quinta-feira, outubro 20, 2016

Tora! Tora! Tora!



Pouco mencionado aqui em nossas plagas, este insólito quarteto nipônico é sem dúvida uma das melhores formações do noise rock nos últimos 20 anos. Formado em 1992 por estudantes do depto. de línguas estrangeiras da Universidade de Tóquio (Yasuko Onuki - vocais / Ichirou Agata - guitarra elétrica, efeitos / Rika mm' - baixo elétrico / Toshiaki Sudoh - bateria), o Melt-Banana existe até hoje, tendo a seu crédito uma discografia das mais interessantes, onde à emblemática blitzkrieg sonora tão característica das vanguardas nipônicas acrescenta-se um notável senso de proporção estrutural.

Parte integrante do mesmo cenário de outros nomes célebres como Ruins e Boredoms, a banda notabilizou-se por sua singularmente criativa reinterpretação do hardcore, onde, à arquetípica velocidade do estilo, agregam-se a atmosfera caótica e fragmentária do rock industrial e a quebradeira esquizoide da no wave. Quem descreve à perfeição a coisa toda é o crítico norte-americano Dan Lett:

"As the subway pulls into Shibuya on the Yamanote Line in Tokyo, nothing can prepare you for the sensory onslaught that awaits. Leaving the station via the Hachiko exit reveals a piercing overload of blinking neon, tennis court-sized media screens, and a relentless and chaotic surge of humanity through the streets that spiral dizzyingly off into the horizon. As a city gripped by paroxysms of furious activity, Tokyo seems to be a very reasonable home for the spasmodic, psychotic hardcore of Melt-Banana."

E é isso mesmo, oh my brothers: Melt Banana é quiçá a melhor transfiguração sonora do rutilante caleidoscópio de imagens e sensações que caracteriza a contemporaneidade japonesa, espécie de 'bomba-relógio sonora' sempre prestes a explodir em velocidade warp, metralhadora giratória disparando para todos os lados múltiplos projéteis de noise concentrado. Merece especial referência a hipercinesia demencial da vocalista Yasuko Onuki, em fascinante contraste com sua eterna aparência de pvteenha hentai; e também o genial Ichirou Agata, que converte sua guitarra numa espécie de sirene alienígena despejando rajadas sucessivas de fúria cauterizante. A 'cozinha', por seu turno, faz o que se espera de uma boa seção rítmica hardcore: simplesmente impulsiona o frenesi melt-bananiano em hyperspeed permanente, dando espaço para que Yasuko e Agata estraçalhem o ouvinte com seu 'teatro da crueldade' sônico.

A banda lançou infinitos singles, ep's e splits, além de, se não me falha a memória, uns 7 ou 8 full lenght. O melhor de sua produção corresponde aos anos entre 1994 e 2000, quando as características acima elencadas atingiram sua mais pura expressão formal; há que conferir especial relevo, contudo, ao segundo álbum dos camaradas: produzido, mixado e gravado por uma trinca de craques (KK. Null, Jim O'Rourke e Steve Albini), Scratch or Stitch não apenas cai sobre o ouvinte como uma verdadeiro ICBM de sonic obliteration, mas também surpreende pela precisão cristalina com que tal engenharia do caos é registrada.

Como de resto ocorre em toda a produção discográfica da fase áurea do Melt-Banana, trata-se d'um álbum extremamente coeso, um bloco monolítico de insanidade sonora onde quiçá não caberia destacar esta ou aquela música; não obstante, contrariando a lógica adrede esposada, é mister ressaltar, em termos de pura truculência schizo-core, peças como Rough Dogs Have Bumps, Buzzer #P, Plot in a Pot, Scratch or Stitch, Iguana in Trouble, Dig Out!, Sick Zip Everywhere e I Hate It!; na esfera dadaísta dos avantêsmicos microtemas psycho-otaku in full effect, Test: Ground 1, Zoo, No Vacancy, Type B for Me e Ten Dollars a Pile; e por fim, como OVNI's abstrusos e inclassificáveis, Eye-Q Trader, Back to the Womb e His Name Is Mickey (At Least She Got Him...).

Em suma, egrégios confrades: BANZAI!!!




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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

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