sexta-feira, março 29, 2024

O peculiar cinema de Jacques Rivette - III

Alphonse van Worden - 1750 AD




MERRY-GO-ROUND (Jacques Rivette / 1981, 160m) foi um fracasso tanto de crítica quanto de público. E muito embora eu tenha até gostado bastante do filme, posso perfeitamente entender o porquê: trata-se d'uma obra profundamente... bem, o melhor adjetivo que encontro é o termo em inglês 'infuriating'. 

Pois em verdade vos digo: raríssimas vezes assisti a um filme de tal modo labiríntico, 'esotérico', praticamente inextricável.  Projeto de retomada do cineasta após o de certo modo traumático encerramento da tetralogia 'Scènes de la Vie Parallèle' (da qual Rivette só completaria os dois primeiros capítulos - DUELLE e NORÔIT), MERRY-GO-ROUND se apresenta como uma espécie de filme policial noir ambientado neste universo paralelo.  Só para os senhores terem uma ideia do que estamos falando, o caráter notoriamente sibilino, dir-se-ia até mesmo hermético, das tramas de clássicos do gênero como THE LADY FROM SHANGAI (Orson Welles / 1947) ou KISS ME DEADLY (Robert Aldrich / 1955), parece em cotejo c/ a obra de Rivette tão singelo y linear quanto o roteiro de uma comédia de Adam Sandler - s/ qq demérito para estas obras-primas do cinema americano, saliente-se. Exemplo disso, vale sublinhar, é a solução adotada por Rivette para a infeliz circunstância de Maria Schneider, talvez a personagem central do filme, ter abandonado as filmagens: empregar a atriz Hermine Karagheuz para substituí-la, s/ todavia fornecer ao espectador qualquer pista ou indício disto, tanto assim que nos créditos ela é simplesmente identificada como 'l'autre'. 

Com efeito, se você compreende a arte cinematográfica como um veículo criado para contar histórias c/ início, meio e fim, um filme como este pode se transformar numa experiência simplesmente excruciante, verdadeiramente insuportável.  Não obstante, para aqueles que concebem o cinema como um dispositivo catalisador de atmosferas, lanterna mágica capaz de conjurar paisagens oníricas, sondar as sendas do inconsciente y peregrinar pelos páramos da irrealidade, do mundo imaginário, este desconcertante filme s/ dúvida pode ser uma jornada das mais estimulantes.   

A mise-en-scéne e a estrutura narrativa de MERRY-GO-ROUND são essencialmente fragmentárias y erráticas, no limite da arbitrariedade aleatória; nesse sentido, os primeiros 25, 30 minutos do filme, relativamente lineares e bem concatenados, funcionam talvez como uma armadilha para espectadores incautos / ingênuos. Um duo formado por um contrabaixista e um clarinetista pontua de quando em quando a ação c/ interlúdios de free improvisation, e estranhamente (ou se calhar emblematicamente) este porventura seja o ponto focal mais constante, o eixo dramático de sustentação mais sólido que Rivette concede ao espectador, o que a meu ver resulta fascinante e particularmente hipnótico, a música como fio condutor da dramaturgia. 

No desfecho de MERRY-GO-ROUND as irmãs protagonistas saem de cena, enquanto o amante / namorado e a elusiva 'outra' trocam sorrisos misteriosos num promontório sombrio, após um exasperante jogo de fuga e perseguição que perdura ao longo de todo o filme.  Qual a conclusão, a última mensagem, a solução definitiva final para este caleidoscópio de enigmas? Nunca saberemos, e acredito que nem mesmo Jacques Rivette alguma vez soube. A impressão que se tem é a de um imenso quebra-cabeças, por certo sugestivo e belo, mas onde estão faltando numerosas peças. É algo que indubitavelmente tem o condão de irritar a esmagadora maioria das pessoas, mas que para mim sempre foi y será fonte de inesgotável fascínio, até mesmo obsessão.



sexta-feira, fevereiro 09, 2024

Vargtimmen (1968) / Ingmar Bergman

 Alphonse van Worden - 1750 AD



A propósito do título, antes de mais nada.


VARGTIMMEN.

A 'Hora do Lobo'.

Uma arcana expressão nórdica para o horário que a maior parte dos grimoires medievais considera mais propício à celebração de pactos e invocação do... Diabo. Três horas da manhã, para ser mais exato.

E é precisamente o momento do dia em que o protagonista Johan Borg (magnificamente interpretado por Max von Sydow) se vê acossado / assaltado pelos espectros (imaginários?) de seu passado, ora convertidos numa legião de vampíricos avantesmas emergindo dos báratros abismais do inconsciente.

VARGTIMMEN (1968) é de certo modo um ponto fora da curva na trajetória de seu criador Ingmar Bergman. Trata-se essencialmente de um filme de horror. Um soturno y sombrio pesadelo gótico, não obstante carregado de humor negro y sarcasmo cruel - o que aliás corresponde ao universo estético que o cinesta sueco exalta neste filme: o fantasmagórico mundo do romantismo e do expressionismo alemães. C/ o acréscimo, vale dizer, de generosas doses de fantasia surrealista; aliás, se me permitem uma analogia extravagante, eu diria que o filme poderia ser descrito como a versão que um improvável Buñuel escandinavo eventualmente faria para o magnífico Vampyr (1932) de C.T. Dreyer.

Pois VARGTIMMEN é uma grande declaração de amor de Bergman ao que de mais augusto a arte germânica produziu, que ele aqui evoca através da delirante fábula gnóstica da Zauberflöte de Mozart; da magia onírica dos contos de Hoffmann em sua faceta mais noturna, inclusive recorrendo diretamente a dois célebres personagens do ficcionista prussiano - o arquivista Lindhorst e o maestro Kreisler; da pulsão de morte do expressionismo, com suas falanges de sombras espectrais, macabros duplos e marionetes em soirées alucinatórias (um aceno talvez ao mítico Schatten - Eine nächtliche Halluzination / 1920 , de Arthur Robison), seus sinistros espelhos e labirintos, admiravelmente reproduzidos pela fotografia de Sven Nyqvist.

Em VARGTIMMEN Bergman propõe ao espectador um mundo assombrado pelas 'emanações glaciais do além' de que falava Béla Balázs. É o incerto, instável y inefável universo do homem que já não vê, mas tem VISÕES. É, c/ efeito, o inquietante domínio da 'misteriosa agitação do inorgânico' dos românticos teutônicos, onde seres vivos e objetos estão em estado de animação suspensa, um mundo paralelo onde o indivíduo não tem mais acesso aos dados objetivos da Realidade, podendo tão somente projetar visões subjetivas e interiorizantes a partir de suas quimeras.

Wilhelm Worringer falava sobre a presença d'um denso véu entre o homem nórdico e a Natureza. Eu diria que há um fosso, e não somente entre o homem nórdico e Natureza, mas entre toda a Humanidade e a própria Realidade como um todo. E este fosso está aumentando, inexoravelmente, dia após dia, ano após ano, geração após geração. E talvez já fosse intransponível à época do filme. VARGTIMMEN (que se calhar se converteu em meu Bergman predileto c/ o passar do tempo) é uma terrificante visão do fosso, a partir do fosso e sobre o fosso. O artista, antena da raça que é, proclama o veredito: não há escapatória. Que Deus se apiede de nós.

