sexta-feira, dezembro 02, 2005

Apontamentos sobre o pensamento político marxista – I: a próposito de Nikolay Bukharin

Alphonse van Worden - 1750 AD





Estive a ler nas últimas semanas, ó egrégios irmãos d'armas, um tomo dos mais interessantes: trata-se de uma compilação de artigos e ensaios do iminente prócer bolchevique e teórico marxista Nikolay Bukharin (1888-1938), organizada pelo renomado historiador soviético Roy Medvedev (autor, d’entre outras obras, do monumental Let History Judge, até hoje o melhor livro já escrito sobre a barbárie stalinista). O volume reúne textos publicados originalmente entre 1918 e 1936, em sua maioria nos diários Pravda e Izvestiia. Há, decerto, algumas peças menos inspiradas, até mesmo revoltantes, sobretudo no biênio 1927-28, ápice do duunvirato Stalin-Bukharin, com especial demérito para a cínica condenação da ‘Plataforma dos 46’ e a obscena celebração pelo expurgo da ‘Oposição de Esquerda’; todavia, o número e qualidade dos momentos luminosos compensa de sobejo os supracitados deslizes, nomeadamente os magníficos artigos escritos entre 1929-1936, vazados na críptica, epigramática e fascinante linguagem ‘esópica’, estratégia diversionária muito característica na imprensa soviética submetida ao tacão stalinista, d’entre os quais se destacam os célebres Notas de um Economista (1930), seu ‘testamento’ em matéria de pensamento econômico, e o belíssimo Caminhos da História: Pensamentos em Voz Alta (1936), um pungente testamento político e existencial.

O que, entretanto, tenciono discutir na presente nota são dois temas constantes no pensar de Bukharin, e que me parecem particularmente relevantes à luz dos sinistros desdobramentos ulteriores da verdadeira tragédia de Ésquilo em que se converteu a Revolução Soviética. A primeira questão, alvo de numerosos textos do líder bolchevique entre 1918-1922, é a terrível suspeita de que a necessária violência revolucionária estava servindo como pretexto para que um sem-número de sociopatas e criminosos aderissem à insurreição de Outubro, com o fito de dar livre curso a vendettas pessoais, ressentimentos homicidas e toda sorte de arbitrariedades e taras truculentas. Consternado com tais eventos, Bukharin advertia para a necessidade do Partido Bolvechique, de um lado, e do Estado soviético, de outro, exercerem o máximo de cuidado e rigor na filiação de novos militantes e na arregimentação de novos funcionários. É mister recordarmos, vale dizer, que Lenin também externou em seus últimos artigos as mesmas preocupações de Bukharin, advertindo repetidamente para o facto de que o Partido precisava exercer a mais estrita disciplina e vigilância no tocante à admissão de novos membros; aliás, o saudoso Ulianov concluiu, no último lustro de sua existência, que a nomeação de Stalin para o cargo de Secretário-Geral havia sido um erro, pressentindo que o líder georgiano abriria as portas do Partido num afluxo indiscriminado de novas filiações, com o fito de fortalecer seu poder no aparato; não obstante, mais do que qualquer outro bolchevique ilustre, Bukharin deplorava a permanência de tendências chivovnik de cunho ‘asiático-imperial’ no seio do Partido e da administração soviética, sublinhando a necessidade vital de cada indivíduo a serviço da Revolução desempenhar suas lides de forma ponderada e sensível, promovendo a fraternidade socialista e a emulação dos bons exemplos. Para Bukharin, uma interface solidária e confiável entre o novo Estado proletário e o povo seria quiçá o instrumento mais importante do Partido no sentido de aprofundar e consubstanciar as conquistas soviéticas. A nefária ‘Revolução pelo Alto’ promovida pela camarilha stalinista, macabro ritual de inaudita violência institucional contra o povo em máximo grau de selvageria e crueldade, arrojou por terra as preciosas lições ministradas por Bukharin, que, aliás, também foram encampadas por Lênin em seus últimos anos de vida.

A segunda temática, de certa maneira correlata a primeira e de caráter ainda mais axial, diz respeito à ‘Paz Civil’ advogada por Bukharin como viga mestra nos procedimentos do Estado soviético pós-guerra civil. De acordo com insigne bolchevique, superadas a ameaça da contra-revolução e as convulsões econômicas do ‘Comunismo de Guerra’, o Estado e o Partido deveriam adotar procedimentos, tanto administrativos quanto político-ideológicos / persuasivos, de jaez decididamente pacífico, estimulando a colaboração e o entendimento entre os diversos setores da sociedade soviética. Em termos econômicos, tal iniciativa se manifestaria na smychka campo-cidade, estabelecendo que o compasso de crescimento da atividade industrial deveria ser ditado em simetria perfeita com o fortalecimento do setor agrícola, salientando a importância da sinergia gerencial como linha de fuga essencial em termos de política econômica; no que concerne à questão social, a ‘Paz Civil’ se traduz como ênfase numa política de tolerância e serenidade, isto é, de cooperação solidária entre o Estado e a sociedade no esforço conjunto de implementação harmoniosa da ordem socialista; na esfera cultural, enfim, tais preceitos se formulam como estímulo à diversidade fecundante e criativa de escolas e expressões artísticas, elemento crucial para o aprimoramento intelectual do próprio socialismo. Mais uma vez, contudo, o advento da era stalinista abortaria os ideais acalentados por Bukharin: com a adoção da malévola teoria segundo a qual a luta de classes se intensifica com a consolidação do socialismo, a URSS mergulhou num frenesi maníaco de violência irracional que destruiu os ainda frágeis alicerces da nova ordem.

À luz das concepções acima esboçadas torna-se possível, quero crer, uma melhor compreensão do confronto ideológico entre a 'direita' bukharinista, de um lado, e a 'esquerda' trotskista, de outro, que convulsionou e fraturou o poder soviético nos anos 20. Houve, pois, uma ominosa 'dissonância cognitiva' de parte a parte: Bukharin, por um lado, hiperdimensionou a ênfase que o programa econômico da esquerda conferia ao ritmo da industrialização soviética, nele identificando um caráter artificialmente otimista e exagerado. Bukharin acreditava na possibilidade de construção do 'Socialismo num só país', mas nos termos gradualistas da smycha campo-cidade, e não sob o ditame alucinante do super-industrialismo 'stakhanovista' à la Kuybishev-Stalin, o qual equivocadamente associou à plataforma da esquerda, superestimando as semelhanças pontuais que existiam entre o programa econômico de Trotsky-Preobhazensky (sobretudo no que tange ao conceito de 'Acumulação Primitiva Socialista') e as teses super-industrialistas da facção stalinista. O 'predileto de todo o Partido' cria, por conseguinte, que Preobrazhensky e Trotsky pretendiam esmagar os mercados camponeses, promovendo uma industrialização às expensas do setor agrícola; a facção staliana, por sua vez, habilmente ocultou seus intentos ulteriores, sustentando por questões de aliança estratégica de momento as posições bukharinistas. Preobhazensky e Trotsky, por fim, hipertrofiaram o significado da moderação bukharinista em termos de projeto econômico, ignorando o facto de que a distinção entre as idéias de ambos os grupos era de grau, e não de gênero; ao mesmo tempo, não atentaram devidamente para as concepções políticas de Bukharin, que defendia com veemência, assim como a Esquerda, a democracia partidária, advogando a necessidade de ampla liberdade de discussão interna.

Há também que salientar, por fim, que Bukharin entusiasmou-se em demasia com sua concepção da smychka campo-cidade como via preferencial para um crescimento econômico sólido e auto-sustentável, bem como para a edificação de uma sociedade pacífica e harmoniosa. O excelso teórico bolchevique parecia acalentar uma visão de cunho 'organicista-naturalista', isto é, que o processo de construção do socialismo seria quase um epifenômeno automático, desta maneira hiperdimensionando o potencial da via gradualista de desenvolvimento. Para Bukharin, a economia camponesa paulatinamente evoluiria para a coletivização por intermédio de três vias: a) a industrialização progressiva possibilitaria a mecanização dos processos agrícolas; b) a introdução pelo Estado de intrumentos e práticas de gestão econômica mais modernas e racionais; e, finalmente, c) a introdução de novas técnicas via incentivo à pesquisa científica. Desafortunadamente, contudo, tal concepção da sociedade soviética, quiçá excessivamente gradualista, logo seria atropelada com uma crueldade sem quartel pelo delírio economicista do stalinismo.

quarta-feira, novembro 09, 2005

Soyez réalistes, demandez l'impossible!

Alphonse van Worden, Madrid - 1750 AD



Il n'est pas de pensées révolutionnaires. Il n'est que des actes révolutionnaires!



L'insolence est la nouvelle arme révolutionnaire!


Agissez, sabotez, ne votez pas!


Soyons cruels!


À bas le réalisme socialiste. Vive le surréalisme!


segunda-feira, novembro 07, 2005

"Israel deve ser varrido do mapa!"




Alphonse van Worden - 1750 AD


*

Ó de preternatural gnose deífico aljôfar que extático nas sibilinas sendas da Sierra Morena oiço, por ALLAH, da Guerra Cósmica Áugido Senhor, sabiamente inspirado:


— ISRAEL DEVE SER VARRIDO DO MAPA!


Allahu Akbar...Allahu Akbar...Allahu Akbar!!!

MORTE AO GRANDE SATÃ!

