segunda-feira, maio 01, 2006

Iran Atomique

Alphonse van Worden - 1750 AD 

Ó fádico Custódio do Concento Universal, supino Alcaide da Guerra Cósmica, que Tudo vê sem visto Ser, à República Islâmica do fero átomo consagra os formidandos arcanos, de modo que maculá-la o horrípilo Satã não possa!



Banzai!!! - III


























Desde os idos de 1996, quando o guitarrista, enciclopédia ambulante de música weird e auto-proclamado guru patafísico japonês Makoto Kawabata, egresso de experiências delirantes com formações tais como Mainliner e Musica Transonic, decidiu criar a banda / comuna sônico-místico-transcendental Acid Mothers Temple & The Melting Paraiso U.F.O. (Underground Freak Out), o universo vem sendo assolado por um abstruso maremoto cósmico de ultra-psicodelia psicótico-mind blowing de proporções absurdamente inauditas: Kawabata e sua impagável troupe de psycho-freaks (uma extravagante entidade polimórfica cujo número de integrantes varia entre 4 e 15 componentes) lograram, pois, resumir / reciclar / sublimar / expandir toda a multitentacular garage hermétique da psicodelia ao longo dos anos, levando à máxima perfeição um mister em que os filhos do Sol Nascente se revelam particularmente eficazes: o reprocessamento criativo de tradições culturais alienígenas.

Como descrever o mefistofélico sabbath sônico conjurado pelo AMT? Pensem numa espécie de usina nuclear musical, onde foram precipitados como combustíveis todo o krautrock de matriz psicodélica (Guru Guru, Ash Ra Tempel, Amon Düül II, Brainticket, Cosmic Jokers, etc.); ‘artefactos’ desarvorados da cena psych européia dos anos 60-70 (Le Stelle di Mario Schifano, Parson Sound, Älgarnas Trädgård, Alrune Rod, Povl Dissing, etc.); os titãs transatlânticos da psicodelia estadunidense (de nomes notórios como Blue Cheer e Jimi Hendrix a monstruosidades terminais como Father Yod, Anal Magic & Rev. Dwight Frizzell, Cromagnon, etc.); anomalias britânicas da estirpe de Hapshash & The Coloured Coat, Deviants, etc.; a alquimia eletrônico-minimal de Terry Riley, Steve Reich e outros luminares. Considerada toda essa assombrosa plêiade de influências, tentem agora imaginar tudo isso levado às últimas conseqüências da desmesura sônica intergalática, arsenal esse ambientado em diversas formulações, que variam desde narcolépticos e gentis drones de corte folk-psicoativo a descomunais maelstrons elétricos encharcados de avassaladoras microfonias guitarrísticas over the top, assombrações apavorantes de teclados space rock em colapso nervoso e magma percussivo estraçalhante... can you dig it…?

Consegui até agora reunir, devo dizer, apenas 7 ‘emanações’ do AMT, uma fração modesta de seu vastíssimo output, considerando que a prolífica gang de Kawabata lança de 5 a 6 discos por ano desde sua fundação, num montante que já atinge mais de 40 álbuns. Todavia, o álbum em tela - Electric Heavyland, lançado em 2002 pelo selo canadense Alien8 - tem sido considerado pelos mais refinados experts em AMT como a mais intensa e insana tempestade de desespero eletromagnético e devastação mastodôntica já urdida pela banda. Tal avaliação crítica não poderia ser, creio eu, mais precisa e acertada: o que temos aqui são 3 assombrosas, avassaladoras jams ultra/mega/hiper-psicodélicas, avalanches incontroláveis de white noise desfechadas por Kawabata formando walls of sound de energia vulcânica em estado magmático, ladeadas pelos a um só tempo lancinantes e hipnóticos space whispers de Cotton Casino, as devastadoras rajadas metálico-percussivas de Koizumi, a catatonia trovejante do baixo de Tsuyama e as espectrais muralhas alucinatórias de found sounds e efeitos eletrônicos produzidas pelos synths de Higashi e Casino. Descrever estas faixas em detalhe, tal como alguns resenhadores pateticamente tentaram fazer, me parece uma lide de todo insensata e improfícua, pois elas formam um continuum cuja coerência e significado tão somente se desvelam através de uma visão de conjunto.

Enfim... that’s all, folks, mas com a velha e cautelosa dica de costume: é uma obra aconselhável apenas para os mais afeitos a turbulentos cataclismas sonoros, isto é, para maníacos dotados de ouvidos devidamente ‘formatados’ por anos e mais anos de experiência com mutilações sonoras da mais alta periculosidade e octanagem, não digais depois que não vos avisei!

























Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

sábado, abril 08, 2006

A cultura de massas norte-americana e sua dimensão simbólica




Por mais que dela tentemos escapar, bem como fazer-lhe frente, a fabulação mitológica da cultura pop norte-americana é extremamente fascinante e hipnótica, operando com assustadora eficácia em todos os níveis, do mais evidente mainstream ao mais recôndito underground.

Seu principal instrumento de persuasão é, a meu ver, o sonho da liberdade individual irrestrita, seja num registro de jaez conformista, enfatizando a livre iniciativa capitalista, o ideal do self made man, seja num plano contestatário, sublinhando a revolta contra os velhos parâmetros e instituições. O que importa, pois, em todos os níveis, é a ênfase na capacidade de o indivíduo construir seu próprio destino, 'inventar' seu próprio modo de vida. Assim sendo, creio existir um invisível elo, um fio condutor, um jogo de linguagem que logra estabelecer um vasto arco conceitual abrangendo desde uma Britney Spears a um Jim Morrison. Não quero aqui aventar, é mister salientar, a hipótese conspiratória de um planejamento central coordenando tudo isto, mas apenas apontar a existência de uma weltanschauung latente neste universo cultural: a crença de que 'se você quiser, você pode'. Obviamente esta noção envolve um perigoso cariz reaccionário, já que desconsidera a necessidade da articulação coletiva como expediente mais importante num processo de transformação, mas também me parece trazer embutida em si um elemento progressista, que é a possibilidade de o indivíduo suplantar a circunstância de uma estrutura social, em escala micro ou macro, que lhe é desfavorável.

Há ainda outros aspectos relevantes que poderiam ser abordados, e sirvo-me aqui, para efeito de ilustração, de um tipo de filme para adolescentes muito comum na Holywood dos anos 80, obras a meu juízo extremamente sedutoras em termos de fabulação simbólica e imagética como Sixteen Candles (1984), The Sure Thing (1985), The Breakfast Club (1985), Pretty in Pink (1986), Ferris Bueller's Day Off (1986), Can't Buy Me Love (1987), etc. (boa parte deles dirigidos/escritos e/ou produzidos pelo genial John Hughes).

O aspecto mais paradoxal nestas produções reside no facto de que, a despeito de serem legítimos produtos mainstream da Indústria Cultural, não raro veiculam mensagens de conteúdo decididamente libertário e humanista. Ganchos temáticos arquetípicos tais como, por exemplo, o garoto tímido, gorducho e sensível ficar com a menina mais bonita da escola no baile de formatura, derrotando o capitão brutamontes do time de rugby; a mocinha desajeitada e pouco atraente, porém doce e sincera, e que no final consegue conquistar o rapaz mais disputado da escola; o garoto que à partida quer apenas sexo e romances passageiros, mas que aos poucos descobre a importância de um relacionamento com lastro afetivo forte; o latino, o negro, o homossexual, o aborígene, de início rejeitados pelo establishment oficioso dos 'louros, altos e fortes' da turma, mas depois plenamente aceitos, em aliança com seus colegas mais solidários; o jovem que de forma lúdica logra desafiar a autoridade constituída, seja na família, na escola ou n'outro âmbito, são situações que, a despeito de seu caráter eventualmente frívolo e pueril, comportam uma dimensão simbólica muito poderosa, uma vez que não somente configuram o triunfo do 'pequeno' e do 'fraco' sobre o 'grande' e o 'forte', mas também a vitória dos sentimentos autênticos, bem como dos valores de solidariedade e amizade, sobre o imperativo dos valores materiais, do egoísmo ou elitismo cruel.

Bem sabemos, claro está, que tudo isto é no mais das vezes uma cornucópia de ilusões idilícas com objetivos meramente lucrativos, mas é também inegável, quero crer, a presença larvar de uma dimensão potencialmente libertária nestes produtos, de uma mensagem subliminar de liberdade.

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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

sábado, abril 01, 2006

Apontamentos sobre o pensamento político católico II - a propósito de Thomas Stearns Eliot

Alphonse van Worden - 1750 AD





O significado de Thomas Stearns Eliot (1888 - 1965) para a literatura universal é uma questão que hodiernamente dispensa maiores considerações; não há, pois, vertente crítica, seja qual for sua orientação conceitual, que ignore o imenso valor e influência da obra do poeta e dramaturgo anglo-americano. As cadências ásperas e dissonantes; a sintaxe fragmentária e labiríntica; a desconcertante polissemia de acentos verbais; as analogias inusitadas; o complexo sistema intertextual de citações e alusões às mais diversas obras e autores, são hoje elementos plenamente incorporados ao labor poético contemporâneo, inelutáveis conquistas artísticas de nossa época; outrossim, a obra crítica do autor concernente a temas literários, ainda que não desfrute da mesma unanimidade valorativa, é também tida na mais alta conta, mormente em função de sua consistência analítica, erudição criativa e extremo rigor no manejo das fontes. Obras como The Sacred Wood (1920); Shakespeare and the Stoicism of Seneca (1928); The Use of Poetry and the Use of Criticism (1933); Elizabethan Essays (1934); ; On Poetry and Poets (1957) não são, portanto, alvo de maiores controvérsias na atualidade.

