade' (Guenón), das sombras voláteis e fugidias do ‘Agora’, submetidos ao fluxo errático e transitório do TEMPO.

Para Jünger, portanto, mesmo que a vertiginosa evolução tecnológica da arte da guerra na modernidade acabe, ao fim e ao cabo, por minimizar a iniciativa individual do guerreiro, sua glória o projeta nos páramos da Eternidade. O mesmo acervo de idéias seria retomado mais tarde, vale dizer, n’outro ensaio do autor, "A Guerra como experiência interior" (1922), onde Jünger, à luz do "Bhagavad Gita", reafirma sua concepção da guerra como transfiguração coletiva do conflito primordial entre o BEM e o MAL, dimensões presentes no espírito de cada ser humano.

Mencionemos também, ainda no campo restitucionista, o filósofo italiano Julius Evola (1898 - 1974), senhor d’um estilo inigualável em sua épica majestade e estratosférico arrebatamento, com sua defesa do retorno aos arcanos da Tradição como alimento espiritual para a ‘revolta contra o mundo moderno’ (título, aliás, de seu trabalho mais importante, publicado em 1934), ainda que tal revolta conduza o ‘aristocrata do espírito’ ao desterro e isolamento no seio da sociedade burguesa (consoante enfatiza o autor siciliano, "uma única coisa deve importar ao Homem: permanecer de pé entre as ruínas."). É mister salientar o significado do conceito de Tradição engloba, em sentido lato, os fundamentos, os alicerces espirituais der cada civilização. Em sentido mais restrito (tal como o que podemos identificar, por exemplo, no pensamento de autores como o chileno Miguel Serrano e a francesa Savitri Devi - nascida Maximine Julia Portaz), trata-se na crença na ‘Idade de Ouro’ durante a existência da Hiperbórea, país mítico que, consoante a mitologia grega, localizava-se no extremo norte da Grécia, na região da Trácia (que hoje corresponde áreas da própria Grécia, da Turquia e da Bulgária), onde reinava Bóreas, o semideus do Vento Norte, súdito de Apolo.

Para Evola, trata-se, sobretudo, da revolta sagrada do sentido atávico da existência (simbolicamente encarnado nas tradições culturais caudatárias do ethos hiperbóreo) contra os falsos ídolos da razão, cujo móvel seria aniquilar qual sede de realização espiritual na alma do homem contemporâneo. Tal perspectiva, que predica a nobreza do espírito ascético do ‘Aristocrata de Espírito’ em meio à desintegração política, moral e cultural, sob a égide das ideologias iluministas, da civilização ocidental é, vale dizer, sintetizada à perfeição num dos mais incisivos ensaios de Evola, "Orientações" (1971): "No sentido espiritual, existe efetivamente algo que pode servir como orientação para as nossas forças de resistência e de revolta: este algo é o espírito legionário. É a atitude de quem sabe escolher o caminho mais duro, de quem sabe combater ainda que sabendo que a batalha está materialmente perdida, de quem sabe reviver e revalidar as palavras da antiga saga nórdica: «A fidelidade é mais forte do que o fogo»."

Por fim, no que concerne à faceta revolucionária do romantismo político, há que mencionar o engenheiro e sociólogo francês Georges Sorel (1847 - 1922), que em sua obra magna, "Reflexões sobre a Violência" (1908), estabelece uma distinção entre as noções de 'mito' - numa acepção político-ideológica do termo - e 'utopia / ideal', com o 'mito revolucionário' funcionando como 'profecia auto-realizável', no sentido de não depender de fatores transcendentes para ser levado a efeito; ou ainda o militante político e ensaísta peruano José Carlos Mariátegui (1894 -1930), que advogava, sob a influência do supracitado Sorel e de Charles Péguy, que "O mito move o homem na história. Sem um mito a existência do homem não tem nenhum sentido histórico. A história, fazem-na os homens possuídos e iluminados por uma crença superior, por uma esperança sobre-humana; os demais constituem o coro anônimo do drama. A crise da civilização burguesa mostrou-se evidente desde o instante em que esta civilização constatou a carência de um mito.(...) a força dos revolucionários não está na sua ciência; está na sua fé, na sua paixão, na sua vontade. E uma força religiosa, mística, espiritual. É a força do Mito.” ("O Homem e o Mito" - 1925)

Mariátegui ressaltava, assim, a profunda emoção messiânica inerente a qualquer processo revolucionário, bem como seu caráter decididamente voluntarista e romântico; concebe, pois, o pensamento marxista não como tola pseudociência desprovida de fundamento epistemológico, mas como creación heroica da sociedade revolucionária. Destarte, o autor peruano insere-se inequivocamente na perspectiva de uma espécie de 'teologia messiânica' da ação revolucionária, onde, por um lado, o fervor religioso engendra a transformação política, e a consciência política, por outro, desperta a fé religiosa para a realidade concreta do Homem. É, em última análise, a concepção da política revolucionária como Mito e Mística, fome do Absoluto, construção mítica d’uma Nova Humanidade.

