sexta-feira, outubro 01, 2010

Begnagrad!




Uma das características mais fascinantes do chamado Rock in Opposition é sua capacidade ímpar de absorver não apenas formações de diferentes partes do mundo, mas sobretudo de integrar tradições musicais autóctones no âmbito da música de vanguarda. Desde o início do movimento, bandas como Univers Zero (Bélgica), Samla Mammas Manna (Suécia) ou Stormy Six (Itália) trabalharam, com extraordinários resultados artísticos, texturas sonoras de seus países num contexto avant garde; o mesmo ocorre com o trabalho desta banda eslovena que agora iremos examinar.

O Begnagrad iniciou suas atividades em 1976 na cidade de Ljubljana, capital da Eslovênia; seu primeiro disco, intitulado Tastare (gravado em 1977-78, mas lançado apenas em 1992), mapeia o trabalho desenvolvido pelo grupo entre 76 e 78, se caracterizando por uma sonoridade complexa e melódica, com farta presença de elementos da música folclórica eslovena, numa abordagem que lembra bastante os álbuns do Samla Mammas Manna e do Stormy Six. Todavia, em Konzert For a Broken Dance (lançado originalmente na Eslovênia em 1982, pela gravadora local Zalozba), percebem-se nítidas mudanças: a banda ganha bastante em peso e agressividade, com fortes traços de free jazz e música erudita contemporânea, num contexto que se aproxima dos trabalhos mais radicais do Henry Cow. Os elementos étnicos continuam tendo ampla e significativa presença, mas agora inseridos num contexto sombrio e muito mais complexo. Uma instrumentação mais elétrica, com guitarras distorcidas e bateria, contribui para uma atmosfera algo caótica, numa curiosa mescla com o caráter celebratório e espirituoso da tradição musical balcânica.

O disco abre em alta voltagem com a ‘stravinskiana’ Romanticna, que se caracteriza por um intrincado dueto de clarinete e acordeom, emoldurado por uma bateria descompassada e golpes percussivos de contrabaixo; seguimos com Pjanska, bem agressiva, que principia numa atmosfera frenética e espirituosa e evolui numa caótica levada de free jazz, acabando por desembocar num velocíssimo solo combinado de clarinete e bateria; a terceira faixa, Bo Ze (Ce Bo), transfigura o contexto de uma etílica festa camponesa, com muitos ruídos desconexos, irônicas intervenções vocais e um ritmo fragmentário; a ambiência etílica permanece em Cosa Nostra , só que agora num registro mais sombrio e pesado, de ressonância ‘bartokiana’, com destaques para o acordeom de Bibic e o contrabaixo de Gleria, ambos ótimos; a orgia campestre prossegue, cada vez mais ensandecida e violenta, nas duas músicas seguintes: Narodna / Kmetska se caracteriza por súbitas e inusitadas mudanças de andamento, com magníficas tramas de sopros, acordeom e vocais alucinados, enquanto Cocn Rolla, mais turbulenta, explode na violência rítmica da bateria de Rendla e na potência da guitarra maníaca de Romih. O clima torna-se mais suave na sétima faixa, Zvizgovska, com belos arpejos de guitarra acústica, sofisticadas harmonias de assovios e o sempre marcante acordeom de Bibic. Jo di di Jo, uma breve vinheta vocal em clima tirolês, prepara o terreno para a fantástica música de encerramento, Tazadnatanova: em seus 5 minutos iniciais, o Begnagrad nos presenteia com um magnífico tema fusion, com grandes passagens de sopros e bateria, tema esse que irá se transformar, nos 3 minutos finais, em mais uma lisérgica e caótica festança celebratória destes campônios pós-modernos da Eslovênia.

Em suma: Konzert For a Broken Dance é uma obra-prima, uma fusão sublime entre a genial psicose vanguardista do R.I.O e um sério trabalho de recuperação das tradições musicais centro-européias, numa eloqüente e autêntica demonstração de como o ‘velho’ e o ‘novo’ podem se conjugar para estabelecer o ETERNO.



Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

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