O ditoso fado acima esboçado, não obstante, ainda não foi encontrado pela produção ensaística do autor relativa a questões político-sociais. Tendo se definido como “um anglo-católico em religião, um classicista em literatura e um monarquista em política”, Eliot passou a ser considerado pela esquerda acadêmica, dominante em termos de estudos culturais nos dois lados do Atlântico, como uma espécie de duplo esquizofrênico, onde estariam esdruxulamente justapostas duas naturezas pretensamente antitéticas: o ‘revolucionário’ em matéria poética e o ‘reaccionário’ na esfera política. É mister salientar, em primeiro lugar, que não há um ‘par ordenado’ a priori necessariamente conjugando vanguardismo estético e ideológico numa equação permanente; há na história das idéias e das artes numerosos exemplos que desmentem tal assertiva da forma mais cabal: Dante, Calderón de La Barca, Goethe, Coleridge, etc., homens conservadores em lides políticas e inovadores em termos literários; em segundo lugar, devemos sublinhar que a obra poética de Eliot é ‘revolucionária’ no sentido mais recôndito e fecundo do termo, configurando-se como summa dialética e dinâmica da tradição cultural européia e de procedimentos estéticos renovadores; finalmente, é também preciso asseverar que o conservadorismo político está desde sempre presente na literatura eliotiana, e não apenas a partir de sua notória inflexão mística com Ash Wednesday (1930) e Sweeney Agonistes (1932); já em The Wasteland (1922), poema via de regra considerado como ponto culminante da inovação literária eliotiana, estão de todo evidentes as principais linhas de fuga de seu pensamento político: a) a permanente e grave reflexão sobre o contraste entre os valores perenes da civilização ocidental e o esvaziamento progressivo de tal legado nas manifestações religiosas e culturais da modernidade, caracterizadas por uma vacuidade histriônica e neurótica; b) a crítica do pragmatismo militante do homem contemporâneo, ser avesso ao substrato mítico e religioso que lastreia seus alicerces históricos e culturais, em ruptura flagrante com as raízes mais atávicas de sua própria existência; c) a necessidade, no seio do Ocidente, de um amplo processo de ascese espiritual; em The Hollow Men (1925), por seu turno, a indignação flamejante do poeta chega às raias do desespero metafísico, por completo descrente de quaisquer possibilidades de redenção para o Ocidente, sentimento patente em versos tão severos quanto pungentes: This is the dead land / This is cactus land / Here the stone images / Are raised, here they receive / The supplication of a dead man's hand / Under the twinkle of a fading star (III, 40-45). No esteio do supracitado turning point religioso, este profundo desalento progressivamente assumiria contornos mais contemplativos, até converter-se em serena meditação a propósito dos destinos da humanidade, como podemos constatar através da leitura dos Four Quartets (1935-42), pináculo maior da maturidade poética do autor; e é precisamente sobre a contrapartida teórica deste processo que iremos nos debruçar na nota em tela, adotando como balizamento as reflexões de Eliot acerca do declínio do Ocidente, temática presente sobretudo em The Idea of a Christian Society (1940) e Notes Toward a Definition of Culture (1948).

As convicções do poeta a respeito da decadência da cultura ocidental no bojo de uma sociedade caótica e destituída de ideais, universo agonizante e descrente, onde os valores tradicionais foram abandonados em nome de perversões tais como a psicanálise, o materialismo marxista e a filosofia nietszcheana, estão intimamente ligadas a seu medievalismo, isto é, à concepção da Idade Média como auge da civilização européia; neste particular é sem dúvida um pensador caudatário de toda uma linhagem do pensamento conservador dos séculos XVIII e XIX: Edmund Burke, Novalis, Joseph de Maistre, Louis de Bonald, Donoso Cortés, Otto Weininger, etc. De especial relevo no âmbito de nossa análise me parece ser a insigne figura de Georg Philipp Friedrich Freiherr von Hardenberg (1772 - 1801), dito Novalis, que para além do elegíaco hermetismo de seus magníficos Hymnen an die Nacht (1800) e da mística beleza do romance inacabado Heinrich von Ofterdingen (1801), foi também autor do ensaio de teologia política Die Christenheit oder Europa (1799); nesta instigante peça de apologética cristã, o escritor prussiano advoga um retorno à Idade Média, cuja unidade harmônica poderia regenerar uma Europa convulsionada por dissensões políticas e religiosas. A noção de um ‘todo’ uno e coerente, ou seja, de uma cosmovisão passível de articular de forma convergente e coesa as instâncias política, social, religiosa e cultural, bem como de conferir um sentido transcendente e maior à existência, é a perspectiva dominante neste escrito, consoante sua notável abertura nos revela: “Belos, esplêndidos tempos: a Europa era terra cristã, e a Cristandade habitava una este recanto de mundo humanamente configurado...”; esta mesma disposição, conforme veremos a seguir, desempenha um papel precípuo no pensamento eliotiano.

Para o autor anglo-americano, o ápice da civilização foi indubitavelmente atingido durante a Idade Média, quando a sociedade, a religião e as artes refletiam de forma exemplar um acervo comum de valores e princípios. A síntese cultural que o período medieval logrou alcançar, portanto, transfigura um modelo ideal de comunidade européia, unificando de modo harmonioso a vida no continente em seus mais diversos aspectos; destarte, toda a História ulterior nada mais seria que a ominosa crônica da paulatina degenerescência desse ideal, em processo que tem como marco simbólico inicial a morte de Dante Alighieri (1265 - 1321): a cristandade se decompõe em Estados independentes; a Igreja em seitas e heresias; o conhecimento em saberes especializados; a fé em ceticismo. O termo de tal trajetória seria o Ocidente contemporâneo, ‘terra devastada’ onde o poeta testemunha “a desintegração da cristandade, a deterioração de uma crença e de uma cultura comuns”. Eliot argumenta que não há como assumir uma posição intermediária ou indiferente no tocante a esta tétrica involução, afirmando que “há duas e apenas duas hipóteses sustentáveis a respeito da vida: a católica e a materialista”; assim sendo, ou nos batemos em defesa da ordem augusta e serena da Civitate Dei católica (muito embora Eliot não acreditasse ser exeqüível a restauração tout court da civilização medieval, mas sim de seu espírito norteador, numa perspectiva de cariz ‘restitucionista’ também advogada por figuras como Hilaire Belloc (1870 - 1953), por exemplo), ou então estaremos satanicamente a favor do pesadelo materialista. Qualquer visão de mundo que não se identifique integralmente com um dos pólos supracitados, como toda sorte de teologia protestante, o liberalismo ou o socialismo fabiano, não passa de repulsiva manifestação de hesitação timorata frente ao confronto essencial que nos envolve.

Malgrado certos elementos de sua teologia política sejam compartilhados por alguns autores de esquerda da mesma época, como o gravurista e poeta inglês William Morris (1852 - 1942), nostálgico das tradições de vida comunitária do medievo, e o escritor e militante anarquista alemão Gustav Landauer* (1870 - 1919), que descrevia o mundo capitalista como um universo corrompido e decadente, “de uma sinistra feiúra”, Eliot se inscreve na linhagem conservadora que já mencionamos, de que também fazem parte autores tão díspares quanto Charles Maurras (1868 - 1952), G.K.Chesterton (1874 - 1936) ou Ezra Pound (1885 - 1972), isto é, na esfera dos que deploram os horrores da modernidade capitalista mas não advogam uma via de superação revolucionária para a mesma; é melhor, pois, encarar como irreversível a decadência do Homem, nos diria Eliot, que imaginá-lo operando exclusivamente ao sabor de sua orgulhosa autoconsciência, de todo alheia aos desígnios salvíficos da Providência. Há, portanto, plena consciência do capitalismo como “desencantamento do mundo” (Weber), mas já não se crê na possibilidade de ‘reencantá-lo’ (o que só poderia ser logrado, em parte, por meio da criação artística) através de um improvável regresso ao orbe integrado e harmônico da cristandade medieval.

A despeito do significativo orbe de talantes, conceitos e propósitos que as separam, há uma evidente e nítida confluência entre utopias ‘regressivas’ e ‘progressivas’, de que modo que não é descabido especular sobre a viabilidade de um cenário quiçá quimérico, mas que nos é muito caro: a formulação de um ecumenismo político-teológico anticapitalista, capaz de contemplar a um só tempo o ‘ontem’ e o ‘amanhã’.