O expressionismo, por seu turno, renunciando a qualquer possibilidade de intervenção política, mergulha num turbilhão de pesadelos e aspirações caóticas.

Reparem, por exemplo, neste emblemático desígnio entranhado no imo do ethos expressionista: por um lado, celebra-se / exalta-se a ‘Ditadura do Espírito’ sobre a Matéria, ou, n’outros termos, a brutal disposição do Eu totalitário que, negando a realidade objetiva, molda o Universo a sua imagem e semelhança; e, por outro lado, tal visão de mundo revolta-se in limine contra qualquer autoridade socialmente constituída, justo porque tais autoridades emanam d’um ‘contrato coletivo’ objetivamente formulado, mas que não é sancionado por todos os indivíduos, e que vai especialmente de encontro às aspirações e desígnios daqueles que estão fora da esfera de convenções e procedimentos-padrão do ‘homem médio’. Percebe-se, pois, na cosmovisão expressionista, um inexorável sentimento de desconfiança, e mesmo de aversão, a qualquer forma de autoridade que não surja do livre jogo das subjetividades do EU.

A incapacidade de formular uma perspectiva transformativa do mundo radica na convicção de que o expressionista já não 'vê', mas tem 'visões'. Ou seja, a realidade não é mais contemplada segundo os dados dos sentidos, mas o homem consegue tão somente projetar visões subjetivas e interiorizantes do Real. A cadeia de fatos já não mais existe, existindo tão somente a visão interior que provocam. É preciso aprofundar sua essência, discernir o que há além de sua forma acidental. É o artista que, trespassando-os, se apodera da forma real que há por trás deles, e permite o conhecimento de sua essência verdadeira. O artista expressionista procura, em lugar de um efeito passageiro, o significado eterno dos fatos e objetos. Devemos - dizem os expressionistas -, nos desligar da natureza e tentar resgatar a “expressão mais expressiva de um objeto”, pois somente assim sua aura visível pode ser atravessada.

É preciso tratar ainda de outro ponto do expressionismo: a questão da abstração da realidade. O historiador Wilhelm Worringer, em seu "Abstraktion und Einfühlung" (1907), antecipa muitos preceitos do expressionismo, o que prova a que ponto esses axiomas estéticos estão próximos da weltanschauung alemã.

A abstração, argumenta Worringer, nasce da grande inquietação que experimenta o homem aterrorizado pelos fenômenos que constata a seu redor e dos quais é incapaz de decifrar as relações, os misteriosos contrapontos. Essa inquietação primordial diante do ilimitado faz com que o homem tenha o desejo de ‘arrancar’ o objeto de seu contexto original, libertá-lo de sua teia de relações com os demais objetos, com o objetivo de, tornando-o único, atingir seu absoluto. Consoante tal perspectiva, o homem nórdico sempre sentirá a presença de “um véu entre ele e a natureza”, e por isso aspira a uma arte abstrata. Os povos germânicos, atormentados por uma discordância interior, que encontra obstáculos quase insuperáveis, precisam desta patética agonia que conduz à enigmática “animação do inorgânico”, tema que, aliás, é central na produção literária do romantismo alemão, e que pode ser visto em alguns dos melhores relatos de E.T.A Hoffmann, tais como "O Homem de Areia" e "Os Autômatos", bem como desempenhará um papel fundamental em um filme como "O Gabinete do Dr. Caligari". A energia vital presente no inorgânico, o estado de animação suspensa em que se encontram os objetos, são o caminho para atingir a essência de seu absoluto, que independe do estabelecimento de quaisquer relações transitórias.

Worringer considera que o homem mediterrâneo, tão perfeitamente harmônico, jamais conhecerá esse êxtase da “abstração expressiva”; Edschmid, por seu turno, enfatiza ainda que tudo deve permanecer na condição de esboço e vibrar de tensão imanente, para que sejam salvaguardadas a efervescência e a excitação perpétuas. Trata-se, pois, d'um mundo paralelo, povoado por visões subjetivas, misteriosas agitações do inorgânico e profecias inquietantes sobre uma nova era, a aurora de milagres cruéis.










segunda-feira, novembro 01, 2010

Le Cimetière Marin (1920) - Paul Valéry

Ó egrégios irmãos d'armas:

Inelutavelmente uma das inteligências mais fulgurantes, lúcidas e rigorosas de todos os tempos, Paul Valéry é um autor cujo talento multiforme e surpreendente se manifestou, sempre com rara consistência e beleza, nas mais diversas esferas do conhecimento e da arte; ademais, como eixo central a lastrear toda a sua trajetória intelectual (sobretudo no espectro da vasta e ainda pouco explorada cosmogonia que são os Cahiers valeryanos), encontramos um esforço analítico sistemático e contínuo na compreensão dos processos operacionais da inteligência no âmbito da atividade criadora, isto é, a identificação de uma 'atitude central' a coordenar todas as operações criadoras do intelecto. Tal perspectiva, creio, delineia horizontes de capital importância no bojo da epistemologia, cujo alcance e profundidade mal começaram a ser mapeados.

