sexta-feira, maio 01, 2009

Robert Fripp: in the Progressive Kingdom of the New Wave Gentlemen

Alphonse van Worden - 1750 AD






Uma das características mais importantes, tanto em termos estéticos quanto, por assim dizer, ‘operacionais’, do rock’n’roll, é sua capacidade ímpar em amalgamar elementos e tendências provenientes das mais diversas latitudes espaço-temporais. Destarte, um dos traços que, a meu juízo, determina o grau de excelência d’uma banda e/ou artista, é sua capacidade de agregar o maior número possível de elementos e conexões sem, contudo, perder o senso de unidade formal; ou em outras palavras, de conjugar a um só tempo ampla informação estética, ousadia criativa e rigor estrutural, logrando, assim, levar a efeito uma obra que não se esgota em si mesma, mas que, pelo contrário, descortina todo um horizonte de possibilidades e perspectivas.

O disco em tela a meu ver encaixa-se à perfeição na descrição acima delineada: formula-se, com efeito, como um brilhante exercício de fusão entre prog crimsoniano, propulsão dançante, punk rock e ambiências industrialistas, onde se destaca a intricada geometria dos contrapontos pontilhistas traçados pelo ataque conjunto da guitarra de Robert Fripp e do piano elétrico de Barry Andrews (XTC, Shrieckback), dinâmica que se ancora na vigorosa e hipnótica 'cozinha' de Sara Lee (Gang of Four, B-52's) e Kevin Wilkinson / Johnny Toobad; trata-se, pois, d’um estupendo trabalho de aggiornamento das complexas estruturas do rock progressivo através d’uma abordagem mais direta e incisiva, aliando destreza instrumental e punch sonoro. Não obstante, causa-me verdadeiro assombro, tendo em vista a megalomaníca pulsão por relançamentos que caracteriza mr. Fripp, que este precioso material esteja tão somente parcialmente disponível em formato digital na coletânea God Save The King (1985 - reeditada em CD no ano de 1989, mas hoje fora de catálogo). Por mais que a referida compilação sintetize eficazmente os experimentos de Fripp com discotronics e sua carreira com a League, fazem muita falta os interlúdios ambient/industrialistas presentes no álbum original da LOG (mormente a excelente seqüência “Indiscreet” I, II e III, na primeira das quais Sara Lee brada a pérola "rock'n'roll is about fucking!"), assim como a excelente “Minor Man” (com direito aos vocais schizo de Daniele Dax), uma das melhores músicas do disco; outrossim, parece-me inaceitável a opção de extirpar as 'found' voices antes presentes nas faixas “Cognitive Dissonance”, “HG Wells” e “Trap”, traço que lhes conferia um sabor deveras peculiar (por exemplo, como sobreviver sem o orgiástico orgasmo de miss Lee em “HG Wells”???)

Enfim, oh my brothers: The League of Gentlemen é indubitavelmente mais um trabalho a ser redescoberto, não apenas por ser um dos discos mais inteligentes, criativos e inusitados da longa carreira do 'Rei Escarlate', mas também como verdadeira aula magna de bom gosto e aventura sonora num contexto em que tanta porcaria pretensiosa e inócua é apresentada como supra-sumo da sofisticação musical (alô alô, Radiohead!).


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