sábado, setembro 22, 2001

Conclamação aos guerreiros espectrais do Futuro e do Passado:



Através do cintilante caleidoscópio das fosfóricas planícies tartáricas, as tropas do Bastiani iniciam sua marcha triunfal! Ó Poderoso Amir ul-Momineen, Fulgurante Senescal das Legiões Transfinitas, que os Senhores do FOGO e da IRA alimentem a chama sagrada que consumirá os Céus!! 

*

 Ten. Giovanni Drogo 

 Forte Bastiani 

 Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

A Missa Negra do Ruído Branco na Fábrica do Kaos

Alphonse Van Worden - 1750 AD




O cinema de Andy Warhol se distingue, pelo menos em sua fase experimental no início dos anos 60, por uma radical estética da imobilidade: planos fixos, câmera estática, edição imperceptível, roteiro quase inexistente. Geralmente mudos e com fotografia em B&W, seus filmes são relatos letárgicos sobre o que está acontecendo fora do espectro cênico enquadrado, como se a presença incidental de um facto, congelado ao acaso no tempo e no espaço, fosse apenas o indício de algo muito maior. Nesses ensaios sobre a ausência, o que está em foco não é importante, mas sim o que o espectador pressente estar acontecendo ao redor da cena. Em Kiss (1963), casais se beijam em close-up durante 58 minutos. A sensação de movimento é mínima, mas ele ainda se faz presente no campo visual do espectador. Warhol, entretanto, conceberia no mesmo ano experiências ainda mais insólitas, inclusive em termos de duração. Eat (1963) exibe, em 38 minutos, o pintor Robert Indiana comendo um cogumelo; em Sleep (1963), a câmera observa 6 horas de sono do poeta John Giorno. Em 1964, com Empire, o pintor/cineasta apresenta a realização máxima de seu cinema estático, sobretudo no plano da despersonalização narrativa e de uma calculada vacuidade dramática: uma câmera insuportavelmente imóvel examina, durante 8 horas, sob o mesmo ângulo, o topo do Empire State Building recortado contra a linha do horizonte.

É um cinema hiperrealista, já que nenhuma reestruturação narrativa do mundo é admitida, mas é também, do mesmo modo, um cinema extremamente artificial, pois no movimento reside a própria substância da realidade percebida pelo homem. Warhol consegue enredar o público num sortilégio angustiante, um estado de animação suspensa que provoca a expectativa, frustrada já de antemão, mas ainda assim presente, de que alguma coisa está prestes a acontecer. Essas obras não são exatamente grande cinema (e talvez tampouco o pretendam ser), mas formulam uma hipótese inquietante: o essencial nunca está em cena, mas oculto numa dimensão paralela, que se desvela na transcendência do já visto; deve ser construído na mente do espectador, que precisa abstrair-se da ilusão, subtilmente entretecida por Warhol, de que possui todo o tempo do mundo para apreender todas as dimensões de um fato. Curioso paradoxo: a possibilidade de uma visão essencial na negação simbólica da visão real, a verdade encoberta nos meandros do verdadeiro...

Em 1966, todavia, com Velvet Underground and Nico: a Symphony of Sound (67 minutos, B&W), Warhol inverte totalmente sua perspectiva cinematográfica: ao invés de êxtase contemplativo, movimento incessante, um ciclone desenfreado de energia cinética explodindo em velocidade warp na tela. É talvez seu melhor filme, intenso e envolvente, com a colaboração providencial de um Velvet Underground atroz, disposto a incinerar o suporte formal edificado por seu inventor, granadas sonoras estilhaçando fotogramas, celulóide posto em combustão elétrica pelo espectro de Antonin Artaud fragmentado pelos macabros sortilégios de quatro anjos negros, Not a bloodied country All covered with sleep Where the black angel did weep (...) And if Epiphany’s terror reduced you to shame Have your head bobbed and weaved Choose a side to be on........

O cenário é a lendária Factory, o atelier/QG do artista novaiorquino: um imenso e desordenado galpão, cujos limites se dissolvem na refração luminosa de suas superfícies argentinas. Em flashes rápidos e descontínuos, podemos entrever, espalhados pelo chão, alguns membros do famigerado séquito de Warhol: Gerard Malanga, Billy Name, Edie Sedgwick, Stephen Shore, talvez Mary Woronov, Ultra Violet, Ingrid Super Star; um pouco mais adiante, destacada do grupo, vemos Nico, a glacial valquíria junkie, sentada num banquinho com um pandeiro nas mãos, e o pequenino Ari, seu filho, circulando em torno; ao fundo, de óculos escuros e trajes negros, os Velvet Underground improvisam furiosamente uma espécie de Sister Ray avant la lettre, ainda mais caótica e desarticulada que sua ilustre herdeira.

