quarta-feira, fevereiro 02, 2011

O 'Problema da Indução' em Charles Sanders Peirce

Alphonse van Worden - 1750 AD






Não seria desarrazoado afirmarmos, conforme já salientamos adrede n'outros escritos, que o Problema da Indução origina-se, em boa parte, do fato de pretendermos aplicar nas inferências indutivas os mesmos critérios de validação vigentes no âmbito da lógica dedutiva; poderíamos, talvez, argumentar que o cerne do referido problema está na possibilidade de justificarmos, de um modo não necessariamente dedutivo, os resultados de uma generalização indutiva a partir das premissas existentes.

É precisamente neste sentido que se orientam as reflexões sobre nosso Problema levadas a cabo por Charles Sanders Peirce (1839-1914), filósofo e lógico norte-americano.

Consideremos agora, pois, a seguinte hipótese por ele sugerida: em nossa experiência passada, direta ou indireta, podemos afirmar, com absoluta certeza, que as pedras que arremessadas livremente ao solo de fato caíram no chão. Tal assertiva nos abre duas possibilidades:

(a) ou bem a uniformidade com que todas estas pedras caíram se deve à pura casualidade e não proporciona qualquer fundamento para que possamos esperar que a próxima pedra arremessada caia;

(b) ou então a uniformidade com que as pedras caíram se deve a um princípio geral ativo, e no caso em questão seria pura coincidência que parasse de atuar no momento em que minha previsão está se baseando nele. As pedras caem, constatamos isso.

Como, no entanto, podemos justificar a expectativa de que próxima pedra que arremessemos ao solo também cairá? E este conhecimento deve ser formulado no sentido de que possamos afirmar as proposições a seguir:

(1) eu tenho uma crença justificada de que se arremesso a pedra, ela cairá

e

(2) é verdade que quando arremesso a pedra, ela cai, ou seja, compreende duas instâncias, a justificação da crença e a verificação desta.

Todavia, a verificação só constata a veracidade de casos particulares e, desse modo, não é um meio para justificar um enunciado geral. Mais ainda: é possível conceber que as pedras, ao serem arremessadas, não caiam, tal como aconteceria em um ambiente livre de gravidade. Em outras palavras: existem mundos possíveis onde tal enunciado não é verdadeiro; e se existem condições que inequivocamente falsificam nosso enunciado, como poderemos justificar que sobre se tenha uma crença racional?

Entretanto, argumenta Peirce, nossa experiência demonstra de sobejo que ao soltarmos uma pedra, ela cai (a não ser que estejamos em um ponto de gravidade zero); como tal fato sempre aconteceu, ou existe uma lei causal que está por trás deste fenômeno, ou então sempre foi regido pelo puro acaso; mas, como a probabilidade de que se deva ao acaso é mínima, devemos concluir que da referida experiência é possível inferir uma lei causal.

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