segunda-feira, janeiro 10, 2011

Notas de reflexão crítica XX - sobre a dicotomia FÉ / RAZÃO

Alphonse van Worden - 1750 AD






- Proponho-vos à partida, egrégios confrades, a seguinte indagação Sendo o Criador omnipotente e ilimitado, como então a inteligência humana, finita e limitada, poderia afirmar que Ele não poderia, por um desígnio impenetrável de Sua vontade, modificar o fado destinado às Suas criaturas? Não temos, pois, e tampouco jamais teremos, verdadeiro CONHECIMENTO de atributos como 'infinitude', 'omnipresença', 'omnisciência', etc., mas tão somente podemos intuí-los.

- Se há, de facto, omnipotência, tal atributo necessariamente situa-se numa esfera além de toda compreensão, além da razão, do Bem e do Mal, do Ser e do Não-Ser. À guisa de benévola provocação aos corifeus do tomismo, (muito embora julgue ser uma alegação deveras plausível), lanço aqui a seguinte hipótese: a concepção de Deus advogada pelo mainstream escolástico fornece muito mais munição para a argumentação ateísta que o Deus insondável, imprevisível e arbitrário dos 'voluntaristas'. Ou, em outros termos: sempre que Deus é deslocado da esfera da pura FÉ, que prescinde de quaisquer argumentos, para a esfera da FILOSOFIA (onde todo e qualquer argumento é submetido a rigoroso escrutínio analítivo, e é passível, ao menos em termos de estrutura lógica, de refutação), abre-se um flanco para o ateísmo. FÉ é uma dimensão necessariamente irrefutável; já a razão...

- É razoável supor que o Altíssimo, o Criador de tudo que existe, detenha os atributos da omnipotência, da omnisciência, etc., mas não creio que possamos afirmar taxativamente de que modo os utiliza, nem com que talante. Não há, por exemplo, como conceber a noção de omnipotência sem que a mesma envolva o poder de agir irrracionalmente, e até mesmo malevolamente, pelo menos à luz dos limitados recursos do entendimento humano.

- É mister, sobretudo, que os católicos atentem para o seguinte: ateus podem somente CONVIVER com o credo quia absurdum, mas não podem combatê-lo. Ninguém pode combater a força d'uma convicção que prescinde argumentos. Carl Schmitt, grande pensador católico, sabiamente afirma não haver "cadeia de argumentação lógica capaz de resistir à força de imagens míticas, primordiais" (Der Leviathan in der Staatslehre des Thomas Hobbes - 1938). Ao que acrescento: aquele que visceralmente CRÊ nada precisa provar ou demonstrar, pois sua fé está além, muito além de qualquer argumento. O ateu intelectualmente capaz (o ateísmo primitivo, raivoso, é irrelevante, claro está) é capaz de refutar as mais sutis e laboriosas 'demonstrações' da existência de Deus; não obstante, NADA pode fazer contra a simplicidade d'uma convicção que se basta a si mesma.

- Para aquele que realmente crê, nada pode ser mais fátuo, mais inútil, que discutir os 'porquês' de sua fé. A fé convicta está sempre um passo além de qualquer questionamento, por uma razão muito simples: ela não tem necessidade de formular a questão. É como Santo Atanásio asseverava: "se o mundo estiver errado, então Atanásio será contra o mundo". Com efeito, em nada importa que uma, duas, 10, 100, 1000, 1.000.000, 1.000.000 de vozes proclamem contínua e obsessivamente o contrário: o homem imbuído d'uma convicção tão sólida quanto serena dispensa a anuência ou não dos que o cercam, por mais qualificado que tais elementos possam ser.

- Em verdade, diletos irmãos d'armas, só podemos ter fé genuína no que vai de encontro à razão. Aquilo que somos capazes de compreender (ou pelo menos temos a potência de compreender) não constitui objeto de fé, mas de conhecimento. Não há como conceber que um ato de fé seja passível de entendimento.

- Decerto toda religião necessariamente possui um corpus doutrinário, ou seja, um conjunto de princípios (alguns de índole dogmática, outros não) que expressam as crenças, tradições e valores professados por uma determinada confissão religiosa. Tal corpus, claro está, como qualquer conjunto de teses ou preceitos, é concebido / organizado de forma racional. Não obstante, a ESSÊNCIA, o SUBSTRATO metafísica que informa o imo d'uma religião é, sem dúvida, uma dimensão que está além da razão, e que não pode formulada através de argumentos formalmente lógicos e racionalmente sustentados. Tomemos em consideração, por exemplo, o dogma da Santíssima Trindade: de que modo poderíamos formulá-lo racionalmente como proposição?

- Devemos, portanto, egrégio confrades, como amiúde tenho vos advertido, advogar as idéias do Venerabilis Inceptor William of Ockham, estabelecendo, assim, uma demarcação nítida entre Fé e Razão, Teologia e Filosofia.

3 comentários:

Paulo Eduardo disse...

"Tomemos em consideração, por exemplo, o dogma da Santíssima Trindade: de que modo poderíamos formulá-lo racionalmente como proposição?"

creio que esse exemplo nao é o mais acertado, pois tomistas e fideistas concordarão que esse dogma está além da razão humana

mais adequado para esse debate, penso eu, seria um ponto de divergência entre os dois. algo que seja dogma da fé, mas, segundo os tomistas, seja passível de demonstração racional,algo que pertença ao âmbito de da chamada teologia natural, pela terminologia tomista.

e o exemplo mais claro desse último caso é o da existência de Deus. se vc demonstrar que essa assertiva é indemonstrável, entao o outro lado desabará.

pessoalmente, sou bastante interessado nesse debate e no argumento cosmológico, mas nao tenho bagagem para discuti-lo bem.
creio que vc provará melhor seu ponto (e me ajudará de quebra :P) se discutir essa questão mais profundamente.

Alphonse van Worden disse...

Veja, confrade, fiz uso do Dogma da Santíssima Trindade, um dos pilares centrais da doutrino católica, justamente para demonstrar como a Fé é, [i]in totum[/i], uma dimensão inalcançável pela via da razão.

Por outro lado, do mesmo modo que se não pode fundamentar racionalmente uma verdade de Fé, tampouco é possível demonstrar sua falsidade. Repara, confrade: se algo não pode ser 'acessado', seja por intermédio da razão lógica-demonstrativa, seja através da observação empírica, torna-se impossível, nesses termos, declará-lo verdadeiro ou falso.

Atenciosamente,
AVW

Paulo Eduardo disse...

Concordo, exceto pela parte de que "que se não pode fundamentar racionalmente uma verdade de Fé"

isso vc afirmou, nao provou.

eu nao tenho posição formada sobre esse ponto. há controvérsia sobre a possibilidade de se demonstrar certos dogmas da fé, como a existência de deus. daí minha conclusão de que o artigo ficaria mais completo e alcançaria melhor seu objetivo se discutisse essa questão a fundo, expondo refutação aos argumentos em favor da existência de Deus, e não apenas afirmando sua falsidade.

claro que isso tornaria o texto muito maior, mas fica ai minha sugestão