*

PS

Aos amigos y confrades que pretendem reivindicar qualidades inadvertidas para o que se poderia chamar de 'cinema de entretenimento', sobretudo em cotejo c/ o que por outro lado poderíamos designar como 'cinema de arte', eu replicaria o seguinte:

Tais qualidades não são apenas inadveridas - o problema é que quase sempre elas simplesmente INEXISTEM mesmo.

De resto, o legado de mestres como Bergman, Welles, Dreyer, Rivette, Eisenstein ou Murnau não pode ser subestimado. Certamente pode ser criticado, reavalidado, redimensionado, relativizado, mas nunca subestimado, o que inevitavelmente acontece quando elevamos criadores e obras menores ao mesmo plano de excelência. E o cinema não merece isso, assim como a literatura ou a música.



terça-feira, agosto 22, 2023

A propósito de PARIS, TEXAS (1984 / Wim Wenders)



- O texto a seguir assumirá o formato d’um conjunto de notas esparsas, já que há certas obras que, creio eu, jamais conseguirei resenhar de forma sistemática, convencional.


- Mamãe costumava descrever PARIS, TEXAS (Wim Wenders / 1984) do seguinte modo: ‘fdp débil mental ferra com a vida de todo mundo; depois some do mapa; então do nada reaparece; faz a maior cagada do mundo novamente; e some mais uma vez’. - Uma sinopse jocosa, um review for dummies, digamos assim. Concebida, não obstante, por alguém que certamente estava longe de ser uma pessoa tola ou ignorante; antes pelo contrário, aliás: era uma cinéfila cultivada, de gostos refinados, apreciadora de rematados artífices da sétima arte como R. Bresson e C.T. Dreyer. Ao que acrescento: a despeito do que suas palavras à partida possam transparecer, ela gostou do filme. Muito até. Bem mais do que desejaria de ter gostado, diga-se de passagem. Pois em verdade PARIS, TEXAS pertence àquela seleta plêiade de obras de arte capazes de arrojar o espectador / ouvinte / leitor etc. no olho do furacão, num avassalador tsunami de emoções, sensações, y recordações. 


- Também eu fui fortemente atingido, golpeado em cheio em cheio no plexo solar da alma por esta obra devastadora, não somente o ponto culminante na trajetória de seu diretor mas também se calhar o filme mais emblemático em toda a década de 80, e até mesmo uma das grandes obras-primas da história do Cinema. Lembro-me como se fosse hoje: numa época em que abençoadamente não se era enxotado da sala de projeção após o término da sessão, permaneci estático / extático / mesmerizado em minha poltrona durante nada menos que TRÊS sessões consecutivas, e isso em se tratando d'um filme com quase duas horas e meia de projeção. Produto d'um casamento essencialmente disfuncional, filho d'um pai excêntrico / esquisitão (muito embora sob outros aspectos y circunstâncias), não é difícil imaginar porque PARIS, TEXAS me comoveu tão profundamente (e agora os srs. naturalmente compreendem porque outrossim sensibilizou minha mãe - que inclusive sabiamente não quis assisti-lo à época). De maneira que muito embora seja desde sempre um de meus filmes favoritos, é obra a que retornei tão somente duas vezes desde então: uma vez lá por meados dos anos 90 e agora este ano. Há que ter cautela com estas altíssimas voltagens de 'vastas emoções e pensamentos imperfeitos' (Rubem Fonseca)... 


- Recorrendo cá a um surrado clichê da exegese crítica, PARIS, TEXAS é uma obra que opera em vários níveis, se desdobra em várias camadas. Dialogando morfológica, sintática y semanticamente com a avgvsta tradição da Hollywood Renaissance (filmes como THE SWIMMER, MIDNIGHT COWBOY, FIVE EASY PIECES, A WOMAN UNDER THE INFLUENCE etc.), Wenders (re)visita / ressignifica gêneros consagrados do panteão cinematográfico americano, reconfigurando-os sob uma perspectiva espiritual y estética que eventualmente só um estrangeiro poderia ser capaz de fazer. Pois essa é uma das claves fundamentais de PARIS, TEXAS: tal como tantas vezes sói acontecer na história de Hollywood, temos um forasteiro (que já foi Fritz Lang, Jean Renoir ou Billy Wilder) criando um complexo y imersivo painel da alma profunda da America. Assim sendo, o filme é, por exemplo, tanto um road movie (magnificamente registrado pela fotografia de Robby Müller, "intensa, radiante, ampla, límpida, altaneira, generosa, espraiando-se por desertos majestosos, desfiladeiros profundos e crepúsculos incandescentes", ecoando aqui o que assinalei a propósito de outro clássico da vertente - EASY RIDER) quanto western existencialista nas inclementes pradarias da pós-modernidade ( não me deixa mentir o inolvidável desfecho, com Travis Henderson partindo solitário em direção às terras sombrias do esquecimento de si mesmo, após ter levado a cabo sua derradeira missão), bem como um drama psicológico de finíssima carpintaria dramatúrgica (Harry Dean Stanton e Nastassja Kinski sobretudo, mas também Dean Stockwell, Aurore Clément e ainda o menino Hunter Carson, todos eles nos brindam com interpretações definitivas, mergulhos abissais nos báratros insondáveis da existência humana, Twilight Zone de obsessões, sonhos, temores e desejos). 


- Meditação sobre a traiçoeira dialética danação / redenção; sutil e sensível 'estudo de caso' sobre as relações familiares, radiografando o irresgatável naufrágio de um casamento, bem como as tão delicadas e movediças linhas de demarcação entre os laços viscerais que ligam um filho a seus pais biológicos, por mais problemáticos que eles possam ser, e por outro lado a ligação sempre d'algum modo 'subsidiária' que se estabelece com os pais de criação, por melhores que eles sejam; retrato a um só tempo poético e cruel da alienação, solidão y sentimento de crescente  dissociação que caracterizam a vida na metrópole contemporânea (a esse respeito merece especial destaque a fortíssima sequência do 'pregador maldito' anunciando o fim do mundo), Wim Wenders nos oferece, pois, uma ampla, multifária gama de itinerários e possibilidades. 


- Com suas paisagens monumentais; suas infindáveis autoestradas atravessando o deserto e a alma; seus labirintos de viadutos, avenidas, malls y outdoors refulgindo sob a espectral fantasmagoria das luzes de neon, um filme como PARIS, TEXAS exibe de forma particularmente dramática e efetiva um impressionante paradoxo: quão perversamente sedutora pode ser a mitologia larger than life de uma sociedade cada vez mais caótica ("Moloch whose skyscrapers stand in the long streets like endless Jehovahs! Moloch whose factories dream and croak in the fog! Moloch whose smoke-stacks and antennae crown the cities!" - Allen Ginsberg) e desesperada ("America why are your libraries full of tears?" - idem), mas ainda assim pulsando vertiginosamente com a esplêndida e torrencial energia de mil supernovas ("Strong, ample, fair, enduring, capable, rich (...) Chair’d in the adamant of Time" - Walt Whitman). 