MORTE AO PEQUENO SATÃ!

VIVA A REPÚBLICA ISLÂMICA DO IRÃ!

VIVA A REVOLUÇÃO ISLÂMICA!

VIDA LONGA AO AYATULLAH SEYYED ALI KHAMENEI!

VIDA LONGA AO PRESIDENTE MAHMOUD AHMADINEJAD!

GLÓRIA ETERNA AO AYATULLAH RUHOLLAH KHOMEINI!

Apontamentos sobre o pensamento conservador – I: breve nota a próposito de Donoso Cortés




Juan Francisco María de La Salud Donoso Cortés y Fernández Canedo (1809 - 1853), estadista, teólogo, conselheiro real e pensador político espanhol, é uma das figuras mais interessantes e fecundas na história do pensamento político conservador. Caudatário das teorias do francês Joseph de Maistre, outra figura constelar no âmbito do tradicionalismo, Donoso Cortés exerceu um influxo significativo sobre as principais correntes do pensamento político autoritário no século XX, notadamente através de autores como Carl Schmitt, Vilfredo Pareto e Robert Michels. 

Meu contato inicial com as ideias do autor em tela deu-se precisamente através da leitura de Carl Schmitt, a meu juízo o mais brilhante teórico do fenômeno político no século XX; com efeito, a concepção de Schmitt a propósito do agir político como expressão coletiva da contraposição 'amigo/inimigo', tomada em seu sentido mais concreto e existencial, sem apelo a qualquer elemento racional, foi sem dúvida influenciada pelas teorias de Donoso Cortés. Tais ideias foram epitomizadas de maneira particularmente eficaz no célebre Discurso sobre la Dictadura (1849), e desenvolvidas com maior fôlego teórico no Ensayo sobre el catolicismo, el liberalismo y el socialismo, considerados en suas principios fundamentales (1851). 


No âmbito do Discurso, Donoso Cortés descreve duas modalidades distintas de repressão, as quais encara como necessárias para a sobrevivência e conservação dos ordenamentos político e religioso que advogava: a monarquia absoluta e a Igreja Católica. As supracitadas formas de repressão devem coabitar em regime de equilíbrio para que possam atuar com eficácia: quando ocorre um declínio da repressão religiosa deve sobrevir uma vaga correspondente e proporcional de repressão política, e vice-versa. Para o autor, todos os regimes políticos e religiosos devem ser implacavelmente repressivos, de modo a garantirem a permanência das estruturas que respectivamente encarnam. Donoso Cortés assevera, de modo audaz e radical, que a legitimidade de um regime não está lastreada por relações de hereditariedade ou em termos de representação social, mas sim em sua capacidade de exercer ação repressiva; neste sentido, a questão mais importante não é QUEM exercerá o poder, mas sim COMO este será exercido. Assim sendo, malgrado tenha permanecido fiel aos ideais conservadores de ordem política e hierarquia religiosa, Donoso Cortés introduz um considerável componente de pragmatismo no que tange à maneira como tais ideais serão preservados, descerrando as portas para o advento de uma gestão 'sistemático-profissional' do aparato repressivo do Estado, fora dos parâmetros tradicionais da normatividade político-religiosa. Tal tournant conceitual seria providencial conferir pertinência ao pensamento do teórico espanhol mesmo no bojo do século XX, uma vez que o 'coletivismo oligárquico' -- lançando mão aqui d'um conceito de James Burnham - insere-se à perfeição nas perspectivas esboçadas por nosso autor. Em suma: a defesa da repressão sistemática como método primordial da ação política, o desprezo pela democracia parlamentar como sistema de goveno e a crença no caráter infalível da autoridade, eixos de sustentação da filosofia política cortesiana, demonstram de sobejo o alcance de suas ideias no seio do autoritarismo político do século XX.

As concepções esposadas por Donoso Cortés outrossim exerceram forte influência sobre a doutrina política católica. O filósofo espanhol afirma que a infalibilidade é uma característica precípua da autoridade em si mesma, desde que, obviamente, tal autoridade tenha sua legitimidade chancelada pela Igreja: nesses termos, 'autoridade' é, por assim dizer, sinônimo de 'infalibilidade'. À luz da inspiração divina e da autoridade espiritual da Igreja, o poder de implementar crenças e procedimentos não pode estar de forma alguma sujeito à possibilidade de erro; desta maneira, Donoso Cortés acreditava que a estrutura social iria mergulhar no caos absoluto sem o férreo alicerce da autoridade tomada como instância infalível.

Há que frisar, por fim, que as centúrias que sucederam-se desde então parecem de sobejo confirmar a perspectiva delineada por nosso autor, mormente nos tempos hodiernos, quando se verifica crescente entropia no imo de estruturas sociais permeadas pelo niilismo militante; vivemos, pois, sob a sombria égide de paralisantes hesitações, onde o pérfido ceticismo alui as mais lídimas aspirações, ratificando o que já no prístino ano de 1922 vaticinava o sempre percuciente W.B.Yeats: The best lack all conviction, while the worst / Are full passionate intensity.



*


Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

domingo, setembro 11, 2005

SEJA MARGINAL, SEJA HERÓI!



É possível afirmar, sem falsas patriotadas e 'verdeamarelismos' caricatos, que nada há no cinema europeu ou norte-americano que se equipare ao que de melhor nosso 'cinema marginal' produziu em termos de radicalidade terrorista de linguagem, de descompromisso absoluto e debochado em relação a todas as convenções formais e narrativas da sétima arte, e até mesmo de pura e divinamente gratuita estranheza. Parece, aliás, razoável afirmar que uma estética 'marginal' encontrará sua transfiguração mais dinâmica, intensa e vigorosa justamente no cinema, que por sua capacidade sinestésica ímpar, é o veículo par excellence para a conjuração de atmosferas onírico-delirantes.


É sobretudo surpreendente a desconcertante polissemia que os filmes 'marginais' proporcionam: excitantes, divertidos e picarescos para o 'povão' (público-alvo de parte considerável da produção da Boca do Lixo paulistana, vale dizer); e sobremaneira 'toscos', 'feios', 'desagradáveis' e 'irritantes' para a intelectualidade classe média soi disant 'bem pensante', cujo horizonte não logra jamais transcender os padrões qualitativos estabelecidos pela metrópole e suas 'bíblias de estilo' (Cahiers du Cinéma e tutti quanti). Há portanto uma décalage proposital e provocativa entre níveis de leitura que se projetam como reflexos invertidos de um mesmo espelho estético, que simultaneamente radicaliza seu caráter popularesco e sabota com conhecimento de causa e densidade filosófico-formal todas as linhas de fuga consagradas da arte cinematográfica.


São obras que rejeitam decididamente, pois, a noção careta, castradora e em última instãncia medíocre do 'filme de arte', isto é, do cinema que se apresenta como veículo de apuro formal, complexidade literária e elevação espiritual/intelectual. Assim sendo, se o arquetípico 'intelectual' midbrow de corte 'marxóide-existencialóide-psicologizante' vai assistir a um Hitler IIIº Mundo (1968 - José Agripino de Paula) ou Meteorango Kid, o Herói Intergalático (1969 - André Luiz de Oliveira), por exemplo, com Bergman, Visconti ou Renoir na cabeça (autores cujo mérito intrínseco não se discute, mas sim sua mumificação em parâmetros canônicos e incontestáveis por parte de certos setores 'culturalistas' eurocêntricos com complexo de vira-lata), isto é, com toda uma preconcebida e preconceituosa concepção de 'excelência cinematográfica', sairá da sessão a nocaute, de todo desnorteado/horrorizado, sem saborear sequer um fotograma visto; aliás, mesmo que seus referenciais sejam cineastas mais ousados como Godard ou Antonioni, é mister salientar que o espectador precisará estar preparado para uma impiedosa desconstrução sintático-morfológica do cinema; não obstante, é forçoso também ressaltar que tal processo de subversão formal/narrativa comporta uma dimensão afetiva, calorosa (algo especialmente presente no cinema de Carlos Reichenbach), já que movido pelo talante de envolver o público numa espécie de pajelança festiva que objetiva a desmistificação liberatória, conquanto paradoxalmente edificadora de outros paradigmas e horizontes, de todo um legado conceitual, cultural e existencial. Assim sendo, trata-se dum cinema que projeta uma estratégia das mais sedutoras e instigantes: é maravilhosamente 'acessível' ao espectador desprovido de informação estética prévia, e diabolicamente 'impenetrável' para o que se pretende portador de sofisticação cultural.


Filmes tais como as supracitadas, ou ainda A Mulher de Todos (1969 - Rogério Sganzerla), ZéZero (1974 - Ozualdo Candeias), O Monstro Caraíba (1975 - Júlio Bressane), A Ilha Dos Prazeres Proibidos (1978 - Carlos Reichenbach) e tantos outros, indubitavelmente destacam-se pela desorientação de uma linguagem fraturada e seu absoluto descomprometimento com o 'bom' cinema, verdadeiras orgias antropofágicas plenas de delírio, sátira, cultura pop, rádio, revistas sensacionalistas, alusões, subtextos, contextos e significados inauditos. O 'cinema marginal' é, desta forma, a consagração escrachada de uma antropofagia paródica e caleidoscópica, em obras que podem a um só tempo projetar-se como típicas pornochanchadas da Boca, com sucesso de público nos cinemas populares da época, e também como vertiginosas cornucópias de citações, referências e alusões políticas, históricas e literárias.



