quinta-feira, novembro 25, 2004

T.S.Eliot: Tempestade e Ímpeto de WASTE LAND

Alphonse van Worden - 1750 AD





Em 1922, sob a égide do profundo desalento espiritual gestado nos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial, o poeta, crítico literário, dramaturgo e pensador anglo-americano Thomas Stearns Eliot (1888 - 1965) publicava seu mais significativo poema, “The Waste Land”. A sombra da morte e do terror, há pouco tempo estampada na face de milhões de homens impiedosamente ceifados, ainda assombrava, pois, uma Europa mergulhada num vórtice de caos, desespero e destruição. O poema de Eliot, entretanto, mesmo que caudatário do báratro de horrores da I Grande Guerra, logrou alcançar ao longo dos anos uma permanência e abrangência universais. Muito mais, portanto, que mero reflexo de um contexto histórico específico, “The Waste Land” é talvez o mais atroz e intenso painel do ceticismo cósmico, da ruína moral e da aridez espiritual que se apossaram do mundo contemporâneo; é, por um lado, a manifestação de uma flamejante revolta frente à tamanha mortificação e, por outro, a constatação amarga de nossas imensas vicissitudes para reverter tal estado de coisas.

Dividido em cinco partes, o poema estrutura-se a partir de três núcleos temáticos centrais: 1) o contraste entre os valores perenes da civilização ocidental e o esvaziamento progressivo de tal legado nas manifestações religiosas e culturais da modernidade, caracterizadas por uma vacuidade histriônica e neurótica; 2) o pragmatismo espiritual do homem contemporâneo, ser avesso ao substrato mítico e religioso que lastreia seus alicerces históricos e culturais, em ruptura flagrante com as raízes mais atávicas de sua própria existência; 3) a necessidade, no seio do Ocidente, de um amplo processo de ascese espiritual. É possível ainda identificar, no seio de cada um dos supracitados núcleos, uma sucessão de motivos que vão se encadeando sinfonicamente no decorrer do poema; e é na articulação, na agregação progressiva deste continuum temático que T.S.Eliot conduz o leitor ao que constitui o objetivo precípuo de sua obra: uma grave e solene meditação sobre a crise espiritual do Ocidente.

Em “The Waste Land” se configura, portanto, a tragédia de uma humanidade que perdeu a fé no sentido mais profundo e vital da existência. A terra desolada e estéril, que precisa ser fertilizada para que possa renascer, se reflete, nos diz Eliot, no horizonte sombrio de uma cultura exaurida, um mundo caótico e destituído de ideais, uma civilização agonizante e descrente, onde os valores tradicionais foram abandonados em nome de perversões tais como a psicanálise, o cientificismo positivista e a filosofia de Nietzsche. O poema, como muito bem sublinha a crítica literária norte-americana Helen Gardner, é um dos passos - o do Horror - por meio dos quais a poesia de Eliot caminhou do Tédio (em “Prufrock and other Observations”, primeiro volume de versos do autor, publicado em 1917) à Glória (em “Ash-Wednesday”, de 1930 e, sobretudo, nos “Four Quartets”, de 1943). “The Waste Land” expressa, pois, na trajetória de Eliot, o momento em que o espírito religioso começa a compreender a verdade da condição humana: o princípio da sabedoria é o temor a Deus.

A imagem recorrente do poema é a de uma terra devastada (a civilização ocidental), que precisa reviver, recuperar sua seiva vital, seus alicerces mais profundos. Para Eliot, somente um amplo movimento de retorno à Tradição (religiosa e cultural) poderá restabelecer o equilíbrio espiritual do Ocidente. Na obra em questão, tal movimento se realiza por meio de uma releitura dos pontos culminantes da cultura universal através dos tempos. Valendo-se de uma poética fragmentária, onde criação e citação se entrelaçam numa tessitura labiríntica, o autor lança mão de um vastíssimo espectro de referências, dentre as quais podem ser destacadas: alusões a diversas passagens da Bíblia, sobretudo do Velho Testamento; os ritos de fertilidade e mitos indo-europeus descritos pelo antropólogo inglês James Frazer, no célebre “The Golden Bough”, bem como pela norte-americana Jessie L. Weston em “From Ritual to Romance”; elementos das tradições védicas e hinduístas presentes nos Upanishads; arquétipos míticos como o Fisher King e Sir Parsifal, personagens do ciclo de lendas do Santo Graal; e, finalmente, citações literárias de autores como Dante Alighieri, James Chaucer, Edmund Spenser, John Milton, William Shakespeare, Gerard de Nerval, Charles Baudelaire e Paul Verlaine, dentre outros.