Em giros cada vez mais rápidos, a câmera de Warhol voa desordenadamente pelo local, recortando a cena em desconcertantes fragmentos visuais. A muralha de white noise que flui dos amplificadores funde-se ao tiroteio pontilhista dos fotogramas de tal modo que podemos, sem exagero, falar num fenômeno de transubstanciação: estamos vendo a música e ouvindo as imagens. Aliás, este filme pode ser encarado como um magnífico tratado sobre a interconexão entre som e imagem na linguagem cinematográfica. De fato, Warhol e os Velvets entram em simbiose: as imagens se desmancham velozmente numa tempestade fotoelétrica, enquanto “Mo” Tucker acelera o compasso insidioso de sua bateria, as guitarras de Reed e Morrison rosnam microfonia, e as espasmódicas teclas do Vox Continental de Cale emitem ondas eletromagnéticas. O bailado supersônico de fragmentos cênicos e acordes dissonantes explode as perspectivas formais do filme em crescente desorientação mental. Avalanches trovejantes de ruído arrojando cascatas fluorescentes de signos gráficos voláteis, a hipercinesia levada ao extremo despejando pulsações corticais que paralisam o movimento numa onda estática de vibração luminosa, Who’s that knocking,Who’s that knocking on my chamber door, Could it be the police? They come and take me for a ride ride, But I haven’t got the time time... apoteose do pesadelo despertando os íncubos  adormecidos no ventre ímpio do Dragão, que deslizam silenciosos pelos labirintos da madrugada metálica, you shouldn't do that,she’s busy suckin' on my din ding dong, desliguem!!!, é preciso desmontar o maquinário sagrado do inferno que transmite os urros tonitruantes de Lúcifer,  por favor, senhor Warhol, compreenda, estamos aqui como oficiantes herméticos de um ritual sagrado para exorcizar a tenebrosa Missa Negra do Ruído Branco na Fábrica do Caos...................SCRÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉEEEiiiinch..................

*

Observações finais: A Symphony of Sound deve ser visto num quarto hermeticamente fechado, com o espectador solitário e imerso na mais profunda escuridão. Como complemento, no maior volume possível, competindo em insanidade com a trilha do filme, um bom e velho bootleg dos Velvets, talvez o EPI/66 (1996), edição japonesa de um dos melhores shows do VU em sua fase pré-histórica, ou então, o que seria ainda mais apropriado, o extraordinário pirata belga Sweet Sister Ray’s Murder Mystery (1993), gravação de um show de 1968 que traz uma aterradora versão de Sister Ray com 40 minutos de duração; discos raros, no entanto, dificilmente encontráveis; caso não possam ser obtidos, recomenda-se a seguinte seleção, pela ordem: White Light/White Heat, Hey Mr. Rain (version II), I Heard Her Call My Name, Black Angel’s Death Song, European Son To Delmore Schwartz e, é claro, Sister Ray. Tenham todos um bom divertimento.

Aos guerreiros, pensadores e poetas das legiões quânticas do Império Transfinito:




Alphonse Van Worden - 1750 AD 

*

- Os sete sumo-sacerdotes da META-SABEDORIA ANTI-GRAVITACIONAL - Lindhorst, Kreisler, Spikher, Murr, Klingsohr, Sevast e Brankovitch - manifestam irrestrita solidariedade à nossa ínclita missão, e declaram: "Peregrinamos convosco na egrégia jornada trans-onírica em direção ao Reino da IRREALIDADE FLAMEJANTE!". A vós, preclaros e veneráveis mestres, dedicamos nossos mais prístinos votos de admiração, fé e lealdade! - Na qualidade de Capitão da Guarda Valona e Custódio dos Arcanos Transfinitos, reafirmo minha férrea devoção ao imortal Amir-ul Momineen, excelso Senescal do FOGO INEFÁVEL, e proclamo: assim como vós, rutilante Senhor, também nós vivemos na ETERNIDADE! - E da brumosa solidão dos iridescentes vórtices tartáricos, o crepuscular Tenente Drogo envia o seguinte comunicado ao Grande Profeta: "Ó insigne Senhor de meu destino, Comandante sublime da Guerra Cósmica, assevero-te que o Bastiani está preparado para a batalha final!"