_____

Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

sexta-feira, agosto 12, 2005

Nossa tarefa precípua no cenário interno: MORTE AO PT!!!

Alphonse van Worden - 1750 AD






Há já uns bons lustros venho afirmando que, na conjuntura hodierna da vida política brasileira, os principais inimigos da esquerda revolucionária não eram os conservadores ou liberais, mas sim os setores que amiúde se autodenominam como 'esquerda moderna', isto é, partidos que adotam uma retórica esquerdizante para fins de marketing eleitoral, mas que na prática implementam a mais perversa orientação econômica neoliberal, executando à risca a política recessiva e concentradora de renda preconizada pelo FMI / Consenso de Washington. São, pois, partidos como o PT, PPS ou PSB, que no plano discursivo governam para a 'nação brasileira', mas que no plano concreto atendem tão somente aos ínvios desígnios do mercado financeiro nacional e internacional.

Considerando mais especificamente o PT, vale dizer que tal partido sempre foi, é e sempre será um tremendo embuste, uma 'cobra sem veneno'. O general Golbery, por exemplo, estrategista político de rara argúcia que era, via com bons olhos o advento de um movimento político de base católica, ainda que de esquerda, de maneira a evitar que o movimento sindical convergisse para um dos PC's, ou então para Leonel Brizola... não por outra razão o mefistofélico 'bruxo' cabalou nos bastidores para que a sigla PTB, simbolicamente fortíssima à época, caísse nas mãos da inofensiva Ivete Vargas, e não em lugar de Brizola, durante a redemocratização; ademais, vale lembrar que o PT nunca foi propriamente 'reprimido' pela ditadura, ao passo que tão somente com a constituição de 1988, PCB e PCdoB foram legalizados. A verdade nua e crua, portanto, é que o PT jamais foi um partido revolucionário, nem mesmo verdadeiramente socialista. Se analisarmos a composição social da base de sustentação do partido, constataremos que o PT alicerçou-se desde sua fundação sobre o seguinte quadrilátero:


1) A aristocracia operária sindicalizada

2) Igreja 'progressista'

2) O pequeno e médio funcionalismo público

3) Intelectualidade universitária


Isto é, o partido estruturou-se a partir de estratos pertencentes à classe média brasileira, historicamente reformista. Destarte, o PT não logrou ser nem um partido socialista 'clássico', lastreado pelo proletariado como um todo, e nem tampouco o que deveria ser um partido socialista revolucionário contemporâneo, voltado para as camadas menos favorecidas do setor terciário e para o lumpemproletariat, que são os verdadeiros sujeitos do processo revolucionário hodierno. Já devidamente pasteurizado por anos de ação política reformista, uma vez que sua dinâmica é fatalmente reflexo das aspirações da classe média, o PT, se enfim centrou seus esforços sobre esferas mais amplas da sociedade a partir da última década, o fez sob um viés clientelista /assistencialista que reproduz os piores elementos do populismo. E em 2002, com a vitória de Lula, o partido finalmente assumiu uma feição de todo conservadora ao encampar de forma enfática e estrita uma política econômica talhada para atender somente aos desígnios das classes dominantes, mormente o mais perniciosa de suas esferas, a dos banqueiros e especuladores financeiros.

Retornando à questão central deste nosso manifesto, poderíeis perguntar, meus prezados camaradas, por que o PT e outros partidos 'reformistas' são hoje nossos principais inimigos, e não os partidos mais tradicionalmente ligados ao campo estritamente burguês? Porque o enfrentamento contra os setores declaradamente conservadores ou liberais se processa às claras, em campo aberto, com critérios nítidos de demarcação ideológica; sabemos todos, pois, de antemão, o que representam os FHC's, os Sarney's, os ACM's, e não como o movimento popular confundi-los com elementos progressistas.

A mesma transparência política, todavia, não ocorre no confronto contra a 'esquerda moderna', a qual deliberadamente opera uma paralaxe conceitual diversionária via retórica pseudo-esquerdista, o que desloca o embate em tela para uma zona de sombra, para um lusco-fusco ideológico que lhe é providencial, uma vez que seu principal intento é ocultar o facto de que, na prática, sua ação política já nada mais possui de socialista ou mesmo de vagamente reformista, sendo, ao contrário, a expressão nua e crua da barbárie neoliberal; assim sendo, agem nas trevas, de modo sorrateiro, sibilino e hipócrita. Destarte, nossa tarefa precípua consiste, egrégios camaradas, em arrancá-los da confortável penumbra ideológica em que se aninham para arrojá-los à luz do Sol, de modo que o povo possa contemplar estes vermes em toda a sua hediondez e vicio. É mister, por conseguinte, denunciar aos 4 ventos os crimes da camarilha petista, mover-lhes uma perseguição sem trégua, apontar-lhes todas as iniqüidades, de modo a enfim revelar por completo sua verdadeira face asquerosa.

Os mais recentes desdobramentos da acelerada metástase do cancro petista em todas as esferas da vida pública nacional confirmam sobejamente, creio eu, a perspectiva que acima delineei. Não tenhais dúvidas, caros camaradas: aproxima-se a passos de corrida a eclosão de uma implacável e brutal luta de morte entre os renegados da 'esquerda moderna' e os setores da esquerda revolucionária. Não haverá, pois, espaço para quaisquer titubeios ou hesitações. O recém-formado PSOL, por exemplo, fatalmente terá de descer do muro onde se encontra, para engajar-se em definitivo na guerra contra a pseudo-esquerda, ou então irá submergir inelutavelmente nas pestilências da cloaca petista. Conclamo, destarte, toda a esquerda revolucionária a adotar a seguinte insígnia:


MORTE AO PT!

GUERRA TOTAL CONTRA A PSEUDO-ESQUERDA RENEGADA!

segunda-feira, julho 11, 2005

Glória eterna ao excelso mavorte lusitano!

Alphonse van Worden - 1750 AD



FORÇA, FORÇA COMPANHEIRO VASCO

NÓS SEREMOS A MURALHA D'AÇO!!!





































sábado, julho 02, 2005

Inside the EYE of EVERNESS...



 The cross was a mushroom... and the mushroom was also the Tree of Good and Evil... the philosophical stone of the alchemists was LSD... the Book of the Dead is a trip... the Holy Trinity begins with an opium poppy... and the gnostic gospels describe a mescaline experience... The whole Universe is nothing but... a superstition... and every reality is... only an opinion, which turns out be... the high point of nothingness dissolved at the inner void of the SACRED... The Blessed SOUND of... NOTHING... being dissolved in a swirling, ever evolvin' and never stoppin' neverness of... mystic SOUND... Yeah, man, you need that bad... fuck all the frequencies, blur all the images, pump up the psych machine, melt your synapses, blow your mind and... turn on, tune in, drop out... IAO ZA-I ZA-O MA-I MA-O TA-I TA-O IAO ZA-I ZA-O MA-I MA-O TA-I TA-O... No, this is not the beginning, but only... the END...?  

*

 Ten. Giovanni Drogo 

 Forte Bastiani 

 Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

domingo, junho 26, 2005

Allahu Akbar!!!

Alphonse van Worden - 1750 AD


*


E de sempiternas paragens no rutilante imo da Sierra Morena, sob as déificas emanações de ALLAH, egrégio Custódio dos Arcanos Transfinitos e ático Baluarte da Arcana Coelestia, em ingente, uníssono alarido, as tartáricas legiões extáticas declaram:

TEU É O CAMINHO, A LUZ E O TRIUNFO, Ó DITOSO CONFRADE D'ARMAS AHMOUD AHMADINEJAD!!!

Allahu Akbar...Allahu Akbar...Allahu Akbar!!!





segunda-feira, maio 02, 2005

Wor(l)ds for Spleen, perhaps...




... e então concluímos, em cinérea consternação imersos, que o lirismo é tão somente uma falha sistêmica não-intencional, um aleatório acidente de percurso nas fímbrias intersticiais da plúmbea realidade...

*

 Ten. Giovanni Drogo 

 Forte Bastiani 

 Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

sexta-feira, abril 29, 2005

Meditações, porventura filosóficas e quiçá um tanto quanto lôbregas, vagando através das oníricas veredas da Sierra Morena...

Alphonse van Worden - 1750 AD 

- Os sonhos humanos têm uma camada externa e invulnerável que, como uma concha, protege o frágil núcleo contra ferimentos. Os pensamentos, todavia, morrem em contato com as palavras, tão rapidamente quanto as palavras perecem em contato com os pensamentos; o que deles nos sobra, pois, é o que consegue sobreviver ao massacre mútuo... 

 - Habituei-me aos meus pensamentos assim como às minhas vestes. Têm sempre o mesmo talhe e vejo-os por toda parte, até mesmo nas esquinas; o mais grave, contudo, é que me ocultam o cruzamento dos destinos... 

 - Aquele que entender que seu dia é apenas a noite de um outro, que seus dois olhos são o único olho de um outro, seguirá a pista do dia real que permite o autêntico despertar de sua verdadeira realidade, exatamente como se caminha nos sonhos...



sexta-feira, março 04, 2005

E por vezes, quando de súbito nos assalta a mais recôndita malaise espiritual...


