Para o poeta anglo-americano, o homem contemporâneo, em sua cínica indiferença frente ao legado religioso e cultural de séculos de Civilização, não mais consegue compreender a si mesmo, e nem tampouco sua posição na ordem universal; de onde se segue, portanto, a necessidade premente de um retorno às raízes vivificantes da Tradição. Nos versos de abertura do poema ("April is the cruellest month, breeding / Lilacs out of the dead land, mixing memory and desire", v. 1-3), Eliot faz uma alusão aos “Canterbury Tales” de Chaucer, onde também encontramos uma jornada em Abril, a peregrinação anual ao santuário de Thomas Becket em Canterbury, na Inglaterra, em busca de regeneração espiritual. A jornada à procura de redenção é também a o itinerário de “The Waste Land”, na medida em que o poema parte da terra devastada espiritual e culturalmente em busca de uma terra prometida, onde a espiritualidade humana possa recuperar suas raízes essenciais.

A crítica levada a cabo por Eliot opera sempre em dois planos interpenetrantes: o de um Cosmo que se desagrega em Caos, e o do indivíduo que, imerso no Caos, deve empreender a ascese que lhe restitua o Cosmo perdido. Na II parte do poema ("A Game of Chess"), por exemplo, em meio a alusões ao esplendor refulgente da corte de Cleópatra ("The Chair she sat in, like a burnished throne, / Glowed on the marble, where the glass / Held up by standards wrought with fruited vines", v. 77-79), se entremeia a arrogância de uma mulher fútil e histérica, encarcerada num universo neurótico de carência e alienação ( "My nerves are bad tonight. Yes, bad. Stay with me. / Speak to me", v. 111-112); seus dias se dissipam no vazio melancólico de uma vida sem propósitos ( "What shall we do now (...) What shall we ever do", v. 131 e v. 134). Do tédio da elite somos transportados para um lúgubre pub da classe operária, onde Eliot, num memorável diálogo de frases curtas e entrecortadas, nos mostra uma mulher cuja vida é um esgotamento contínuo pela criação dos filhos, e que finalmente perde o que lhe restava de vigor em função de um aborto.

Para o poeta anglo-americano, aqueles que estão presos ao mundo material e ao corpo físico estão perdidos: são o solo infértil e estéril, a terra ressecada que domina as partes iniciais de “The Waste Land”. Esse solo árido necessita da chuva redentora para se fertilizar, o que só poderá ocorrer sob o primado da fé e da esperança. Na III parte do poema ("The Fire Sermon"), referências ao budismo e a Santo Agostinho são utilizadas por suas notórias restrições ao hedonismo, em contraste com descrições de um sexo sem Eros, comércio carnal sem amor, surtos de uma voracidade amorfa que consome indiscriminadamente corpos e almas deteriorados. As recorrentes alusões ao mito de Tristão e Isolda, com recurso a versos da ópera de Wagner, nos mostram o êxtase do amor, substituído pela desolação da perda depois da morte de Tristão, enquanto Isolda navega ao seu encontro, o retrato de um amor puro e genuíno, que se contrapõe à vulgaridade obscena do amor fetichista das paisagens urbanas contemporâneas.

O poema revela, portanto, seus temas centrais através de um labirinto de alusões e arquétipos alegóricos, onde passado e presente se interseccionam. Dessa maneira, o Fisher King, custódio do Graal, é uma das chaves simbólicas da obra, e a busca de redenção espiritual do homem contemporâneo é paralela à demanda pelo Santo Graal. O Fisher King perde o controle do cálice sagrado depois de ser ferido e ficar impotente. Sua impotência e infertilidade refletem-se em seu reino, que também se torna infértil; da mesma forma, a civilização ocidental perde sua vitalidade, ao abandonar os valores perenes da Tradição. O guardião do Graal fere-se após fazer sexo com uma pecadora; analogamente, o amor se degrada com o mercantilismo sexual da sociedade moderna. O Fisher King só pode ser resgatado por uma alma pura e inocente, o nobre Sir Parsifal, que o salva simplesmente por acreditar no Castelo do Graal e por perguntar-lhe: A quem serve o Graal, ou, num sentido mais recôndito, Quem é Deus? O soberano é então curado e seu reino é de novo tornado fértil. A peregrinação de Parsifal à Capela Perigosa é aludida na V parte do poema (What the Thunder Said), mas agora ela está em ruínas, tal como a civilização contemporânea, e não há certeza de que a busca possa ser completada.

