domingo, julho 01, 2007

Notas de reflexão crítica VI - ouvir música: um 'ritual' em extinção?

Alphonse van Worden - 1750 AD






- Antes de avançar no tema propriamente dito desta breve nota, ó insignes confrades, devo à partida fazer duas observações preliminares:

1) Obviamente não estou aqui a referir-me ao ato de ouvir música lato sensu, mas sim numa acepção stricto sensu, isto é, o ato de ouvir música isolado de qualquer outra atividade, seja navegar pela internet, fazer ginástica, conversar, trabalhar, etc.

2) Malgrado haja um fortíssimo componente geracional embutido, não creio que a questão que abordarei diga respeito tão somente aos jovens; tenho certeza, por exemplo, de que uma parcela significativa dos participantes deste fórum, os mais jovens também inclusos, aprecia imenso escutar música stricto sensu.

- Isto posto, creio que a maioria de vós concordará que o ato de ouvir música como 'ritual' auto-suficiente, que se basta a si mesmo, tragicamente está em extinção. No bojo da 'geração mp3 / iPod', escutar música é cada vez uma atividade 'acessória', secundária, caudatária de alguma outra lide, tal como as que acima mencionei: o sujeito hodiernamente trabalha E ouve música; navega pela internet E ouve música; exercita-se E ouve música, etc. Assim sendo, ouvir música como imersão total num universo estético/ conceitual paralelo, regido por parâmetros únicos, de todo distintos de nossos estados de consciência mais prosaicos, torna-se um prazer mais e mais restrito a um punhado de melômanos em extinção, verdadeiros dinossauros na era do automatismo psíquico.

- Seria possível aventar toda sorte de causas para o fenômeno supracitado, que podem ir desde razões de cunho pragmático-ideológico (a restrição do tempo disponível para hábitos que são fim e ao cabo 'improdutivos' para a mentalidade mercantilista que impera em nossa época); operacional (a praticidade de se escutar arquivos em mp3 no computador); e até mesmo psicológico (o crescente déficit de atenção que afeta as novas gerações, facto diagnosticado por recentes estudos médicos, que atestam o aumento do índice de neonatos hiperativos a cada década). Tais considerações por si só já constituíram food for thought para muitos debates, mas gostaria também de enveredar aqui por reflexões de outro jaez, a saber: uma transformação tão radical na 'fenomenologia' do escutar música provocará (ou mesmo já estaria a provocar) profundas metamorfoses na própria 'ontologia' da criação musical? N'outros termos, desta feita de ordem econômica: tamanha alteração no hábito de 'consumir' música modificará de forma sensível o ato de 'produzir' música?

- Por fim, gostaria de abordar uma questão de índole decerto subsidiária, no quadro do tópico em pauta, mas de todo modo relevante. Muito embora o processo que descrevi certamente reverbere a situação analisada por autores da kulturkritik frankfurtiana como Adorno e Benjamin, há a meu ver uma distinção crucial entre eles: se a reprodução fonomecânica facultou, é verdade, que o 'ritual' de ouvir música fosse transplantado da esfera pública para o âmbito privado, bem como perdesse sua aura de experiência única, irredutível à repetição, ela não impediu, contudo, que o ouvinte 'mergulhasse' na obra; muito pelo contrário, potencializou à enésima potência tal possibilidade, tendo em vista ter permitido que pudéssemos escutar uma mesma peça musical quantas vezes quiséssemos. A dinâmica a que aludi, por seu turno, se estabelece exatamente na contramão de tal processo, pois representa a transformação do ato de ouvir música em complemento 'agradável' de atividades tidas como 'práticas' ou 'úteis'; ademais, sempre entrevi uma contradição flagrante na crítica cultural frankfurtiana: a invenção da imprensa, que entre outras coisas facultou a criação do conceito humboldtiano de universidade, sem o qual o próprio Adorno sequer teria sido possível, é também um processo de reprodução técnica, que consoante tal perspectiva fatalmente também subtrairia a 'aura' da transmissão do conhecimento como ritual exclusivista restrito ao mestre e discípulos, ou então a 'nobreza' estética do livro artesanal, pejado de iluminuras; destarte, a cultura permaneceria como apanágio da aristocracia, e Adorno, homem egresso da pequena burguesia, a ela jamais teria tido acesso.

5 comentários:

Elaine disse...

A música, seja de que estilo for, virou apenas mais um produto na prateleira das lojas. Isso ocorre não só por causa do mp3 e do iPod, mas também pelo fato das pessoas terem cada vez menos tempo para se dedicarem a atividades culturais e educativas. Infelizmente, penso que tal quadro seja irreversível.

Elaine disse...

Sua pergunta: "tamanha alteração no hábito de 'consumir' música modificará de forma sensível o ato de 'produzir' música?"

R: Mas isso já ocorre, não? Boa parte das músicas lançadas no mercado nos últimos tempos são músicas de fácil assimilação, que não exigem muito do ouvinte. Um artista de uma grande gravadora que queira dar uma de Frank Zappa, provavelmente terá suas asas cortadas.

Músicas que apresentam um grau maior de criatividade e complexidade estão cada vez mais restritas a pequenos grupos.

Alphonse disse...

Hmmm... estava me referindo mais à questão puramente formal, isto é, ao modo de se fazer música...

De todo modo, excelentes observações, muito obrigado! ;-)

Abelardo disse...

Impressão minha, ou a moça apenas reiterou tópicos já abordados no post?

Alphonse disse...

Puo essere...