* Landauer também acalenta, vale sublinhar, grande nostalgia da cristandade medieval: “a cristandade, com suas torres e seteiras góticas (...) com suas corporações e fraternidades, era um povo no sentido mais poderoso e mais elevado da palavra: fusão íntima da comunidade econômica e cultural com o laço espiritual". Ou seja, há também, e isto é sumamente interessante em se tratando de um autor de esquerda, o desejo pelo retorno a uma concepção de sociedade unitária, una, harmônica, onde todas as esferas estão integradas sob a égide de um sentido maior.

quarta-feira, março 01, 2006

As mais belas mortes - I

Alphonse van Worden - 1750 AD



GG Allin (1956 - 1993)





















À guisa de abertura para esta nossa mirífica série, cujo intuito é o de celebrar as mais deslumbrantes mortes da História da humanidade, decidimos reverenciar o exício do excelso GG Allin (1956-1993), célebre punk rocker, desordeiro, beberrão, psicopata, junkie e divindade pagã norte-americana.

Consta que nosso herói estava se apresentando no Gas Station Club, em NY, no dia 27 de junho de 1993, quando, depois de sua performance habitual - que incluía, d'entre outras amenidades, coisas como cantar nu com um desentupidor de latrina enfiado no cu, devorar os próprios excrementos e vômito, auto-mutilação e espancamento de espectadores - a seleta audiência explodiu num não menos costumeiro ritual de violentíssima pancadaria. Allin - nu, bem como devidamente 'cagado' e 'vomitado' - evadiu-se do aparato policial buscando refúgio na casa de um amigo, onde consumiu quantidades decerto imoderadas de álcool e cocaína. No manhã seguinte, o gentil rocker foi encontrado morto, no mesmíssimo estado que acabamos de descrever, em pleno Central Park.


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Ambrose Bierce (1842 - 1914?)





















O egrégio escritor, jornalista, militar e alcoólatra profissional Ambrose Bierce (1842-1914?), autor do Devil's Dictionary, lendária obra-prima do humor negro, bem como de notáveis relatos de terror, também merece auspiciosa menção em nossa série.

Sabe-se que nosso brilhante homem de letras feneceu em circunstâncias assaz crípticas. Em 1913, Bierce, já com 71 anos de idade, rumou sozinho para o México, onde pretendia buscar subsídios para escrever uma reportagem sobre a revolução local, em especial sobre as andanças de Pancho Villa e seu exército guerrilheiro. Existem numerosas versões sobre a morte do escritor, uma vez que Bierce simplesmente desapareceu sem deixar rastros, tendo-se tão somente certeza de que o óbito foi registrado em 1914. A versão que a seguir relataremos é de sobejo a mais bela; oxalá tenha de facto ocorrido, suplicamos nós:

O emérito homem de imprensa, então acompanhando as peripécias de Pancho Villa, foi um dia convocado pelo líder guerrilheiro para uma reunião; ciente do passado brilhante de Bierce como militar na Guerra Civil Americana, Villa estava interessado em saber a opinião do autor norte-americano sobre suas táticas militares. Bierce, ao ser indagado, criticou os procedimentos bélicos de Villa nos termos mais acerbos. Irritado, o mexicano atalhou, em tom altivo:


- O que então o senhor faria em meu lugar, o que sugere?


Bierce, definitivamente contrariado, replicou num rosnado:


- Sugiro que todos vc's vão tomar no cu.


Poucos instantes depois, jazia fuzilado na árida planície mexicana.

Banzai!!! - II

























Amiúde tenho protestado contra o verdadeiro maremoto de lançamentos que Makoto Kawabata e sua gang de japas psico-sônicos despejam sobre seus fãs ano após ano, de certa forma trivializando, ou até mesmo vilipendiando, o assombroso impacto de sua extravagante entidade polimórfica e comuna místico-musical, o anarco-transcendente Acid Mothers Temple. São catadupas de álbuns das infinitas encarnações do AMT por 34343231 selos diferentes a cada semestre, todos eles mais ou menos pertencentes a duas únicas vertentes estilísticas: colossais maelstrons elétricos de psicodelia over the top em maximum psych noise mode on ou então plácidas e narcolépticas sinfonias abissais de drones psicoativos mergulhadas em oceanos de bruma púrpura. Até que ponto, é a pergunta que se impõe, seria possível para Kawabata apresentar tonalidades novas a partir de uma paleta de apenas duas cores?

Não obstante, o filho da mãe, além da pretensão de bater Robert Fripp in his own game em termos de obscena voracidade mercantilista, é também talentoso as bloody'n'loony'n'spacy hell e, dessa forma, a cada carrada de discos perpetra pelo menos uma obra-prima de fazer o ouvinte desejar mergulhar num obnubilante turn on tune in drop out 'timothylearyano' nos ignotos confins da sonic neverness para nunca mais retornar...

IAO Chant From The Cosmic Inferno (2005) é a quinta das sete sulfurosas emanações (em pouco mais de um ano...) já creditadas a mais recente entidade kawabática, o Acid Mothers Temple & The Cosmic Inferno; trata-se, em primeiríssimo lugar, de uma homenagem de nosso herói ao saudoso baterista Pierre Moerlen, falecido em 2005, e, por extensão, a todo o magnífico legado do Gong. Como de hábito em termos de Cosmic Inferno, o número de faixas é inversamente proporcional à ciclópica duração das mesmas: no caso em tela temos apenas uma, intitulada laconicamente OM Riff.

Bem... como descrever mais esse titânico monstro urdido pela mais insana das metalurgias sonoras alocadas no arquipélago do Sol Nascente? Tentemos à partida uma descrição por assim dizer objetiva: OM Riff desdobra em inacreditáveis 51 minutos de duração praticamente UM ÚNICO riff de guitarra e o esotérico coro IAO ZA EE ZAO MA EE MAO TA EE TAO da clássica Master Builder, peça registrada pelo Gong em You (1974), terceiro álbum da célebre trilogia anarco-patafísica de Zero the Hero. Isto posto, não sei se consegui entender o que o nosso Grã-Ronin do estraçalhamento psíquico de garagem e seu séquito aprontaram dessa feita... os caras simplesmente viram e reviram do avesso o riff de Steve Hillage de todas as formas possíveis e imagináveis em jams avassaladoras e incontroláveis, mas também de alguma maneira inescrutável logram manter a integridade formal do original numa alquimia magistral, Futoshi Okano, Mitsuru Tabata e Koji Shimura estabelecendo uma propulsão contínua para que Kawabata e Hiroshi Higashi pulverizem o Universo com sua artilharia de guitarras e synths incandescentes; assim sendo, OM Riff é a um só tempo uma improvisação ad infinitum, arremessada nos páramos estelares da nebulosa derradeira do caos psyched out, e uma summa magnífica de toda a miríade de sensações e sonoridades do space rock, mantra hipnótico e troar aterrador numa mesma mandala multifacetada ricocheteando em reflexos invertidos na Arcana Diabolica, Gong, Hawkwind, Amon Düül II, Guru Guru e o ARCANO planando sobre quasares alucinógenos and setting the controls for the heart of the Sun. Sob as bênçãos lisérgico-cibernéticas de Makoto Allen e Daevid Kawabata, a rutilante espaçonave 'Acid Mothers Gong & The Radio Gnome Inferno' atravessa a singularidade gravitacional do espaço-tempo psicodélico na colisão cataclísmica de sistemas estelares gigantescos and so on...

Enfim, o que temos aqui é uma fascinante dissonância cognitiva: se cônscios estamos de que há 10 anos Kawabata malandramente recicla as mesmíssimas matrizes estéticas, de bom grado estamos dispostos a reiteradas vezes cair em seu logro, pois o nipônico Speed Guru, mesmo perpetrando algumas irrelevâncias no compasso industrial de sua produção discográfica, é ainda o mais brilhante magnetizador do fogo dos sonic gods de que se tem notícia this side of the galaxy. Afinal, quem mais consegue sintetizar com tanta classe, intensidade e conhecimento de causa o que de melhor foi feito na história do rock'n'roll?

























Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Olhos em Gaza!!!




Ó áticos confrades transfinitos, dos ingentes contrafortes do Bastiani em verdade vos digo, celebro e exalto: ao contrário do que certa feita da prístina Albion ínclito vate proferiu, não mais estamos eyeless in Gaza: doravante somos todos olhos, corações e mentes nas deíficas planitiae palestinas!!! 


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Ten. Giovanni Drogo 

 Forte Bastiani 

 Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

Apontamentos sobre o pensamento revolucionário pré-marxista I - a propósito de Louis Antoine Léon de Saint-Just

Alphonse van Worden - 1750 AD






As obras de Louis Antoine Léon de Saint-Just (1767 - 1794) e Maximilien Marie Isidore de Robespierre (1758 - 1794) constituem uma leitura fundamental para os que tencionam investigar a gênese do pensamento revolucionário moderno; contudo, tendo em vista sua maior relevância e elaboração teórica, para efeito destes breves apontamentos concentraremos nosso atenção nos trabalhos do primeiro, o flamejante Archange de La Terreur.

