segunda-feira, março 01, 2010

Cormac McCarthy: um profeta em nosso tempo




Diletos irmãos d'armas:

Após ler e reler o magistral romance The Road, do norte-americano Cormac McCarthy, senti que deveria,  enfatizar a importância que esse livro assume, creio eu, como obra de cunho profundamente cristão.

O enredo é simples, d'uma simplicidade quase franciscana, de maneira que a sinopse apresentada pela editora da versão em português o resume perfeitamente:

Num futuro não muito distante, o planeta encontra-se totalmente devastado. As cidades foram transformadas em ruínas e pó, as florestas se transformaram em cinzas, os céus ficaram turvos com a fuligem e os mares se tornaram estéreis. Os poucos sobreviventes vagam em bandos. Um homem e seu filho não possuem praticamente nada. Apenas uns cobertores puídos, um carrinho de compras com poucos alimentos e um revólver com algumas balas, para se defender de grupos de assassinos. Estão em farrapos e com os rostos cobertos por panos para se proteger da fuligem que preenche o ar e recobre a paisagem. Eles buscam a salvação e tentam fugir do frio, sem saber, no entanto, o que encontrarão no final da viagem. Essa jornada é a única coisa que pode mantê-los unidos, que pode lhes dar um pouco de força para continuar a sobreviver.

Muito bem: nunca antes li qualquer texto (Apocalipse incluso) que me transmitisse, de modo tão intenso e arrebatador, a um só tempo, o lancinante desespero experienciado pelo Homem num 'mundo sem Deus', por lado e, por outro, a presença do Criador como única salvaguarda para a Humanidade.

A obsessão do pai é proteger a vida de seu filho numa apocalíptica 'Waste Land' de ruínas, restos de árvores calcinadas, frio glacial e atmosfera poluída, um cenário de pesadelo também percorrido por luciferinos bandos de assassinos e canibais.

Não obstante, à medida que prosseguimos na leitura, percebemos que não interessa ao pai apenas velar pela sobrevivência física de seu filho, mas também lutar pela integridade de sua alma. E é então que percebemos que a obra  ultrapassa seu escopo meramente ficcional e se converte em veículo para a TRANSCENDÊNCIA.

Podemos, de certo modo, supor que, ao fim e ao cabo, todos os 'sobreviventes' da catástrofe que se abateu sobre o planeta já estão 'mortos', e que, na verdade, são espectros a vagar pelo "Reino crepuscular da Morte", como diria TS Eliot. Não obstante, se mortos estão, ainda não foram julgados...; destarte, The Road revela-se como alegoria sobre a grande tribulação que precede o Juízo. E a grande missão do pai, seu DEVER SAGRADO, é preservar, através da dignidade e inocência inerentes à alma infantil, a própria Palavra de Deus, o sumo sentido de Sua bondade e amor, num mundo onde tudo mais se desintegrou.

Enfim, confrades: recomendo-vos expressamente a leitura desse livro. Trata-se d'uma EPIFANIA.

O autor foi oficial da Força Aérea Norte-Americana, depois graduou-se em Artes e então iniciou carreira como escritor. Tem 74 anos de idade, e consta ser um homem muito recluso. Dele li , além The Road, os romances Blood Meridian, or the Evening Redness in the West; e Cities of the Plain.

Blood Meridian e Cities of the Plain poderiam ser definidos como 'westerns gótico-apocalípticos', apresentando uma visão extremamente sombria, desolada e violenta a propósito da condição humana. Blood Meridian, sobretudo, malgrado seja um livro particularmente brutal e sinistro, tem um cariz metafísico muito intenso, o que me levaria, a esse respeito, a se calhar compará-lo a uma obra como Moby Dick, ou seja, um vasto e ambicioso painel alegórico da revolta do Homem desesperado contra Deus e a Criação.

Em The Road, contudo, penso que há uma transformação emblemática no ethos de McCarthy, que celebra a capacidade do ser humano, apesar de toda a destruição e horror à sua volta, de tornar-se custódio da Palavra de Deus.

Um aspecto a ser destacado é a riqueza estilística do autor, que se serve generosamente de todos os recursos disponíveis em seu idioma. É capaz de elaborar metáforas complexas e surpreendentes e, em muitas passagens, o tom grave, majestoso, solene de sua escrita remete à King James Bible, que talvez seja até hoje o mais belo exemplo de prosa em língua inglesa.

É um escritor de difícil leitura no original, vale frisar ; não obstante, para os que tiverem um bom domínio do idioma inglês, vale à pena encarar o desafio, pois McCarthy é indubitavelmente um mestre em sua arte.





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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

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