terça-feira, junho 02, 2009

Sobre o papel da URSS na II Guerra Mundial

Alphonse van Worden - 1750 AD





















Não é de hoje, egrégios confrades, que a pérfida máquina de propaganda do atlantismo talassocrático há décadas procura, de todas as formas, sob todos os pretextos e por meio de todos os expedientes, menoscabar o papel exponencial desempenhado pelas forças armadas soviéticas durante a II Guerra Mundial. Trata-se simplesmente d'um processo de falsificação histórica dos mais absurdos e indignos, tendo em vista o caráter de todo decisivo do esforço militar soviético na derrota do hitlerismo.

No que tange, pois, ao papel da URSS na II Guerra Mundial, basta fazer uma singela constatação empírica: verificar quem foi o maior responsável pelas perdas da máquina de guerra germânica, tanto em termos humanos quanto materiais, e aí se constata inapelavelmente que o Exército Vermelho foi o grande vencedor do conflito. Estima-se que 4/5 das baixas alemãs no conflito ocorreram em combates contra o Exército Vermelho. Só quem desconhece a história da II Guerra negaria que praticamente TODA a elite das forças armadas alemãs, suas melhores divisões e o que havia de mais moderno em termos de equipamento, foram empregues na guerra contra a URSS. E o facto de que as baixas soviéticas tenham sido maiores pouco importa, pois o que realmente conta é, numericamente falando, o EV enfrentou e destruiu o grosso dos efetivos alemães, dado que é incontestável. Numa guerra importa a vitória final, ponto.

Vale também SEMPRE lembrar que a guerra, para Hitler, foi a guerra no Leste, a 'guerra santa' para eliminar o Untermensch da face da Terra; todo o resto foi mera necessidade circunstancial.

Citemos alguns dados. Consoante o clássico History of the Second World War (Putnum, New York, 1971), de autoria do consagrado historiador militar inglês Sir Basil Henry Liddell Hart, de todo insuspeito de quaisquer veleidades filo-soviéticas:

- 80% do esforço de guerra alemão dirigiu-se à Frente Oriental.

- De 22 de junho de 1941 a 9 de maio de 1945, o Exército Vermelho destruiu ou colocou fora de combate 607 divisões da
Wehrmacht, cerca de 3,6 mais divisões que as enfrentadas pelos aliados anglo-americanos em conjunto no Norte da África, na Itália e no restante da Frente Ocidental.

Alguns outros números, só para dar uma pálida idéia da desproporção de forças concentradas pelos alemães nas frente Leste e Oeste:

Por exemplo, a distribuição das divisões alemãs em 1944:

Frente Oriental - 179
França e Países Baixos - 53
Países Balcânicos - 26
Itália - 22
Escandinávia - 16
Finlândia - 8

(D-Day (1981) - Brigadier Peter Young, Bison Books Limited)

Ou seja: enquanto a Frente Oriental concentrava 179 divisões alemães, TODAS as demais frentes de combate na Europa concentravam 125... naturalmente, isto tornou possível o desembarque anglo-americano na Normandia.

Falemos um pouco também sobre a Batalha de Kursk, a maior batalha de blindados em toda a História humana, que transcorreu durante julho de 1943 e que, em conjunto com a Batalha de Stalingrad, praticamente selou a sorte da Alemanha nazista no conflito.Vejam o que diz o historiador militar britânico Geoffrey Jukes (os grifos são meus):

"(...) no verão de 1943, Kursk ganhou o direito de atribuir-se o título de 'lugar mais importante do mundo', pois naqueles meses esteve no centro de um enorme bolsão, ou arco, na Frente Oriental, onde Alemanha fez seu último esforço no sentido de retomar a iniciativa estratégica das mãos do Eexercito Vermelho. O fracasso dessa tentativa como que selou o resultado da Segunda Guerra Mundial. As derrotas sofridas em Moscou e Satalingrad não foram tão aniquilantes, porque, depois delas, os alemães ainda encontraram meios de reunir-se e inflingir grandes reveses aos seus adversários soviéticos, numa demonstração de que haviam absorvido bem os golpes recebidos. Porém, depois de Kursk, os exércitos de Hitler viram-se forçados a uma retirada quase contínua, que terminaria dois anos depois entre as ruínas de Berlim."
(Kursk, the Clash of Armour (1968) - Geoffrey Jukes, Ballantine Books, NY)