A primeira edição integral dos escritos de Sain-Just de que se tem notícia só viria a lume tão somente no século XX (Ouevres Complètes de Saint-Just; Fasquelle, Paris, 1908, II tomes in octavo), de modo que o escopo de seu pensamento durante muito tempo foi vítima d’uma avaliação errática e parcial; destacam-se, do conjunto de sua obra, indubitavelmente o ensaio L'Esprit de la Révolution et de la Constitution de la France (originalmente publicado em 1791); o volume Fragments sur les Institutions Républicaines (1793-94); e a versão definitiva de seus Discours et Rapports (editados pela primeira vez em 1848).

L'Esprit de la Révolution et de la Constituition de la France é a expressão mais rematada do Saint-Just constitucionalista en dépit de soi-même (pois embora tenha chegado a graduar-se em direito na Universidade de Reims, jamais acalentou pretensões acadêmicas), capaz de analisar com fina argúcia a natureza das instituições republicanas e seu papel na conformação da futura sociedade revolucionária; os Fragments sur les Institutions Républicaines, por seu turno, já trazem à tona o reformador radical forjado nas labaredas do clamor revolucionário, estabelecendo o programa político jacobino com grande acuidade e eloqüência; nos Discours et Rapports manifesta-se, por fim, em toda a sua exuberância e sagacidade persuasiva, o gênio retórico de Saint-Just, convertendo em ação política concreta suas ardentes aspirações revolucionárias; é forçoso sublinhar, não obstante, que Saint-Just não foi um pensador tout court radical desde o início de sua breve malgrado intensa trajetória, consoante poderemos verificar a seguir.

Refletindo de certa forma a disposição relativamente moderada que animou a Revolução Francesa em sua fase inicial, L'Esprit de la Révolution et de la Constitution de la France (1791) reúne as primeiras reflexões do autor a propósito das questões políticas, jurídicas e sociais da França de seu tempo; como tantos outros textos publicados no período, este ensaio de Saint-Just foi sobremaneira influenciado pela filosofia iluminista, notadamente por Jean-Jacques Rousseau (1712 - 1778) e Charles-Louis de Secondat, Barão de Montesquieu ( 1689 - 1755); trata-se, pois, d’uma obra caudatária das injunções da conjuntura político-social que o país atravessava: predica, por exemplo, a monarquia constitucional como melhor sistema de governo, por avaliar que naquele momento o rei ainda era considerado uma salvaguarda do povo contra os desmandos da aristocracia; deste modo, enfatiza apenas a isonomia jurídica entre os cidadãos, sem atentar para a igualdade de riquezas, item que se tornaria crucial no projeto político ulterior de Saint-Just; defende também o voto censitário, malgrado advogue em contrapartida o direito das classes menos favorecidas a uma ampla rede de proteção social, bem como ao não pagamento de impostos; e de resto, estabelece um programa que contempla as liberdades republicanas consagradas: liberdade de opinião, de imprensa, de ir e vir, direito à livre associação, de reunião, etc. Não encontraremos nestas páginas, portanto, o Saint-Just regicida, o igualitarista irredutível, mas sim uma espécie de ‘liberal avançado’, com algumas tendências socializantes: percebe-se nitidamente que o autor ainda não está seguro a respeito das efetivas possibilidades da Revolução, adotando destarte a postura de garantir o que já havia sido conquistado ao invés de pugnar por reformas que porventura não pudessem ser consubstanciadas; todavia, a radicalização do processo revolucionário em curso no próximo triênio o fará despir-se, para seu próprio gáudio, de tais hesitações, levando-o de todo a abandonar, como examinaremos adiante, as concepções adrede esposadas.

Redigidos entre 1793 e 1794, os Fragments sur les Institutions Républicaines representam a maturidade de Saint-Just como pensador e dirigente revolucionário, em consonância com a consolidação da Nova Ordem em França, mormente no front político-institucional: a Convention Nationale republicana estava então, em caráter incontestável e soberano, à testa do país; Luís XVI, por seu turno, fora guilhotinado a 21 de janeiro de 1793, tendo Saint-Just inclusive desempenhado função precípua em todo o processo, com uma série de discursos à Convention em que demandava a execução do monarca, pronunciamentos notáveis (e que lhe valeram grande nomeada) tanto por sua veemente facúndia quanto pela perspicácia de suas alegações jurídicas, asseverando ser tal intento uma “medida de salvação pública”, vero imperativo para a manutenção das conquistas revolucionárias; assim sendo, Saint-Just passa doravante a preocupar-se com o aprofundamento das conquistas sociais da Revolução e o fortalecimento de sua base de sustentação política, e as questões relativas a esses tópicos dominarão boa parte da obra em tela. O insigne Archange de La Terreur passa a propugnar o estabelecimento de uma sociedade igualitária, e para tanto propõe medidas tais como o confisco imediato das propriedades de todos os inimigos da República, com a distribuição de seus haveres entre a camada pobre da população; a restrição progressiva ao direito de herança, e ainda a criação de um novo sistema de herança fundiária, onde as terras não mais são transmitidas diretamente dos titulares para seus sucessores, mas sim de forma indireta, por intermédio de um fundo agrário público administrado pelo Estado; a adoção de um modelo de organização político-econômico baseado na pequena propriedade e em práticas cooperativas, predicando também a implementação de mecanismos de democracia direta, com intuito de conferir maior capilaridade e vigor ao sistema representativo; o estímulo à adoção voluntária de crianças pobres por parte de famílias em melhor situação; a ênfase na função social da propriedade, a ser regulamentada pelo poder público, bem como o estabelecimento de um estrito controle estatal sobre todas as transações econômicas. Do conjunto de tais disposições e projetos emerge claramente, é mister ressaltar, o horizonte de uma sociedade socialista, cabendo a Saint-Just uma posição de destaque entre os precursores desta corrente ideológica; a este respeito vale também salientar a importância que o autor atribui a uma ética do trabalho: todos os cidadãos devem contribuir com sua labuta para a riqueza da República, e o ócio deve ser punido com todo o rigor da lei. Descortina-se, portanto, a prospectiva de uma sociedade virtuosa, fundamentada em princípios ascéticos, com predomínio absoluto do interesse público e do labor coletivo sobre os desígnios particulares e privilégios.

Se a filosofia política de Saint-Just está plenamente delineada em suas principais linhas de fuga nos textos que consideramos nos parágrafos acima, é todavia nos Discours et Rapports, conforme assinalamos anteriormente, que seus dotes de exímio artesão da palavra eclodem com máxima magnitude: senhor de faiscante retórica literária, Saint-Just, com brilho ainda maior que Robespierre, transfigura na prática política diária da Revolução as teses progressistas do poder jacobino. É sobretudo fascinante examinar sua apologética do terror revolucionário como instrumento de intimidação política e regeneração moral, passível não apenas de alquebrar o ânimo da súcia reaccionária, mas também instruir o povo no rigor e firmeza necessários à constituição de uma república igualitária; presenciamos, outrossim, na reflexão de Saint-Just, o advento d'uma espécie de crueldade sagrada, iluminada pelo albor da justiça, compreendida como dever inescapável do revolucionário, pois só o terror revolucionário sublima, tempera, educa, exalta a ação transformativa das massas. Por fim, percebe-se claramente, através da leitura destas rutilantes filípicas, o patente elo de ligação conceitual e pragmática entre Saint-Just e os bolcheviques, com a noção de que o terror não precisa necessariamente ser um expediente a serviço da reação, mas também um dispositivo de ação revolucionária no enfrentamento das classes destronadas, bem como na formatação ideológica e até mesmo empírica da Nova Ordem, perspectiva política que a meu juízo permanece atualíssima, quiçá ainda mais relevante hoje do que outrora.

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Banzai!!! - I

Alphonse van Worden - 1750 AD





Meus caríssimos confrades, em verdade vos digo, em bom, curto, castiço e escorreito português: FODEU...

... pois o que de todo parecia inconcebível enfim parece ter ocorrido: os limites extremos do que poderia ser feito em termos de rock’n’roll foram alcançados. É isto mesmo, senhoras e senhores: a derradeira fronteira foi transposta, rompeu-se a barragem do som, a obliteração sônica de todos os sentidos via implacável devastação übber rockist foi levada a efeito. O grande culpado? Blame it on Makoto Kawabata, Grã-Ronin do estraçalhamento psíquico de garagem, Shaman Warrior King dos báratros do pesadelo psicodélico e Custódio Transfinito dos Arcanos Sônicos do Apocalipse.

Por ocasião do décimo aniversário de sua cria mais dileta, a anárquica comuna místico-musical Acid Mothers Temple & The Melting Paraíso U.F.O., Kawabata parecia um tanto quanto entediado com o facto de seu assombroso terremoto estético de estimação ter de certa forma assumido um contorno mais high profile (AMT high profile?!?!? Bem, talvez para junkies terminais vagando pelos labirintos cibernéticos do Império do Sol Nascente, ou então para congêneres escandinavos hibernando n’alguma caverna gelada sob a sombra cônica do Sneffels...); assim sendo, decidiu bagunçar um pouco o coreto, arregimentando figuras egressas de formações como Boredoms, Ghost, Mainliner e Zeni Geva para formar o Acid Mothers Temple & The Cosmic Inferno. E o resultado é Just Another Band From The Cosmic Inferno.