- Por fim, seria um sacrilégio falar sobre PARIS, TEXAS sem mencionar sua absolutamente antológica trilha sonora. A cargo do guitarrista Ry Cooder, trata-se d'uma navalha na carne aural, um verdadeiro réquiem em forma de delta blues, country e tex-mex music.

E é isso. 



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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte / Deserto dos Tártaros


segunda-feira, maio 29, 2023

Brevíssima nota sobre a grandeza das nações


Alphonse van Worden - 1750 AD



Li o seguinte comentário algures na bravia selva internética: 

"Roma não foi amada por ser grande, foi grande por ter sido amada"

Francamente, isto é um disparate, não faz o menor sentido. Trata-se d'uma chorumela sentimental, uma mera patacoada romântica.

Roma foi grande por ter sido uma sociedade organizada, bem governada, disciplinada, erigida sob a égide das grandes virtudes cívicas  - AVCTORITAS, GRAVITAS, IVSTITIA, DIGNITAS, PIETAS, SEVERITAS, VERITAS, FIRMITAS, INDVSTRIA, FRVGALITAS etc. -, predicadas por sábios e probos varões como os juristas Papianus e Ulpianus, o imperador Marcus Aurelius etc. Tais foram os alicerces da magnificência, da grandeza de Roma. E é tão somente a partir do pertinaz cultivo de tais virtudes que nasce o verdadeiro patriotismo, a energia vital que constrói impérios e conquista continentes, não essa patuscada de pacóvios, esse nacionalismo de pacotilha, de arquibancada de estádio de futebol, bloco de Carnaval ou comício / manifestação de demagogo mequetrefe.  

Enquanto não nos excedermos no exercício das grandes virtudes, jamais construiremos uma pátria digna de ser verdadeiramente amada. Urge começarmos por nós mesmos, e o princípio está no reconhecimento franco, sincero, até mesmo brutal, de nossos vícios e fraquezas. De nada adiantará dourar a pílula e fazer o elogio fátuo de quimeras e devaneios.

domingo, maio 28, 2023

A propósito de Desiderivs Erasmvs Roterodamvs, um tardio y merecido tributo


 

Gostaria hoje de corrigir uma flagrante, pertinaz injustiça. Trata-se de render preito y homenagem a um autor que nunca mencionei em qualquer texto, mas que sob certos aspectos exerceu influência determinante em minha trajetória intelectual: Desiderivs Erasmvs Roterodamvs (1466 - 1536), mais conhecido entre nós como Erasmo de Rotterdam, o famígero teólogo, reformador religioso e filósofo neerlandês; e analogamente celebrar o papel de duas mulheres incríveis nesta história: minha estimada profa. Marilena (desafortunadamente não sei agora como descobrir seu nome completo), de quem fui aluno de História Geral durante todo o ginásio e colegial; e minha falecida e amada mãe. 

Com efeito, foi por intermédio da referida mestra que tive pela primeira vez ciência do insigne humanista batavo, numa aula em que ela discorrera sobre os grandes pensadores do período renascentista na Europa, se bem me recordo na quinta série do curso ginasial. Sempre nutri uma forte atração por tudo aquilo que d’alguma forma representa um ‘ponto fora da curva’, e a peculiar y carismática figura de Erasmo, tingida por todos os matizes d’uma personalidade essencialmente flamboyant e indômita, bem como sua rocambolesca trajetória, eivada de peripécias y controvérsias, inevitavelmente suscitaram minha curiosidade; como se não bastasse, o título de sua obra capital era de todo irresistível para um menino como eu: STULTITIAE LAUS / MORIAE  ENCOMIUM, ou seja, o mítico ELOGIO DA LOUCURA. Fazer a apologia da ‘loucura’... ou em outras palavras, remar contra a maré, desafinar o coro dos contentes... evidentemente aquilo fora feito para mim! 

O fato é que já naquele mesmo final de tarde, ao encontrar minha progenitora na saída da escola, bombardeei a pobre senhora c/ mil e uma informações sobre as aventuras y desventuras de meu novo herói, e obviamente pedi a ela o livro de presente. E era justamente em contextos como este que tanto a generosidade quanto o fino descortino psicológico y intelectual de mamãe ficavam evidenciados: não opôs qualquer óbice à minha demanda, um reles frangote de apenas 11 anos, e dias depois lá estava eu c/ o livro nas mãos (uma modesta edição portuguesa daquelas coleções de bolso da Europa-America, não obstante esplendidamente bem traduzida, e que preservo c/ muito carinho até hoje). E o resto é história. 

Pois bem: relendo a obra esta semana, após um considerável hiato de quatro décadas, pude compreender c/ plena exatidão as razões pelas quais este desconcertante ensaio incendiou a imaginação daquele impressionável infante d’outrora; entre o homem feito e Erasmo, contudo, são muitos e profundos os pontos de divergência, e se calhar devo começar por eles. 

Para além de ter sido um dos mais notáveis inspiradores da Reforma (mormente d’uma perspectiva mais moderado no seio deste processo, tal como o anglicanismo, já que nosso autor não via c/ bons olhos os excessos farisaicos do luteranismo), há que frisar ter sido Erasmo um acerbo paladino do Estado laico e do secularismo d’uma maneira geral, e também sob vários aspectos um precursor do pensamento liberal; e tudo isto mesmo tendo permanecido nas fileiras da Igreja até o fim de seus dias, registre-se. De qualquer maneira, nada poderia estar mais longe das convicções de alguém como eu, assume francamente a defesa do absolutismo monárquico, do cesaropapismo e do direito divino dos reis... 

Mas ora retornemos aos idos da década de 80, para enfim tratarmos do que tanto impressionou aquele jovem mancebo. 

À partida ressalte-se o óbvio ululante: que magnífico escritor era Erasmo de Rotterdam! Manejando c/ pleno conhecimento de causa e assombrosa facilidade todo o arsenal retórico y literário da tradição clássica greco-romana (que muito embora fosse patrimônio comum de todos os eruditos de seu tempo, nem sempre era trabalhado c/ tanta sutileza e elegância), o excelso teólogo cria um texto ágil, exuberante, pejado de metáforas surpreendentes e audazes alegorias, c/ um resultado por certo jocoso, até mesmo hilariante, mas s/ jamais perder o caráter de  densa reflexão filosófica. Sendo das belas letras um entusiasta desde muito cedo, era impossível, portanto, não me ver hipnotizado por uma obra como essa.

Todavia, e aqui chegamos ao âmago da questão, foi o que Paul Valéry denominaria de ‘atitude central’, tanta na obra quanto no itinerário de vida de Erasmo, o que efetivamente me fascinou outrora, e certamente até hoje me arrebata: uma inteligência essencialmente crítica, analítica, a serviço d’um espírito altivo, combativo, sobranceiro, que não está disposto a fazer concessões torpes. Suponho que d’algum modo estes traços já correspondiam à minha própria índole, a uma disposição d’alma já atavicamente presente em mim; não obstante, outrossim estou convicto de que as boas leituras não são fundamentais somente para a formação intelectual do indivíduo, mas também para a formação do caráter. Se hoje sou ou pelo menos me empenho em ser um homem de espírito independente e altaneiro, disposto a desafinar o coro dos contentes e a não hipotecar sua dignidade em nome de compromissos espúrios, quero crer que a leitura do esplêndido libelo de Erasmo naquele já tão remoto ano de 1982 n’alguma medida deu lá seu providencial contributo.   



