quarta-feira, junho 01, 2011

A propósito do caráter não-científico do marxismo - parte IV

Alphonse van Worden - 1750 AD






Prosseguindo em nossas considerações, seria cabível argumentar, por exemplo, que se o marxismo nunca foi uma teoria científica, não podemos aplicar-lhe como critérios de verificação quaisquer de cientificidade; ademais, ainda que o marxismo fosse uma ciência, não seria difícil elencar fenômenos que, de certo modo, ainda se comportam consoante as predições feitas por Marx.

Nuito bem: uma teoria científica não mais consegue dar conta dos fenômenos que pretende descrever, ela deve ser substituída por uma mais precisa, não é verdade? Isso de modo algum significa que ela tenha se tornado inválida. Uma teoria científica torna-se totalmente irrelevante tão somente quando seu domínio de aplicação passa a ser igual a zero, isto é, quando já não é mais capaz de descrever nenhum fenômeno previsto. Assim, sendo, por exemplo, podemos afirmar que o domínio de aplicação da mecânica relativística é maior que o domínio de aplicação da mecânica newtoniana, o que não significa dizer que esta última tenha sido refutada como um todo, uma vez que sua potência explicativa ainda permanece válida para numerosos fenômenos.

No que tange ao marxismo, se aqui o submetemos às exigências da racionalidade científica, foi justamente para demonstrar que ele não é capaz de atendê-las. Quem pretende que o marxismo esteja sujeito aos critérios de cientificidade são seus adeptos ortodoxos, e não os que desconsideram o pensamento marxista como domínio científico. Advogamos que o marxismo, precisamente por NÃO SER uma teoria científica, está por completo livre de tais injunções; o mesmo, todavia, não se aplica aos meus adversários, que postulam validade científica para o marxismo.

Neste momento, nosso interlocutor imaginária poderia exclamar: 'onde o homem distanciou-se da ciência de modo a NÃO INTERVIR na construção do objeto do conhecimento?! Que super-homem científico é este que, acima do bem e do mal, utilizando-se apenas dos conhecimentos gerados pelo 'Deus-método', forjou uma 'objetividade' científica alheia à ação humana? Ora, jamais houve ciência alheia à ação humana! O puro relato da observação de fenômenos já carrega consigo tendências dispostas a subjetivá-lo.'

Ao que lhe ripostaríamos: a subjetividade humana necessariamente intervém na produção do conhecimento, isto é, nas generalizações conceituais derivadas da observação da realidade empírica, mas não pode intervir no OBJETO em si mesmo, ou seja, nos dados concretos da realidade, que são externos ao pensamento, independem de nossa percepção e até mesmo de nossa existência. Reparai bem, confrades; se a humanidade desaparecer neste instante, o planeta Terra e todo o Universo continuarão a existir. Tal afirmação, creio eu, só poderia ser contestada pelos solipsistas, isto é, pelos que crêem que a realidade existe tão somente como instância mental, sem qualquer concretude objetiva. Lamentavelmente as vertentes mais delirantes do marxismo não raro incorrem numa espécie de solipsismo coletivo.

Que se volte, portanto, a frisar: o ato de observar a realidade concreta e a operação conceitual que dele decorre na elaboração dos enunciados cognitivos obviamente envolve a subjetividade humana, mas o objeto tomado em si mesmo, o dado empírico da realidade a ser considerado, deve ser necessariamente objetivo,em outros termos, de todo alheio a nosso aparato perceptivo e até mesmo de nossa existência.

Há, outrossim, que salientar que uma esfera é o imperativo do rigor científico, isto é, a necessidade de teorias que se pretendam científicas ajustarem-se aos cânones de racionalidade ou parâmetros de construção intelectual científicos; o móvel de tais teorias é descrever da forma mais rigorosa e objetiva possível o Universo que nos cerca; vale dizer que a filosofia, ao menos da maneira como a concebo, está incluída nesta esfera. Outra esfera, de todo distinta, é o anseio coletivo da humanidade por uma sociedade justa e harmoniosa, desprovida de contradições. O pensamento marxista a meu ver tem validade como instrumento para realizar os objetivos presentes na segunda esfera, mas incapaz de satisfazer os móveis da primeira.









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