É mister anda relembrar que Kursk reuniu a maior concentração de forças da história da Wehrmacht numa só batalha: cerca de 50 divisões, 16 delas panzer ou motorizadas, compreendendo cerca de 1 milhão de homens, 10.000 morteiros e canhões, 3.000 tanques e 2.000 aviões, "pilotados pelo grupo de elite da Luftwaffe, como a 'Esquadrilha de caças Mölders' e a 'Legião Condor'" (op. cit.)

Os preparativos foram tão acurados e cuidadosos que os alemães chegaram a adiar por duas vezes o início da 'Operação Cidadela' para que pudessem concentrar o maior número possível de tanques TIGRE e PANTERA - os mais poderosos produzidos pela Alemanha durante a Guerra. Por fim, é mister não esquecer que em Kursk as 9 divisões mais célebres do exército alemão enfim encontraram sua nêmesis:


Terceira divisão
panzer

Décima-primeira divisão
panzer

SS Gross Deutschland


SS Leibstandarte


SS Das Reich


SS Totenkopf


Sexta divisão
panzer

Décima-nona divisão
panzer

Sétima divisão
panzer


Por fim, sobre o tão propalado em prosa e versa auxílio norte-americano... sabe-se hoje que os números desta ajuda foram estratosfericamente exagerados para efeitos de propaganda ideológica durante a Guerra Fria.... a percentagem do programa de lend-lease no quadro geral do esforço de guerra soviético fica entre 5% a 8% do total, segundo qualquer estudo contemporâneo sério.

É mister sublinhar ainda que o Marechal Georgy Konstantinovitch Zukhov foi um dos maiores comandantes militares da História, um homem cuja folha de serviços e o número de vitórias decisivas quiçá só pode ser igualado, pelo menos no que se refere aos últimos 300 anos, por Napoleão. E há, vale dizer, uma notável distinção entre ambos, de todo favorável ao mavorte russo: Zhukov emergiu VITORIOSO da grande conflagração em que tomou parte...

De resto, ínclitos irmãos d'armas, ocorre aquilo que de sobejo já se sabe: há muita gente que julga 'aprender' alguma coisa sobre a II Guerra Mundial através do cinema hollywoodiano... que se há de fazer...?



4 comentários:

Vinícius Gallego disse...

Muito bom o texto, caro Alfredo!
Seguindo sempre o mote incontestável de reelembrar pequenas (ou nem tanto, rs) verdades que deveriam ser conhecimentos simplesmente básicos e, em vez disso, parecem tão veladas hoje em dia como o Santo Graal.
Uma pequena questão que acrescentaria ao lado de outras bem mais importantes e informativas que ressaltaste, é que um dos principais golpes que a URSS deu à Alemanhã foi através da omissão. Isto é, considerando o poderio, tanto em termos bélicos quanto de conhecimento militar, tido pela URSS naquele momento(que inclusive foi a fonte de muitos dos recursos tidos pela Alemanhã), certamente os Aliados jamais viriam a vencer a guerra caso a união Stálin-Hitler não se tivesse rompido.

Alphonse van Worden disse...

Obrigado, Vinicius!

E tens toda razão no que tange a teu comentário sobre os efeitos que uma eventual aliança duradoura entre URSS / Alemanha desencadearia.

alan disse...

concordo perfeitamente..........oq se v hoje é o dia D como o ponto culminate da guerra, ate os livros de historia do ensino medio tem mitigado a verdade a respeito

Alphonse van Worden disse...

Pois é, Alan... é a famigerada versão 'róliúdiana' da II Guerra Mundial, infelizmente chancelada por livros 'didáticos' de quinta categoria.