São duas faixas: a primeira, Trigger In Trigger Out (com 'somente' 20 minutos) é um maelstron de microfonia inclemente e brutalismo percussivo ao estilo das rajadas eletromagnéticas presentes em Electric Heavyland, ou seja, o terrorismo sonoro de rigueur que já caracterizava a faceta mais turbulenta da encarnação anterior do AMT; é portanto na segunda faixa, minhas senhoras e meus senhores, que o caldo entorna de vez...: com singelos 44 minutos de duração, They're Coming from the Cosmic Inferno desafia qualquer descrição ou análise; como já salientei, Kawabata e sua gang de propagadores de ruído patafísico abandonam as últimas paragens conhecidas do rock para precipitar-se numa ignota e ominosa nebulosa de caos, um massacre ultra/mega/hiper/meta/trans-psicodélico, descomunal, ciclópico e rigorosamente insano, sem um segundo sequer de pausa; não há, pois, aqueles interlúdios 'táticos' para que a peça volte à carga com mais intensidade depois, mas sim a banda trovejando ininterruptamente em 'full power flat out noise terror attack' mode ON. Confesso que por volta dos 25, 26 minutos a ‘coisa’ já havia me derrotado, deixando-me de todo prostrado, inerte e entorpecido, incapaz de esboçar qualquer reação, e assim submergindo em definitivo num oceano magmático de white noise oriundo do próprio Inferno. Trata-se, confrades, de ultraviolência sônico/sadomasoquista em aterrorizantes espasmos de crueldade ultrapunitiva... é, quiçá esta seja exatamente a metáfora mais adequada: caso Sacher-Masoch, Sade, Mirbeau e Lautréamont fossem fanáticos por rock’n’roll e viciados em anfetamina, Just Another Band From The Cosmic Inferno decerto seria o álbum registrariam ao cabo de uma delirante jornada embalada por toneladas de speed e sanguinolentos rituais neopaganistas.

Se gostei? Hmmm... creio que esta questão poderia ser melhor respondida no âmbito da noção kantiana de ‘sublime’, isto é, fenômenos incomensuráveis à escala humana, que nos fascinam e horrorizam em grau máximo ao mesmo tempo; ou então, como diria o crítico musical Dominique Leone, a propósito, aliás, de outro petardo do grupo de Kawabata, e porventura de forma mais sintética e eficaz: ”how much is too much?”. 




Dark Magus Übber Alles! - II



Conforme já havia sublinhado anteriormente, desde 1969, quando decidira bagunçar de vez o coreto jazzístico, implodindo os alicerces do gênero com Bitches Brew, nosso almighty Miles incrementaria o impacto de sua última e mais estupenda revolução estilística disco após disco, até chegar ao ápice da subversão elétrica of all things jazzy durante o biênio 1974-75, cujo primeiro resultado seria justamente o álbum que doravante passaremos a considerar.

O que dizer, portanto, a propósito de mais este devastador ICBM de desorientação sônica in extremis urdido pelo infernal Miles, himself o insuperável e único 'Dark Magus'? À semelhança de Agharta, seu luciferino congênere, Dark Magus (que registra uma apresentação ao vivo no Carnegie Hall em NY) é mais um maremoto de galáxias circungirantes de psych jazz estelar colidindo com vudu percussivo funk e estratosféricas alucinações de acid rock diretamente from the harrowing chasm of everlasting sonic madness, mefistofélica saturnália pagã conjurada por Miles em 'Hierofante do Caos full mode on', para evocar Baphomet e suas avantêsmicas hordas de íncubos demoníacos sob o eflúvio de miasmas lunares na floresta do alheamento transpsicodélico.

Como amiúde sói acontecer com obras deste jaez, uma análise faixa por faixa revelar-se-ia fátuo mister; assim sendo, o que se pode fazer é uma tentativa de evocar a atmosfera que emana deste blasfemo e inebriante ritual cabalístico-musical.

Capitaneando a tonitruante fuzilaria de metais a jato, o anfetamínico Maldoror do jazz from hell converte seu trompete em sirene hipercinética despejando rajadas sucessivas de uivos eletromagnéticos, enquanto o oceano radioativo de drones magmáticos emitidos por seu órgão elétrico erige a muralha orquestral; os saxofones de Lawrence e Liebman incrementam a blitzkrieg psicossônica vociferando all over the place uma miríade de exclamações assimétricas; running the voodoo down, a luciferina trinca Cosey-Gaumont-Lucas opera suas guitarras elétricas como uma implacável cortina de lança-chamas em razzias espasmódicas, incinerando tudo à sua volta; por fim, Henderson emoldura esta estraçalhante usina de força com seu baixo borbulhante, e Al Foster e Mtume seguram tudo no background disparando morteiros percussivos aos borbotões para propelir a frenética garage hermétique milesiana à frente, "sedenta de horizontes e presas siderais" (Marinetti) em direção às mais ignotas e inauditas paragens.

E isto é tudo, meus filhos: apertem os cintos, coloquem seus capacetes, cruzem os dedos, façam suas orações and enjoy the wild ride!


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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

sábado, dezembro 31, 2005

Epistolário Transfinito I (excertos...)

Alphonse van Worden - 1750 AD


























(...) e outrossim n’este ano que ora finda, ó ático confrade Drogo, o supino Senescal da Guerra Cósmica ínclitas vitórias amiúde facultou-nos; não obstante, os do escalfúrnio SATÃ nefários desígnios jamais mitigam-se; e justo nos criselefantinos páramos da excelsa Pérsia, onde as insignes hostes do Arcano Celestino seu mais fádico triunfo consubstanciaram, tenciona a fera Besta concentrar suas ignominiosas lides. Baldos serão, contudo, os infandos tentâmenes do das Trevas contumelioso Mestre: à de Arum sempiterna sombra impávidos estaremos, sob a mirífica égide do CHRISTUS PANTOCRATOR e de علي بن أبي طالب - que tudo veem sem vistos serem -, para da sacral Ecclesia e da pia Ummah o pertinaz e férreo arnês sermos, uma vez mais a matar e a morrer resignados!


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(...) como bem sabeis, ó egrégio irmão van Worden, à fantasmática penumbra dos deíficos contrafortes do Bastiani, solazes velam e perseveram as tartáricas legiões, sob os rutilantes auspícios do inefável Sustentador de Mundos; e ao mais evanescente sinal de Seu divo talante, indômitos marcharemos, pois nada mais ao sacro armígero logra aprazer que o joliz engajamento no hierático mavorte do Senhor!

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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Dark Magus Übber Alles! - I


A meu juízo Agharta (1975) representa não apenas o ápice, a consumação estética da chamada 'fase elétrica' de Miles Davis, mas também de sua obra como um todo, sendo ainda um dos 10 melhores discos da história do Jazz. Para compreendê-lo, todavia, é mister recuar alguns anos em relação à data de seu lançamento, mais precisamente até 1969, ante-sala do mesmerizante turbilhão artístico com que o 'Dark Magus' aturdiria/maravilharia o mundo da música durante sete anos (Devo salientar que a trajetória de Miles até esse período, a despeito de sua enorme importância, não me interessa nem um pouco).

A década de 60 presenciava um Miles Davis caminhando perigosamente em direção à obsolescência artística. As circunvoluções do bebop e do cool jazz haviam ficado para trás, e Miles rejeitara enfaticamente a revolução free capitaneada por Ornette Coleman e Albert Ayler, não tanto por conservadorismo estético, pecado de que não se pode acusar-lhe, mas quiçá por vaidade; afinal de contas, não fora ele a lançá-la, o que para seu ego ciclópico já era razão mais do que suficiente para recusar-lhe qualquer mérito...; não obstante, hoje sabemos que o irrequieto trompetista, insatisfeito com os contornos que sua carreira vinha assumindo, estava urdindo em silêncio sua própria revolução: a fusão supersônica entre jazz, acid rock, música contemporânea e funk, cujo prelúdio, ainda que timidamente, viria à luz em 1968 com In a Silent Way. O marco fundamental, não obstante, estava reservado para o próximo ano...

Emoldurado por uma capa lisérgica, com seus longos temas, ora climáticos ora frenéticos, conduzidos por Miles com seu trompete guindado aos confins do espaço sideral pelos alucinantes cut ups e assombrosos efeitos de echo e delay criados pela arrojada produção de Teo Macero, Bitches Brew (1969) teve o efeito de uma bomba nuclear sobre o universo jazzístico, deixando a crítica a um só tempo perplexa, indignada e embevecida; não bastasse o impacto estético, converter-se-ia desde o princípio em grande sucesso de vendas, proporcionando a Miles margem de manobra para continuar experimentando bem como o pretexto ideal para uma série de injustas e patéticas acusações de sell out. Felizmente alheio a tais injunções, o mestre aprofundaria/ampliaria nos anos seguintes os postulados de sua 'revolução elétrica', lançando uma série contínua de discos memoráveis, tanto de estúdio como ao vivo, d'entre os quais poderíamos destacar A Tribute to Jack Johnson (1970 - seu disco mais rock'n'roll); Live-Evil (1970); Black Beauty: Miles Davis at Fillmore West (1971); On the Corner (1972 - algo como Stockhausen on acid trocando figurinhas com Hendrix em clima de street funk cibernético em NY); In Concert: Live at Philharmonic Hall (1973), etc., até chegar ao zênite de seus poderes como magnetizador do fogo dos deuses no biênio 1974-75, cujo primeiro fruto seria o mefistofélico Dark Magus (1974); não obstante, 1975 testemunharia um Miles ainda mais avassalador e implacável, com o lançamento de 2 massacres sonoros gravados num mesmo dia ao vivo em Osaka, no Japão: Pangaea (que registra o concerto da noite, uma pajelança bárbara from Jupiter and beyond the Infinite) e, claro está, o álbum em tela neste pedaço d'escrita (que documenta o concerto da tarde).

