sexta-feira, junho 01, 2007

Flipper rules, OK!?





Os norte-americanos do Flipper não foram a primeira banda a elevar a insuportabilidade latente desde os primórdios do rock’n’roll a seu state of the art; tampouco foram os que a tal mister imprimiram maior radicalismo. Podemos, todavia, afirmar que foram decerto os que lograram tal feito com menos recursos, bem como também desprovidos de qualquer pretensão ‘artística’(os avantêsmicos Electric Eeels, de Cleveland, poderiam ser citados como pioneiros, mas a meu ver seu protopunk ‘grandguignolesco’ envolvia, ainda que por vias transversas, uma certa dose de arrogância e pretensão). O facto é que entre 1979 e 1985 Bruce Lose (vocais, baixo), Will Shatter (baixo, vocais), Ted Falconi (guitarra elétrica) e Steve de Pace (bateria) subverteram completamente os postulados do punk hardcore norte-americano: num cenário onde a não raro improfícua busca pela maior velocidade era a grande meta, a banda deliberadamente desacelerou ao máximo sua música em compasso de mórbido pesadelo slowcore, soterrando-a sob toneladas de microfonia num charco de areia movediça formado por mastodônticos drones de baixo, assim forjando uma espécie de noise rock brutal, inclemente e hipnótico; para usar a irônica analogia de um crítico do NME, um “Black Sabbath para machos”, trocando afetação teatral por descargas concentradas de agressão serial. Não obstante, uma porção significativa de sua insuportabilidade advinha do caráter intratável de seus integrantes, que cultuavam um ethos existencial pejado de niilismo autodestrutivo numa relação simbiótica com o fascínio / repulsa da audiência. Flipper sempre jogou com extremos, com o irresistível impulso de 'desarrumar o arrumado', 'deixar o vagão correr solto', sempre encontrando mórbido prazer em violar todos os parâmetros do 'bom senso' estético, alojando-se com misantrópica disposição numa dimensão paralela violenta e inóspita, esfera de extravagante alienação voluntária e desorientação militante, encarnando destarte a 'grande recusa', para lançar mão aqui de um termo de Marcuse.

Fôssemos optar por um caminho racional, o álbum a ser resenhado seria o genial Generic Flipper (1982), onde o avassalador sludgecore noise rock dos caras encontra sua mais rigorosa e sólida manifestação; todavia, ao falar sobre um fenômeno como o Flipper, não há como adotar o caminho mais plausível sob hipótese alguma! Ademais, como não é difícil de se imaginar no âmbito da tortuosa lógica que rege all things Flipper, o contexto ideal para que o Théâtre de la Cruauté flipperiano pudesse florescer com maior impacto era o palco: nossos heróis já entravam em cena invariavelmente ‘chapados’ e agredindo a platéia; e para piorar as coisas (ou melhorar, who knows...), de propósito ralentavam o andamento de suas canções, irritando ao máximo uma platéia habituada ao esquema habitual do hardcore. Álbuns como Public Flipper Limited Live 1980 - 1985 (1986) e Blow’n Chunks (1984), que será o objeto desta nossa resenha, felizmente conseguem nos transmitir uma idéia do que foram tais rituais de caos sonoro e devastação existencial, no caso em tela registrado a 18/11/1983 no CBGB'S, um dos clubes mais mitológicos de Nova York.

Consta que no primeiro set da noite o Flipper apresentou-se ‘normalmente’, muito embora com uma agressividade e descaso pelo que estava sendo tocado ainda mais desafiadores que o habitual; brigas eclodiram na platéia, ofensas foram trocadas entre espectadores e membros do grupo, o que no entanto já era mais do que costumeiro em seus shows. Com o retorno para o segundo set (prática comum em concertos underground) horas mais tarde, entretanto, a coisa mudou de figura, assumindo contornos a um só tempo macabros e fascinantes: inacreditavelmente bêbados, drogadaços e exaustos, bem como tocando divinamente mal, os dementes arrojaram sobre a audiência uma espécie de jam atonal, caótica e informe, onde a muito custo poderiam ser identificados trechos de Ice Cold Beer, Love Canal, Sacrifice, Ha Ha Ha e quiçá da clássica Louie Louie, dos Kingsmen. A massa sonora tornava-se a cada minuto mais lenta, arrastada e catatônica (like a cassette player with dying batteries, na brilhante descrição d'uma testemunha), em níveis absurdos de distorção e barulho, e o grupo não parecia nada disposto a encerrá-la. O público, por seu turno, entre furioso e embevecido, esbravejava horrores, arrojando um maremoto de objetos sobre o palco, até que um punhado de punks mais indignados/alucinados decidiu descer o cacete na banda; com o pugilato rolando solto na ribalta e na platéia, poucos notaram que o baixista Will Shatter, por acaso recolhido a um canto, continuou despejando aterradores e ultra-saturados riffs de baixo. Quando a ‘tempestade’ amainou, com corpos a nocaute para todos os lados, alguém enfim notou a arrasadora performance de Shatter, e bradou: hey, folks, look at that fucking bastard up there!. Alguns então começaram a aplaudir, e logo o clube inteiro foi abaixo numa tonitruante salva de palmas, causando espanto ao próprio músico, que enfim despertou de sua trip particular.

Caos, aventura, risco, anarquia, imprevisibilidade, loucura, agressão, epifania, êxtase: eis, meus caros confrades, a vera e incandescente matéria em que se forja a essência maior do rock'n'roll, ilustrada à perfeição pelo Flipper; ou, como nos diz o lapidar slogan da formação californiana: Flipper suffered for their music - now it's you turn.





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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

2 comentários:

ar disse...

Sim, Flipper rules, entre outras coisas.
Obrigado pelo texto, acabo de conhecer o blog.
Verei com tempo, deixo o "meu", começando - www.bonequinhologia.blogspot.com
(Flipper foi uma influência inicial)

Alphonse disse...

Obrigado, Ar ;-)

A propósito: adorei a caveirinha no teu blog!