Em seu encerramento, a obra de Eliot encaminha-se para as palavras do Trovão, para a tentativa de se recuperar o sentido sagrado da existência. O Trovão prenuncia a possibilidade de chuva, e, portanto, de redenção para a terra devastada. O termo usado por Eliot advêm do “Brihadaranyaka”, um dos Upanishads védicos, e representa um caminho capaz de regenerar o indivíduo e a sociedade. O significado do Trovão pode ser esclarecido pela seguinte expressão, também mencionada pelo poeta: Datta (dar), Dayadhvam (autocontrole), Damyata (mostrar compaixão). Tal procedimento nos remete a uma postura em relação à existência que transcende o egocentrismo materialista do homem contemporâneo, e oferece uma via de redenção para a aridez espiritual que escraviza a sociedade ocidental. Não por acaso, tais alusões buscam a sabedoria na filosofia religiosa do Oriente, já que as tradições ocidentais foram profanadas, e pareciam, naquele momento da trajetória existencial de Eliot, irrecuperáveis. Os versos finais do poema, Shanti shanti shanti, que também se originam dos Upanishads védicos, podem ser traduzidos como A Paz que transcende a compreensão, o triunfo glorioso do Espírito sobre a morte e a matéria, síntese do Graal redentor almejado por Thomas Stearns Eliot em sua obra-prima.

Gostaria, nesse momento, de me deter com mais vagar em algumas passagens que são, a meu juízo, particularmente significativas para a visão de mundo que Eliot nos oferece em “The Waste Land”.

A primeira delas integra a I parte do poema ("The Burial of the Dead"):


What are the roots that clutch, what branches grow
Out of this stony rubbish? Son of man,
You cannot say, or guess, for you know only
A heap of broken images, where the sun beats,
And the dead tree gives no shelter, the cricket no relief,
And the dry stone no sound of water. Only
There is shadow under this red rock,
(Come in under the shadow of this red rock),
And I will show you something different from either
Your shadow at morning striding behind you
Or your shadow at evening rising to meet you;
I will show you fear in a handful of dust.



Nesta passagem temos, sem dúvida, alguns dos mais cruéis e terríveis versos lapidados pelo estro poético de Eliot. A Terra já não é mais um jardim harmonioso, nem tampouco o livro aberto cujos signos revelam os desígnios de Deus, mas um deserto inclemente, orco cinério onde agonizam os despojos exangues de tradições e valores outrora sagrados, mas hoje esquecidos. Onde antes andavam homens e seres vivos, sensíveis e vigorosos, agora vagam hordas de espectros, à espera de algo que ponha termo a sua jornada infernal. Os versos "What are the roots that clutch, what branches grow Out of this stony rubbish?" constituem uma clara alusão ao 'Livro de Ezequiel', do Antigo Testamento, onde o profeta nos adverte sobre a perda da fé e do desejo de purificação. O heap of broken images simboliza precisamente os fragmentos desconexos de uma sabedoria dissolvida pelo materialismo espiritual do Ocidente contemporâneo; e o medo apontado pelo profeta representa o penoso, mas necessário primeiro passo no caminho da ascese.

A segunda passagem que iremos examinar está contida, por sua vez, na III parte do poema ("The Fire Sermon"):


The river's tent is broken: the last fingers of leaf
Clutch and sink into the wet bank. The wind
Crosses the brown land, unheard. The nymphs are departed.
Sweet Thames, run softly, till I end my song.
The river bears no empty bottles, sandwich papers,
Silk handkerchiefs, cardboard boxes, cigarette ends
Or other testimony of summer nights. The nymphs are departed.
And their friends, the loitering heirs of city directors;
Departed, have left no addresses.
By the waters of Leman I sat down and wept...
Sweet Thames, run softly till I end my song,
Sweet Thames, run softly, for I speak not loud or long.
But at my back in a cold blast I hear
The rattle of the bones, and chuckle spread from ear to ear.

A rat crept softly through the vegetation
Dragging its slimy belly on the bank
While I was fishing in the dull canal
On a winter evening round behind the gashouse
Musing upon the king my brother's wreck
And on the king my father's death before him.
White bodies naked on the low damp ground
And bones cast in a little low dry garret,
Rattled by the rat's foot only, year to year
But at my back from time to time I hear
The sound of horns and motors, which shall bring
Sweeney to Mrs. Porter in the spring.
O the moon shone bright on Mrs. Porter
And on her daughter They wash their feet in soda water
Et, O ces voix d'enfants, chantant dans la coupole!