Exemplo lapidar dessa refinada ars combinatoria é o célebre poema que aqui recito, composição estruturada com elegância e precisão matemáticas em suas requintados arabescos verbais:





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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte – Deserto dos Tártaros

XII Teses Nacional-Bolcheviques

Alphonse van Worden - 1750 AD






- Conceber, de forma clara e inequívoca, que tanto o socialismo quanto o liberalismo são tão somente as 'duas cabeças de Janus' do pior inimigo da Humanidade: o Iluminismo.

- Ter em mente que a oposição entre 'fascismo / nacional socialismo' - 'bolchevismo' já não possui hoje mais qualquer sentido, uma vez que se estribava em circunstâncias transitórias de índole política, econômica e cultural irrelevantes no mundo contemporâneo.

- Compreender o profundo elo metafísico que une as supracitadas perspectivas ideológicas: a ‘revolta do Coração contra a Razão’ (Dugin), do impulso romântico-messiânico e do sentido atávico da existência contra os falsos ídolos da razão. Lutar, portanto, pela superação da falsa dicotomia entre 'esquerda' e 'direita', que gerou as grandes tragédias políticas e militares da modernidade.

- Estudar, na medida do possível, o pensamento de numerosos autores e líderes políticos, provenientes de diversos países e contextos culturais (Corneliu Codreanu, Ernst Jünger, Julius Evola, Otto Strasser, Nikolai Ustrialov, Ernst Niekisch, Carl Schmitt, Giovanni Gentile, etc.), que começaram a lançar, já nas primeiras décadas do século XX, os alicerces filosóficos, espirituais e políticos desta ampla convergência entre grandes as correntes de pensamento anticapitalistas e antiburguesas, por um lado; e por outro, as principais tradições esotéricas da revolta irracionalista contra a 'Sociedade Aberta' ao longo da História.

- Pugnar contra o grande obstáculo no que concerne à materialização de nosso projeto, isto é, o facto de que expressiva parcela dos movimentos políticos contemporâneos, tanto à esquerda quanto à direita, não consegue romper com o rigor mortis dos esquematismos ideológicos, com a fixidez estéril dos dogmatismos monocromáticos.

- Ter a ciência de que admirar / advogar uma determinada característica / elemento de uma corrente ou regime político, NÃO significa que o indivíduo seja obrigado a, inexorável e necessariamente, ‘comprar’ o ‘pacote completo’ da perspectiva ideológica adjacente.

- Entender, d’uma vez por todas, que os sistemas ideológicos ‘fechados’ (comunismo, socialismo, anarquismo, fascismo, liberalismo, etc.) fracassaram redondamente, e já não correspondem às demandas e tarefas do presente. É preciso refundar todo o agir político em novas bases, incorporando o que há de aproveitável em cada perspectiva, e descartando o restante.

- Perceber que o Nacional-Bolchevismo não é apenas um movimento político, mas também parte integrante de um vasto e ambicioso esforço de compreensão do que há de mais recôndito, de mais arcano, de mais primordial, de mais fatal e inexorável em cada cultura; ou seja, do substrato simbólico, dos arquétipos fundamentais, dos mitos fundadores de cada civilização, com o fito de encontrar o 'elo perdido' na aurora da História, a remota unidade transcendente entre todas as grandes Tradições orientais e ocidentais. E tal processo envolve a busca pela seiva vital das tradições culturas e civilizações de índole telurocrática e / ou eurasiana, isto é, dos complexos civilizacionais cujos alicerces mais profundos vão de encontro ao 'atlantismo' talassocrático, à 'Sociedade Aberta', ao iluminismo, ao liberalismo e ao socialismo marxista.

- Incorporar o ideário distributivista de Chesterton e Belloc - perspectica que preconiza que os meios de produção devem pertencer ao maior número de indivíduos possível, e não permanecer sob o controle d'uma minoria proprietária (tal como no capitalismo), ou então sob a égide de um estamento gerencial (conforme ocorre no socialismo) – como ponto de partida para a concepção de um modelo de organização social alternativo.

-Estar de olhos abertos para a análise e incorporação de processos políticos revolucionários fora do horizonte ocidental. Exemplo emblemático: a Revolução Islâmica no Irã, quando o Ayatollah Khomeini, em lugar de canalizar politicamente o Islã para fazer a revolução iraniana, ou seja, fazer uso da religião para agir politicamente, lançou mão da política para atuar religiosamente em prol da regeneração espiritual e moral de seu país.