Efemérides Acadêmicas




ACADEMIA IRREAL DAS ANARCOCIÊNCIAS CABALÍSTICAS E ESQUIZO-MATEMÁTICAS


Tese de Doutoramento em Proto-lógica Trans-alquímica:


LÓGICA METACRÍTICA DOS PRÉ-PARADOXOS PENDULARES NAS PSICO-ANTINOMIAS ASSIMÉTRICAS DA ANTI-RAZÃO EMPIRO-PSICÓTICA


DESorientado: Ten. Giovanni Drogo

DESorientador: Cap. Alphonse Van Worden


INTRODUÇÃO:

?


PRIMEIRO CAPÍTULO:
.


SEGUNDO CAPÍTULO:
..


TERCEIRO CAPÍTULO:
...


QUARTO CAPÍTULO:
....


QUINTO CAPÍTULO:
.....


CONCLUSÃO:

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Hiroshima Mon Amour: a Liturgia do Silêncio e da Memória

Alphonse van Worden - 1750 AD




Em 1959 o cineasta francês Alain Resnais oferecia ao mundo a mais arrebatadora obra-prima da história da sétima arte: Hiroshima Mon Amour, uma epifania cuja força raras vezes foi igualada, não apenas no universo do cinema, mas na trajetória da arte como um todo. Entretanto, o que dizer hoje sobre uma fita que já foi exaustivamente analisada em suas inovações narrativas, em sua requintada sintaxe estilística, e mesmo em seus possíveis e múltiplos significados, contextos e subtextos? Talvez reste apenas a possibilidade de uma abordagem de cunho impressionista. E é exatamente o que pretendo fazer neste artigo: falar sobre as
impressões devastadoras que 'Hiroshima' provocou em mim. De certo modo, gostaria de poder esquecer inteiramente este filme, apenas para poder sentir de novo a intensidade da sensação memorável que é vê-lo pela primeira vez. As considerações que se seguem são, pois, uma tentativa de evocar, ainda que como mero vislumbre fugidio, algo do vigor assombroso daquela experiência inaugural.



Creio que Hiroshima Mon Amour talvez seja a única obra da história do cinema em que é possível escutar a diáfana voz do silêncio. Nos anos em que a Sétima Arte foi silenciosa, o que podíamos captar não era a presença do silêncio, mas apenas a ausência da palavra; e a partir do momento em que o cinema passou a estar sob a égide da prosa do mundo, o silêncio desapareceu sob a avalanche de um quase sempre infernal concerto de ruídos (neste exato momento escuto Hallogallo, do Neu!, e minha cabeça é uma autobahn elétrica em direção ao Infinito... "Quem pudesse sintetizar tudo isto!"...). Foi somente em Hiroshima Mon Amour que esse mistério da aurora dos tempos nos foi desvelado: a espectral voz do silêncio... e quando aqui falo em silêncio não penso, de modo algum, em negação da palavra, mas em algo que a transcende, numa dimensão que está além da capacidade de expressão do discurso. As palavras de 'Hiroshima', em sua beleza a um só tempo luminosa e cruel, sem dúvida expressam muito da essência do filme. Mas é certamente no ballet hipnótico do andar inquieto, do movimento tenso das mãos, dos gestos repentinos e crispados, e, sobretudo, do olhar incandescente de Emmanuelle Riva, que a grandeza da obra de Resnais nos é revelada em toda a sua magnitude. A atriz francesa, numa das mais perfeitas interpretações que o cinema já viu, consegue transfigurar silêncio em verbo pleno de significados, em 'ausência' que se faz 'presença'. Tanto nas cenas que se passam em Hiroshima, com Eiji Okada funcionando como contraponto, quanto nos flashbacks que remetem aos eventos ocorridos em Nevers durante a II Guerra Mundial, pressentimos que o silêncio fala através da angustiada coreografia espiritual dos atores, verbalizando o incomunicável, dando corpo ao intangível. O desespero lancinante de Emmanuelle Riva, digno da dor severa e imponente de uma tragédia grega, somente pode ser consubstanciado em sua totalidade por meio do dizer do silêncio, num discurso que não pode ser articulado como produção racional de sentido, mas sim como visão intuitiva, e até mesmo profética, de uma verdade que se entrevê nas névoas do inefável.