 

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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte / Deserto dos Tártaros

   

sábado, agosto 20, 2022

In Memoriam X


Alphonse van Worden - 1750 AD




Em primeiríssimo lugar, gostaria de prestar minha solidariedade ao insigne e querido prof. Alexandr Dugin, a quem tive a honra de conhecer pessoalmente, mesmo que brevemente. Não há como estimar a dor de um pai que perde um filho, ainda mais de forma tão repentina, absurda, bárbara e criminosa. 

De resto, tenho certeza de que esta monstruosa ignomínia não permanecerá impune, não somente em função da proteção que o Estado Russo oferece até mesmo ao mais humilde de seus cidadãos, mas sobretudo em virtude das profundas conexões que Dugin mantém com os serviços de inteligência e com o aparato de segurança estatal. Recordemos que o pai do ilustre filósofo era oficial de alta patente da inteligência militar soviética. 

Há outrossim que salientar que muito embora as suspeitas recaiam mormente sobre as organizações terroristas das ratazanas neonazistas ucranianas, a meu ver não se pode excluir a eventual participação no ocorrido de alguma agência de inteligência das potências atlantistas. Quero crer que todas as cartas estejam sobre a mesa num contexto como esse... 


R.I.P, Daria Dugina, que para ti se descortinem as iridescentes veredas da Arcana Coelestia











segunda-feira, julho 11, 2022

Farsa surrealista y Anarquia: a propósito do Walerian Borowczyk

Alphonse van Worden - 1750 AD 






Ah os anos 80 e seus indefectíveis cult movies, circulando entre cenáculos esotéricos de cinéfilos exaltados em abomináveis fitas VHS piratas, a partir de videolocadoras igualmente suspeitas... 

Pois bem: presença cativa nesta plêiade era o clássico do cinema libertino-libertário CONTES IMMORAUX (1973), do polaco exilado em França Walerian Borowczyk.  É talvez o filme que melhor ilustra a definição cunhada para o diretor por um crítico da Cahiers du Cinema: “trata-se de um gênio que por acaso também era pornógrafo”.  C/ suas composições visuais sempre inventivas e amiúde requintadas, até mesmo suntuosas, a obra mais famosa do cineasta polonês é de fato arte fílmica da melhor qualidade a serviço da velha e boa causa da sacanagem, e impressionou imenso este vosso então ainda jovem irmão d'armas.  

O dado concreto é que desde então fiquei c/ vontade de conhecer melhor a trajetória deste peculiar realizador, mas seja lá porque cargas d'água tão somente este ano vim a fazer isto, ao inadvertidamente topar com um generoso acervo de obras de Borowczyk à disposição no salvífico y civilizatório Mubi. 

C/ efeito, a messe é farta y variada, incluindo desde seus fascinantes experimentos em stop motion (curtas que prenunciam a estética grand-guignolesca que o tcheco Jan Švankmajer imprimiria depois ao formato) aos sempre controversos longas, obras como LA BÊTE (1975), BLANCHE (1972) e GOTO L'îLE D'AMOUR (1969). 

E d'entre estes últimos o destaque vai inelutavelmente para o desconcertante GOTO, uma alegoria política em compasso de farsa surrealista. Conceitualmente falando, é como se o Roussell de Locus Solus se inspirasse no Das Schloss de Kafka para compor uma peça satírica de cunho anarquista, acrescentando aqui e ali à receita algumas boas pitadas de Buzzatti e Potocki. Em termos de linguagem cinematográfica, por seu turno, Borowczyk se calhar até surpreendentemente retroage algumas décadas e evoca o chamado ‘realismo poético’ do cinema francês pré-Nouvelle Vague / II Guerra Mundial, reivindicando o insigne legado de figuras como Marcel Carné, Jean Renoir, Georges Franju etc. Assim sendo, oferece ao espectador um estimulante contraponto entre o caráter insólito da narrativa e a sóbria, rigorosa elegância formal da filosofia estética; sábia e salutar contraposição, desafortunadamente ausente, vale dizer, em obras ulteriores do cineasta. De resto, destaquemos as excelentes atuações de Guy Saint-Jean no papel de Grozo, o ambicioso marginal que metódica e implacavelmente subverte a ordem constituída na ilha; o célebre Pierre Brasseur encarnando Goto III, o malfadado soberano; e sobretudo Fernand Bercher, esplêndido como um excêntrico e ‘nefelibático’ mestre-escola. 



O peculiar cinema de Jacques Rivette - II


Como se fora uma adaptação teatral d'um romance de piratas de Rafael Sabatini encenada pelo Living Theatre sob a batuta de Antonin Artaud, c/ trilha sonora de Giacinto Scelsi executada pela Third Ear Band; ou então uma versão particularmente experimental de clássicos hollywoodianos do cinema de aventura como Sea Hawk ou Captain Blood (por sinal criações saídas originalmente da pena de Sabatini), em compasso de happening surrealista. 

Com efeito, não é por acaso que Jacques Rivette concebeu este NOROÎT - UNE VENGEANCE (1976) como uma espécie de desdobramento / sequência de seu filme anterior (DUELLE, do mesmo ano), ambos formando a primeira metade d'uma tetralogia que infelizmente jamais seria completada: Scènes de la Vie Parallèle. De fato, trata-se em tudo y por tudo d'um universo PARALELO, onde tanto as convenções tradicionais da mise-en-scène cinematográfica y teatral quanto os cânones habituais da estética fílmica são completamente abolidos / subvertidos. O consenso crítico, vale dizer, costuma apontar Jean-Luc Godard como o mais vanguardista entre os cineastas da Nouvelle Vague, mas hoje estou cada vez mais convencido de que este galardão deveria ser atribuído a Rivette.  

O enredo é uma livre adaptação d'uma clássica tragedy of blood do teatro jacobita inglês (The Revenger's Tragedy / 1606), peça de autoria até hoje controversa (alguns especialistas atribuem a Thomas Middleton, outros a Cyril Tourneur), mas você só reconhecerá a fonte caso seja efetivamente um scholar na matéria, tenha certeza. Diria eu, contudo, que o filme de certa maneira evoca / reverbera outros idiomas dramáticos, sobretudo as escolas japonesas do Noh e do Kabuki, referência que fica particularmente evidenciada no magnífico número final, um hipnótico bailado / baile à fantasia, eivado de ressonâncias esotéricas e alusões mitopoéticas à tradição helênica. 

