domingo, fevereiro 01, 2009

Notas de reflexão crítica XVIII - sobre a questão do messianismo revolucionário no âmbito da perspectiva marxista

Alphonse van Worden - 1750 AD






- Não é difícil constatar que o marxismo amiúde sói estar de olhos vendados para a eclosão de qualquer processo revolucionário que não siga as categorias 'dialéticas' delineadas em seu quadro de referência.

- Aliás, está na hora de todos reconhecermos que, filosoficamente falando, o marxismo é insustentável. Tal insustentabilidade já se configura nas próprias raízes filosóficas do marxismo, duas vertentes filosóficas estéreis: o idealismo hegeliano e o materialismo metafísico feurbachiano. O idealismo hegeliano padece de um vício de origem: a crença na realidade ontológica das Idéias, o que destrói qualquer possibilidade de elaboração de um método analítico preciso e consistente; o materialismo, por sua vez, é em última instância apenas uma manifestação particular do idealismo, já que confere um estatuto ontológico de realidade a um construto conceitual, a idéia de 'matéria'. Marx, por conseguinte, ao formular o materialismo dialético, estabelece tão somente mais uma variante filosófica do idealismo, pois não há como escapar deste traço estrutural do materialismo, a saber, o de ser um epifenômeno do idealismo. Assim sendo, categorias exclusivamente conceituais como 'modo de produção', 'evolução dialética' do processo histórico, etc. são tomadas como instâncias ontologicamente existentes. Em outras palavras: o marxismo fatalmente se insere no quadro das filosofias estéreis que acreditam na realidade de 'Universais'.

- Isto posto como hipótese preliminar de desmonte do ilusionismo filosófico presente no marxismo, é mister reconhecer que a estreiteza esquemática do marxismo ortodoxo não logra, com efeito, dar conta de todo o espectro de causas por trás da jihad revolucionária islâmica no mundo hodierno. Ao apontar o fator econômico como elemento determinante na dinâmica da História, o pensamento marxista não atenta para o facto de que o conflito cultural - partindo da definição de 'cultura' como o conjunto de manifestações simbólicas de uma dada civilização ou nação - é também um fator de destacadíssima relevância. O 'motor da História' não pode, portanto, ser reduzido a uma única 'energia-matriz', resultando, ao contrário, de uma miríade de fatores, d'entre os quais o cultural se reveste de grande importância, assim como o econômico, o político, etc.

- Portanto, o que há de fecundo, de interessante no marxismo não é sua estrutura analítica do processo histórico, que se revela inconsistente e falha, mas sim seu significado como teoria política da ação revolucionária. E digo mais: deve-se ressaltar que um aspecto fundamental do marxismo é criminosamente ignorado por seus teóricos 'oficiais', vale dizer, o marxismo não como teoria, mas sobretudo como TEOLOGIA política da ação revolucionária; é preciso, pois, salientar o caráter inequivocamente MESSIÂNICO inerente a todo processo revolucionário. A revolução não é de modo algum uma categoria 'racional'.

- Nesse sentido, cito aqui algumas passagens de Glauber Rocha, um dos mais ousados e criativos pensadores revolucionários do Século XX , presentes em seu manifesto Eztetyka do Sonho(1971):


"Na medida em que a desrazão planeja a revolução, a razão planeja a repressão".

"A revolução é a anti-razão que comunica as tensões e rebeliões do mais irracional de todos os fenômenos que é a pobreza".

"A revolução, como possessão do homem que lança sua vida rumo a uma idéia, é o mais alto astral do misticismo".

"As revoluções se fazem na imprevisibilidade da prática histórica que é a cabala do encontro das forças irracionais das massas pobres".

"A revolução é uma mágica porque é o imprevisto dentro da razão dominadora".


- Reparai, diletos confrades, que Glauber sintetiza de forma magistral a natureza messiânica e mítica da Revolução, a dimensão mística, irracional, imprevisível e emocional presente intrinsecamente em todo processo revolucionário. Dessa forma, a pretensão marxista de se formular como análise 'científica' do processo revolucionário é um completo absurdo, um retumbante non sequitur conceitual. A 'revolução' não é, portanto, como já adrede tantas vezes sublinhamos, um fenômeno que possa ser interpretado por uma analítica científica, isto é, que insira na esfera dos pressupostos epistemológicos e metodológicos da razão científica; ao contrário, a revolução afigura-se muito mais como fenômeno de cunho mítico-religioso, impermeável a análises racionalistas.

- Não há como negar que o fundamentalismo islâmico desempenha hoje um papel revolucionário muito mais relevante que as modalidades tradicionais contempladas pelo pensamento marxista. A tipologia categorial estreita do marxismo não consegue, pois, compreender que Sheykh Usammah Bin Laden possa ser, como de fato o é, ao mesmo um 'warlord' medieval e um líder revolucionário insofismavelmente contemporâneo (mormente em sua notável consciência do poder cada vez maior da mídia eletrônica), ou seja,uma figura onde o arcaico e novo estão entrelaçados de forma indissolúvel.

- A perspectiva marxista, ao deixar de reconhecer o caráter legitimamente REVOLUCIONÁRIO do fundamentalismo islâmico, irá cometer mais um grave erro em seu já significativo legado histórico de trágicos equívocos.

2 comentários:

V. Oliveira disse...

Parabéns, agora que o marxismo não convence mais ninguém, a revolução precisa de um pensamento novo, mais complexo, que a justifique. Mas ainda não morreu no Brasil. É preciso que vocês se juntem aos conservadores primeiro, para destruir o marxismo, para depois destruir o conservadorismo.

Alphonse van Worden disse...

Sim, tens razão... será necessário todo um laborioso processo conceitual de 'limpeza do terreno' antes de prosseguirmos à frente.