Sinfonia rigorosa de silêncio, sensações, palavras agônicas, luz e sombras, Hiroshima Mon Amour é uma grave meditação sobre a questão da memória, sobretudo da lembrança como ponto de partida para o esquecimento. Talvez a conquista do presente, se realizando na possibilidade do esquecimento, esteja no afastamento definitivo do passado. Mas como se libertar do passado na pálida esperança de um presente evanescente, que já se esfuma em passado? Emmanuelle Riva vaga pelas ruas de Hiroshima através das brumas de Nevers,caminha no presente pelas etéreas veredas do passado ("and the rain falls gently on the Town..."). Ela tenta pateticamente amar um arquiteto japonês, mas o que consegue ver, no vácuo da memória, onde a luz dos séculos se desintegra em reflexos crepusculares, é o rosto morto de um soldado alemão; tenta suprimir Nevers da memória, mas a reencontra nas ruas de Hiroshima. Em uma passagem particularmente amarga, Riva divaga, diante de um espelho: Elle a eu à Nevers un amour de jeunesse allemand... Nous irons en Bavière, mon amour, et nous nous marierons. Elle n'est jamais allée en Bavière. Que ceux qui ne sont jamais allés en Bavière osent lui parler de l'amour. Tu n'étais pas tout à fait mort. J'ai raconté notre histoire. Je t'ai trompé ce soir avec cet inconnu. J'ai raconté notre histoire. Elle était, vois-tu, racontable. Quatorze ans que je n'avais pas retrouvé... le gôut d'un amour impossible. Depuis Nevers. Regarde comme je t'oublie... Regarde comme je t'ai oublié. Regarde-moi. Riva pretende, dando vida, dando materialidade à lembrança, relegá-la ao sono do esquecimento; mas isto não é possível: o que aconteceu nas trevas de Nevers é indelével, e o presente em Hiroshima, que jamais se afirma como possibilidade real de vigência, é desde sempre passado em sua fugidia transitoriedade. A ilusão da lembrança como parteira do esquecimento se desvanece assim como a longa noite de Hiroshima se dissolve na aurora interminável de Nevers...



No ocaso de sua inquietante jornada, Riva e Okada reconhecem sua derrota na tentativa de reinventar o presente a partir do esquecimento. Hi-ro-shi-ma... Hi-ro-shi-ma. C'est ton nom, ela diz; replica ele: C'est mon nom. Oui. Tom nom à toi est Nevers. Ne-vers-en-Fran-ce. Ambos admitem, por fim, o desalento de sua posição na ordem do mundo, a impossibilidade do esquecimento como redenção e o peso intolerável de sua identidade e memória, e o universo reconstrói-se "sem ideal nem esperança..."

Devaneio onírico à sombra das policromias de nevóas oscilantes...

Devaneio onírico à sombra das policromias de nevóas oscilantes que, na hipnose lunar das miasmáticas madrugadas tartáricas, envolvem os melancólicos contrafortes do Bastiani...



Numa das mais antigas galerias comerciais da cidade de Ooth-Nargai, uma imponente estrutura em pórfiro, adornada por magníficos vitrais purpúreos, representando seres vagamente semelhantes aos sibilantes simurgs da sulfurosa Shandelarash, pavimentada por lajes de mármore negro e azul, e encimada por um teto rendilhado em hipnóticas abstrações geométricas que, de certo modo, evocavam as evanescentes muralhas de Evantarek, havia, segundo me disseram, uma fabulosa loja de discos, especializada em obras raras, e que possuía em seu acervo gravações de peças jamais lançadas, e até mesmo, especulava-se, registros de músicas imaginárias... Morando nos arredores da cidade, cujo centro parecia estar a cada ano mais distante, era-me custoso ir até a galeria, uma vez que para nós, criaturas periféricas, tornava-se difícil a orientação nos meandros labirínticos de uma arquitetura lúgubre e ominosa; a necessidade, contudo, haveria de resolver a questão: um antigo pagamento, já há muito prometido, finalmente estava à minha disposição. A sensação de poder gerada pelo dinheiro (uma quantia bastante razoável, asseguro-lhes) encorajou-me a procurar a famosa loja; para minha grata surpresa, não foi uma tarefa das mais árduas. O majestoso edifício rubro era uma construção única, distinguindo-se facilmente na monotonia cinzenta da paisagem urbana.