Isto dito, não me furto a apontar outra possível fonte de inspiração: as Four Plays For Dancers (1921) de W.B.Yeats, obra-prima do teatro de vanguarda criminosamente esquecida na atualidade. Igualmente tributária das tradições teatrais nipônicas, esse quatuor de peças do grande poeta irlandês se estrutura como uma série de  intensos tableaux vivants, onde a trama é contada muito mais através dos números musicais e de balé do que propriamente por meio dos diálogos, assim como ocorre em NOROÎT. Aliás, mais do que precisamente uma trama, o que temos em ambos os casos afigura-se muito mais como conjuração d'uma atmosfera, d'uma galáxia de evocações y cavilações oníricas. 

Agora, nem tudo são flores: há cenas y sequências de tal modo aleatórias y gratuitas que resulta praticamente impossível o espetador não se ver assaltado por uma recorrente impressão de... mistificação. Se bem que... pensando melhor, no fundo isso é até bom... explico: este vosso confrade chegou a um estágio como espectador y ouvinte (literatura é outro papo, obedece a outros parâmetros) em que a circunstância de 'gostar' ou não de um filme, uma peça de teatro, um disco já não é o mais importante: importa antes o assombro, a perplexidade, o espanto, o pasmo, até mesmo a consternação - caleidoscópio de sensações que NOROÎT indubitavelmente suscita a mancheias.

Por fim, como bonus track, registro que a obra é protagonizada por lady Geraldine Chaplin, uma de minhas três atrizes favoritas em todos os tempos ao lado de Renée-Jeanne Maria Falconetti e Emmanuelle Riva, o que por si já é suficiente para tornar qualquer filme pelo menos digno de atenção.


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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte / Deserto dos Tártaros 

O peculiar cinema de Jacques Rivette - I


 

Leni (Rainha da Noite): oh tu, Filha do Sol, que de tão longe atacas! Eu desafio-te!

Viva (Rainha do Sol): oh tu, Filha da Lua, destruidora de cidades! Eu desafio-te.

[em turnos]

Viva: na primeira lua cheia da primavera...

Leni: no crepúsculo...

Viva: entre a noite e o dia, no Jardim das Sombras...

Leni: sob a Árvore dos Ventos do Noroeste, aguardarei por ti.

Viva: também eu... aguardarei por ti.

__


Jacques Rivette sempre foi o mais idiossincrático cineasta da ala mais 'experimental', digamos assim, da nouvelle vague francesa (o que não é dizer pouco, já que estamos a falar de figuras tais como Godard, Resnais e Chris Marker, por exemplo).

E hoje gostaria de dizer algumas palavras a propósito d'uma de suas criações mais desconcertantes: DUELLE - UNE QUARANTAINE (1976).

O cineasta concebia inicialmente o filme como a primeiro capítulo de um ambicioso ciclo em quatro partes: Scenes de la Vie Parallelle. O título não poderia ser mais perfeito: DUELLE de fato mergulha o espectador numa dimensão paralela, um mundo onírico y fantasmático, um labirinto de símbolos y enigmas, que a um só tempo hipnotiza y inquieta.  

A trama, eivada de significados místicos, ressonâncias esotéricas  e crípticas alusões alquímicas y astrológicas, poderia ser resumida da seguinte maneira: numa Paris de todo despida de clichês turistoides y magnificamente bem fotografada, temos o sempiterno y mortal conflito entre duas entidades cósmicas que a cada ano encarnam em avatares humanos durante 40 dias no inverno: a Rainha da Noite e a Rainha do Sol. Ambas desejam encerrar essa espécie de samsara e permanecer para sempre na Terra; para tanto, precisam tomar posse d'um arcano artefato de poder há séculos perdido: uma joia chamada Fada Madrinha. E nesse duelo, como o próprio título do filme aponta, manipulam céus y terras, mundos y fundos, mulheres y homens, empregando os astuciosos expedientes de sedução y sugestão.  

Uma sinopse como essa à primeira vista parece pressupor toda sorte de efeitos visuais, trucagens etc. tal, não é mesmo? Pois nada poderia estar mais longe da verdade: DUELLE é um filme espartanamente despojado de quaisquer artifícios nesse sentido. C/ efeito, a maneira como Rivette constrói seu universo paralelo inteiramente através das sutilezas do mise-en-scène, da hermética geometria de gestos y olhares, da polifonia polissêmica de seus diálogos.

De resto, o desempenho dos atores é uniformemente magistral, mas eu não poderia deixar de sublinhar a sinistra y sibilina elegância de Juliet Berto, eterna fêmea-serpente das artes fílmicas gaulesas, como Reine de La Nuit.


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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte / Deserto dos Tártaros 

quinta-feira, julho 07, 2022

A propósito da potência evocativa da imagem fotográfica

Alphonse van Worden - 1750 AD 




Meus mui estimados irmãos d'armas, savdações! 


Para vossas senhorias entenderem a que ponto pode chegar a influência de uma simples fotografia, o quão profundamente ela pode plasmar aspectos fundamentais da consciência d'um indivíduo, se calhar até mesmo seu horizonte existencial... 

Pois bem: resulta sumamente difícil transmitir aos senhores  do que representou para mim, então um menino de 8 anos, a matéria de capa da Revista Manchete em 1979 sobre a Revolução Iraniana, mormente as fotos de página inteira exibindo o Ayatollah Khomeini em 1979, tendo apenas 8 anos de idade. Com seu a um só tempo hierático, imponente y ameaçador hábito negro, a copiosa y venerável barba branca, ele parecia mais um personagem saído das páginas do SENHOR DOS ANÉIS do que qualquer outra coisa, como se fora uma espécie de releitura de Saruman. E como se não bastasse o impacto visual, a estrondosa, estrepitosa, avassaladora manchete, praticamente uma declaração de guerra CÓSMICA ao UNIVERSO, de todo irresistível para um garoto de imaginação feérica como a minha:


AIATOLÁ: UM FANÁTICO CONTRA O MUNDO


Trata-se praticamente d'uma variante do célebre lema de S. Atanásio de Alexandria, um dos mais insignes teólogos y doutores da Igreja: SE O MUNDO FOR CONTRA A VERDADE, ENTÃO ATANÁSIO SERÁ CONTRA O MUNDO! Ora pois: como alguém que tem a audácia, a bravura, a intrepidez, a desassombrada convicção, o "admirável coração tranquilo" de se levantar contra o próprio MUNDO, poderia ser 'ruim' sob qualquer ângulo ou hipótese?! Inconcebível!

Enfim, foi algo que nunca mais me esqueci, uma imagem que ficou impressa em minha mente, em meu subconsciente, e é c/ absoluta certeza a fonte originária de todo o meu interesse pelo país, por sua cultura e pelo processo revolucionário islâmico.

quarta-feira, maio 25, 2022

Glauber Rocha no exílio II - Cabezas Cortadas (1970)



Veneráveis irmãos d'armas:

Fazendo uma retrospectiva do cinema de Glauber Rocha no exilio, hoje foi a vez daquela que se calhar é sua criação mais densamente alegórica y profundamente enigmática: CABEZAS CORTADAS, rodado em 1970 nas evocativas paisagens de Cadaqués na Catalunha; localidade que aliás tanto fascinou Buñuel e Dali, duas referências fulcrais para este longa, que é de longe a obra mais surrealista em toda a filmografia do cineasta. Vale dizer que o próprio Glauber definia CABEZAS CORTADAS  como uma “viagem borgeana pela obra de Shakespeare”, o que por si só já é indicativo de suas pretensões c/ o filme.  