- Absorver uma sábia lição ministrada pelo pensador alemão Carl Schmitt: a distinção, de origem iluminista, entre ‘esfera privada’ (onde o cidadão poderia professar o credo que bem entendesse), de um lado, e uma ‘esfera pública’ (onde o cidadão deveria observar o pensamento oficialmente adotada pelo Estado), de outro, abriu espaço para o advento do liberalismo político, cujo centro de gravidade é justamente a conquista de garantias jurídicas para o exercício das liberdades individuais, em detrimento do raio de alcance do poder estatal. Hoje podemos de sobejo verificar quão precisa foi a diagnose schmittiana: a ‘atuação indireta’ empreendida pelos diversos movimentos de ação política (ONG’s, sindicatos, movimentos de ‘ação afirmativa’, lobbies empresariais, etc.) ligados à ‘Sociedade Civil’ organizada - ‘indireta’ por formalmente ser levada a efeito fora da esfera específica dos mecanismos e instâncias do aparato estatal (muito embora não raro nele inseridos, mormente por intermédio da via parlamentar) -, acaba por beneficiar-se da ausência de responsabilidade institucional inevitavelmente associada à ação de Estado. Tal circunstância permite, pois, aos supracitados movimentos usufruir de todas as ‘vantagens’ relacionadas ao exercício do poder e, simultaneamente, evitar o ônus que inexoravelmente recai sobre as autoridades constituídas.

- Compreender, por fim, a estreita ligação entre a filosofia do Nacional-Bolchevismo e o universo do Traditionswelt descrito por autores como o italiano Julius Evola. Trata-se, com efeito, da visão de mundo de um homem que vai decididamente de encontro ao caráter utilitário, pragmático e 'quantificável' da modernidade, em nome dos valores perenes d'uma Ordem transcendente, atemporal. É, portanto, a contraposição essencial, transfigurada em conflito político, entre a dimensão contingente, transitória, cambiável e finita do TEMPO e a esfera necessária, permanente, imutável e infinita da ETERNIDADE; ou então, nos termos d'uma belíssima declaração do líder taliban, Mullah Omar ("Não tememos a morte, pois já estamos mortos; assim sendo, combatemos no Tempo, mas vivemos na Eternidade"), do confronto entre 'guerreiros santos' sublimados pela lux aeterna da Tradição, e vacilantes 'homens ocos' (TS Eliot) sob a égide do materialismo espiritual do Ocidente contemporâneo, seres avessos ao substrato mítico e religioso que lastreia seus alicerces históricos e culturais, em ruptura flagrante com as raízes mais atávicas de sua própria existência.

sexta-feira, outubro 01, 2010

Begnagrad!




Uma das características mais fascinantes do chamado Rock in Opposition é sua capacidade ímpar de absorver não apenas formações de diferentes partes do mundo, mas sobretudo de integrar tradições musicais autóctones no âmbito da música de vanguarda. Desde o início do movimento, bandas como Univers Zero (Bélgica), Samla Mammas Manna (Suécia) ou Stormy Six (Itália) trabalharam, com extraordinários resultados artísticos, texturas sonoras de seus países num contexto avant garde; o mesmo ocorre com o trabalho desta banda eslovena que agora iremos examinar.

O Begnagrad iniciou suas atividades em 1976 na cidade de Ljubljana, capital da Eslovênia; seu primeiro disco, intitulado Tastare (gravado em 1977-78, mas lançado apenas em 1992), mapeia o trabalho desenvolvido pelo grupo entre 76 e 78, se caracterizando por uma sonoridade complexa e melódica, com farta presença de elementos da música folclórica eslovena, numa abordagem que lembra bastante os álbuns do Samla Mammas Manna e do Stormy Six. Todavia, em Konzert For a Broken Dance (lançado originalmente na Eslovênia em 1982, pela gravadora local Zalozba), percebem-se nítidas mudanças: a banda ganha bastante em peso e agressividade, com fortes traços de free jazz e música erudita contemporânea, num contexto que se aproxima dos trabalhos mais radicais do Henry Cow. Os elementos étnicos continuam tendo ampla e significativa presença, mas agora inseridos num contexto sombrio e muito mais complexo. Uma instrumentação mais elétrica, com guitarras distorcidas e bateria, contribui para uma atmosfera algo caótica, numa curiosa mescla com o caráter celebratório e espirituoso da tradição musical balcânica.