A metrópole contemporânea, terra dos homens corrompidos, é um abismo caótico onde a beleza e a sabedoria do passado se desagregam, vácuo onde a luz dos séculos se desintegra em reflexos crepusculares. As águas do Tâmisa, dantes férteis e límpidas, se transformam, com o advento da era industrial, em um repulsivo depósito de dejetos abandonados pelo hedonismo consumista que corrói corpos e almas. Nesses versos, inflamados por um sarcasmo sulfúrico, Eliot é inclemente: as ninfas, antes personificações do belo e do sublime, abandonaram este mundo de trevas acompanhadas pelos frívolos herdeiros dos especuladores da City. O poeta procura um refúgio, mas se depara com uma miríade de pesadelos atrozes: ratazanas em satânico gargalhar, destroços de sagas olvidadas, corpos em decomposição. E é, por fim, assaltado por espectros de sua própria criação, como o fútil e melífluo Sweeney, personagem de um ciclo anterior de poemas, que aqui retorna, ao lado da Sra. Porter, trasladado do bordel de “Sweeney Erect” (obra de 1920) para os miasmas putrefactos do Tâmisa. Mais uma vez, a ironia de Eliot se mostra virulenta: a água benta, que purifica os pés de Parsifal antes de sua entrada no santuário do Graal, se converte em vulgar água gasosa para uso de duas prostitutas. O belo verso extraído do “Parsifal” de Paul Verlaine, que encerra a presente stanza, acentua ainda mais a sátira feroz dessas estrofes.

A terceira e última passagem que aqui irei abordar se encontra na V parte do poema ("What The Thunder Said"):


AFTER the torchlight red on sweaty faces
After the frosty silence in the gardens
After the agony in stony places
The shouting and the crying
Prison and place and reverberation
Of thunder of spring over distant mountains
He who was living is now dead
We who were living are now dying
With a little patience

Here is no water but only rock
Rock and no water and the sandy road
The road winding above among the mountains
Which are mountains of rock without water
If there were water we should stop and drink
Amongst the rock one cannot stop or think
Sweat is dry and feet are in the sand
If there were only water amongst the rock
Dead mountain mouth of carious teeth that cannot spit
Here one can neither stand nor lie nor sit
There is not even silence in the mountains
But dry sterile thunder without rain
There is not even solitude in the mountains
But red sullen faces sneer and snarl
From doors of mudcracked houses

If there were water
And no rock
If there were rock
And also water
And water
A spring
A pool among the rock
If there were the sound of water only
Not the cicada
And dry grass singing
But sound of water over a rock
Where the hermit-thrush sings in the pine trees
Drip drop drip drop drop drop drop
But there is no water

Who is the third who walks always beside you?
When I count, there are only you and I together
But when I look ahead up the white road
There is always another one walking beside you
Gliding wrapt in a brown mantle, hooded
I do not know whether a man or a woman
— But who is that on the other side of you?

What is that sound high in the air
Murmur of maternal lamentation
Who are those hooded hordes swarming
Over endless plains, stumbling in cracked earth
Ringed by the flat horizon only
What is the city over the mountains
Cracks and reforms and bursts in the violet air
Falling towers
Jerusalem Athens Alexandria
Vienna London
Unreal



Os nove versos que abrem esta última parte, porventura a mais bela e complexa de "The Waste Land", nos remetem a Jerusalém, logo antes da morte de Cristo e de sua ressurreição; o vazio espiritual desse momento que antecede a ressurreição ecoa nos diversos arquétipos que povoam o poema; no trecho em questão, surge através de Gerontion esperando pela chuva, enquanto um menino recita para ele as palavras da Tradição, e o ancião medita sobre sua renúncia absoluta aos delíquios da vida sensorial. Como alívio à estrada seca e sinuosa entre montanhas de rocha e areia sem água, temos a figura misteriosa que aparece aos discípulos na estrada para Emaús (em alusão a uma passagem do Evangelho de Lucas), "the third who walks always beside you", esperança de retomada de uma existência virtuosa. Como enfatiza Eliot em seus esplêndidos e severos versos, é tão somente quando a vida de envolvimento temporal for superada, quando se desfizerem em pó as torres e cidades onde legiões de espectros chafurdam na ruína moral, quando o vazio do materialismo e do orgulho do homem em seus feitos for admitido e reparado, que poderemos nos aproximar da Capela do Graal, ouvir o canto do galo visto de relance à luz de um raio, e sentir a brisa fresca e suave que prenuncia as chuvas sagradas da sublimação espiritual.

3 comentários:

Anónimo disse...

Olá!saber se esse texto é de sua autoria. Se for, vc poderia me indicar alguma bibliografia?

Anónimo disse...

Brilhante artigo. Já tinha lido "Waste Land" algumas vezes, mas não havia vislumbrado um décimo do que você nos mostra. - Junior Baracat

Alphonse van Worden disse...

Qualquer elogio teu para mim é uma medalha, Baracat. Muito obrigado!