Ever - Flipper


Ever live a life that's real
Full of zest, but no appeal?
Ever had to really cry,
Cry so much you want to die?
Ever feel that you've been had,
Had so much that you turn mad?
Ever been so depressed,
That those you turn to, you bring distress?
Ever sit in tormenting silence,
That turns so loud, you start to scream?
Ever take control of a dream,
And play all the parts, and set all the scenes?
Ever do nothing
And gain nothing from it?
Ever feel stupid,
And then you know you really are?
Ever think you're smart
And find out that you aren't?
Ever play the fool,
And find that you're even worse?
Ever look at a flower
And hate it?
Ever see a couple kissing
And get sickened by it?
Ever wish the human race didn't exist,
And realize you're one too?

Well?
Have you... Ever...? 

I have...
So What?!



FLIPPER SUFFERED FOR THEIR MUSIC - NOW IT'S YOUR TURN


Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Sapientia Universalis II

Alphonse van Worden - 1750 AD 

 "Poderia dizer-vos, à semelhança de egrégio ateniense, que 'só sei que nada sei', não fosse o facto de que algo sei." "E o que sabeis, indômito capitão?" "Que Ambrose Bierce está certo." "Certo a propósito de que?" "Nem d'uma coisa nem d'outra, apenas inevitável, inelutável, insofismável e perenemente CERTO..." 



sábado, fevereiro 19, 2005

Sapientia Universalis I

E de sapientíssimo páramo da Arcana Coelestia chega-nos o AXIOMA CARDEAL:




"Sobre esta e um sentido única regra da razão, de que para saber devemos desejar saber e, assim desejando, não se estar satisfeito com o que se tem inclinação de pensar, segue-se um corolário que merece ser inscrito em todo muro da cidade da filosofia: não bloqueie os rumos da investigação!"

Charles Sanders Peirce



*

Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros


segunda-feira, janeiro 31, 2005

A crise do Sistema Produtor de Mercadorias e o Marxismo hodierno na perspectiva de Robert Kurz



O desmoronamento das ditaduras stalinistas do leste europeu vem servindo, desde o início dos anos 90, de combustível para os arrazoados dos triunfantes neoliberais, que proclamam, com suas vozes altissonantes, a falência do marxismo. As atrocidades de Stalin, a corrupção generalizada da Era Brezhnev, o culto à personalidade de Mao Zedong, o genocídio promovido por Pol Pot no Cambodja, todos esses acontecimentos históricos seriam, consoante tal pérfida distorção ideológica, epifenômenos de um único e específico indivíduo: Karl Marx. Muito embora tenha morrido em 1883, 34 anos antes da primeira revolução no mundo a se denominar marxista, o célebre pensador alemão seria a nefária mão invisível por trás de todas as desventuras do movimento comunista em nosso século. Nesta perspectiva, poderíamos afirmar que Cristo é o culpado pelas atrocidades da Santa Inquisição, assim como que Lutero é o pai da exploração da miséria humana representada pela Igreja Universal do Reino de Deus.

A fragilidade desses tortuosos argumentos é mais do que evidente, e tão somente os meandros da má fé e dos interesses inconfessáveis podem justificar este tipo de falácia teórica. No entanto, a farsa do Marx ‘bicho-papão’ tem audiência cativa entre os intelectuais comprometidos com as estruturas do sistema, sobretudo os esquerdistas ‘arrependidos’. As palavras de ordem são, na vertente teórico-filosófica, o pós-moderno, a crise dos paradigmas, a morte das utopias, o fim da História; e na vertente econômica, a globalização da economia, a reengenharia, o mercado aberto. Os países do Terceiro Mundo, submetidos aos instrumentos de dominação colonial, aos injustos termos de troca da divisão internacional do trabalho, devem engolir, como sendo o mais refinado dos manjares, uma política de abertura econômica que os próprios países que a apregoam a quatro ventos não praticam, enquanto a Academia de nossos países aceita, sem reflexão, todos os modismos intelectuais ditados pelos centros nervosos da Metrópole.

Será, entretanto, que Marx pode ser descartado peremptoriamente? A crítica ao sistema capitalista estaria por completo ultrapassada? Apesar de tudo, ainda existem muitos intelectuais que se recusam a embarcar no show-boat do neoliberalismo, figuras notáveis como Noam Chomsky, Eduardo Galeano, Antonio Negri, Perry Anderson, Frederic Jameson, Eric Hobsbawn e outros. Destacaremos aqui, todavia, a figura do sociólogo e economista alemão Robert Kurz, pela ousadia, e principalmente, pela originalidade fascinante de sua recuperação dos princípios marxistas. Autor de uma obra-chave para a compreensão dos mecanismos da economia contemporânea - O Colapso da Modernização: da derrocada do socialismo de caserna à crise da economia mundial - Kurz recupera, à luz dos mais recentes acontecimentos, a surpreendente atualidade da Economia Política de Marx, sobretudo em sua crítica fundamental ao fetichismo da forma-mercadoria, contradição fundamental e crescente do Sistema Produtor de Mercadorias.

Publicado em 1991, no auge da euforia neoliberal pela queda do Muro de Berlim, O Colapso da Modernização é um livro brilhante, desafiador e original, que se propõe a desafiar a tese, dominante em todas as latitudes, segundo a qual o fim do socialismo soviético representaria o triunfo do capitalismo liberal. Para Robert Kurz, a derrocada do chamado 'socialismo real' configura-se como o início de uma crise fatal no seio do próprio sistema capitalista, bem como, no plano teórico, significa a confirmação da economia política de Marx. Nesta perspectiva, os mecanismos ocultos e as contradições internas do capitalismo são o móvel principal da análise incisiva e implacável de Kurz.

A competição pelos mercados constitui a lógica central do Sistema Produtor de Mercadorias, obrigando a humanidade a promover um desenvolvimento contínuo e tendencialmente acelerado das forças produtivas. No século XX, este processo, inerente ao sistema desde seu princípio, alcançou um patamar decisivo, cujas conseqüências determinam a história contemporânea. O casamento, sob as bênçãos do regime mercantil, entre a ciência e o processo produtivo, é a chave da questão.

Esta dinâmica constante, que conduziu ao desenvolvimento da micro-eletrônica e da computação a partir dos anos 60, fatores fundamentais nos desdobramentos mais recentes da estrutura produtiva contemporânea, não pode ser acompanhada pelos países socialistas. A disparidade tecnológica cada vez maior entre os dois blocos empurrou, num período de menos de 30 anos, os países socialistas em direção a um colapso econômico irreversível. Para o economista alemão, entretanto, este fato não corresponde à vitória do capitalismo liberal: as economias ‘socialistas’ constituem, em oposição à perspectiva monetarista, tão somente o vetor estatista do sistema produtor de mercadorias, uma vez que não negam a sua essência primordial, que é o automovimento tautológico do dinheiro e a presença fetichista da forma-mercadoria como célula básica do Capital.

É mister incluir aqui um parêntese explicativo sobre este conceito, tendo em vista que a crítica da lógica da mercadoria é fundamental para se compreender o pensamento de Karl Marx: a transformação do trabalho vivo, que produz mercadorias, em trabalho morto, representado na forma encarnada do dinheiro, é o âmago desta lógica. O trabalho 'vivo' aparece apenas como expressão do trabalho 'morto', que se tornou independente, e o produto concreto como expressão da abstração inerente ao dinheiro. Como mercadorias, os produtos são coisas de valor abstrato, alienadas de suas qualidades sensíveis. Na crítica de Marx, esse valor econômico determina-se de modo puramente negativo, como forma fetichista, abstrata e morta, desprendida de todo conteúdo concreto sensível. O processo de produção apresenta-se, nos termos de Marx, como automovimento do dinheiro, como transformação de uma certa quantidade de trabalho ‘morto’ e abstrato em outra quantidade maior de trabalho ‘morto’, a mais-valia, e com isso, como movimento de reprodução e auto-reflexão tautológica do dinheiro, que somente nessa forma se torna Capital. Nessa forma de existência do dinheiro como capital abstrato, o dispêndio de trabalho desprende-se do contexto da criação de valores de uso sensíveis e transforma-se numa atividade abstrata que traz em si sua própria finalidade. Por terem permanecido como economias que funcionavam dentro da lógica da mercadoria moderna, e cuja única diferença era reservar ao Estado a exclusividade gerencial da produção, bem como por terem procedido a uma acumulação dita ‘socialista’ de capital como motor da atividade econômica, os países socialistas nunca saíram da esfera da produção capitalista.

Na verdade, a promoção das atividades econômicas pelo Estado, o que resultou numa espécie de organização do processo produtivo que poderíamos qualificar como 'Capitalismo de Estado', foi a única possibilidade encontrada por esses países para efetivarem a modernização de suas economias. Excluída do ciclo inicial do desenvolvimento capitalista, controlado pela Inglaterra, Alemanha e França, a Rússia, uma economia feudal às portas do século XX, não possuía uma classe empresarial capaz de promover a modernização capitalista. A organização da atividade produtiva pelas mãos do Estado foi a única alternativa possível, não apenas para a Rússia, bem como para o restante da Europa Oriental e países emergentes do Terceiro Mundo, como a China. Kurz observa que o controle estatal do processo econômico não significa per si a instauração de uma economia em bases socialistas. Não é apenas a propriedade privada dos meios de produção que marca o caráter capitalista de uma sociedade, mas sim a produção determinada pelos mecanismos do mercado, que transforma o produto em mercadoria, não importando se estamos diante de um mercado ‘fechado’ ou ‘aberto’.