O disco abre em alta voltagem com a ‘stravinskiana’ Romanticna, que se caracteriza por um intrincado dueto de clarinete e acordeom, emoldurado por uma bateria descompassada e golpes percussivos de contrabaixo; seguimos com Pjanska, bem agressiva, que principia numa atmosfera frenética e espirituosa e evolui numa caótica levada de free jazz, acabando por desembocar num velocíssimo solo combinado de clarinete e bateria; a terceira faixa, Bo Ze (Ce Bo), transfigura o contexto de uma etílica festa camponesa, com muitos ruídos desconexos, irônicas intervenções vocais e um ritmo fragmentário; a ambiência etílica permanece em Cosa Nostra , só que agora num registro mais sombrio e pesado, de ressonância ‘bartokiana’, com destaques para o acordeom de Bibic e o contrabaixo de Gleria, ambos ótimos; a orgia campestre prossegue, cada vez mais ensandecida e violenta, nas duas músicas seguintes: Narodna / Kmetska se caracteriza por súbitas e inusitadas mudanças de andamento, com magníficas tramas de sopros, acordeom e vocais alucinados, enquanto Cocn Rolla, mais turbulenta, explode na violência rítmica da bateria de Rendla e na potência da guitarra maníaca de Romih. O clima torna-se mais suave na sétima faixa, Zvizgovska, com belos arpejos de guitarra acústica, sofisticadas harmonias de assovios e o sempre marcante acordeom de Bibic. Jo di di Jo, uma breve vinheta vocal em clima tirolês, prepara o terreno para a fantástica música de encerramento, Tazadnatanova: em seus 5 minutos iniciais, o Begnagrad nos presenteia com um magnífico tema fusion, com grandes passagens de sopros e bateria, tema esse que irá se transformar, nos 3 minutos finais, em mais uma lisérgica e caótica festança celebratória destes campônios pós-modernos da Eslovênia.

Em suma: Konzert For a Broken Dance é uma obra-prima, uma fusão sublime entre a genial psicose vanguardista do R.I.O e um sério trabalho de recuperação das tradições musicais centro-europeias, numa eloqüente e autêntica demonstração de como o ‘velho’ e o ‘novo’ podem se conjugar para estabelecer o ETERNO.


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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros


O périplo de um PROFETA

Alphonse van Worden - 1750 AD









Muito embora jamais tenha sido associado, mesmo que remotamente, a qualquer corrente de pensamento Terza Posizione, evrasiana ou 4tp, não hesito em afirmar que o cineasta, pensador e escritor brasileiro Glauber Rocha (1939-1981) enveredou, tanto no que se refere ao arcabouço estético de seus filmes quanto no que tange à suas idéias políticas, por sendas que inequivocamente tangenciam a GRANDE SÍNTESE. Foi, antes de mais nada, um homem de horizontes largos, delirantemente ambiciosos, artista e pensador de fôlego profético, cujas realizações sempre transcenderam a injunções limitadas de um dado contexto histórico para arrojar-se na transcendência fulgurante das visões ESSENCIAIS. Não seria, pois, inusitado afirmar que Glauber opera, ao longo de sua trajetória, uma espécie de 'transubstanciação alquímica' da 'Geografia Sagrada' em arte cinematográfica.

Com efeito, a obra de Glauber flui numa linha ascendente, tanto no plano estético e artístico quanto no sentido da evolução progressiva de um projeto a um só tempo ideológico, espiritual e existencial. A cada filme e texto são agregados novos elementos, novas perspectivas a este work in progress, que vai expandindo suas coordenadas, revestindo-se de aspectos cada vez mais multifacetados e complexos, até o seu surpreendente coroamento final com A IDADE DA TERRA (1980). 

É, pois, fascinante observar como esse work in progress glauberiano vai se processando ao longo de sua trajetória. Em BARRAVENTO (1962) e DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL (1964), seus primeiros longas-metragens, podemos observar um cinema ainda determinado por parâmetros narrativos e estéticos tradicionais, caudatário, sobretudo, do 'cinema dialético' do soviético de Sergei Eisenstein (1898-1948) e do neo-realismo italiano, não podendo também deixar de ser mencionada, especialmente no que concerne ao trabalho de direção dos atores, uma substancial influência da dramaturgia de Bertolt Brecht. Já em TERRA EM TRANSE (1967), por exemplo, pode se calhar ser encarado como o marco inicial desse verdadeiro processo de transfiguração estético-alegórica do projeto de refundação mística e mítica da ação política. E se a princípio é patente o influxo dos modelos europeus de cinematografia e dramaturgia,  Glauber se afasta paulatinamente de tais influências em direção a uma estética totalmente original, fusão de alegoria barroca, pajelança antropofágica e cristianismo libertário, num processo que acompanha o seu desligamento progressivo das categorias racionalistas da ortodoxia marxista em direção a um conceito de revolução messiânica, cujo veículo de transformação é precisamente o êxtase místico convertido em agir político.