Ao atingir os majestosos portais de ônix que guarneciam sua entrada, percebi o profundo silêncio que emanava da galeria, em flagrante contraste com o ruído que se poderia esperar de um centro comercial. Um oceano iridescente de radiações cintilantes, que jorravam em sucessivas rajadas dos vitrais escarlates, envolvia o longo e largo corredor num tiroteio de reflexos flamejantes, fornalha infernal de nácares sangüíneos; as lojas, todas de igual tamanho, e com seus nomes cravejados em letras de bronze de feitio similar, estavam fechadas, o que não era de se esperar na manhã de um dia de semana. Decepcionado, e, em certa medida, um pouco aturdido, continuei percorrendo a galeria, apenas para me certificar de ser esta a correta localização da loja. Alguns passos depois, estava diante de um letreiro que dizia: MÚSICA DAS ESFERAS; não podia haver qualquer dúvida. Todavia, à diferença dos demais estabelecimentos, um delgado feixe de luz escapava pelo vão das portas de jade que a encerravam; além disso, uma inexplicável sensação de movimento parecia indicar que a loja estava funcionando. Convencido por estes indícios, animei-me a entrar. No mesmo instante, a tênue luminosidade deu lugar a uma penumbra indistinta, e o movimento evaporou-se em uma sala vazia, desprovida de móveis ou quaisquer outros objetos.

Era-me custoso acreditar no que estava vendo: não havia nada, qualquer vestígio de um ambiente ocupado por um ser vivo, mas apenas um deserto de rudes paredes de granito há muito esquecidas; todavia, a curiosidade me impelia, precisava descobrir algo que me dissesse o que ocorrera. Até que, em meio às sombras, esbarrei em uma pequena tabuleta pendurada na parede dos fundos. Aproximando-a dos olhos, pude ler os seguintes dizeres:


Em virtude da realização de obras para ampliação da loja, com o objetivo de proporcionar mais conforto aos nossos fregueses, estamos funcionando provisoriamente no subsolo da galeria.

Agradecendo antecipadamente vossa compreensão,

A Gerência



Apalpando mais detidamente, descobri tratar-se não de uma parede, mas de uma porta; e então pensei, com revigorada, embora não muita sincera disposição, que o desejo de conhecer o legendário estabelecimento não me seria afinal negado...

O que vinha a seguir era um longo, escuro e estreito corredor, bafejado por lufadas sucessivas de um mofo ancestral, o que parecia indicar um abandono secular; no fim do caminho, deparei-me com o início de uma escada em espiral. A diáfana claridade, entrevista depois do sexto ou sétimo degrau, dava-me direito a acreditar que meu destino estava próximo; expectativa que, no entanto, desapareceu assim que transpus o oitavo degrau. Continuei descendo e, para meu espanto, os reflexos de luz periodicamente surgiam e desapareciam, num ritmo ditado por um mecanismo misterioso, cujo compasso, em sua insólita intermitência, escapava à mais sutil das lógicas.

Dezenas de degraus mais tarde, desembarquei em uma pequena sala retangular, decorada apenas por um imenso candelabro de prata, engastado com minúsculas safiras, esmeraldas e rubis formando singulares mosaicos; a visão do conjunto despertava sensações de um passado cruel e inaudito; meditei, por alguns instantes, a respeito do eventual significado que tais engastes poderiam encerrar, mas não logrei encontrar uma resposta razoável. O impulso de seguir adiante, contudo, ainda predominava sobre a profunda inquietação que a enigmática peça suscitava; prosseguir era, portanto, imperativo.

O local conduzia a uma outra escadaria, esta mais ampla e ventilada, iluminada fracamente por archotes dispersos em suas paredes de pedra; um murmúrio, a princípio indefinível, chegava a meus ouvidos. Enquanto descia, o zumbido gradativamente transformava-se em algo semelhante a vozes humanas. Intrigado, parei de descer de colei a orelha a uma das paredes: tive então plena certeza de que se tratavam de vozes humanas. Porém, quando estava prestes a extrair alguma palavra da informe massa sonora, os sons desapareceram subitamente, dando lugar à mais impenetrável quietude, um manto noturno de silêncio que desvelou-se sobre tudo. Voltando a descer, notei que a distância entre as paredes começou a estreitar-se; em poucos instantes, tornou-se exíguo a ponto de dificultar até mesmo a passagem de um homem esguio como eu. Todavia,após longos minutos de aflição, senti uma leve brisa acariciando-me o rosto. A aragem se intensificou passos à frente, trazendo algum alento, um sopro de esperança para meus debilitados sentidos; foi então que, de súbito, sem o menor alarde, um fortíssimo jorro de luz inundou-me os olhos.