Agharta é um estraçalhante maremoto magmático de eletricidade demencial em estado bruto conjurado por guitarras e metais em fúria, uma ominosa floresta equatorial de percussões tonitruantes e o Senhor das Trevas comandando o artaudiano ritual de destruição com as imprecações apocalípticas de seu luciferino trompete conectado ao vácuo turbilhonante do inner void of the sonic neverness; apelando aqui para o gênio crítico de Julian Cope, trata-se d'uma verdadeira "blueprint for 3rd Eye Travel" via lancinante "sustained sonic obliteration". A esta altura do campeonato Miles já não compunha 'canções' propriamente ditas, mas sim dava livre curso a uma desenfreada improvisação coletiva a partir de alguns poucos temas preestabelecidos, os quais não raro só eram nomeados a posteriori. É exatamente o caso de Prelude (Parts I e II) e Interlude, minhas peças prediletas no álbum, dois incomparáveis cataclismos de deep funk fusion schizo electric meditational voodoo jazz from Hell em combustão espontânea despejando raios e trovões para todos os lados ou, como diria Cope, "the sound of all seven CDs from the Stooges' Funhouse boxed set played simultaneously throughout the house on small inferior ghetto blasters". Ladeando estas sulfúricas emanações de garage hermétique transmental, Miles ainda nos oferece magníficas versões para Maiysha (onde temos os únicos e breves interlúdios de suavidade em todo o álbum) e Theme from Jack Johnson (ainda mais malévola, rock'n'rollin, lúbrica e venenosa que sua irmã de estúdio).

Insomma, confrades: uma obra-prima indispensável para todos os amantes da aventura musical sem fronteiras e limites.


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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Apontamentos sobre o pensamento político marxista – I: a próposito de Nikolay Bukharin

Alphonse van Worden - 1750 AD





Estive a ler nas últimas semanas, ó egrégios irmãos d'armas, um tomo dos mais interessantes: trata-se de uma compilação de artigos e ensaios do iminente prócer bolchevique e teórico marxista Nikolay Bukharin (1888-1938), organizada pelo renomado historiador soviético Roy Medvedev (autor, d’entre outras obras, do monumental Let History Judge, até hoje o melhor livro já escrito sobre a barbárie stalinista). O volume reúne textos publicados originalmente entre 1918 e 1936, em sua maioria nos diários Pravda e Izvestiia. Há, decerto, algumas peças menos inspiradas, até mesmo revoltantes, sobretudo no biênio 1927-28, ápice do duunvirato Stalin-Bukharin, com especial demérito para a cínica condenação da ‘Plataforma dos 46’ e a obscena celebração pelo expurgo da ‘Oposição de Esquerda’; todavia, o número e qualidade dos momentos luminosos compensa de sobejo os supracitados deslizes, nomeadamente os magníficos artigos escritos entre 1929-1936, vazados na críptica, epigramática e fascinante linguagem ‘esópica’, estratégia diversionária muito característica na imprensa soviética submetida ao tacão stalinista, d’entre os quais se destacam os célebres Notas de um Economista (1930), seu ‘testamento’ em matéria de pensamento econômico, e o belíssimo Caminhos da História: Pensamentos em Voz Alta (1936), um pungente testamento político e existencial.

O que, entretanto, tenciono discutir na presente nota são dois temas constantes no pensar de Bukharin, e que me parecem particularmente relevantes à luz dos sinistros desdobramentos ulteriores da verdadeira tragédia de Ésquilo em que se converteu a Revolução Soviética. A primeira questão, alvo de numerosos textos do líder bolchevique entre 1918-1922, é a terrível suspeita de que a necessária violência revolucionária estava servindo como pretexto para que um sem-número de sociopatas e criminosos aderissem à insurreição de Outubro, com o fito de dar livre curso a vendettas pessoais, ressentimentos homicidas e toda sorte de arbitrariedades e taras truculentas. Consternado com tais eventos, Bukharin advertia para a necessidade do Partido Bolvechique, de um lado, e do Estado soviético, de outro, exercerem o máximo de cuidado e rigor na filiação de novos militantes e na arregimentação de novos funcionários. É mister recordarmos, vale dizer, que Lenin também externou em seus últimos artigos as mesmas preocupações de Bukharin, advertindo repetidamente para o facto de que o Partido precisava exercer a mais estrita disciplina e vigilância no tocante à admissão de novos membros; aliás, o saudoso Ulianov concluiu, no último lustro de sua existência, que a nomeação de Stalin para o cargo de Secretário-Geral havia sido um erro, pressentindo que o líder georgiano abriria as portas do Partido num afluxo indiscriminado de novas filiações, com o fito de fortalecer seu poder no aparato; não obstante, mais do que qualquer outro bolchevique ilustre, Bukharin deplorava a permanência de tendências chivovnik de cunho ‘asiático-imperial’ no seio do Partido e da administração soviética, sublinhando a necessidade vital de cada indivíduo a serviço da Revolução desempenhar suas lides de forma ponderada e sensível, promovendo a fraternidade socialista e a emulação dos bons exemplos. Para Bukharin, uma interface solidária e confiável entre o novo Estado proletário e o povo seria quiçá o instrumento mais importante do Partido no sentido de aprofundar e consubstanciar as conquistas soviéticas. A nefária ‘Revolução pelo Alto’ promovida pela camarilha stalinista, macabro ritual de inaudita violência institucional contra o povo em máximo grau de selvageria e crueldade, arrojou por terra as preciosas lições ministradas por Bukharin, que, aliás, também foram encampadas por Lênin em seus últimos anos de vida.

A segunda temática, de certa maneira correlata a primeira e de caráter ainda mais axial, diz respeito à ‘Paz Civil’ advogada por Bukharin como viga mestra nos procedimentos do Estado soviético pós-guerra civil. De acordo com insigne bolchevique, superadas a ameaça da contra-revolução e as convulsões econômicas do ‘Comunismo de Guerra’, o Estado e o Partido deveriam adotar procedimentos, tanto administrativos quanto político-ideológicos / persuasivos, de jaez decididamente pacífico, estimulando a colaboração e o entendimento entre os diversos setores da sociedade soviética. Em termos econômicos, tal iniciativa se manifestaria na smychka campo-cidade, estabelecendo que o compasso de crescimento da atividade industrial deveria ser ditado em simetria perfeita com o fortalecimento do setor agrícola, salientando a importância da sinergia gerencial como linha de fuga essencial em termos de política econômica; no que concerne à questão social, a ‘Paz Civil’ se traduz como ênfase numa política de tolerância e serenidade, isto é, de cooperação solidária entre o Estado e a sociedade no esforço conjunto de implementação harmoniosa da ordem socialista; na esfera cultural, enfim, tais preceitos se formulam como estímulo à diversidade fecundante e criativa de escolas e expressões artísticas, elemento crucial para o aprimoramento intelectual do próprio socialismo. Mais uma vez, contudo, o advento da era stalinista abortaria os ideais acalentados por Bukharin: com a adoção da malévola teoria segundo a qual a luta de classes se intensifica com a consolidação do socialismo, a URSS mergulhou num frenesi maníaco de violência irracional que destruiu os ainda frágeis alicerces da nova ordem.

À luz das concepções acima esboçadas torna-se possível, quero crer, uma melhor compreensão do confronto ideológico entre a 'direita' bukharinista, de um lado, e a 'esquerda' trotskista, de outro, que convulsionou e fraturou o poder soviético nos anos 20. Houve, pois, uma ominosa 'dissonância cognitiva' de parte a parte: Bukharin, por um lado, hiperdimensionou a ênfase que o programa econômico da esquerda conferia ao ritmo da industrialização soviética, nele identificando um caráter artificialmente otimista e exagerado. Bukharin acreditava na possibilidade de construção do 'Socialismo num só país', mas nos termos gradualistas da smycha campo-cidade, e não sob o ditame alucinante do super-industrialismo 'stakhanovista' à la Kuybishev-Stalin, o qual equivocadamente associou à plataforma da esquerda, superestimando as semelhanças pontuais que existiam entre o programa econômico de Trotsky-Preobhazensky (sobretudo no que tange ao conceito de 'Acumulação Primitiva Socialista') e as teses super-industrialistas da facção stalinista. O 'predileto de todo o Partido' cria, por conseguinte, que Preobrazhensky e Trotsky pretendiam esmagar os mercados camponeses, promovendo uma industrialização às expensas do setor agrícola; a facção staliana, por sua vez, habilmente ocultou seus intentos ulteriores, sustentando por questões de aliança estratégica de momento as posições bukharinistas. Preobhazensky e Trotsky, por fim, hipertrofiaram o significado da moderação bukharinista em termos de projeto econômico, ignorando o facto de que a distinção entre as idéias de ambos os grupos era de grau, e não de gênero; ao mesmo tempo, não atentaram devidamente para as concepções políticas de Bukharin, que defendia com veemência, assim como a Esquerda, a democracia partidária, advogando a necessidade de ampla liberdade de discussão interna.

