Alphonse van Worden - 1750 AD
“A história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.”
O 18 DE BRUMÁRIO DE LUÍS BONAPARTE (1852) / Karl Marx
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O célebre aforisma de Karl Marx foi exemplificado de forma particularmente eloquente e categórica numa fria manhã de inverno na capital romena, mais precisamente no dia 21 de dezembro de 1989, por ocasião de um comício organizado às pressas pela prefeitura de București, num derradeiro e desesperado esforço para conferir um último suspiro de legitimidade ao presidente Nicolae Ceaușescu, em meio à crise revolucionária que dias depois provocaria o colapso final do regime.
Não tratarei aqui das circunstâncias históricas em torno do evento, o que significa dizer que não falarei do panorama socioeconômico da Romênia nos anos 80; é matéria conhecida, creio eu, para qualquer um que se interesse pelo presente artigo.
Interessa-me aqui outra coisa: por um lado, discutir o estatuto, o sentido, o papel da decisão individual no âmbito da História; por outro, como esse debate se associa ao aforismo marxiano, aplicado no caso ao evento supracitado.
Não há como ignorar, tal como dispõe a teoria marxista, que o processo histórico é condicionado por fenômenos, dinâmicas e fatores coletivos operando em larga escala espaço-temporal. Todavia, se um determinado agente individual ocupa tal ou qual posição estratégica em virtude da ação de condicionantes coletivos, impessoais, não é menos verdade que no momento preciso e infinitesimal de uma tomada de decisão as forças históricas que desencadearam o processo estão ausentes. O instante da decisão é, portanto, um ato de jaez essencialmente solitário e intransferível para o indivíduo que ocupa o local exato na hora exata; e mesmo nos casos em que o rumo a ser tomado está a cargo de um colegiado, podemos afirmar que o grupo de homens responsáveis por aquela está no momento da decisão isolado das instâncias coletivas que porventura o engendraram; cabe falar, destarte, de uma sutil e complexa dialética coletiva/individual como força motriz da História. O processo histórico é, com efeito, um movimento de contínua retroalimentação dialética, onde as esferas individual e coletiva intercondicionam-se mutuamente.
O que efetivamente acontece envolve, de facto, uma dialética deveras complexa e sutil. Ocorre-me agora que o contexto onde ela se manifesta de forma mais cabal é no âmbito de uma batalha ou campanha militar. Suponhamos o Marechal X, comandante-geral das forças terrestres de Y, no átimo infinitesimal em que, debruçado sobre pilhas de mapas, gráficos e informes do front, deve se decidir pelo deslocamento do grosso de seus efetivos para os pontos A e B, de modo a envolver o inimigo Z num movimento de pinça pelos flancos, ou para o ponto C, cortando as linhas de suprimento do inimigo e formando uma reserva estratégica, na expectativa de que Z tome a iniciativa, para só então desfechar um contra-ataque.
Pois bem: a meu juízo, a interferência do processo histórico multitudinário e anônimo, que eventualmente colocou X naquela posição naquele exato momento, é assaz irrelevante. Naquele instante preciso do espaço-tempo, a tomada de decisão será individual, refletindo as qualidades pessoais de X: sua inteligência, percepção, sensibilidade, formação técnica, cultura histórica e estratégica. Não há como, portanto, ignorar o vastíssimo acervo de decisões essencialmente solitárias embutidas em qualquer processo macro; outrossim, as probabilidades existentes no âmbito da análise combinatória de todas as decisões individuais envolvidas em qualquer processo macro certamente tende ao infinito, de modo que estabelecer um cálculo preciso seria sumamente difícil.
E nisto retorno ao tópico da Revolução Romena de 1989; para tanto, lançarei mão de duas passagens do primeiro capítulo de THE ROMANIAN REVOLUTION OF 1989: MYTH AND REALITY - MYTH OR REALITY? (1995), magnífico trabalho do historiador britânico Peter Siani-Davies, que me parecem particularmente ilustrativas para nossa discussão, qual seja, a dialética entre agentes coletivos x aspectos individuais e até mesmo a intervenção de circunstâncias aleatórias como fatores determinantes em eventos históricos.
São elas:
“(...) Then, following an introduction by Petrescu, Ceausescu approached the rostrum and began to speak at 12.31. Barely had he begun passing through a few brief introductory sentences when he was interrupted by high-pitched screams and considerable commotion within the crowd. Quickly the live transmission on radio and television was broken to be replaced by a choir singing patriotic songs, but not before the look of startled bemusement on Ceausescu’s face had been captured by the cameras and fixed in the minds of viewers throughout the country. Many Romanians trace this moment as the turning-point at which they realised the frailty of Ceausescu’s grasp on power and the possibility that his overthrow might be secured . It also seems probable that similar thoughts were passing through the minds of many of Ceausescu’s senior Party colleagues and the commanders of the security forces, who perhaps began to think seriously about the possibility of a political succession.”