Desta maneira, Kurz entende que as economias ditas ‘socialistas’ fazem parte do sistema capitalista, e que, portanto, sua debâcle possui implicações profundas na estrutura global do capitalismo. A crise não se restringe ao socialismo real, procedendo da periferia para o centro do sistema. Principiou pelo ‘Terceiro Mundo’, nas décadas de 70 e 80, espalhou-se para os países socialistas no fim da última década, e começa agora a instalar-se nas bordas dos países ricos. A investigação sobre a natureza desta crise é o passo seguinte de Kurz.

A concorrência no mercado mundial, que conforme já dissemos, acelerou-se enormemente no decorrer do século XX, tornou fundamental a obtenção de padrões cada vez maiores de produtividade, configurados pela combinação de ciência, tecnologia avançada e grandes investimentos. Pela primeira vez na história, o aumento de produtividade, em função das pressões da revolução tecnológica, está significando dispensa de trabalhadores em números absolutos; isto é, o Capital começa a perder a faculdade de explorar trabalho. A mão-de-obra barata e semi-forçada com que países como a URSS e a China contavam para desenvolver sua indústria, ficou sem relevância e não terá mais comprador. Mesmo a tradicional, qualificada e bem-estabelecida classe operária dos países ricos da Europa Ocidental, começa a perder a sua função econômica em sociedades que entram em um estágio pós-industrial, e que já não estão dispostas a suportar o welfare state construído por um século de lutas sindicais. Mas o caráter excludente da nova organização do Capital não para por aí e, na verdade, assume uma feição muito mais grave e abrangente. "Uma vez que a rentabilidade das empresas somente pode ser estabelecida no nível até então alcançado da produtividade, e isso apenas de acordo com o padrão social mundial, e uma vez que esse nível, em virtude da crescente intensidade de capital, está se tornando inalcançável para cada vez mais empresas, ficam paralisados em número crescente de países cada vez mais recursos materiais; desaparece a capacidade aquisitiva correspondente e os mercados que dela resultam, tirando-se assim dos homens as condições capitalistas da satisfação de suas necessidades", escreve Kurz, afirmando ainda que o agravamento deste processo começa a alijar não apenas empresas, mas regiões inteiras e até mesmo países do mercado mundial, que não podem arcar com os custos em tecnologia e investimento para atingir os padrões de produtividade exigidos pela lógica do sistema.

Todavia, o debate ideológico não trata desta exclusão contínua de forças produtivas, mas sim dos méritos genéricos de um modelo abstrato de mercado livre. Enquanto isso, o mercado concreto, que é histórico, eleva a alturas mais e mais inatingíveis os seus requisitos de acesso; o mercado não é, deste modo, como declaram os apologistas do liberalismo, para todos. Na lógica mercantil, o estoque de capitais que engendra os avanços produtivos não pode ser alcançado senão pelos líderes do mercado mundial, como Alemanha, Japão e EUA. Mesmo outras nações capitalistas desenvolvidas, como França, Inglaterra e Itália, não podem competir no limite máximo da produtividade exigida. Assim sendo, a lógica excludente do sistema produtor de mercadorias leva o processo econômico a um círculo vicioso: por um lado, há uma necessidade cada vez maior de investimentos em tecnologia e infra-estrutura para que um país possa conservar-se nos padrões de produtividade exigidos pelo mercado; por outro, o estoque de capitais necessário para viabilizar estes investimentos só pode ser obtido mediante aumentos contínuos e crescentes na produção.

As perspectivas delineadas por Robert Kurz são pouco animadoras, para não dizer francamente ominosas: "É possível que a era de trevas da crise do sistema produtor de mercadorias, com suas formas de percurso e acontecimentos catastróficos, abranja boa parte do século XXI", considera. Apesar disto, as previsões de Marx sobre o esgotamento da dinâmica capitalista continuam sendo ignoradas por uma intelectualidade inconseqüente e irresponsável.

Kurz diz que não devemos de modo algum esperar que esta lógica destrutiva possa ser superada por administrações ‘estatistas’ da crise. Ela seria apenas superável, afirma o autor alemão, "se um movimento consciente social de supressão acabasse com a mera administração dessa crise, movimento que teria que derrubar, com violência maior ou menor" as estruturas do sistema. Esse rompimento teria que ser o "resultado de uma mobilização bem sucedida de grandes massas em favor de uma alternativa social nova e conscientemente formulada, que primeiro tem que ser elaborada". Nesse sentido, proclama Kurz, a forma geral das revoluções contemporâneas, a despeito de todas as reviravoltas históricas e econômicas nos últimos 50 anos, não se tornou obsoleta. A crítica dos resultados da ideologia revolucionária não significa, pois, que a luta revolucionária deva ser abandonada, em nome de um conformismo pessimista diante da catástrofe do sistema produtor de mercadorias.

Contudo, o exercício de uma crítica social radical, por intermédio de uma intelligentzia que se viu despojada dos seus instrumentos práticos e teóricos, pode ser seriamente prejudicado, e até mesmo anulado por um processo de legitimação covarde dos aparatos emergenciais porventura adotados pelo sistema para gerenciar a crise. A social-democracia reformista não logra divisar nenhum horizonte além da gestão passiva da crise sistêmica; e mesmo a esquerda ‘autêntica’ mostra-se completamente incapaz de elaborar um projeto de superação, porque seu pensamento ainda está firmemente vinculado às categorias marxistas ortodoxas da luta de classes e do movimento operário. O marxismo que importa, o da crítica radical ao fetichismo da mercadoria, está esquecido, abandonado numa twilight zone teórica. Em razão disso, a Esquerda, anota Kurz, ao invés de "radicalizar-se após a derrota dos 'mercados planejados', passa, ao contrário, a aproximar-se das formas ocidentais do mercado". Qualquer tentativa de elaboração de uma crítica radical deve levar em consideração que a humanidade, por meio das forças produtivas que ela mesmo gerou, foi socializada de forma ‘comunista’ no nível material e ‘técnico’, em outras palavras, a produção foi organizada como entrelaçamento global da atividade humana, fenômeno previsto por Marx. A questão reside no fato de que este comunismo de produção está dentro de um invólucro capitalista, sendo dirigido, nas palavras de Kurz, pela "estrutura cega e tautológica do dinheiro". Ou seja, a economia mundial vive a contradição existente entre o aspecto coletivo da produção e o caráter privado de sua apropriação. Eis a contradição central do capitalismo, conforme Marx a definiu, que não apenas permanece atual, bem como agudizou-se ainda mais com a elevação constante dos padrões de produtividade do mercado internacional.

Para Kurz, a Esquerda, por sua incapacidade em enfrentar a magnitude dos problemas propostos por esta crise, optou por refugiar-se no desencanto ‘pós-moderno’. A denúncia de toda a crítica social como uma presunção teórica inaceitável, a crença na impossibilidade de se pensar a totalidade, o ceticismo quanto às alternativas de mudança, a apologia do 'fragmentário' em detrimento da 'totalidade', são apenas alguns dos sintomas característicos desta ‘nova esquerda’, que se limita à condição de correia de transmissão das novas estratégias de alienação do Sistema capitalista. É o primado absoluto da ‘razão cínica’. A Esquerda recolheu-se, com hipócrita e fingida resignação, ao pseudo-dogma de que o mercado é a panacéia universal para todos os problemas, aceitando como única saída a adoção de reformas para ‘corrigir’ as eventuais distorções sociais do capitalismo; faz-se mister ser ‘pragmático’, pois a era das utopias terminou. Para Kurz, ser ‘pragmático’ neste sentido "não significa mais nada, portanto, do que se acomodar, até em crises e catástrofes, no automovimento abstrato do dinheiro, reduzir a subjetividade (inclusive a teórica) a uma estratégia astuciosa de sobrevivência". Afinal, é difícil resistir às benesses concedidas ao intelectual ‘bem-comportado’...

O economista alemão acredita que a superação do sistema atual exige um tipo de crítica completamente distinto desta apática ‘razão prático-cínica’. A crítica social deve tornar-se mais radical e incisiva, retomando as reflexões originais de Marx sobre a abolição da estrutura capitalista de produção. Ou, nos termos mais precisos do autor teutônico: "a substância material das potências alcançadas da socialização tem que ser radicalmente liberada da forma histórica que contaminou essa substância e tornou-a extremamente destrutiva". Já não faz mais sentido falar de reformas ‘isoladas’ ou locais, uma vez que a crise do sistema mundial de mercadorias é generalizada. A superação desta crise, se possível for, há de ser global, abolindo a categoria da forma-mercadoria e o auto-movimento cego do dinheiro. A única alternativa é a destruição do sistema mundial de rentabilidade e dos processos abstratos de exploração em empresas. Trata-se sem dúvida de uma revolução, mas não daquele tipo clássico no qual uma classe social derruba outra, ambas estando inseridas dentro do sistema da mercadoria. A violência resultará do fato de que esse sistema não será abandonado voluntariamente por seus representantes, os executivos, a classe política e o aparato emergencial de administração.

Esta Revolução deve, assevera Kurz, constituir-se como um movimento, "como uma força social de supressão, e isso é apenas possível por meio da consciência", da aufklärung, o que é, sem dúvida, uma tarefa das mais árduas e imprevisíveis. A perspectiva do fim das relações sociais determinadas pela mercadoria e pelo dinheiro é assustadora para uma humanidade cujos horizontes jamais entreviram outra modalidade de relações sociais; o processo será, pois, fatalmente traumático. A crítica do dinheiro, mesmo sendo a única possibilidade, ainda será, durante muito tempo, uma utopia irrealizável para a esmagadora maioria das pessoas.