Há também que salientar, por fim, que Bukharin entusiasmou-se em demasia com sua concepção da smychka campo-cidade como via preferencial para um crescimento econômico sólido e auto-sustentável, bem como para a edificação de uma sociedade pacífica e harmoniosa. O excelso teórico bolchevique parecia acalentar uma visão de cunho 'organicista-naturalista', isto é, que o processo de construção do socialismo seria quase um epifenômeno automático, desta maneira hiperdimensionando o potencial da via gradualista de desenvolvimento. Para Bukharin, a economia camponesa paulatinamente evoluiria para a coletivização por intermédio de três vias: a) a industrialização progressiva possibilitaria a mecanização dos processos agrícolas; b) a introdução pelo Estado de intrumentos e práticas de gestão econômica mais modernas e racionais; e, finalmente, c) a introdução de novas técnicas via incentivo à pesquisa científica. Desafortunadamente, contudo, tal concepção da sociedade soviética, quiçá excessivamente gradualista, logo seria atropelada com uma crueldade sem quartel pelo delírio economicista do stalinismo.

quarta-feira, novembro 09, 2005

Soyez réalistes, demandez l'impossible!

Alphonse van Worden, Madrid - 1750 AD



Il n'est pas de pensées révolutionnaires. Il n'est que des actes révolutionnaires!



L'insolence est la nouvelle arme révolutionnaire!


Agissez, sabotez, ne votez pas!


Soyons cruels!


À bas le réalisme socialiste. Vive le surréalisme!


segunda-feira, novembro 07, 2005

"Israel deve ser varrido do mapa!"




Alphonse van Worden - 1750 AD


*

Ó de preternatural gnose deífico aljôfar que extático nas sibilinas sendas da Sierra Morena oiço, por ALLAH, da Guerra Cósmica Áugido Senhor, sabiamente inspirado:


— ISRAEL DEVE SER VARRIDO DO MAPA!


Allahu Akbar...Allahu Akbar...Allahu Akbar!!!

MORTE AO GRANDE SATÃ!

MORTE AO PEQUENO SATÃ!

VIVA A REPÚBLICA ISLÂMICA DO IRÃ!

VIVA A REVOLUÇÃO ISLÂMICA!

VIDA LONGA AO AYATULLAH SEYYED ALI KHAMENEI!

VIDA LONGA AO PRESIDENTE MAHMOUD AHMADINEJAD!

GLÓRIA ETERNA AO AYATULLAH RUHOLLAH KHOMEINI!

Apontamentos sobre o pensamento conservador – I: breve nota a próposito de Donoso Cortés




Juan Francisco María de La Salud Donoso Cortés y Fernández Canedo (1809 - 1853), estadista, teólogo, conselheiro real e pensador político espanhol, é uma das figuras mais interessantes e fecundas na história do pensamento político conservador. Caudatário das teorias do francês Joseph de Maistre, outra figura constelar no âmbito do tradicionalismo, Donoso Cortés exerceu um influxo significativo sobre as principais correntes do pensamento político autoritário no século XX, notadamente através de autores como Carl Schmitt, Vilfredo Pareto e Robert Michels. 

Meu contato inicial com as ideias do autor em tela deu-se precisamente através da leitura de Carl Schmitt, a meu juízo o mais brilhante teórico do fenômeno político no século XX; com efeito, a concepção de Schmitt a propósito do agir político como expressão coletiva da contraposição 'amigo/inimigo', tomada em seu sentido mais concreto e existencial, sem apelo a qualquer elemento racional, foi sem dúvida influenciada pelas teorias de Donoso Cortés. Tais ideias foram epitomizadas de maneira particularmente eficaz no célebre Discurso sobre la Dictadura (1849), e desenvolvidas com maior fôlego teórico no Ensayo sobre el catolicismo, el liberalismo y el socialismo, considerados en suas principios fundamentales (1851). 


No âmbito do Discurso, Donoso Cortés descreve duas modalidades distintas de repressão, as quais encara como necessárias para a sobrevivência e conservação dos ordenamentos político e religioso que advogava: a monarquia absoluta e a Igreja Católica. As supracitadas formas de repressão devem coabitar em regime de equilíbrio para que possam atuar com eficácia: quando ocorre um declínio da repressão religiosa deve sobrevir uma vaga correspondente e proporcional de repressão política, e vice-versa. Para o autor, todos os regimes políticos e religiosos devem ser implacavelmente repressivos, de modo a garantirem a permanência das estruturas que respectivamente encarnam. Donoso Cortés assevera, de modo audaz e radical, que a legitimidade de um regime não está lastreada por relações de hereditariedade ou em termos de representação social, mas sim em sua capacidade de exercer ação repressiva; neste sentido, a questão mais importante não é QUEM exercerá o poder, mas sim COMO este será exercido. Assim sendo, malgrado tenha permanecido fiel aos ideais conservadores de ordem política e hierarquia religiosa, Donoso Cortés introduz um considerável componente de pragmatismo no que tange à maneira como tais ideais serão preservados, descerrando as portas para o advento de uma gestão 'sistemático-profissional' do aparato repressivo do Estado, fora dos parâmetros tradicionais da normatividade político-religiosa. Tal tournant conceitual seria providencial conferir pertinência ao pensamento do teórico espanhol mesmo no bojo do século XX, uma vez que o 'coletivismo oligárquico' -- lançando mão aqui d'um conceito de James Burnham - insere-se à perfeição nas perspectivas esboçadas por nosso autor. Em suma: a defesa da repressão sistemática como método primordial da ação política, o desprezo pela democracia parlamentar como sistema de goveno e a crença no caráter infalível da autoridade, eixos de sustentação da filosofia política cortesiana, demonstram de sobejo o alcance de suas ideias no seio do autoritarismo político do século XX.

As concepções esposadas por Donoso Cortés outrossim exerceram forte influência sobre a doutrina política católica. O filósofo espanhol afirma que a infalibilidade é uma característica precípua da autoridade em si mesma, desde que, obviamente, tal autoridade tenha sua legitimidade chancelada pela Igreja: nesses termos, 'autoridade' é, por assim dizer, sinônimo de 'infalibilidade'. À luz da inspiração divina e da autoridade espiritual da Igreja, o poder de implementar crenças e procedimentos não pode estar de forma alguma sujeito à possibilidade de erro; desta maneira, Donoso Cortés acreditava que a estrutura social iria mergulhar no caos absoluto sem o férreo alicerce da autoridade tomada como instância infalível.

Há que frisar, por fim, que as centúrias que sucederam-se desde então parecem de sobejo confirmar a perspectiva delineada por nosso autor, mormente nos tempos hodiernos, quando se verifica crescente entropia no imo de estruturas sociais permeadas pelo niilismo militante; vivemos, pois, sob a sombria égide de paralisantes hesitações, onde o pérfido ceticismo alui as mais lídimas aspirações, ratificando o que já no prístino ano de 1922 vaticinava o sempre percuciente W.B.Yeats: The best lack all conviction, while the worst / Are full passionate intensity.



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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

domingo, setembro 11, 2005

SEJA MARGINAL, SEJA HERÓI!



É possível afirmar, sem falsas patriotadas e 'verdeamarelismos' caricatos, que nada há no cinema europeu ou norte-americano que se equipare ao que de melhor nosso 'cinema marginal' produziu em termos de radicalidade terrorista de linguagem, de descompromisso absoluto e debochado em relação a todas as convenções formais e narrativas da sétima arte, e até mesmo de pura e divinamente gratuita estranheza. Parece, aliás, razoável afirmar que uma estética 'marginal' encontrará sua transfiguração mais dinâmica, intensa e vigorosa justamente no cinema, que por sua capacidade sinestésica ímpar, é o veículo par excellence para a conjuração de atmosferas onírico-delirantes.


É sobretudo surpreendente a desconcertante polissemia que os filmes 'marginais' proporcionam: excitantes, divertidos e picarescos para o 'povão' (público-alvo de parte considerável da produção da Boca do Lixo paulistana, vale dizer); e sobremaneira 'toscos', 'feios', 'desagradáveis' e 'irritantes' para a intelectualidade classe média soi disant 'bem pensante', cujo horizonte não logra jamais transcender os padrões qualitativos estabelecidos pela metrópole e suas 'bíblias de estilo' (Cahiers du Cinéma e tutti quanti). Há portanto uma décalage proposital e provocativa entre níveis de leitura que se projetam como reflexos invertidos de um mesmo espelho estético, que simultaneamente radicaliza seu caráter popularesco e sabota com conhecimento de causa e densidade filosófico-formal todas as linhas de fuga consagradas da arte cinematográfica.


