domingo, junho 01, 2008

Apontamentos sobre a 'Revolução Conservadora' I - Gabriele D'Annunzio e a Reggenza Italiana del Carnaro



Ora proponho, ó diletos confrades d'armas, que falemos a propósito de figuras que de certa forma encarnaram, mormente no século XX, o ideal d'uma 'revolução conservadora'. Dando partida a nossos trabalhos, discorrerei brevemente a respeito do célebre poeta 'decadentista' italiano Gabriele D'Annunzio (1863 - 1938) e sua romântica aventura política com a Reggenza Italiana del Carnaro.

D’Annunzio (assim como o alemão Ernst Jünger, o russo Dmitry Svyatopolk-Mirsky, o também italiano Julius Evola, entre outros) encarna um fenômeno ideológico deveras contraditório e fascinante: a perspectiva de uma ‘revolução conservadora’, que por um lado se formula como revolta contra a ‘modernidade’, encarada como monstruoso amálgama entre a frieza pragmática da lógica contábil do capitalismo e a autoritária uniformização social do socialismo; e por outro, pelo ideal de um retorno às tradições da Europa pré-capitalista, sobretudo no que tange ao resgate do universo fechado, unitário e integrado da Gemeinschaft medieval (sentimento, aliás, sintetizado à perfeição pelo alemão Novalis em seu ensaio A Cristandade ou a Europa - 1799, que se inicia com as seguintes palavras: “Belos, esplêndidos tempos: a Europa era terra cristã, e a Cristandade habitava una este recanto de mundo humanamente configurado...”).

Muito bem: num dos episódios mais extraordinários e insólitos da acidentada gesta política do século XX, um heteróclito contingente de 9.000 legionari, incluindo desde marinheiros rebeldes e militantes anarquistas a ocultistas, artistas, marginais e almas dissidentes de todos os quadrantes, sob o comando de D'Annunzio, ocupou a cidade de Fiume (atual Rijeka, porto croata encravado na Baía de Kvamer, no litoral do Mar Adriático) no dia 12 de setembro de 1919. O exército invasor demandava a anexação do território tomado à Itália, medida rejeitada pelo governo deste país, que decidiu bloquear a cidade para forçar os revoltosos à rendição; em resposta, D'Annunzio decidiu, em setembro de 1920, estabelecer Fiume como sede de um novo Estado, a Reggenza Italiana del Carnaro, com a promulgação de uma constituição, a Carta del Carnaro, assinada a quatro mãos pelo escritor e pelo anarco-sindicalista Alceste De Ambris, que estabelecia, entre outras coisas, a música como princípio fundamental do Estado:

 LXIV. Nella Reggenza italiana del Carnaro la Musica è una istituzione religiosa e sociale.Ogni mille anni, ogni duemila anni sorge dalla profondità del popolo un inno e si perpetua. Un grande popolo non è soltanto quello che crea il suo Dio a sua somiglianza ma quello che anche crea il suo inno per il suo Dio. Se ogni rinascita d'una gente nobile è uno sforzo lirico, se ogni sentimento unanime e creatore è una potenza lirica, se ogni ordine nuovo è un ordine lirico vigoroso e impetuoso della parola, la Musica considerata come linguaggio rituale è l'esaltatrice dell'atto di vita, dell'opera di vita (...).

 O documento, diga-se de passagem, é considerado uma das peças mais interessantes e originais do pensamento utópico em todos os tempos.

Vale sublinhar que o ideário d'annunziano glorificava, por um lado, a violência guerreira, o orgulho nacionalista, a pulsão messiânica, bem como o desprezo pela democracia, qualificando-se assim, tal como o futurismo marinettiano, como um dos antecedentes diretos do fascismo; e por outro, rejeitava a propriedade privada, traço que permite associá-lo à augusta tradição da revolta messiânica anticapitalista ao longo dos séculos. Vejam, por exemplo, esta bela e significativa passagem, presente num dos discursos proferidos pelo rocambolesco condottiere:

"Para nós, 'navegar' significa lutar (...) O resultado da batalha tem, para nós, pouca importância. Para nós, o combate tem a sua recompensa em si mesmo, ainda que não seja coroado pela vitória ... Enquanto isso, navegar é preciso. Mesmo contra a maré. Mesmo contra o rebanho. Mesmo que o naufrágio espere os solitários e orgulhosos emissários de nossa heresia".