Robert Kurz com honestidade afirma, na conclusão de sua obra, que "ninguém pode tirar da cartola um programa de supressão da mercadoria moderna" . A fatalidade está em que esse projeto sequer começou a ser pensado em suas bases iniciais. A corriqueira pergunta "como isso vai funcionar na prática", em vez de servir como estímulo à reflexão crítica, acaba sempre resultando numa nova sujeição à lógica dominante da destruição. Já não podemos mais recorrer ao Estado contra o mercado e ao mercado contra o Estado. "A falha do Estado e a falha do Mercado tornam-se idênticas, porque a forma de reprodução social da modernidade perdeu completamente a sua capacidade de funcionamento e integração". O retorno ao aspecto mais vital da teoria de Marx, que é sua contestação decidida e implacável ao fetichismo da forma-mercadoria, talvez seja a possibilidade do começo de uma nova crítica, de um programa resoluto de superação do sistema produtor de mercadorias.

____

Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

sexta-feira, dezembro 31, 2004

Escrituras Magnas

Alphonse van Worden - 1750 AD





À fantasmática sombra dos sibilinos cerros djíminicos, acantonadas estão as majestosas Legiões Transfinitas, as quais na espectral madrugada em revista ora passo; de inefável gáudio inebriados todos estamos, uma vez que os Senescais da Guerra Cósmica, Custódios dos Arcanos Quânticos e Paladinos Supremos do Concento Universal, CHRISTUS PANTOCRATOR e علي بن أبي طالب (que tudo veem sem vistos serem), nas luctíferas colinas do Armagedom contra as do sevo GRANDE SATÃ escalfúrnias hostes um ano de portentosas vitórias nos facultaram; reparo, todavia, que, da atmosfera geral destoando, em sua tenda meditativo jaz o sempiternamente grave e solene Ten. Drogo; aproximo-me então do insigne irmão d’armas, e vejo que imerso está em seus vetustos alfarrábios; ainda assim, todavia, pela curiosidade movido, decido a propósito de sua douta faina indagar-lhe: "ó ático Drogo, em laboriosas lides tão entretido, a que supinos misteres literários te entregas?" Com a de gestos principesca lhaneza que lhe é habitual, o armífero erudito sustou por um momento o curso de sua labuta e respondeu-me, afável: "há já uns tantos lustros, excelso confrade, no postrimeiro dia de cada ano, dedico-me à leitura de três miríficos pedaços d’escrita que, creio eu, à perfeição ilustram a lôbrega condição humana nos tempos hodiernos: os poemas The Waste Land (T.S.Eliot) e The Second Coming (W.B.Yeats), bem como a parábola Vor dem Gesetz (Franz Kafka); e a cada ano, meu egrégio Worden, como se ominosos vaticínios fossem, constato que as referidas peças com crescente fidelidade refletem a terminal desagregação de nossa infausta espécie..."

A Solemn Meditation On the Evil Nature of Mankind...

The greatest evil is not now done in those sordid dens of crime that Dickens loved to paint. It is not even done in concentration camps and labour camps; in those we see its final result. But it is conceived and ordered (moved, seconded, carried and minuted) in clean, carpeted, warmed and well-lighted offices by men with white collars and cut fingernails and smooth-shaven cheeks who do not need to raise their voices

Clive Staples Lewis





















"Algo a acrescentar, indômito Ten. Drogo?"

"Não..."


____________________

 Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

quinta-feira, novembro 25, 2004

T.S.Eliot: Tempestade e Ímpeto de WASTE LAND

Alphonse van Worden - 1750 AD





Em 1922, sob a égide do profundo desalento espiritual gestado nos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial, o poeta, crítico literário, dramaturgo e pensador anglo-americano Thomas Stearns Eliot (1888 - 1965) publicava seu mais significativo poema, “The Waste Land”. A sombra da morte e do terror, há pouco tempo estampada na face de milhões de homens impiedosamente ceifados, ainda assombrava, pois, uma Europa mergulhada num vórtice de caos, desespero e destruição. O poema de Eliot, entretanto, mesmo que caudatário do báratro de horrores da I Grande Guerra, logrou alcançar ao longo dos anos uma permanência e abrangência universais. Muito mais, portanto, que mero reflexo de um contexto histórico específico, “The Waste Land” é talvez o mais atroz e intenso painel do ceticismo cósmico, da ruína moral e da aridez espiritual que se apossaram do mundo contemporâneo; é, por um lado, a manifestação de uma flamejante revolta frente à tamanha mortificação e, por outro, a constatação amarga de nossas imensas vicissitudes para reverter tal estado de coisas.

Dividido em cinco partes, o poema estrutura-se a partir de três núcleos temáticos centrais: 1) o contraste entre os valores perenes da civilização ocidental e o esvaziamento progressivo de tal legado nas manifestações religiosas e culturais da modernidade, caracterizadas por uma vacuidade histriônica e neurótica; 2) o pragmatismo espiritual do homem contemporâneo, ser avesso ao substrato mítico e religioso que lastreia seus alicerces históricos e culturais, em ruptura flagrante com as raízes mais atávicas de sua própria existência; 3) a necessidade, no seio do Ocidente, de um amplo processo de ascese espiritual. É possível ainda identificar, no seio de cada um dos supracitados núcleos, uma sucessão de motivos que vão se encadeando sinfonicamente no decorrer do poema; e é na articulação, na agregação progressiva deste continuum temático que T.S.Eliot conduz o leitor ao que constitui o objetivo precípuo de sua obra: uma grave e solene meditação sobre a crise espiritual do Ocidente.

Em “The Waste Land” se configura, portanto, a tragédia de uma humanidade que perdeu a fé no sentido mais profundo e vital da existência. A terra desolada e estéril, que precisa ser fertilizada para que possa renascer, se reflete, nos diz Eliot, no horizonte sombrio de uma cultura exaurida, um mundo caótico e destituído de ideais, uma civilização agonizante e descrente, onde os valores tradicionais foram abandonados em nome de perversões tais como a psicanálise, o cientificismo positivista e a filosofia de Nietzsche. O poema, como muito bem sublinha a crítica literária norte-americana Helen Gardner, é um dos passos - o do Horror - por meio dos quais a poesia de Eliot caminhou do Tédio (em “Prufrock and other Observations”, primeiro volume de versos do autor, publicado em 1917) à Glória (em “Ash-Wednesday”, de 1930 e, sobretudo, nos “Four Quartets”, de 1943). “The Waste Land” expressa, pois, na trajetória de Eliot, o momento em que o espírito religioso começa a compreender a verdade da condição humana: o princípio da sabedoria é o temor a Deus.

A imagem recorrente do poema é a de uma terra devastada (a civilização ocidental), que precisa reviver, recuperar sua seiva vital, seus alicerces mais profundos. Para Eliot, somente um amplo movimento de retorno à Tradição (religiosa e cultural) poderá restabelecer o equilíbrio espiritual do Ocidente. Na obra em questão, tal movimento se realiza por meio de uma releitura dos pontos culminantes da cultura universal através dos tempos. Valendo-se de uma poética fragmentária, onde criação e citação se entrelaçam numa tessitura labiríntica, o autor lança mão de um vastíssimo espectro de referências, dentre as quais podem ser destacadas: alusões a diversas passagens da Bíblia, sobretudo do Velho Testamento; os ritos de fertilidade e mitos indo-europeus descritos pelo antropólogo inglês James Frazer, no célebre “The Golden Bough”, bem como pela norte-americana Jessie L. Weston em “From Ritual to Romance”; elementos das tradições védicas e hinduístas presentes nos Upanishads; arquétipos míticos como o Fisher King e Sir Parsifal, personagens do ciclo de lendas do Santo Graal; e, finalmente, citações literárias de autores como Dante Alighieri, James Chaucer, Edmund Spenser, John Milton, William Shakespeare, Gerard de Nerval, Charles Baudelaire e Paul Verlaine, dentre outros.

Para o poeta anglo-americano, o homem contemporâneo, em sua cínica indiferença frente ao legado religioso e cultural de séculos de Civilização, não mais consegue compreender a si mesmo, e nem tampouco sua posição na ordem universal; de onde se segue, portanto, a necessidade premente de um retorno às raízes vivificantes da Tradição. Nos versos de abertura do poema ("April is the cruellest month, breeding / Lilacs out of the dead land, mixing memory and desire", v. 1-3), Eliot faz uma alusão aos “Canterbury Tales” de Chaucer, onde também encontramos uma jornada em Abril, a peregrinação anual ao santuário de Thomas Becket em Canterbury, na Inglaterra, em busca de regeneração espiritual. A jornada à procura de redenção é também a o itinerário de “The Waste Land”, na medida em que o poema parte da terra devastada espiritual e culturalmente em busca de uma terra prometida, onde a espiritualidade humana possa recuperar suas raízes essenciais.