São obras que rejeitam decididamente, pois, a noção careta, castradora e em última instãncia medíocre do 'filme de arte', isto é, do cinema que se apresenta como veículo de apuro formal, complexidade literária e elevação espiritual/intelectual. Assim sendo, se o arquetípico 'intelectual' midbrow de corte 'marxóide-existencialóide-psicologizante' vai assistir a um Hitler IIIº Mundo (1968 - José Agripino de Paula) ou Meteorango Kid, o Herói Intergalático (1969 - André Luiz de Oliveira), por exemplo, com Bergman, Visconti ou Renoir na cabeça (autores cujo mérito intrínseco não se discute, mas sim sua mumificação em parâmetros canônicos e incontestáveis por parte de certos setores 'culturalistas' eurocêntricos com complexo de vira-lata), isto é, com toda uma preconcebida e preconceituosa concepção de 'excelência cinematográfica', sairá da sessão a nocaute, de todo desnorteado/horrorizado, sem saborear sequer um fotograma visto; aliás, mesmo que seus referenciais sejam cineastas mais ousados como Godard ou Antonioni, é mister salientar que o espectador precisará estar preparado para uma impiedosa desconstrução sintático-morfológica do cinema; não obstante, é forçoso também ressaltar que tal processo de subversão formal/narrativa comporta uma dimensão afetiva, calorosa (algo especialmente presente no cinema de Carlos Reichenbach), já que movido pelo talante de envolver o público numa espécie de pajelança festiva que objetiva a desmistificação liberatória, conquanto paradoxalmente edificadora de outros paradigmas e horizontes, de todo um legado conceitual, cultural e existencial. Assim sendo, trata-se dum cinema que projeta uma estratégia das mais sedutoras e instigantes: é maravilhosamente 'acessível' ao espectador desprovido de informação estética prévia, e diabolicamente 'impenetrável' para o que se pretende portador de sofisticação cultural.


Filmes tais como as supracitadas, ou ainda A Mulher de Todos (1969 - Rogério Sganzerla), ZéZero (1974 - Ozualdo Candeias), O Monstro Caraíba (1975 - Júlio Bressane), A Ilha Dos Prazeres Proibidos (1978 - Carlos Reichenbach) e tantos outros, indubitavelmente destacam-se pela desorientação de uma linguagem fraturada e seu absoluto descomprometimento com o 'bom' cinema, verdadeiras orgias antropofágicas plenas de delírio, sátira, cultura pop, rádio, revistas sensacionalistas, alusões, subtextos, contextos e significados inauditos. O 'cinema marginal' é, desta forma, a consagração escrachada de uma antropofagia paródica e caleidoscópica, em obras que podem a um só tempo projetar-se como típicas pornochanchadas da Boca, com sucesso de público nos cinemas populares da época, e também como vertiginosas cornucópias de citações, referências e alusões políticas, históricas e literárias.



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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

sexta-feira, agosto 12, 2005

Nossa tarefa precípua no cenário interno: MORTE AO PT!!!

Alphonse van Worden - 1750 AD






Há já uns bons lustros venho afirmando que, na conjuntura hodierna da vida política brasileira, os principais inimigos da esquerda revolucionária não eram os conservadores ou liberais, mas sim os setores que amiúde se autodenominam como 'esquerda moderna', isto é, partidos que adotam uma retórica esquerdizante para fins de marketing eleitoral, mas que na prática implementam a mais perversa orientação econômica neoliberal, executando à risca a política recessiva e concentradora de renda preconizada pelo FMI / Consenso de Washington. São, pois, partidos como o PT, PPS ou PSB, que no plano discursivo governam para a 'nação brasileira', mas que no plano concreto atendem tão somente aos ínvios desígnios do mercado financeiro nacional e internacional.

Considerando mais especificamente o PT, vale dizer que tal partido sempre foi, é e sempre será um tremendo embuste, uma 'cobra sem veneno'. O general Golbery, por exemplo, estrategista político de rara argúcia que era, via com bons olhos o advento de um movimento político de base católica, ainda que de esquerda, de maneira a evitar que o movimento sindical convergisse para um dos PC's, ou então para Leonel Brizola... não por outra razão o mefistofélico 'bruxo' cabalou nos bastidores para que a sigla PTB, simbolicamente fortíssima à época, caísse nas mãos da inofensiva Ivete Vargas, e não em lugar de Brizola, durante a redemocratização; ademais, vale lembrar que o PT nunca foi propriamente 'reprimido' pela ditadura, ao passo que tão somente com a constituição de 1988, PCB e PCdoB foram legalizados. A verdade nua e crua, portanto, é que o PT jamais foi um partido revolucionário, nem mesmo verdadeiramente socialista. Se analisarmos a composição social da base de sustentação do partido, constataremos que o PT alicerçou-se desde sua fundação sobre o seguinte quadrilátero:


1) A aristocracia operária sindicalizada

2) Igreja 'progressista'

2) O pequeno e médio funcionalismo público

3) Intelectualidade universitária


Isto é, o partido estruturou-se a partir de estratos pertencentes à classe média brasileira, historicamente reformista. Destarte, o PT não logrou ser nem um partido socialista 'clássico', lastreado pelo proletariado como um todo, e nem tampouco o que deveria ser um partido socialista revolucionário contemporâneo, voltado para as camadas menos favorecidas do setor terciário e para o lumpemproletariat, que são os verdadeiros sujeitos do processo revolucionário hodierno. Já devidamente pasteurizado por anos de ação política reformista, uma vez que sua dinâmica é fatalmente reflexo das aspirações da classe média, o PT, se enfim centrou seus esforços sobre esferas mais amplas da sociedade a partir da última década, o fez sob um viés clientelista /assistencialista que reproduz os piores elementos do populismo. E em 2002, com a vitória de Lula, o partido finalmente assumiu uma feição de todo conservadora ao encampar de forma enfática e estrita uma política econômica talhada para atender somente aos desígnios das classes dominantes, mormente o mais perniciosa de suas esferas, a dos banqueiros e especuladores financeiros.

Retornando à questão central deste nosso manifesto, poderíeis perguntar, meus prezados camaradas, por que o PT e outros partidos 'reformistas' são hoje nossos principais inimigos, e não os partidos mais tradicionalmente ligados ao campo estritamente burguês? Porque o enfrentamento contra os setores declaradamente conservadores ou liberais se processa às claras, em campo aberto, com critérios nítidos de demarcação ideológica; sabemos todos, pois, de antemão, o que representam os FHC's, os Sarney's, os ACM's, e não como o movimento popular confundi-los com elementos progressistas.

A mesma transparência política, todavia, não ocorre no confronto contra a 'esquerda moderna', a qual deliberadamente opera uma paralaxe conceitual diversionária via retórica pseudo-esquerdista, o que desloca o embate em tela para uma zona de sombra, para um lusco-fusco ideológico que lhe é providencial, uma vez que seu principal intento é ocultar o facto de que, na prática, sua ação política já nada mais possui de socialista ou mesmo de vagamente reformista, sendo, ao contrário, a expressão nua e crua da barbárie neoliberal; assim sendo, agem nas trevas, de modo sorrateiro, sibilino e hipócrita. Destarte, nossa tarefa precípua consiste, egrégios camaradas, em arrancá-los da confortável penumbra ideológica em que se aninham para arrojá-los à luz do Sol, de modo que o povo possa contemplar estes vermes em toda a sua hediondez e vicio. É mister, por conseguinte, denunciar aos 4 ventos os crimes da camarilha petista, mover-lhes uma perseguição sem trégua, apontar-lhes todas as iniqüidades, de modo a enfim revelar por completo sua verdadeira face asquerosa.

Os mais recentes desdobramentos da acelerada metástase do cancro petista em todas as esferas da vida pública nacional confirmam sobejamente, creio eu, a perspectiva que acima delineei. Não tenhais dúvidas, caros camaradas: aproxima-se a passos de corrida a eclosão de uma implacável e brutal luta de morte entre os renegados da 'esquerda moderna' e os setores da esquerda revolucionária. Não haverá, pois, espaço para quaisquer titubeios ou hesitações. O recém-formado PSOL, por exemplo, fatalmente terá de descer do muro onde se encontra, para engajar-se em definitivo na guerra contra a pseudo-esquerda, ou então irá submergir inelutavelmente nas pestilências da cloaca petista. Conclamo, destarte, toda a esquerda revolucionária a adotar a seguinte insígnia:


MORTE AO PT!

GUERRA TOTAL CONTRA A PSEUDO-ESQUERDA RENEGADA!

segunda-feira, julho 11, 2005

Glória eterna ao excelso mavorte lusitano!

Alphonse van Worden - 1750 AD



FORÇA, FORÇA COMPANHEIRO VASCO

NÓS SEREMOS A MURALHA D'AÇO!!!