Tal como afirmei em comentário anterior, é preciso antes de qualquer outra coisa sublinhar a sutil intertextualidade existente entre as diferentes fases do opus glauberiano, uma complexa teia semiótica de retroalimentações e reflexos invertidos. Assim sendo, se DER LEONE HAS SEPT CABEÇAS se apresenta como o desdobramento / expansão mítica do conflito espiritual e ideológico de O DRAGÃO DA MALDADE CONTRA O SANTO GUERREIRO para a geopolítica do continente africano, CABEZAS CORTADAS  pode ser caracterizado como a implosão / desintegração onírica de TERRA EM TRANSE

C/ efeito, o filme se formula como um labirinto de alegorias, uma hipnótica procissão de arquétipos e mitologias abordando questões que vão do paradoxal destino dos caudilhos, sempre a oscilar entre as dimensões do trágico e do patético, aos meandros dialéticos da epopeia colonial ibérica nas Américas. E a maneira como Glauber constrói / entretece essas mandalas de signos é magistral. Cito aqui três passagens que me parecem particularmente brilhantes: 

- Uma espécie de contenda / bailado envolvendo dois caballeros medievais das guerras da Reconquista - um caracteristicamente trajado como lanceiro do Califado Almóada, outro envergando a armadura da cavalaria pesada do Reino de Castela - e o caudilho latino-americano no exílio; depois envolvendo duas figuras das classes populares agrárias - um yanacona inca e um camponês espanhol; e por fim incorporando o proletariado da Guerra Civil de 1936-39, ou seja, ou seja, a própria síntese dinâmica da Hispanidade in totum.

- O caudilho Diaz II, magnificamente interpretado por Francisco Rabal, mergulhado num lamaçal, confrontando-se caoticamente c/ os destroços míticos de seu passado, primeiro sozinho, mais tarde espojando-se c/ uma luciferina cigana, ícone das vertigens da carne, delírio bunueliano ressignificado como happening performático sob o inclemente sol catalão.  

- O mesmo Diaz perambulando às margens do Mediterrâneo, cemitério marinho de tantos impérios e quimeras, c/ um imenso relógio em suas mãos, como se quisesse reverter a inexorável marcha do Tempo, retomar a glória perdida, talvez até mesmo capturar a Eternidade, La persistencia de la memoria de Dali convertida em tableau vivant.

Em suma: se a possibilidade de uma zona crepuscular onde se entrechoquem / entrelacem cinema, história, geografia sagrada e metafísica lhes parece algo fascinante, CABEZAS CORTADAS é um filme absolutamente fundamental.


*

Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte / Deserto dos Tártaros 

Glauber Rocha no exílio I - Der Leone Have Sept Cabeças (1970)

 Alphonse van Worden - 1750 AD



Estimados confrades: 

Revi hoje pela manhã c/ o mesmo fascínio de sempre DER LEONE HAVE SEPT CABEÇAS (1970), primeiro longa-metragem filmado por Glauber Rocha no exílio durante a década de 70 (no mesmo ano ele ainda rodaria CABEZAS CORTADAS na Espanha). 

E é sempre pertinente assinalar, antes de qualquer outra coisa, como genial cineasta baiano foi capaz de sintetizar exemplarmente as principais linhas de força conceituais e diretrizes estéticas de sua arte nos dois grandes manifestos que lançou respectivamente em 1965 e 1971: UMA ESTÉTICA DA FOME e EZTETYKA DO SONHO

C/ efeito, ainda que tipologias e classificações deste gênero inevitavelmente sejam um tanto quanto esquemáticas, podemos dizer que a primeira fase de sua carreira (até MARANHÃO 66) se desdobra sob o signo da Estética da Fome, ao passo que a partir de O DRAGÃO DA MALDADE CONTRA O SANTO GUERREIRO (1969), sua filmografia passa a refletir c/ intensidade cada vez maior o programa esboçado na 'Eztetyka do Sonho'. Nesse sentido, TERRA EM TRANSE (1967)  pode ser encarado como um divisor de águas, tanto como o pyramidion do primeiro período quanto como a pedra fundamental do processo de transfiguração estético-alegórica de sua obra, que acabaria resultando em todo um projeto de refundação mística e mítica do agir político no seio da criação artística. 

Cito aqui, para poupar tempo e esforço, algumas passagens de um artigo que escrevi sobre o tema:   

"Com efeito, a obra de Glauber flui numa linha ascendente, tanto no plano estético e artístico quanto no sentido da evolução progressiva de um projeto a um só tempo ideológico, espiritual e existencial. A cada filme e texto são agregados novos elementos, novas perspectivas a este work in progress, que vai expandindo suas coordenadas, revestindo-se de aspectos cada vez mais multifacetados e complexos, até o seu surpreendente coroamento final com A IDADE DA TERRA (1980).  É, pois, fascinante observar como esse work in progress glauberiano vai se processando ao longo de sua trajetória. Em BARRAVENTO (1962) e DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL (1964), seus primeiros longas-metragens, podemos observar um cinema ainda determinado por parâmetros narrativos e estéticos tradicionais, caudatário, sobretudo, do 'cinema dialético' do soviético de Sergei Eisenstein (1898-1948) e do neorrealismo italiano, não podendo também deixar de ser mencionada, especialmente no que concerne ao trabalho de direção dos atores, uma substancial influência da dramaturgia de Bertolt Brecht. (...) E se a princípio é patente o influxo dos modelos europeus de cinematografia e dramaturgia, Glauber se afasta paulatinamente de tais influências em direção a uma estética totalmente original, fusão de alegoria barroca, pajelança antropofágica e cristianismo libertário, num processo que acompanha o seu desligamento progressivo das categorias racionalistas da ortodoxia marxista em direção a um conceito de revolução messiânica, cujo veículo de transformação é precisamente o êxtase místico convertido em agir político. A partir da trinca de longas que dirigiu no exterior (CABEZAS CORTADAS - 1970; DER LEONE HAVE SEPT CABEÇAS - 1970; CLARO - 1975) e, por fim, em A IDADE DA TERRA, obra que é muito mais uma experiência, um ensaio aberto, do que a estrutura fechada com ‘início-meio-fim’ que tradicionalmente entendemos como um 'filme', a dimensão ritualística da obra de Glauber, presente como embrião já nos primeiros curtas, atinge o seu ponto máximo de realização." 

Isto dito, gostaria ainda de fazer aqui mais três considerações adicionais, pontos que não observei no texto supracitado.

- É muito interessante notar como mesmo na fase messiânica, Glauber não abdica do recurso a modelos dramatúrgicos e referências estéticas 'ocidentais'; o que muda é o caráter mais decididamente 'vanguardista / experimental' dessas influências. Em DER LEONE, por exemplo, é a meu ver patente o emprego de elementos do happening e da performance característicos da vanguarda das artes cênicas dos anos 70; do Teatro Laboratório / Teatro Pobre de Grotowsky; do Teatro da Crueldade de Artaud e d'um modo geral de toda uma estética do absurdo; e talvez sobretudo do então recentíssimo cinema de agitprop experimental do Grupo Dziga Vertov.  