A partir da trinca de longas que dirigiu no exterior (CABEZAS CORTADAS - 1970; DER LEON HAS SEPT CABEZAS - 1970; CLARO - 1975) e, por fim, em A IDADE DA TERRA, obra que é muito mais uma experiência, um ensaio aberto, do que a estrutura fechada com ‘início-meio-fim’ que tradicionalmente entendemos como um 'filme', a dimensão ritualística da obra de Glauber, presente como embrião já nos primeiros curtas, atinge o seu ponto máximo de realização. A IDADE DA TERRA é a missa bárbara celebrando a ascensão de uma nova divindade, o Cristo do Terceiro Mundo, que é a expressão do próprio povo em seu êxtase místico. Um Cristo que não é o do martírio na cruz, mas o Cristo da ressurreição, da libertação. Fazendo uso de linguagens tão diversas como a poesia, o teatro, a entrevista, a farsa, o documentário, Glauber registra o percurso desse Cristo plural, que emana dos anseios mais profundos do povo cristão, que é, ao fim e ao cabo, a materialização simbólica de seu inconsciente coletivo.

A ruptura do cineasta com as engessadas estruturas ideológicas da esquerda 'oficial', e também com a interpretação materialista da História, se torna, com este filme, irreversível. O Cristo do Terceiro Mundo é, pois, o surgimento de uma nova dimensão revolucionária, o advento da civilização fundada no amor. Como diz o próprio cineasta, em extraordinário texto publicado alguns anos antes (Eztetyka do Sonho - 1971), "a revolução é uma mágica porque é o imprevisto dentro da razão dominadora"; e outrossim acrescenta: “na medida em que a desrazão planeja a revolução, a razão planeja a repressão”. A dimensão do delírio, transformada em arma do povo, escapa ao entendimento do dominador, que apenas pode compreender o que atua dentro de sua própria lógica. Só o irracionalismo das massas iluminadas pelo êxtase místico pode romper o círculo vicioso da razão moderna. O racionalismo é, pois, um instrumento de legitimação do Sistema, é a linguagem do dominador. Só a lógica, melhor dizendo, a anti-lógica do sonho, o ‘desreinado’ delirante do sonho, pode inverter as polaridades e provocar um curto circuito nas estruturas de dominação da racionalidade materialista/capitalista. Trata-se, por conseguinte, da formulação última de seu messianismo revolucionário, onde o povo, sem mediações teóricas ou políticas, se converte em sujeito histórico de sua própria libertação na fé do Cristo, encarnação coletiva da liberdade.

Glauber sintetiza de forma magistral a natureza messiânica e mítica da Revolução, a dimensão mística, irracional, imprevisível e emocional presente intrinsecamente em todo processo revolucionário. É a 'revolução' como categoria mítica, fenômeno que pode ser interpretado por uma analítica científica, não se enquadra em nenhum dos pressupostos epistemológicos e metodológicos da razão científica; ao contrário, afigura-se muito mais como fenômeno de cunho mítico-religioso, impermeável a análises racionalistas, o que fica patente em outras passagens memoráveis de Eztetyka do Sonho: "As revoluções se fazem na imprevisibilidade da prática histórica que é a cabala do encontro das forças irracionais das massas pobres (...) a revolução, como possessão do homem que lança sua vida rumo a uma idéia, é o mais alto astral do misticismo." Revolução, portanto, não como processo meramente político-ideológico, mas sim como Arte, Delírio, Sonho, Mito e Mística, espiral estratosférica em direção à Grande Síntese.

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Por fim, postarei aqui a íntegra de Eztetyka do Sonho, bem como do magnífico monólogo de Glauber em A IDADE DA TERRA, textos-chave para o entendimento de sua cosmovisão.

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 Eztetyka do Sonho (1971)

(...) Este congresso em Columbia é uma oportunidade que tenho para desenvolver algumas idéias a respeito de arte e revolução. O tema da pobreza está ligado a isto.

As Ciências Sociais informam estatísticas e permitem interpretações sobre a pobreza.
As conclusões dos relatórios dos sistemas capitalistas encaram o homem pobre como um objeto que deve ser alimentado. E nos países socialistas, observamos a permanente polêmica entre os profetas da revolução total e os burocratas que tratam o homem como objeto a ser massificado. A maioria dos profetas da revolução total é composta por artistas (...).

Arte revolucionária foi a palavra de ordem no Terceiro Mundo nos anos 60 e continuará a ser nesta década. Acho, porém, que a mudança de muitas condições políticas e mentais exige um desenvolvimento contínuo dos conceitos de arte revolucionária.

O primarismo muitas vezes se confunde com os manifestos ideológicos. O pior inimigo da arte revolucionária é sua mediocridade.

Diante da evolução sutil dos conceitos reformistas da ideologia imperialista, o artista deve oferecer respostas revolucionárias capazes de não aceitar, em nenhuma hipótese, as evasivas propostas.

