Alphonse Van Worden - 1750 AD
Publicado em 1950 na edição de número quarenta e nove do prestigiado periódico Mind, o artigo Computing Machinery and Intelligence, de autoria do matemático, lógico e cientista da computação inglês Alan Mathison Turing, ocupa uma posição singular na história das ideias: é simultaneamente um dos marcos fundacionais da ciência da computação e da pesquisa em AI; uma revolucionária proposta metodológica nessas áreas; e um ensaio de filosofia analítica aplicada a um problema clássico da tradição filosófica - a natureza da cognição humana.
Talvez o grande mérito de Turing não consista tanto em dar uma resposta à indagação “podem as máquinas pensar?”, mas sim em formular os critérios, estabelecer as condições que tornam a pergunta inteligível e pertinente; nesse sentido, seu artigo poderia ser caracterizado como uma espécie de reengenharia conceitual do problema.
Já à partida o matemático londrino questiona o estatuto por assim dizer metafísico da questão em sua configuração original. Termos como ‘máquina’ e ‘pensar’ são semanticamente vagos, propensos a intermináveis controvérsias; assim sendo, em vez de oferecer definições preliminares, o autor propõe uma alternativa metodológica: uma situação experimental em que a atribuição de inteligência possa ser decidida por critérios universalmente reconhecidos. Turing desloca o eixo do debate da ontologia do pensamento em si mesmo para os modos de identificar que ALGO está pensando.
O chamado ‘Imitation Game’ converte a questão metafísica num teste cognitivo-comportamental. A máquina é avaliada por sua capacidade de estabelecer uma conversação indiscernível daquela mantida por um ser humano. O aspecto linguístico é crucial: Turing assume que a competência linguística é o índice mais complexo da inteligência geral, pois envolve raciocínio, memória, criatividade, adaptação contextual e sensibilidade pragmática.
O teste não pretende sondar estados internos ocultos, antes baseando-se em critérios intersubjetivos; a inteligência é inferida a partir de parâmetros objetivos de desempenho. O que está em jogo é a suficiência de um perfil funcional para sustentar atribuições mentais.
Turing parte, pois, da noção de máquina digital universal: qualquer processo formalizável é, em princípio, computável. O cérebro humano é assumido, como hipótese metodológica, modelável como um sistema físico governado por leis; na medida em que tais leis sejam computáveis, o comportamento do sistema torna-se teoricamente simulável.
Não se trata, vale dizer, de afirmar um isomorfismo trivial entre cérebro e computador, mas de advogar a tese de que não há obstáculo lógico conhecido que impeça a execução artificial de processos cognitivos. A hipótese de continuidade funcional entre o cérebro e o computador é o argumento central do artigo.
Turing ainda se preocupa com possíveis objeções, e dedica boa parte do artigo à discussão de algumas delas:
- a objeção teológica (pensamento como prerrogativa da alma);
- a objeção da consciência (máquinas não têm experiência subjetiva);
- o argumento da incapacidade (há coisas que máquinas nunca poderão fazer);
- o argumento de Lady Lovelace (máquinas apenas executam o que programamos);
- objeções matemáticas baseadas em incompletude (Kurt Gödel);
- a continuidade do sistema nervoso;
- a informalidade do comportamento humano;
- a percepção extra-sensorial.
O cientista inglês não pretende refutar tais objeções pormenorizadamente, mas tão somente demonstrar que nenhuma delas traz um impasse conceitual intransponível. Sua argumentação é admiravelmente sóbria, trafegando entre a análise lógica e a investigação das possibilidades técnicas.
Algumas das réplicas de Turing parecem-me particularmente notáveis.
A ‘objeção teológica’, por exemplo, parte do pressuposto de que o pensamento é um atributo da alma imortal, concedido por Deus exclusivamente ao Homem; na condição de artefatos, máquinas estariam ontologicamente excluídas da esfera do pensamento. Turing responde a tal objeção em dois níveis: por um lado, observa que esta perspectiva depende de compromissos teológicos específicos que não podem funcionar como critérios científicos; por outro, argumenta que a onipotência divina não seria limitada pelo engenho humano: caso Deus quisesse conceder alma a uma máquina, nada impedi-Lo. Destarte, a objeção não estabelece uma impossibilidade lógica, apenas uma orientação doutrinária. O ponto central é metodológico: explicações teológicas não oferecem critérios de testabilidade adequados para a investigação científica.
No que tange à objeção da consciência, esta afirma que uma máquina poderia simular comportamento inteligente sem possuir experiência subjetiva; com efeito, a máquina nada sentiria ou experimentaria, tão somente executaria rotinas programadas. A resposta de Turing é surpreendentemente moderna para a época: não temos acesso direto à consciência de outros humanos, argumenta o matemático, e portanto atribuímos estados mentais com base em comportamento e linguagem. Exigir um critério adicional no caso das máquinas seria introduzir um padrão assimétrico. O argumento da consciência não refuta, por conseguinte, a possibilidade de inteligência artificial, apenas expõe o problema geral do acesso a outras mentes.