- Fazendo aqui uma espécie de análise da gramática formal do filme, rever DER LEONE proporciona ao espectador a oportunidade de mergulhar na intrincada intertextualidade existente entre as diferentes fases do opus glauberiano, uma complexa teia semiótica de retroalimentações e reflexos invertidos. Assim sendo, se CABEZAS CORTADAS pode sob certos aspectos ser caracterizado como a implosão / desconstrução onírica de TERRA EM TRANSE, DER LEONE se formula como o desdobramento / expansão mítica do conflito espiritual e ideológico de O DRAGÃO DA MALDADE CONTRA O SANTO GUERREIRO para a geopolítica do continente africano. 

- O epíteto que costumo atribuir a Glauber - PROFETA - não é um qualificativo gratuito, aleatório. Num dado momento do filme, quando o governador da Colônia (Reinhard Kolldehoff), o atravessador português (Hugo Carvana) e o agente da CIA (Gabriele Tinti) estão interrogando o líder guerrilheiro estrangeiro (Giulio Brogi) recém-capturado, o agente americano, divagando sobre o futuro do planeta, diz mais ou menos o seguinte: 

"No futuro tudo será resultado da planificação total da técnica e da economia pelos cérebros eletrônicos, que pertencem a nós, os povos civilizados. Surgirá um novo modelo de organização social, superior ao capitalismo e ao comunismo, e também uma nova Humanidade."

É ou não é a perversa utopia de 10 entre 10 potentados nefários da N.W.O hoje, os Zuckerberg, Soros, Schwab, Page, Bezos, Musk e Gates da vida?

sexta-feira, março 18, 2022

Um clássico contemporâneo


Estimados irmãos d'armas y confrades: 

Não é sem certa dose de risco que se revisita na maturidade um livro dedicado pelo menos em princípio ao público infantojuvenil; especialmente, vale dizer, quando se está a falar d’uma obra que ocupa uma posição central no panorama de sua memória afetiva literária, uma obra que foi lida e relida com fervor e veneração justamente naqueles anos onde tudo parece se revestir das cores mais fatais e pungentes. 

E felizmente a aposta foi recompensada c/ todos os juros possíveis e concebíveis: Die Unendliche Geschichte (Michael Ende, publicado originalmente em 1979 na Alemanha Federal) exerceu sobre o calejado Alfredo de 2022 o mesmíssimo impacto que teve para o ansioso rapazinho que outrora fui em 1985. Aliás, exceção feita a alguns exageros de índole moralizante / pedagógica (todavia plenamente compreensíveis no contexto da trama), eu diria inclusive que hoje se apresenta como uma leitura até mais surpreendente, comovente e arrebatadora.  Pois em verdade vos digo, conforme já frisara à partida: c/ efeito, A História Sem Fim é tão somente em tese um livro escrito para jovens, pelo menos em se tratando da juventude atual. Claro está que o autor  tinha em mente a mocidade alemã dos anos 70 como ‘tipo ideal’ weberiano, e aí talvez fosse possível conceber um público-alvo entre 13 / 18 anos capaz de digerir  (ou no mínimo de não se perder inexoravelmente) um livro que definitivamente está bem longe de ser óbvio ou singelo. 

S/ fornecer quaisquer detalhes sobre o enredo, estamos falando d’uma obra que em numerosas passagens lança mão d’uma dicção densamente alegórica e poética; que abarca múltiplas camadas de símbolos e significados, envolvendo tópicos filosóficos como o Mito da Caverna e o Paradoxo da Regressão Infinita, aspectos da semiótica, da psicanálise e da linguística, bem como uma vasta plêiade de questões de âmbito esotérico: a Jornada do Herói, a Thelema crowleyana, a Theosis, as diversas fases da operação alquímica, a Árvore Sephirotica e a Árvore Qliphotica etc. E tudo isso emoldurado por uma imaginação exuberante, transbordante, capaz de gerar uma profusão inesgotável de cenários, episódios e sobretudo personagens verdadeiramente extraordinários e rigorosamente inolvidáveis.   

Em suma: se és devoto de obras como The Lord of the Rings ou Chronicles of Narnia, diria eu que perigas encontrar um novo favorito para o panteão.


*


Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte / Deserto dos Tártaros 


quinta-feira, fevereiro 24, 2022

Apontamento a propósito da crise russo-ucraniana


Alphonse van Worden - 1750 AD




Diletos irmãos d'armas, savdações! 


Refletindo hoje sobre a crise internacional que ora se desenrola perante nossos olhos, diria eu que algumas conclusões se impõem à partida, em verdade premissas fundamentais para qualquer análise séria a propósito do tema. São elas: 


I - A questão deve ser lida e no fundo tão somente pode ser integralmente compreendida à luz do plurissecular conflito geopolítico, militar, ideológico e espiritual entre as civilizações de índole telurocrática, isto é, os 'Impérios Terrestres', e as civilizações de índole talassocrática, vale dizer, os 'Impérios Marítimos'. Ou seja: a oposição entre TERRA e MAR; ETERNIDADE e TEMPO; PERMANÊNCIA e MUDANÇA; ESTABILIDADE e INSTABILIDADE. Assim sendo, a Ucrânia é hoje tão somente um território em disputa, mais um entre tantos e tantos campos de batalha instrumentalizadas pelas facções em luta nesta milenar conflagração.


II - A União Europeia como princípio teórico, projeto existencial em seu sentido mais abrangente, qual seja, um Grande Espaço agregando todos os narods europeus sob um mesmo estandarte e destino manifesto comum, é uma iniciativa essencialmente nobre e necessária; e como tal foi acalentada e auspiciada pelo que houve e há de melhor entre pensadores e líderes políticos dos séculos XX e XXI.  A título de exemplo, poderíamos mencionar aqui figuras do porte d'um Carl Schmitt, d'um Arthur Moeller van den Bruck (de quem aliás comecei recentemente a ler com imenso interesse a obra Das Dritte Reich, precisamente um projeto de Grande Espaço Europeu) , d'um Oswald Mosley, d'um Francis Parker Yockey, d'um Alain de Benoist, d'um Alexandr Dugin, entre tantos outros. C/ efeito, trata-se d'um ideal que remonta ao século XVIII: em seu ensaio de teologia política Die Christenheit oder Europa (1799), Novalis advoga um retorno à Societas Christiana medieval, cuja unidade harmônica poderia regenerar uma Europa convulsionada por dissensões políticas e religiosas; seria, pois, o caminho para o reencantamento do mundo moderno, fragmentado e desprovido de um sentido maior.   


