sexta-feira, agosto 01, 2008

Realismo e Arte Revolucionária




Gostaria de tratar aqui, diletos confrades, da questão da estética "realista" (dominante em qualquer meio de comunicação contemporâneo) e de sua utilização como instrumento de doutrinação ideológica.

Uma das principais características invocadas pela retórica realista é a sua pretensão de levar a cabo uma expressão fiel da realidade. Não é difícil, vale dizer, perceber a falsidade de tal argumentação. Toda manifestação artística constitui, antes de tudo, um discurso; ou seja, se formula como representação sobre algo, se distinguindo, naturalmente, do que pretende representar, uma vez que "se A é A, é impossível que seja ao mesmo tempo e na mesma relação, não-A", como reza o princípio da não-contradição. Um discurso não pode se constituir como um expressão fiel da realidade justamente porque se trata de uma representação, de uma mediação entre o indivíduo e seu objeto de consideração. Desse modo, a arte realista é, assim como todos os demais discursos que o homem produz, uma construção intelectual sobre o Real. E é justamente na ilusão que provoca de ser a própria realidade que reside o seu potencial de manipulação do pensamento.

A narrativa linear, característica marcante de toda a arte realista, é um dos mais poderosos instrumentos para a execução do projeto didático do realismo. Observando bem constataremos que, salvo raras exceções, todos os produtos veiculados pela indústria cultural e pelos meios de comunicação de massa fazem uso da narrativa linear. O realismo é, portanto, o estilo dominante na indústria cultural, pois permite que toda uma série de condicionamentos ideológicos seja transmitida de maneira sutil, uma vez que o espectador não percebe que está diante de um discurso, de uma representação, acreditando estar diante da própria realidade. Enquanto isso, podemos notar que o distanciamento, condição necessária para que o espectador possa refletir sobre o que está vendo, é um dos elementos fundamentais da arte revolucionária, como podemos notar, por exemplo, de modo significativo, na obra de Bertolt Brecht, um dos maiores artistas revolucionários do século XX. É importante sublinhar que o artista revolucionário, ainda que obviamente comprometido com a transformação revolucionária da sociedade em que vive, não pretende doutrinar o público, mas oferecer propostas, possibilidades de discussão, alimentando o livre jogo das idéias e concepções, pois é de tal fonte que nasce a consciência revolucionária.

É fundamental salientar, todavia, que o realismo não é patrimônio exclusivo das manifestações culturais, por assim dizer, "conservadoras". O chamado realismo socialista, fruto maldito da política cultural do stalinismo, apesar de sua retórica falsamente revolucionária, se afirmou sim como um mecanismo importante da estrutura de doutrinação ideológica em massa do regime, sufocando a arte verdadeiramente revolucionária das vanguardas soviéticas da década de 20.

Em seu ensaio Arte Revolucionária e Arte Socialista, que integra o livro Literatura e Revolução (1924), o líder revolucionário Leon Trotsky, já preocupado com a possibilidade de uma Arte controlada pelo dirigismo político-ideológico, vê no acesso irrestrito ao patrimônio cultural da humanidade, e especialmente na elaboração de um novo paradigma artístico, o caminho para um humanismo revolucionário, que potencialize todas as dimensões do Humano.

Considerando a Arte como o ponto de encontro entre a matéria e o espírito, Trotsky acredita que a formação artística do indivíduo o libertará da mecanização ditada pela vida cotidiana, livrando-o do automatismo psíquico consumista da sociedade capitalista. Para o revolucionário russo, o processo de construção da nova ordem política e econômica deve ser forçosamente acompanhado pelo surgimento de uma nova consciência revolucionária, que estabeleça o humanismo socialista como base para relações humanas renovadas e solidárias. A Arte socialista deve expressar o sentimento da sociedade que se transforma, deve se manter em íntima conexão com as novas aspirações que o processo histórico traz em seu bojo. Realista ou abstrata, livre de "dirigismos" tacanhos e reducionistas, refletirá, não menos pela sua forma do que pelo seu conteúdo, a necessidade do homem, que deseja a sua emancipação, a angústia do povo que luta para se libertar. A arte será o espelho dessa realidade ou o instrumento que ajudará a transformar essa realidade. E, quando o homem superar a sociedade de classes e a alienação, ele retornará às suas fontes reais na sociedade, às suas raízes humanas. A arte confudir-se-á nas relações concretas do homem com o próprio homem, do homem com a natureza. Desse modo, a arte irá produzir uma nova consciência humanista, que irá alavancar o processo de fortalecimento das conquistas da revolução. Trotsky não admitia a arte dirigida, instrumento puro e simples de de propaganda partidária. A arte, como produto da vida social, reflete as realidades de uma época e todas as suas contradições. Não existe, dessa maneira, arte sem conteúdo ou tendência. Imprimir-lhe, contudo, o caráter de propaganda é converte-la de sistematização de sentimentos em sistematização de estereótipos. O Partido Comunista, no seu entender, não deveria interferir nas controvérsias e nas disputas entre as diversas escolas artísticas, assumir a posição de um círculo literário, mas salvaguardar os interesses históricos do povo no seu conjunto. Como que prevendo a degenerescência do stalinismo que, posteriormente, criou uma arte oficial, na verdade acadêmica e burocrática, sob o epíteto de "realismo socialista", Trotsky proclamaria: "a arte não constitui um terreno onde o partido possa mandar". O Partido pode e deve conceder um crédito de confiança aos diversos grupos que procurem, sinceramente, aproximar-se da Revolução, a fim de ajudá-los na sua realização artística.

A desumanização, a despersonalização do homem soviético, processo que foi alimentado pela política cultural implementada por Stalin e Zdanov, confirmou os vaticínios de Trotsky. A vigilância implacável do partido sufocou a criação artística, obstruindo a formação de uma verdadeira consciência socialista. Sem esta consciência, fundamental para a construção do socialismo em bases sólidas, o regime degenerou em um autoritarismo obscurantista, que após a morte de Stalin, deu lugar a uma estagnação permanente. O humanismo marxista foi substituído, de início, pelo terror de Estado, e depois, pela preguiça, pela inércia mental. O resultado desta evolução é conhecido por todos.O caso mais emblemático desta tragédia talvez tenha sido o suicídio, físico e "cultural", do extraordinário poeta e revolucionário soviético Vladimir Maiakovsky. Tachado pelos intelectuais oficiais do stalinismo como "incompreensível para as massas", o poeta respondeu-lhes, em uma de suas últimas obras antes do suicídio, o grande poema trágico A plenos pulmões, com a seguinte declaração profética: "depois de morto falarei como um vivo". Assassinado pelos coveiros da Revolução, Maiakovsky permanece cada vez mais vivo como o símbolo máximo de uma arte genuinamente revolucionária, libertadora de homens e consciências.






Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

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