A impetuosidade coruscante dos trovões brancos de energia pura que desabavam sobre mim, destruindo qualquer senso de percepção que porventura houvesse preservado, tornou quase imperceptível o momento sublime em que, abandonando a sufocante escadaria, voltei a caminhar livremente por um espaço amplo. Após longos minutos de espera, quiçá mais duradouros que as eternidades que nossas temerárias almas engendram, a tempestade de luz começou a suavizar-se, permitindo-me contemplar um dos mais impressionantes milagres cruéis que as instâncias supremas permitiram à obscura existência humana divisar: caminhava agora através de um monumental salão de mármore nacarado, iluminado por gigantescos lustres de cristal. A ausência de paredes, substituídas por imponentes fileiras paralelas de colunas dóricas, fazia com que os limites do local (se é que estes existem, fato que até hoje não pude comprovar) se dissolvessem nos confins de uma refração luminosa argentina, inacessível ao olho humano. O teto elevava-se à uma altura tão incomensurável, que os lustres, cuja dimensão deveria ser tratada em termos de dezenas de metros, transformavam-se em pequeninas lâmpadas bruxuleantes. A luz que emitiam, em contraste com o turbilhão que há pouco me assaltara a visão, conferia uma iluminação vaporosa, diáfana ao grandioso salão, dando ensejo à uma intrincada geometria de sombras e reflexos.

A medida em que prosseguia, começou a entrar em meu campo visual a presença de uma ciclópica coluna azulada, que se distinguia das demais não apenas por sua coloração diferente, mas por sua largura infinitamente maior do que a de qualquer coluna já concebida pela imaginação humana. Caminhando a passos rápidos em direção ao colosso silencioso, com a alma dividida entre a descoberta da redenção e a iminência da tragédia, comecei a observar algumas características da titânica estrutura. O topo, imerso nas sombras indistintas que envolviam o teto do salão, dava, entretanto, a nítida impressão de ultrapassá-lo; a base estava circundada por manchas negras, talvez dejetos acumulados ao longo de anos, séculos, talvez milênios; e por fim, a característica mais misteriosa: a coluna era percorrida de cima a baixo por um incessante ponto luminoso.

Após algumas horas de angustiosa peregrinação, dois enigmas estavam solucionados: os detritos que pejavam a base do monumento nada mais eram do que dezenas de corpos humanos, espalhados ao seu redor e em torno de outras colunas; e o anteriormente pequenino ponto luminoso convertera-se num monumental elevador de portas de bronze. Aterrado, aproximei-me dos corpos que emolduravam a coluna principal. Ali jazia um amontoado de homens e mulheres de diferentes idades e raças, cujo único ponto de convergência era o fato de todos estarem trajados de negro. Chegando mais perto, verifiquei que não estavam mortos; ao contrário, respiravam com sofreguidão, e tinham suas faces de máscara de cera iluminadas por olhos invariavelmente arregalados. Percorrendo a base da coluna, notei que um deles, um homem de meia-idade, cujo rosto era adornado por uma copiosa barba ruiva, ainda conseguia manter-se sentado e, por instantes, parecia mover lentamente os olhos. Ajoelhei-me, então, diante dele, e perguntei: "o que está acontecendo?" Percebi que seus olhos cinzentos me encaravam, mas a boca escancarada não emitia qualquer vestígio de som. Exasperado, segurei-o pela gola da camisa e comecei a sacudi-lo, repetindo a pergunta. De repente, um balbucio chegou, remoto, a meus ouvidos: "est..." Encostei-me a sua boca e novamente o sacudi. O fragmento sonoro antes esboçado completou-se: "estamos esperando...". A perspectiva de decifrar aquele código secreto estimulou-me a insistir. Com os olhos cada vez mais esbugalhados, o espectro humano continuou com suas emissões intermitentes: "estamos esperando o momento..." , frase que repetiu algumas vezes. Depois disso, calou-se novamente. Furioso, agarrei sua cabeça, batendo-a com toda a violência contra a superfície da coluna.