E, o que é mais difícil, exige uma precisa identificação do que é arte revolucionária útil ao ativismo político, do que é arte revolucionária lançada na abertura de novas discussões do que é arte revolucionária rejeitada pela esquerda e instrumentalizada pela direita (...).

(...) Uma obra de arte revolucionária deveria não só atuar de modo imediatamente político, como também promover a especulação filosófica, criando uma estética do eterno movimento humano rumo à sua integração cósmica.

A existência descontínua desta arte revolucionária no Terceiro Mundo se deve fundamentalmente às repressões do racionalismo.

Os sistemas culturais atuantes, de direita e de esquerda, estão presos a uma razão conservadora. O fracasso das esquerdas no Brasil é resultado deste vício colonizador.

A direita pensa segundo a razão da ordem e do desenvolvimento (...). As respostas da esquerda, exemplifico outra vez no Brasil, foram paternalistas em relação ao tema central dos conflitos políticos: as massas pobres.

O Povo é o mito da burguesia.

A razão do povo se converte na razão da burguesia sobre o povo.
(...) A razão de esquerda revela-se herdeira da razão revolucionária burguesa européia. A colonização, em tal nível, impossibilita uma ideologia revolucionária integral, que teria na arte sua expressão maior, porque somente a arte pode se aproximar do homem na profundidade que o sonho desta compreensão possa permitir.

A ruptura com os racionalismos colonizadores é a única saída.

(...) A revolução é a anti-razão que comunica as tensões e rebeliões do mais irracional de todos os fenômenos que é a pobreza.

Nenhuma estatística pode informar a dimensão da pobreza.

A pobreza é a carga autodestrutiva máxima de cada homem, e repercute psiquicamente de tal forma que este pobre se converte num animal de duas cabeças: uma é fatalista e submissa à razão que o explora como escravo. A outra, na medida em que o pobre não pode explicar o absurdo de sua própria pobreza, é naturalmente mística.

A razão dominadora classifica o misticismo de irracionalista, e o reprime à bala. Para ela, tudo que é irracional deve ser destruído, seja a mística religiosa, seja a mística política. A revolução, como possessão do homem que lança sua vida rumo a uma idéia, é o mais alto astral do misticismo. As revoluções fracassam quando esta possessão não é total (...), quando, ainda acionados pela razão burguesa, método e ideologia se confundem a tal ponto que paralisam as transações da luta.

Na medida em que a desrazão planeja as revoluções a razão planeja a repressão. (...)

Há que tocar, pela comunhão, o ponto vital da pobreza que é seu misticismo. Este misticismo é a única linguagem que transcende o esquema racional da opressão. A revolução é uma mágica porque é o imprevisto dentro da razão dominadora. No máximo é vista como uma possibilidade compreensível (...).

O irracionalismo libertador é a mais forte arma do revolucionário. E a libertação, mesmo nos encontros da violência provocada pelo sistema, significa sempre negar a violência em nome de uma comunidade fundada pelo sentido do amor ilimitado entre os homens. Este amor nada tem a ver com o humanismo tradicional, símbolo da boa consciência dominadora.

As raízes índias e negras do povo latino-americano devem ser compreendidas como única força desenvolvida deste continente. Nossas classes médias e burguesias são caricaturas decadentes das sociedades colonizadoras.

A cultura popular não é o que se chama tecnicamente de folclore, mas a linguagem popular de permanente rebelião histórica.

O encontro dos revolucionários desligados da razão burguesa com as estruturas mais significativas desta cultura popular, será a primeira configuração de um novo significado revolucionário.

O sonho é o único direito que não se pode proibir.

(...)Hoje recuso falar em qualquer estética. A plena vivência não pode se sujeitar a conceitos filosóficos. Arte revolucionária deve ser uma mágica capaz de enfeitiçar o homem a tal ponto que ele não mais suporte viver nesta realidade absurda.

Borges, superando esta realidade, escreveu as mais libertadoras irrealidades de nosso tempo. Sua estética é a do sonho. Para mim é uma iluminação espiritual que contribuiu para dilatar minha sensibilidade afro-índia na direção dos mitos originais da minha raça.

Esta raça, pobre e aparentemente sem destino, elabora na mística seu momento de liberdade. Os Deuses Afro-índios negarão a mística colonizadora do catolicismo, que é feitiçaria da repressão e da redenção moral dos ricos.

Não justifico nem explico meu sonho porque ele nasce de uma intimidade cada vez maior com o tema dos meus filmes, sentido natural de minha vida.