A crítica levada a cabo por Eliot opera sempre em dois planos interpenetrantes: o de um Cosmo que se desagrega em Caos, e o do indivíduo que, imerso no Caos, deve empreender a ascese que lhe restitua o Cosmo perdido. Na II parte do poema ("A Game of Chess"), por exemplo, em meio a alusões ao esplendor refulgente da corte de Cleópatra ("The Chair she sat in, like a burnished throne, / Glowed on the marble, where the glass / Held up by standards wrought with fruited vines", v. 77-79), se entremeia a arrogância de uma mulher fútil e histérica, encarcerada num universo neurótico de carência e alienação ( "My nerves are bad tonight. Yes, bad. Stay with me. / Speak to me", v. 111-112); seus dias se dissipam no vazio melancólico de uma vida sem propósitos ( "What shall we do now (...) What shall we ever do", v. 131 e v. 134). Do tédio da elite somos transportados para um lúgubre pub da classe operária, onde Eliot, num memorável diálogo de frases curtas e entrecortadas, nos mostra uma mulher cuja vida é um esgotamento contínuo pela criação dos filhos, e que finalmente perde o que lhe restava de vigor em função de um aborto.

Para o poeta anglo-americano, aqueles que estão presos ao mundo material e ao corpo físico estão perdidos: são o solo infértil e estéril, a terra ressecada que domina as partes iniciais de “The Waste Land”. Esse solo árido necessita da chuva redentora para se fertilizar, o que só poderá ocorrer sob o primado da fé e da esperança. Na III parte do poema ("The Fire Sermon"), referências ao budismo e a Santo Agostinho são utilizadas por suas notórias restrições ao hedonismo, em contraste com descrições de um sexo sem Eros, comércio carnal sem amor, surtos de uma voracidade amorfa que consome indiscriminadamente corpos e almas deteriorados. As recorrentes alusões ao mito de Tristão e Isolda, com recurso a versos da ópera de Wagner, nos mostram o êxtase do amor, substituído pela desolação da perda depois da morte de Tristão, enquanto Isolda navega ao seu encontro, o retrato de um amor puro e genuíno, que se contrapõe à vulgaridade obscena do amor fetichista das paisagens urbanas contemporâneas.

O poema revela, portanto, seus temas centrais através de um labirinto de alusões e arquétipos alegóricos, onde passado e presente se interseccionam. Dessa maneira, o Fisher King, custódio do Graal, é uma das chaves simbólicas da obra, e a busca de redenção espiritual do homem contemporâneo é paralela à demanda pelo Santo Graal. O Fisher King perde o controle do cálice sagrado depois de ser ferido e ficar impotente. Sua impotência e infertilidade refletem-se em seu reino, que também se torna infértil; da mesma forma, a civilização ocidental perde sua vitalidade, ao abandonar os valores perenes da Tradição. O guardião do Graal fere-se após fazer sexo com uma pecadora; analogamente, o amor se degrada com o mercantilismo sexual da sociedade moderna. O Fisher King só pode ser resgatado por uma alma pura e inocente, o nobre Sir Parsifal, que o salva simplesmente por acreditar no Castelo do Graal e por perguntar-lhe: A quem serve o Graal, ou, num sentido mais recôndito, Quem é Deus? O soberano é então curado e seu reino é de novo tornado fértil. A peregrinação de Parsifal à Capela Perigosa é aludida na V parte do poema (What the Thunder Said), mas agora ela está em ruínas, tal como a civilização contemporânea, e não há certeza de que a busca possa ser completada.

Em seu encerramento, a obra de Eliot encaminha-se para as palavras do Trovão, para a tentativa de se recuperar o sentido sagrado da existência. O Trovão prenuncia a possibilidade de chuva, e, portanto, de redenção para a terra devastada. O termo usado por Eliot advêm do “Brihadaranyaka”, um dos Upanishads védicos, e representa um caminho capaz de regenerar o indivíduo e a sociedade. O significado do Trovão pode ser esclarecido pela seguinte expressão, também mencionada pelo poeta: Datta (dar), Dayadhvam (autocontrole), Damyata (mostrar compaixão). Tal procedimento nos remete a uma postura em relação à existência que transcende o egocentrismo materialista do homem contemporâneo, e oferece uma via de redenção para a aridez espiritual que escraviza a sociedade ocidental. Não por acaso, tais alusões buscam a sabedoria na filosofia religiosa do Oriente, já que as tradições ocidentais foram profanadas, e pareciam, naquele momento da trajetória existencial de Eliot, irrecuperáveis. Os versos finais do poema, Shanti shanti shanti, que também se originam dos Upanishads védicos, podem ser traduzidos como A Paz que transcende a compreensão, o triunfo glorioso do Espírito sobre a morte e a matéria, síntese do Graal redentor almejado por Thomas Stearns Eliot em sua obra-prima.

Gostaria, nesse momento, de me deter com mais vagar em algumas passagens que são, a meu juízo, particularmente significativas para a visão de mundo que Eliot nos oferece em “The Waste Land”.

A primeira delas integra a I parte do poema ("The Burial of the Dead"):


What are the roots that clutch, what branches grow
Out of this stony rubbish? Son of man,
You cannot say, or guess, for you know only
A heap of broken images, where the sun beats,
And the dead tree gives no shelter, the cricket no relief,
And the dry stone no sound of water. Only
There is shadow under this red rock,
(Come in under the shadow of this red rock),
And I will show you something different from either
Your shadow at morning striding behind you
Or your shadow at evening rising to meet you;
I will show you fear in a handful of dust.



Nesta passagem temos, sem dúvida, alguns dos mais cruéis e terríveis versos lapidados pelo estro poético de Eliot. A Terra já não é mais um jardim harmonioso, nem tampouco o livro aberto cujos signos revelam os desígnios de Deus, mas um deserto inclemente, orco cinério onde agonizam os despojos exangues de tradições e valores outrora sagrados, mas hoje esquecidos. Onde antes andavam homens e seres vivos, sensíveis e vigorosos, agora vagam hordas de espectros, à espera de algo que ponha termo a sua jornada infernal. Os versos "What are the roots that clutch, what branches grow Out of this stony rubbish?" constituem uma clara alusão ao 'Livro de Ezequiel', do Antigo Testamento, onde o profeta nos adverte sobre a perda da fé e do desejo de purificação. O heap of broken images simboliza precisamente os fragmentos desconexos de uma sabedoria dissolvida pelo materialismo espiritual do Ocidente contemporâneo; e o medo apontado pelo profeta representa o penoso, mas necessário primeiro passo no caminho da ascese.

A segunda passagem que iremos examinar está contida, por sua vez, na III parte do poema ("The Fire Sermon"):


The river's tent is broken: the last fingers of leaf
Clutch and sink into the wet bank. The wind
Crosses the brown land, unheard. The nymphs are departed.
Sweet Thames, run softly, till I end my song.
The river bears no empty bottles, sandwich papers,
Silk handkerchiefs, cardboard boxes, cigarette ends
Or other testimony of summer nights. The nymphs are departed.
And their friends, the loitering heirs of city directors;
Departed, have left no addresses.
By the waters of Leman I sat down and wept...
Sweet Thames, run softly till I end my song,
Sweet Thames, run softly, for I speak not loud or long.
But at my back in a cold blast I hear
The rattle of the bones, and chuckle spread from ear to ear.

A rat crept softly through the vegetation
Dragging its slimy belly on the bank
While I was fishing in the dull canal
On a winter evening round behind the gashouse
Musing upon the king my brother's wreck
And on the king my father's death before him.
White bodies naked on the low damp ground
And bones cast in a little low dry garret,
Rattled by the rat's foot only, year to year
But at my back from time to time I hear
The sound of horns and motors, which shall bring
Sweeney to Mrs. Porter in the spring.
O the moon shone bright on Mrs. Porter
And on her daughter They wash their feet in soda water
Et, O ces voix d'enfants, chantant dans la coupole!



A metrópole contemporânea, terra dos homens corrompidos, é um abismo caótico onde a beleza e a sabedoria do passado se desagregam, vácuo onde a luz dos séculos se desintegra em reflexos crepusculares. As águas do Tâmisa, dantes férteis e límpidas, se transformam, com o advento da era industrial, em um repulsivo depósito de dejetos abandonados pelo hedonismo consumista que corrói corpos e almas. Nesses versos, inflamados por um sarcasmo sulfúrico, Eliot é inclemente: as ninfas, antes personificações do belo e do sublime, abandonaram este mundo de trevas acompanhadas pelos frívolos herdeiros dos especuladores da City. O poeta procura um refúgio, mas se depara com uma miríade de pesadelos atrozes: ratazanas em satânico gargalhar, destroços de sagas olvidadas, corpos em decomposição. E é, por fim, assaltado por espectros de sua própria criação, como o fútil e melífluo Sweeney, personagem de um ciclo anterior de poemas, que aqui retorna, ao lado da Sra. Porter, trasladado do bordel de “Sweeney Erect” (obra de 1920) para os miasmas putrefactos do Tâmisa. Mais uma vez, a ironia de Eliot se mostra virulenta: a água benta, que purifica os pés de Parsifal antes de sua entrada no santuário do Graal, se converte em vulgar água gasosa para uso de duas prostitutas. O belo verso extraído do “Parsifal” de Paul Verlaine, que encerra a presente stanza, acentua ainda mais a sátira feroz dessas estrofes.