Após este absurdo acesso de loucura, em que julguei tê-lo matado, percebi que continuava vivo, encarando-me com os mesmos olhos tetricamente abertos, com a mesma mudez impiedosa. Formulei, então, mais uma vez a pergunta; e enfim, o murmúrio, egresso das profundezas abissais daquele ser ausente, vinha à tona novamente, desta vez completo em sua alucinante lógica do inominável: "estamos esperando o momento de iniciarmos outra espera...". Desistindo de uma vez por todas de todo e qualquer sentido, larguei aquela massa inerte, recuei e dirigi meu olhar ao elevador, contemplei, paralisado, os números de seu enorme mostrador, que iam de 0 a 1000, estando este último número iluminado. Por longos minutos, projetado numa dimensão para além do espaço e do tempo, vislumbrei aquele inatingível sinal luminoso. Tão absorto estava naquela espécie de transe alucinógeno que mal percebi o vagaroso, porém contínuo, movimento iniciado pelo sinal de luz para baixo, acompanhado pelo imponente ponteiro do mostrador. Após mais alguns instantes de letargia, reparei que o elevador estava efetivamente descendo. Um frenesi de excitação incontrolável atravessou-me as entranhas; ia, enfim, me ver livre daquela legião de íncubos demoníacos, voltar para a superfície, para casa, para a periferia, para longe do centro da Terra, do vórtice funéreo... Mas quando o ponteiro, acompanhado por uma intensa luminosidade advinda da fresta entre as portas do elevador, atingiu o número 0, o pesadelo retornou em velocidade redobrada: os portões de bronze permaneceram fechados. Desesperado, esmurrei-os de todas as maneiras possíveis, tentei separa-los até o limite de minhas já esgotadas energias, num esforço vão, inútil. Em um espasmo de entendimento, compreendi em toda extensão de sua terrível e pavorosa simplicidade, o sentido das palavras sussurradas pelo espectro ruivo. Poucos minutos depois, o mefistofélico mecanismo voltou a subir, em seu ritmo imperturbável de coisa eterna e universal, presente desde o alvorecer dos tempos...

Nos primeiros dias, e talvez mesmo nas primeiras semanas, ainda esperei o momento da libertação, a epifania ansiada; logo, porém, parei de me indignar, de tentar reverter o irreversível. Gradativamente, sentei-me junto à coluna, e então, estendi-me, irresgatável, sobre a glacial superfície de mármore. Meus olhos não mais se fechavam; a boca, seca, escancarava-se num lamento sem voz. Nada mais me restava, para além da noite eterna do Tempo, senão esperar, continuar esperando pelo momento de iniciarmos outra...

_____

Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira do Norte - Deserto dos Tártaros

Monólogo Circular

Alphonse Van Worden - 1750 AD




.......?.......?.......?.......?.......?.......?.......?.......?.......?.......?
?.......?.......?.......?.......?.......?.......?.......?.......?.......?.......?

?.......?.......?.......?......., ao longo destes largos corredores, plenos de luz e sombra, de terror e magia, destas torres silenciosas, destas salas desertas, seqüências intermináveis de eventos intermitentes, sucessão de vagos fragmentos de lembranças olvidadas..., destas ruínas helênicas, sóbrias, imponentes, vácuos onde a luz dos séculos se desintegra em reflexos crepusculares, desta miríade de gárgulas inumanos, destes átrios insondáveis, sim, vórtice abissal de muitos, milenares passos em direção ao infinito....., ao longo destes labirintos, espelhos, espectros, delírios, presságios, penumbras, epifanias, minha mente se vê emaranhada na armadilha da memória, sorvedouro cósmico de passados e futuros dissolvidos na eternidade do instante, Aleph caleidoscópico do Universo visto em um grão de areia, curvatura infinita do espaço-tempo onde a existência se contrai no espasmo de um segundo, entropia crescente que pulveriza o transitório em incontáveis partículas de eternidade, galáxias de luz, tempo e tempestade, eterno retorno de sombras imemoriais, sim, moléculas de Deuses extintos, fragmentados em sonhos, lembranças do futuro, vaticínios do passado, assim como ainda ocorre nos rios de Heráclito, nos sibilinos labirintos do Bokari, na Escritura de Deus, e também nos majestosos palácios de Marienbad, e talvez, quem sabe, nos de Frederiksbad, onde as............................................................................

........................o ret....o.....rno. O longo e doloroso regresso. No início, apenas sons vagos e fluidos, ressonâncias longínquas de eras glaciais, murmúrios sussurrantes de vozes há muito esquecidas, o não-ser transformando-se no demoníaco enigma do existir, encarnação do "É", Caos da explosão inicial, caldo primordial dos aminoácidos da memória, tragédia tragicósmica-cosmicômica do ser encarcerado pela eternidade, tempo passageiro do que nunca existiu, prodígio das dimensões recônditas de um universo em vagarosa expansão, metamorfose múltipla do corpo do DEUS..., a seguir, imagens, íncubos das profundezas do tempo redescoberto, diáfana sinfonia de reflexos luminosos, etéreos vapores coloridos compondo um ballet translúcido de devaneios em forma de dríades, sílfides, naíades, orestíades, Ó dança sagrada das almas!!!......., DEPois, gradual, pausada, lentamente, a consciência, a memória, prolongado retorno de um sono secular, profunda letargia do inconsciente, dimensão ignota do esquecimento humano, paradeiro ignorado do ser, sim, agora começo a lembrar-me de que houve algo, de que fatos já aconteceram, efêmeros, fugazes, por vezes reais, eventualmente imaginários, pálidos efeitos da transcendência de um Topos Uranus inatingível, mas...., sim, houve algo, alguma vez houve olhares, acenos, sorrisos, gestos, afagos, ou ainda carícias, beijos, abraços, talvez até mesmo paixão, amor, amizade, lealdade, quem sabe pureza, solidariedade, justiça, ........ e houve, eu me lembro agora, porventura apenas uma vez, algum vislumbre de mudança, uma oportunidade, a alternativa real de uma possibilidade de........