Glauber Rocha
Columbia University – New York
Janeiro de 1971

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Discurso final, em off, de A Idade da Terra

"No dia em que Pasolini, o grande poeta italiano, foi assassinado, eu pensei em filmar a vida de Cristo no Terceiro Mundo. Pasolini filmou a vida de Cristo na mesma época em que João XXIII quebrava o imobilismo ideológico da Igreja Católica em relação aos problemas dos povos subdesenvolvidos do Terceiro Mundo e também em relação à classe operária européia. Foi um renascimento. A ressurreição de um Cristo que não era adorado na cruz, mas um Cristo que era venerado, revivido, revolucionado num êxtase da ressurreição.

Sobre o cadáver de Pasolini, eu pensava que o Cristo era um fenômeno novo, primitivo numa civilização muito primitiva, muito nova. (...)

São quinhentos anos de civilização branca, portuguesa, européia, misturada com índios e negros e são milênios além da medida dos tempos aritméticos ou da loucura matemática que não se sabe de onde veio nem mesmo a nebulosa do caos, no nada. Ou seja, Deus ou nada, quem não acredita em Deus, acredita no nada. Se nada for Deus...

Então, é muito rápida a história. É uma história de uma velocidade fantástica, é um desespero lisérgico. (...)

Aqui, por exemplo, em Brasília, neste palco fantástico no coração do planalto Brasileiro, forte irradiação, luz do Terceiro Mundo, numa metáfora que não se realiza na história, mas preenche um sentimento de grandeza, a visão do paraíso, essa pirâmide, esta pirâmide que é a geometria dramática do estado social, no vértice o poder, embaixo, as bases e depois os labirintos intrincados das mediações...

Toda essa ideologia do amor se concentraria no cristianismo, que é uma religião linda dos povos africanos, asiáticos, latino-americanos, dos povos totais, um cristianismo que não se realiza somente na Igreja Católica, mas em todas as religiões que encontram seus símbolos mais profundos, mais recônditos, mais eternos , mais subterrâneos, mais perdidos, na figura do Cristo, um Cristo que não está morto, mas está vivo espalhando amor e criatividade.

A busca da eternidade e a vitória sobre a morte, porque a morte é uma estruturação determinada por um código fatalista, talvez de origens sexuais ou genéticas, quien lo sabe... pero se pode vencer a morte.

Então, a civilização é muito pequena. Antes de Cristo e depois de Cristo. Um desenvolvimento tecnológico na Europa, econômico, o mercantilismo, capitalismo, neocapitalismo, socialismo, o transcapitalismo, o trans-socialismo, o anarco-construtivismo, todo um desespero de uma humanidade em busca de uma sociedade perfeita, as utopias, a marcha... Conflitos religiosos entre católicos e protestantes provocaram explosões, navegações, guerras, invasões mouras na Europa, invasões cristãs na África do Norte; Espanha, Portugal e Inglaterra ocupam a América no outro lado. Índios massacrados, negros importados, guerras de independência, latifúndios e indústrias, guerras de latifúndios e indústrias, guerras de indústrias e latifúndios, guerras civis, levantes, caudilhos, guerras, guerrilheiros, revoluções, golpes de estados, democracias, regressões, avanços, recuos, sacrifícios, martírios, América. América do Norte se desenvolve.

O desenvolvimento tecnológico americano leva a civilização ao mundo do século XX. A Revolução Soviética, a Revolução Soviética, a Re-volução Soviética de 1917 comandada por Lenine, Trotski e Stalin subverte completamente o discurso capitalista norte-americano. Enquanto isso, os povos subdesenvolvidos da América Latina, da África e da Ásia pagam o preço do desenvolvimento tecnológico da Europa, dos Estados Unidos, da Europa capitalista, da Europa socialista, da Europa católica, da Europa protestante, da Europa atéia, dos Estados Unidos.

Os povos subdesenvolvidos estão na base da pirâmide. Não podem fazer nada. Todos buscam a paz. Todos devem buscar a paz. Existirá uma síntese dialética entre o capitalismo e o comunismo, estou certo disso. E do Terceiro Mundo. Seria o nascimento da nova, da verdadeira democracia. A democracia não é socialista, não é comunista, não é capitalista. A democracia não tem adjetivos.

A democracia é o reinado do povo. A de-mo-cra-cia, a democracia é o desreinado do povo. Sabemos todos que morremos de fome nos terceiros mundos, sabemos todos das crianças pobres, dos velhos abandonados, dos loucos famintos, tanta miséria, tanta feiúra, tanta desgraça, sabemos todos disso.

É necessária uma revolução econômica, social, tecnológica, cultural, espiritual, sexual, a fim de que as pessoas possam realmente viver o prazer. O Brasil é um país grande, a América Latina, África, não se pode pensar num só país. Temos que multinacionalizar, internacionalizar o mundo dentro de um regime interdemocrático, com a grande contribuição do cristianismo e de outras religiões, todas as religiões. O cristianismo e todas as religiões são as mesmas religiões. Entre o entendimento dos religiosos e dos políticos convertidos ao amor... "