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“The commotion caused the screens to remain blank for three minutes but the source of the disturbance has never been properly determined. Some have suggested it was the result of loud noise, possibly caused by a deliberate act such as the letting off of a firework, and Postelnicu has stated that this was the opinion of those on the balcony, but equally it may have come from an entirely accidental source, such as a collapsing lamp stand. The noise made the crowd, already tense and rife with rumours, begin to panic and push and shove in all directions and, simultaneously, or possibly shortly afterwards, some muffled protests were shouted from its midsts, although these were only loud enough to be indistinctly picked up by the recording microphones.”
Já à partida, duas observações preliminares:
a) obviamente o cenário para a tragédia já estava preparado; os atores - coletivos e individuais - todos no palco; o texto decorado; o mise-en-scéne ensaiado, em suma, tudo meticulosamente preparado. Não obstante, o DEUS EX MACHINA talvez tenha sido, como Siani-Davies assinala, a expressão facial de perplexidade, consternação, em última instância inquietação, medo e fragilidade de um SOBERANO que sente que o poder está enfim escorrendo através de seus dedos, com o efeito devastador E catalisador que essa imagem, transmitida ao vivo e em cores, suscitou tanto entre os SÚDITOS quanto no seio da CORTE;
b) a possibilidade de intervenção do acaso, do elemento fortuito, aleatório: teria sido a comoção ao fim e ao cabo desencadeada pela queda de um prosaico holofote, ‘efeito borboleta’ capaz de precipitar o imponderável numa atmosfera ionizada por extrema tensão, aflição, revolta, ressentimento e sobressalto?
Dito isto, chego ao argumento central deste artigo, que doravante irei propor aos senhores: naquela fatídica manhã de inverno, antes de Nicolae Ceaușescu assomar à sacada do prédio do Comitê Central do PCR para iniciar seu discurso final, o SOM & A FÚRIA tanto de seu regime quanto de sua figura de algum modo ainda se sustentavam; efêmeros cinco minutos mais tarde, após a comoção causada até hoje não se sabe bem pelo que - sinalizadores, rojões, a queda de um holofote, de um prosaico tablado de madeira - amainar um pouco, quem retorna à sacada já não é o temível autocrata que galvanizara multidões, mobilizara céus & terras, governara a ferro e fogo toda uma nação por 25 anos, mas sim um velho frágil, trêmulo e titubeante, um soberano destronado cercado por cortesões traiçoeiros e inquietos, às voltas com o crepúsculo agônico e soturno de seu reinado. O que portanto se iniciara como TRAGÉDIA ora se consumava como FARSA: em seu inexorável, inelutável encontro com o Terrível Destino, Ceaușescu fora reduzido a um SIMULACRO - em virtude de um maquinário infernal que ele próprio colocara em movimento, engrenagem por engrenagem.
Analisemos tudo isso mais acuradamente, sob diferentes perspectivas e linhas de fuga.
- O momento infinitesimal em que Ceaușescu brada “Alô! Alô!”, e a expressão de seu rosto passa num instante da arrogância do triunfo à perplexidade da derrota, constitui o que o filósofo francês Roland Barthes talvez chamasse de um punctum histórico, vale dizer, o pormenor, o detalhe numa imagem que abala emocionalmente o espectador, indo além do quadro mais amplo. O poder autocrático lastreia-se em boa medida numa mística da invulnerabilidade: quando as câmeras capturam o medo de Ceaușescu, esta mística se desagrega. O gesto do operador de câmera e a reação fisiológica do autocrata atuam como o elemento catalisador que provoca a reação em cadeia da massa. A demonstração nua e crua de fragilidade, sem quaisquer truques ou subterfúgios, converte o que até então era mais uma demonstração de insatisfação popular, como tantas e tantas outras no passado, numa verdadeira revolução.
- A hipótese do ‘holofote que cai’, ou mesmo do sinalizador que dispara acidentalmente, é verdadeiramente o epítome do Efeito Borboleta como agente da História. No âmbito da física teórica, existe um conceito denominado ‘criticalidade auto-organizada’ que de certo modo também ilustra essa questão: suponham um monte de areia onde acumulamos grão após grão; com o passar do tempo o estado do sistema chegará a um grau de tensão tal que qualquer grão - o próximo, por exemplo, em tudo y por tudo idêntico aos anteriores - poderá desencadear o colapso, o desmoronamento total.
- A conclusão é inescapável e absolutamente saborosa, fascinante: o holofote tombado, o sinalizador acidentalmente disparado, o tablado de madeira quebrado, em suma, um objeto inerte y inanimado teve mais influência histórica naquele instante do que séculos e mais séculos de acúmulo de forças produtivas, para infinito horror e consternação de miríades de marxistas. E somos outrossim obrigados a admitir que a História não descreve uma trajetória linear, mas evolui por espirais de bifurcações caóticas.