..................., hoje, implacável, do desassossego a treva desvelou-se sobre mim, eterna melancolia ancestral, sem possibilidade de resgate ou redenção, a morte na alma irrealizada, o desejo compulsivo em sucessivas vagas que desagüam no caos, tudo inexprimivelmente morto, árido, desértico, silêncio da memória em busca de sementes que não germinaram, pulsão de vida desintegrada em milhares de pequeninas mortes que, infinitas, se prolongam, espírito fragmentado em lancinantes urros de dor que se desvanecem no vácuo do esquecimento, sim, vestígios das imemoriais borrascas do tempo, da do desalento interminável calmaria véspera sombria, eterno retorno de espectros que na alma não encontram perene sepultura, condenados a errar inclementes por intermináveis labirintos, a caminho da ruína transfinita, miríade de horrores na aurora das eras glaciais, desaguando, translúcidos, ao longo desses longos corredores, plenos de luz e sombra, de terror e de magia, dessas salas desertas,
seqüências intermin .......?.......?.......?.......?.......?.......?.......?.......?
.......?.......?.......?.......?.......?.......?.......?.......?.......?.......?
.......?.......?.......?.......?.......?.......?.......?.......?....

Reflexões, se calhar irrefletidas, ao cair da noite...




Alphonse Van Worden - 1750 AD 

*
 
- Tendo saudades do FUTURO, e deposito minhas esperanças no PASSADO... 

 - Eu sou o Senhor da Montanha; não que isso signifique algo, caso quisesse dizer alguma coisa... 

 - Não me preocupa a existência ou não de VIDA após a MORTE; o que me assusta, e muito, é que não exista MORTE após a VIDA... 

 - Não tenhas medo dos palhaços vestidos de torturador, mas sim dos torturadores vestidos de palhaço... 

 - A tirania perfeita é aquela em que podes pensar ou dizer o que bem entenderes, pois nada que porventura penses ou digas provocará qualquer efeito, despertará qualquer eco...

Devaneios ao nascer do dia, com algumas pitadas de delírio reflexivo e de reflexão delirante...




- A diferença entre dois 'sins' pode ser maior do que a que existe entre um 'sim' e um 'não'... 

- Cada um passeia seu pensamento como se passeia um macaco na coleira. Quando lês, tens sempre dois macacos diante de ti: o teu e o de um outro; ou, o que é ainda pior, um macaco e uma hiena. Vê lá o que darás para alimentar a um e a outro, pois a hiena não come a mesma coisa que o macaco... 

- Os atos dos homens são como alimentos, e os pensamentos e sentimentos são os temperos; quem salga as cerejas, ou tempera um doce com vinagre, terá problemas... 

- O sonho é um jardim do diabo, e todos os sonhos deste mundo já foram há muito sonhados. Hoje, eles são apenas trocados pela realidade igualmente gasta e usada, assim como as moedas e notas são trocadas de mão em mão... 

- Cada um é a cruz de sua vítima, mas os cravos atravessam também a cruz... 

*

Ten. Giovanni Drogo 

 Forte Bastiani 

 Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

Saudações!

Alphonse van Worden - 1750 AD





Gostaria de avisar a meus leitores, espectrais e imaginários, do passado e das anti-dimensões meta-temporais, onde a Lux Aeterna jamais se extingue, que convidei um de meus mais diletos confrades, o Tenente Giovanni Drogo, austero e melancólico oficial que serve no Forte Bastiani, na Fronteira Norte junto ao Deserto dos Tártaros, para juntos aqui publicarmos nossos escritos.

__________


ps: antes que o olvido me adormeça, um importante adendo: peço encarecidamente aos leitores espectrais, sobretudo aos que flutuam nas imediações das Torres Negras, que me informem sobre o que de facto ocorreu nas Ilhas Solitárias em 11/09/3689; desde já, agradeço-vos.