A terceira e última passagem que aqui irei abordar se encontra na V parte do poema ("What The Thunder Said"):


AFTER the torchlight red on sweaty faces
After the frosty silence in the gardens
After the agony in stony places
The shouting and the crying
Prison and place and reverberation
Of thunder of spring over distant mountains
He who was living is now dead
We who were living are now dying
With a little patience

Here is no water but only rock
Rock and no water and the sandy road
The road winding above among the mountains
Which are mountains of rock without water
If there were water we should stop and drink
Amongst the rock one cannot stop or think
Sweat is dry and feet are in the sand
If there were only water amongst the rock
Dead mountain mouth of carious teeth that cannot spit
Here one can neither stand nor lie nor sit
There is not even silence in the mountains
But dry sterile thunder without rain
There is not even solitude in the mountains
But red sullen faces sneer and snarl
From doors of mudcracked houses

If there were water
And no rock
If there were rock
And also water
And water
A spring
A pool among the rock
If there were the sound of water only
Not the cicada
And dry grass singing
But sound of water over a rock
Where the hermit-thrush sings in the pine trees
Drip drop drip drop drop drop drop
But there is no water

Who is the third who walks always beside you?
When I count, there are only you and I together
But when I look ahead up the white road
There is always another one walking beside you
Gliding wrapt in a brown mantle, hooded
I do not know whether a man or a woman
— But who is that on the other side of you?

What is that sound high in the air
Murmur of maternal lamentation
Who are those hooded hordes swarming
Over endless plains, stumbling in cracked earth
Ringed by the flat horizon only
What is the city over the mountains
Cracks and reforms and bursts in the violet air
Falling towers
Jerusalem Athens Alexandria
Vienna London
Unreal



Os nove versos que abrem esta última parte, porventura a mais bela e complexa de "The Waste Land", nos remetem a Jerusalém, logo antes da morte de Cristo e de sua ressurreição; o vazio espiritual desse momento que antecede a ressurreição ecoa nos diversos arquétipos que povoam o poema; no trecho em questão, surge através de Gerontion esperando pela chuva, enquanto um menino recita para ele as palavras da Tradição, e o ancião medita sobre sua renúncia absoluta aos delíquios da vida sensorial. Como alívio à estrada seca e sinuosa entre montanhas de rocha e areia sem água, temos a figura misteriosa que aparece aos discípulos na estrada para Emaús (em alusão a uma passagem do Evangelho de Lucas), "the third who walks always beside you", esperança de retomada de uma existência virtuosa. Como enfatiza Eliot em seus esplêndidos e severos versos, é tão somente quando a vida de envolvimento temporal for superada, quando se desfizerem em pó as torres e cidades onde legiões de espectros chafurdam na ruína moral, quando o vazio do materialismo e do orgulho do homem em seus feitos for admitido e reparado, que poderemos nos aproximar da Capela do Graal, ouvir o canto do galo visto de relance à luz de um raio, e sentir a brisa fresca e suave que prenuncia as chuvas sagradas da sublimação espiritual.

segunda-feira, outubro 11, 2004

Notas para uma Definição de Cinema Revolucionário




Desde o advento do cinema soviético, com a vitória da revolução socialista, as possibilidades de um cinema de expressão revolucionária começaram a ser seriamente discutidas. Através, sobretudo, dos cineastas Sergei Eisenstein e Dziga Vertov, tornou-se palpável a concepção de um cinema não apenas revolucionário em termos de conteúdo, mas revolucionário também em seu aspecto formal, uma arte transformadora na amplitude máxima de seus meios de formulação. A mesma atitude pode ser encontrada nas vanguardas literárias soviéticas, em poetas como Maiakovsky, Klebhnikov ou Krutchonik, bem como nas artes plásticas, com Malevitch, Lissitzky, Rodchenko, Tatlin e outros, e seria a característica determinante da cultura soviética nos anos 20, antes do advento do stalinismo e da ditadura do realismo socialista nas artes com Zdanov.

Eisenstein, por exemplo, preconizou uma montagem dialética, que se inspirou em fontes tão diversas como o marxismo, o teatro japonês e os ideogramas do idioma mandarim. A concepção dialética de montagem advoga o princípio da justaposição de dois planos que criam um novo significado, que não é expresso em termos visuais, mas sim em termos conceituais na mente do espectador. Pode-se citar, como exemplo notável desta concepção, a memorável seqüência de A Greve (Stachka - 1924), onde são justapostos planos consecutivos que mostram cenas de um matadouro de bovinos e a repressão da polícia tzarista aos grevistas. O significado almejado não é exibido plasticamente na tela, mas de obtido de modo abstrato no entendimento. É importante verificar que não há, pois, um objetivo meramente didático, pois o significado não é apresentado como um realidade acabada, pronta para ser assimilada, mas sim como proposta que deve ser discutida pelo espectador. Trata-se de um cinema que desencadeia no público a formação da consciência revolucionária, num processo que exige uma participação ativa daquele que o contempla, que é chamado a refletir sobre o conteúdo expresso na tela. Forma-se portanto a seguinte equação: conteúdo revolucionário + forma revolucionária = ARTE REVOLUCIONÁRIA.

Para Vertov, o caráter revolucionário do cinema se resolve na montagem. O cinema de Vertov proclama o primado da câmara sobre o olho humano. A câmara é o instrumento que organiza a realidade numa perspectiva coerente. É um cinema que recusa toda forma de encenação, se afirmando como uma interpretação revolucionária da realidade. Nesse sentido, considera a ficcionalização da realidade como uma forma de ilusão, de mistificação. O cinema se transforma num instrumento dialético não apenas de interpretação, mas de transformação revolucionária da humanidade. É o olho mecânico - KINOGLAZ - que organiza a realidade, que força o espectador, antes passivo, a converter-se em sujeito histórico de sua própria libertação.

O cinema revolucionário é aquele que, portanto, responde de maneira transformadora e libertária às questões do contexto histórico que enfrenta, não apenas na perspectiva das idéias, mas também da estética, da forma. É, em sua essência, o mesmo trabalho que um Brecht e um Heiner Müller irão desenvolver no teatro, estimulando a sensibilidade e a reflexão crítica do público. É importante enfatizar que a arte revolucionária, quando destituída de uma estética revolucionária que acompanhe suas idéias, logo degenera em arte didática, em arte falsamente ‘popular’, e o que é mais grave, em objeto de manipulação política de governos autoritários, como no célebre caso do realismo socialista stalinista. Sem a vanguarda formal, pois, a arte revolucionária perde o seu conteúdo transformador, sendo manipulada de maneira a se converter em instrumento de mera doutrinação; e, sem as idéias revolucionárias, a vanguarda formal perde sua capacidade de transformação, perdendo-se em estetizações estéreis, em solilóquios na torre de marfim.

Se observarmos os grandes artífices do cinema revolucionário pós-soviético - Godard, Gorin, Glauber, Buñuel, Chris Marker, Solanas, Pasolini, Sanjinez, d’entre outros - verificaremos que são artistas que utilizaram um suporte formal sumamente inovador e transgressivo para veicular suas idéias revolucionárias, inclusive, em muitos casos, rejeitando as soluções estéticas preconizadas pelos mestres soviéticos. Glauber Rocha, que começou, de um certo modo, pagando tributo a Eisenstein e ao neo-realismo italiano em seus primeiros esforços, irá, no decorrer de sua carreira, se afastar cada vez mais dos modelos europeus em direção a uma estética totalmente original, fusão de alegoria barroca, pajelança e cristianismo libertário, num processo que acompanha o seu desligamento progressivo das categorias racionalistas do marxismo em direção a um conceito de revolução messiânica, que se processa num êxtase místico revolucionário. Godard, por seu turno, radicaliza a perspectiva de um cinema filosófico e alicerçado em conceitos, expressando, todavia, tais reflexões numa narração cada vez mais descontínua e caótica, que rompe com a linearidade ideológica colonizante do cinema convencional. A desconstrução narrativa impede que o espectador aceite passivamente o que está sendo apresentado, forçando-o a refletir sobre o que vê e ouve. A idéia é justamente provocar desconforto no público, perturbando-o em suas convicções mais firmes, instalando o conflito e desmantelando o consenso.

Pode-se dizer, enfim, que uma estética revolucionária tem a função de despertar o espectador para o conteúdo das idéias que estão sendo discutidas no filme. É como se fosse um rastilho, um detonador de consciências, que implode a muralha de preconceitos que o público já traz dentro de si. Não é difícil verificar como a narrativa linear é um instrumento de doutrinação ideológica, conduzindo o espectador, através do encadeamento linear de idéias, a uma determinada conclusão previamente determinada e controlada pelos autores da obra. Um cineasta revolucionário, ao contrário, não consegue, e nem tampouco deseja, controlar a interpretação de sua obra, pois apresenta suas idéias de um modo não-linear, não-didático, forçando o espectador ao debate, evitando de maneira resoluta o adestramento ideológico.



______

Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

segunda-feira, agosto 16, 2004

Hasta la Victoria, Siempre!!!

Alphonse van Worden - 1750 AD 

E eis que nas meândricas, sibilinas sendas da Sierra Morena, em evanescentes entressonhos imerso, de súpeto despertado sou pelo ingente clangor de argênteos clarins em excelso gáudio, proclamando altissonantes a boa nova: mais uma escalfúrnia endrômina urdida pelo ínvio GRANDE SATÃ profligada foi pelo indômito talante do POVO, desta feita nas refúlgidas paragens das Américas; em extática exultação ora estando, minha voz incorporo à egrégia polifonia das massas revolucionárias, para em uníssono proclamarmos: UH! AH! CHÁVEZ NO SE VA!!! CHÁVEZ, AMIGO, EL PUEBLO ESTÁ CONTIGO!!!