Durante pouco mais de um ano, quando as forças de D'Annunzio se renderam após um bombardeio da marinha italiana em dezembro de 1920, Fiume foi cenário de uma experiência de insurreição poética, irredentismo romântico flamboyant e revolução messiânica veramente inédita: a 'administração' resumia-se praticamente à promoção de concertos, banquetes, saraus literários e orgias delirantes, com seu extravagante duce declamando poemas todas as noites da sacada do palácio de governo, sob o troar de canhões e fogos de artifício.

É mister, por fim, compreender a galharda epopéia d'annunziana como emblemática etapa no périplo da GRANDE SÍNTESE, que, por um lado, se estabelece como a convergência política e filosófica entre todas as correntes ideológicas anticapitalistas e antiburguesas; e por outro, como todas as tradições esotéricas da revolta irracionalista contra a 'Realidade' ao longo da História. Para que tal dinâmica seja possível há ainda, vale dizer, inúmeras arestas e incompreensões mútuas a serem aparadas; séculos de mal-entendidos (não raro disseminados por nossos adversários); ressentimentos; discrepâncias conjunturais de ordem política; enfim, toda uma série de equívocos e distorções, conscientes ou não, de maneira que o estudo de episódios como a Regenza del Carnaro revela-se como exercício de reflexão política deveras necessário e salutar para a concretização da auspiciosa Síntese político-messiânica adrede mencionada.


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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

4 comentários:

Henrique disse...

Há tempos li numa comunidade do Orkut ensaio teu que versava sobre a miséria espiritual contemporânea, apresentando - salvo melhor juízo - uma descrição das etapas de degeneresência moral que esta abrange. Julguei o texto tão oportuno, e os seus conceitos, tão encontrados, que entendi guardá-lo na memória. Trago agora parte dos pensamentos voltados para o tema, de maneira que me apetecia relê-lo. Farias, pois, o favor de me enviar uma ligação?

Grato,
Henrique.

Alphonse van Worden disse...

Agradeço imenso pelos alvissareiros elogios, confrade! Eis o link para o artigo em tela:

http://worden.blogspot.com/2007/09/
algumas-consideraes-sobre-
violncia.html


Cordialmente,
AVW

Fernando disse...

O tempo do heroísmo morreu, confrade, infelizmente! Quando que hoje alguém seria maluco, ou romântico, ou corajoso, ou ingênuo, ou tudo isso junto, só que em doses cavalares, para se meter numa aventura revolucionária dessas, tanto mais porque se fazendo secundar por um punhadinho de alguns milhares de abnegados companheiros?! Ou então, em chegando ao poder, decretar a música como elemento basilar do novo Estado?! Já pensou um Estado cuja finalidade fosse tão-somente a realização de todas as potencialidades estéticas de seus cidadãos, um verdadeiro "estado como obra de arte"?

Qual nada, seja à direita, seja à esquerda, essas coisas perderam-se definitivamente nas brumas de um passado, não seria exagero dizer, cada vez mais idílico em face da desperta crueza dos tempos atuais...

E tudo por quê?! Porque os heróis inexistem mais, confrade, tombaram em face do pior inimigo que pode haver para a individualidade: a mediocridade, o domínio dos medianos, dos que não estão nem muito acima da média, nem muito abaixo desta.

E com eles, os heróis, morreram um pouco dos gênios também.

Não estranha serem os tempos de hoje tão sinistros...

Alphonse van Worden disse...

Excelente comentário, confrade, e tragicamente pertinente, vale frisar... com efeito, vivemos hoje sob o cinéreo império da mediania, do pragmatismo medíocre, dos consensos pré-moldados e das idéias pré-fabricadas... tristes tempos, enfim!

Cordialmente,
AVW