O argumento de Lady Lovelace, por seu turno, faz menção à matemática e escritora inglesa Augusta Ada Byron King, a Condessa de Lovelace, célebre por ter criado o primeiro algoritmo processado por uma máquina, no caso a Máquina Analítica de Charles Babbage, projeto pioneiro de computador mecânico da era moderna. Lovelace acreditava que o dispositivo não tinha “pretensões de originar nada: apenas executa o que sabemos ordenar”. Para a inventora, as máquinas careciam, por definição, de qualquer forma de criatividade genuína. Turing responde alegando que a imprevisibilidade comportamental e/ou cognitiva não implica indeterminação metafísica. Sistemas suficientemente complexos podem produzir resultados que surpreendem até mesmo seus criadores. Além disso, processos de auto-aprendizado e automodificação ampliam o espectro de possibilidades para a novidade. A ideia de que apenas humanos possam originar algo novo repousa, segundo Turing, numa intuição psicologicamente compreensível, mas logicamente frágil.
No que se refere, por fim, à chamada objeção matemática (Gödel), a questão é bem mais complexa, pois envolve uma cadeia de inferências que vai além do teorema em si.
O primeiro teorema da incompletude formulado pelo matemático e lógico austríaco estabelece o seguinte, em linhas gerais:
Para qualquer sistema formal consistente e suficientemente poderoso para expressar a aritmética dos números naturais, existem proposições verdadeiras que não podem ser demonstradas dentro do próprio sistema.
Por exemplo: existem proposições da aritmética elementar não demonstráveis no sistema formal em questão.
Gödel constrói uma sentença 𝐺 que, em essência, estabelece:
‘Esta sentença não é demonstrável no sistema S.’
Se 𝑆 for consistente:
- 𝐺 não pode ser provada em 𝑆 (ou o sistema se tornaria inconsistente);
- não obstante, de um ponto de vista metateórico, podemos ver que 𝐺 é verdadeira - mas apenas em caráter condicional relativo à consistência mesma do sistema. O próprio reconhecimento metateórico repousa, portanto, em pressupostos adicionais; não se trata de uma apreensão absoluta, mas de uma inferência dependente de hipóteses.
De modo que há no caso uma assimetria entre verdade aritmética e demonstrabilidade formal, o que evidencia a existência de uma lacuna estrutural entre verdade e prova em qualquer sistema formal suficientemente forte.
A objeção a Turing surge quando se faz o seguinte raciocínio:
a) suponhamos que a mente humana seja equivalente a uma máquina formal (um sistema algorítmico);
b) ela corresponderia então a algum sistema formal 𝑆;
c) pelo teorema de Gödel, existe uma sentença 𝐺s que é verdadeira mas não demonstrável em 𝑆;
d) um matemático humano pode constatar que 𝐺s é verdadeira;
e) logo, a mente humana transcende a capacidade de qualquer sistema formal fixo;
f) portanto, a mente não é redutível a uma máquina.
Turing observa que o argumento depende de uma premissa fundamental: o matemático humano consegue reconhecer a verdade de 𝐺s; sem isso, a conclusão estabelecida em f) não ocorre.
A réplica do matemático britânico é sobremaneira hábil e sutil: não se trata de negar a validade do teorema, mas sim a inferência lógica extraída dele. O argumento pressupõe que o matemático humano é consistente, capaz de reconhecer a consistência do sistema e passível de reconhecer a pertinência do enunciado gödeliano; todavia, seres humanos cometem erros. Um matemático real não tem garantia plena de consistência contínua. Se a mente humana revelar inconsistência, o argumento colapsa: um sistema inconsistente pode ‘provar’ qualquer coisa, inclusive sua sentença gödeliana. Ou seja, aquele que propugna uma posição antimecanicista deve assumir que a mente humana é consistentemente superior a qualquer sistema formal; é uma hipótese psicológica extremamente forte, malgrado não demonstrável.
Turing ainda observa que a estratégia gödeliana é iterável pela máquina: se o homem transcende o sistema 𝑆 ao reconhecer 𝐺s, então podemos construir um sistema ampliado 𝑆’ = 𝑆 + 𝐺s. Supondo-se que Gödel seja aplicado novamente a 𝑆’, nada impede, em princípio lógico, que uma máquina seja programada para a) reconhecer suas próprias limitações; b) estender seu sistema; c) repetir o processo.
Existe, portanto, tal como detecta Turing, uma confusão entre esferas conceituais distintas: Gödel fala de sistemas formais ideais, ao passo que a objeção no fundo trata da psicologia humana. O teorema não descreve como nós humanos pensamos, mas sim propriedades de estruturas formais abstratas. A passagem de uma tese lógica para uma tese sobre a natureza da mente é uma extrapolação filosófica que exigiria argumentos adicionais, que a objeção indubitavelmente não fornece.
