terça-feira, março 01, 2011

A propósito do caráter não-científico do marxismo - parte I

Alphonse van Worden - 1750 AD














Egrégios irmãos d'armas:

Submeto à vossa apreciação a primeira parte d'um ensaio onde pretendo demonstrar que a pretensão da teoria marxista em constituir-se como disciplina científica é de todo insustentável.

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Para que uma teoria possa ser considerada científica, é mister que esteja formulada consoante alguns parâmetros fundamentais, dos quais os mais importantes são os seguintes:


a) observância dos cânones de inferência lógico-dedutiva e dos métodos indutivos para a formulação de premissas, de modo a fundamentar, via método axiomático, a teoria científica que se pretende construir.


Creio que nem o mais radical dos marxistas ortodoxos irá discordar do facto de que somente as ciências experimentais ou exatas são hipotético-dedutivas, isto é, capazes de generalizar observações indutivas em enunciados passíveis de verificação empírica, ou de estabelecer proposições analíticas da razão pura. Tal procedimento não pode ser satisfeito pelo marxismo, cujos enunciados não nascem da estrita observação dos dados empíricos, nem tampouco se configuram como enunciados analíticos da razão pura. Consoante a teoria do conhecimento elaborada pelo Círculo de Viena, notadamente por Carnap e Schlick (a qual endosso), para ser dotado de significado um enunciado precisa ser analítico ou passível de verificação empírica. Hume, notável pioneiro de tal perspectiva, advogava a existência de 2 tipos de enunciados dotados de sentido: 'questões de facto' e 'relações entre idéias'. As 'questões de facto', referentes à realidade concreta que nos cerca, são empiricamente comprováveis ou não; as ‘relações entre idéias', por seu turno, concernentes às matemáticas, são construídas por método axiomático. Como podemos contatar, é patente a influência de tal concepção no âmbito dos próceres do positivismo lógico. Vejamos agora como o inglês A.J.Ayer, que conferiu uma formulação mais concisa e simples às concepções do Círculo de Viena, estabelece os termos do 'Princípio de Verificação':



Os enunciados analíticos são tautologias, isto é, proposições verdadeiras por definição, cujo sentido permanece o mesmo sob diferentes arranjos de palavras ou símbolos. São, portanto, tautológicos os enunciados da matemática e da lógica, cuja veracidade prescinde de verificação empírica.


Os enunciados sintéticos (ou apofânticos), por sua vez, são aqueles que afirmam ou negam alguma coisa sobre a realidade sensível, tal como as proposições científicas. Sua validade é determinada, pois, por intermédio de verificação empírica.


Como podemos verificar, os enunciados do marxismo não são sintéticos nem analíticos, uma vez que não são passíveis de verificação empírica (que será objeto de consideração na seqüência deste ensaio), nem tampouco são a priori verdadeiros por definição, ou seja, tautologias como as da matemática e da lógica, que prescindem de verificação empírica.

Há também que observar que as proposições do marxismo são infinitamente reformuláveis a posteriori, isto é, podem ser modificadas caso os fenômenos observados não mais satisfaçam as predições feitas antes a propósito deles.

Vejamos um exemplo assaz ilustrativo: em sua conformação original a teoria marxista advoga que a superação dialética de um modo de produção tão somente ocorre quando as forças produtivas num determinado contexto não mais se enquadram nas relações de produção dadas nesse mesmo contexto, em outras palavras, quando a reprodução social e econômica não é mais possível no âmbito da organização social em tela; destarte, a subversão revolucionária de um modo de produção teria fatalmente de iniciar-se nas sociedades onde a dinâmica do referido modo de produção houvesse esgotado todas as suas possibilidades. Pois muito bem: quando do advento da revolução soviética em 1917, foi óbvia a constatação de que o processo havia ocorrido num país capitalista atrasado, em outros termos, num contexto onde a dinâmica do modo de produção vigente ainda não havia logrado esgotar todas as suas possibilidades; tornava-se necessário, pois, para preservar a pretensa integridade 'científica' do marxismo, providenciar uma correção in extremis para o postulado que fora refutado. Tal 'arranjo' foi obtido através da célebre teoria do "elo mais fraco", segundo a qual a revolução mundial doravante principiaria pela periferia do sistema, ou seja, nas regiões onde as relações capitalistas fossem mais atrasadas e primitivas.

Ora, uma teoria científica não admite reformulações a posteriori: quando os resultados experimentais obtidos não mais se ajustam ao comportamento previsto pelos postulados da teoria, esta deve ser abandonada e substituída por mais acurada e consistente. Se uma dada concepção teórica pode ser indefinidamente amoldável ao sabor de circunstâncias que se lhe revelem desfavoráveis, ela obviamente não poderá pretender-se sob a égide da racionalidade científica. Passando para o terreno da lógica, uma inferência é admitida como válida quando a conclusão obtida se segue inequivocamente das premissas apresentadas; classifica-se, portanto, como válido qualquer argumento cuja conclusão se siga necessariamente de suas premissas. Desnecessário frisar que o marxismo, pelos móveis acima esboçados, também não atende à essa exigência epistemológica.


3 comentários:

Paulo disse...

Muito bom!


Um autor polonês do qual sou grande fã, Leszek Kolakowski, dedica um capítulo de sua obra Main Currents of Marxism para analisar o chamado "materialismo histórico", baseado em Popper. Ele destroça as pretensões científicas dessa concepção, mostrando que seu caráter vago torna-a irrefutável e sempre possibilita que se arrume alguma explicação, seja qual for o resultado.

Se não conheces a obra, recomendo-a.

Abs

Paulo

Alphonse van Worden disse...

Nobre Paulo!

Como sempre, um leitor generoso e atento. Ainda não conheço o trabalho de Kolakowski, que parece muito interessante. Sanarei tal lacuna o mais breve possível.

Cordialmente,
AVW

Anónimo disse...

Paulo:
Isso para mim é um grande ponto de interrogação.
Por exemplo, muita da ciência moderna foi durante séculos rejeitada pelo poder instituído nos tempos medievais. Depois de a ciência vencer, numerosas correntes reaccionárias tentaram tirar partido, por exemplo, do darwinismo para caucionar genocídios (por exemplo, o eugenismo). Por outras palavras, muitas teorias científicas geraram muita polémica e muita discórdia entre os que se diziam "cientistas", e no entanto não deixou de ser ciência por causa disso. Acontece que muitas vezes os interesses de classe chocam com os objectivos dos cientistas.