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As implicações filosóficas presentes em Computing Machinery and Intelligence são múltiplas e multiformes, assim como os debates que o artigo suscitou e até hoje segue suscitando.
Convém assinalar, em primeiro lugar, uma fascinante afinidade intelectual entre Turing e o behaviorismo filosófico do britânico Gilbert Ryle, especialmente com a crítica ryleana ao mito do Ghost in the Machine proposta em The Concept of Mind (1949). Com efeito, o professor oxfordiano rejeita a ideia de que a mente seja uma entidade oculta, privada e metafisicamente separada do comportamento observável; estados mentais, para ele, manifestam-se em disposições comportamentais públicas. Nesse sentido, o Teste de Turing pode ser interpretado como uma operacionalização metodológica dessa intuição: atribuir inteligência a um sistema equivale a reconhecer sua inserção bem-sucedida em práticas linguísticas normativas passíveis de observação. Turing não reduz a mente a mero comportamento no sentido behaviorista psicológico: compartilha com Ryle a recusa de critérios introspectivos privilegiados e reafirma, pelo contrário, o primado epistemológico da evidência intersubjetiva. Inteligência, nessa perspectiva, é um conceito disposicional lógico-comportamental, não uma instância metafísica ‘subterrânea’.
Em textos como Minds and Machines (1960) e The Nature of Mental States (1967), o filósofo norte-americano Hilary Putnam desenvolve sua teoria funcionalista sobre o funcionamento da mente: estados mentais são definidos por seus papéis causais, não por seu substrato material. O argumento da Multiple Realizability - a noção de que o mesmo estado mental pode ser implementado em diferentes suportes físicos - em particular , reverbera diretamente as intuições de Turing. O Imitation Game pode ser lido fundamentalmente como um experimento mental funcionalista: se uma máquina é capaz de instanciar a mesma organização funcional relevante, a recusa em atribuir atividade mental a ela se torna arbitrária. ‘Mente’ é arquitetura de processamento de informação, não uma misteriosa e esotérica entidade metafísica.
Um outro influente filósofo norte-americano na segunda metade do século XX, Daniel Dennett, radicaliza essa tendência ao propor a hipótese da Intentional Stance: tratamos sistemas como agentes racionais quando essa estratégia interpretativa é bem-sucedida. O Teste de Turing proporciona um critério pragmático para a adoção dessa perspectiva: tratar a máquina como dispositivo pensante produz previsões eficazes, o que por si só justifica o procedimento. Para Dennett, não há qualquer consideração metafísica adicional sobre ‘consciência verdadeira’ que transcenda a estabilidade desses padrões interpretativos; nesse sentido, Turing antecipa uma concepção deflacionária da mente.
O diálogo com interpretações críticas também é bastante profícuo e estimulante. Com seu experimento do Chinese Room, John Searle, mais um filósofo norte-americano, ataca precisamente o elo entre sintaxe e semântica: uma máquina poderia manipular símbolos de acordo com parâmetros lógicos bem definidos sem no entanto compreender seu significado; passar no teste de Turing não garantiria, portanto, intencionalidade genuína. A objeção de Searle reabre a distinção entre simulação e duplicação. Para o filósofo, a computação é puramente sintática; a mente humana possui capacidade semântica intrínseca e incomparável. O debate entre Turing e Searle, ainda que indireto, alicerça grande parte da reflexão filosófica contemporânea sobre AI: a questão central é se a organização funcional é suficiente para caracterizar atividade mental genuína ou se é necessário algum tipo especial de causalidade biológica.
Embora Turing não cite Ludwig Wittgenstein, seu arcabouço conceitual é claramente afim à tese do filósofo austríaco de que significado se define pelo uso: a participação em jogos de linguagem é o critério de pertencimento a uma comunidade racional. O Imitation Game converte a inteligência em competência normativa: trata-se de fornecer respostas apropriadas dentro de parâmetros discursivos compartilhados. A metodologia de Turing espelha a condição humana: não temos acesso direto à mente do outro. Se aceitamos outros humanos como pensantes com base em evidência pública, negar o mesmo critério às máquinas demandaria um privilégio ontológico especial, cuja justificativa é filosoficamente vulnerável.
Pode-se afirmar, em suma, que o legado mais duradouro de Computing Machinery and Intelligence reside nessas tensões dialéticas que ele trabalha de forma fecunda: comportamento e consciência, sintaxe e semântica, simulação e compreensão. A filosofia da mente contemporânea pode ser lida, em larga medida, como uma série de variações sobre o problema que Turing ajudou a formular com criatividade, ousadia e rigor verdadeiramente admiráveis.











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