III - Destarte, c/ maior ou menor ênfase num resgate de tradições imperiais perdidas (Roma, Bizâncio, HRR etc.); inclinando-se para esta ou aquela forma de governo (monarquia, república); diferindo quanto a uma maior ou menor concessão de autonomias no seio do Grande Espaço, seja em âmbito administrativo, econômico, cultural, religioso etc., os autores supracitados sonharam c/ um Imperivm multinacional encarnando o plvriversvm europeu. E qual seria a grande e fundamental diferença, o verdadeiro e intransponível abismo que separa todos esses projetos da UE tal como esse organismo se constituiu e existe hoje? A resposta pode ser dada em duas palavras: a mais visceral e irreconciliável incompatibilidade em relação a qualquer modalidade de democracia liberal, com todos os múltiplos e multiformes pressupostos e implicações ideológicas, políticas, econômicas, culturais e espirituais que esse tenebroso binômio engendra. 


IV - O triunfo da TERRA sobre o MAR; do bloco eurasiano sobre o bloco atlântico; da IV Teoria Política (ou qualquer outro nome que se queira atribuir à articulação que se forja hodiernamente entre diferentes recortes teóricos, perspectivas político-ideológicas e modelos de organização de cunho antiliberal) sobre a nebulosa liberal: eis o que está em jogo.     


terça-feira, setembro 14, 2021

Crônicas do Novo Normal - I: a propósito do bichano y do imunizante




Esta nossa indigitada Terra de Santa Cruz é mesmo um país deveras... singular, em y por tudo sui generis.

Senão vejamos: estava hoje este vosso humílimo confrade, cidadão pacato y ordeiro que é, num posto de vacinação situado no outrora idílico y bucólico bairro do Jardim Botânico, sentado calmamente à espera de sua republicana y salvífica (oh glória... 🙄) dose de imunizante Pfizer, enquanto uma diligente y abnegada enfermeira preenchia o comprovante y preparava a ampola, quando um lépido y faceiro felino ex nihilo aboletou-se em meu colo.

Após recuperar-me do óbvio sobressalto suscitado pela inusitada ocorrência, notei que o ronronante y madraço bichano esfregava sua cabeça em meu regaço, nitidamente à espera de afagos, no que foi aliás prontamente atendido. A enfermeira, de nome Marli, então manifestou-se, sorridente: “uma gracinha, né?? É o Davi. Todo mundo aqui adora ele! E ele pelo visto gostou do senhor, nunca tinha visto fazer isso antes, pular no colo de um estranho!”. Ainda um tanto quanto perplexo, pude tão somente murmurar algumas palavras de constrangido assentimento, enquanto recebia minha cívica y científica vacina.

Moral da história: ao que tudo indica, eu não apenas não tinha o direito de expressar qualquer sentimento de inconformismo com o ocorrido (sem que se possa atribuir ‘responsabilidade’ alguma ao simpático y meigo animalzinho, claro está), vale dizer, a insólita y porventura um tanto quanto antisséptica presença de um gato zanzando por entre caixas de medicamentos, como deveria, antes pelo contrário, me sentir agraciado, dir-se-ia até mesmo abençoado, c/ o facto de ter sido o distinto alvo dos protestos da mais elevada estima y consideração de messire felis catus Davi...

MAS ENFEEEM...


*


Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte / Deserto dos Tártaros 


sábado, maio 29, 2021

A propósito da Tradizione Ermetica


Alphonse van Worden - 1750 AD




Egrégios irmãos d'armas:

Certa feita defini como modelos paradigmáticos de excelência intelectual aqueles indivíduos que fossem capazes de articular exemplarmente as 6 virtudes que reputo como cardeais no exercício da atividade intelectual:


CRIATIVIDADE

RIGOR

OUSADIA

LUCIDEZ

CLAREZA

PROFUNDIDADE 


A excelência intelectual seria idealmente alcançada mediante a perfeita coordenação entre estas seis virtudes. Digo 'idealmente' por estar cada vez mais convencido da inexequibilidade prática desse paradigma, que no fundo existe tão somente como possibilidade teórica, 'estrela-guia' a servir de farol de orientação. Destarte, o que há são combinações parciais desses elementos. Inclusive, tenho cá para mim que um patamar realista de notável excelência intelectual já é obtido quando três dessas virtudes atingem máxima potência de realização. 

Pois bem: La Tradizione Ermetica: nei suoi simboli, nella sua dottrina e nella sua «Arte Regia» (1931), obra de lavra do filósofo italiano Giulio Cesare Andrea Evola, dito Julius Evola, é precisamente um desses casos. Nela o autor de "Gli uomini e le rovine" logra um amálgama particularmente feliz entre RIGOR, PROFUNDIDADE e CLAREZA, o que não deixa de ser sobremaneira surpreendente, tanto em virtude das asperezas notoriamente características do acervo de questões abordado no volume quanto no que tange às idiossincrasias de seu autor. Explico: se profundidade e rigor são qualidades que encontramos em praticamente toda a longa trajetória intelectual de Evola, quero crer que o mesmo juízo não pode ser feito quando se está a falar em clareza; muito pelo contrário, vale dizer: malgrado escreva maravilhosamente bem, malgrado o ínclito pensador peninsular é penosamente hermético (sem duplo sentido, se faz favor), o que também se deve, há que reconhecer, às dificuldades inerentes aos temas habitualmente tratados por ele. 

Mas enfim, não é o caso deste livro em particular, o que torna Evola digno de todos os encômios e louvores: converter as crípticas, labirínticas e polissêmicas sendas do simbolismo alquímico num itinerário relativamente compreensível e cristalino para leigos definitivamente NÃO é uma tarefa NADA fácil. Sobre o tema já li tomos de incontestes sumidades tais como Fulcanelli, Mircea Eliade, C. G. Jung, Titus Burckhardt, Serge Hutin etc. e posso afirmar com tranquilidade: nenhum deles ilumina o monólito negro da alquimia com a mesma amplitude que este precioso volume de Evola. Pela primeira vez estou a compreender de maneira visceral, íntima, uma verdade essencial que eu intuía apenas no plano teórico como mero conceito: a dimensão fundamentalmente ESPIRITUAL e METAFÍSICA da tradição hermética, a profunda correspondência existente entre os processos alquímicos e os processos espirituais, entre o 'exterior' e o 'interior', o 'visível' e o 'invisível', o 'material' e o 'imaterial', o 'imanente' e o 'transcendente', o 'natural' e o 'sobrenatural'. 

La Tradizione Ermetica é, em suma, uma leitura transformativa, no sentido mais recôndito e crucial desta palavra.



domingo, janeiro 10, 2021

Apontamentos sobre o pensamento conservador - II: a próposito de Charles Maurras

 Alphonse van Worden - 1750 AD





Há já alguns meses comentara eu convosco, excelsos irmãos d'armas, ter adquirido certas obras de pensadores importantes para a formação de um bom militante dissidente; outrossim prometi que tão logo fosse possível, escreveria alguma coisa a propósito delas.

E principiarei registrando algumas observações a propósito de Charles Maurras, o excelso patriarca da direita católica francesa na primeira metade do século XX, fundador da Action Française e principal teórico do Nacionalismo Integral.  

Escritor que sou, gostaria à partida de dizer uma ou duas palavras sobre as qualidades estilísticas de nosso autor. Que ventura, pois, é ter a oportunidade de enfim ler Maurras no original (no caso um volume que recolhe Enquête sur la monarchie - 1900 e mais alguns artigos avulsos)! Pois o iracundo polemista não é apenas o legatário espiritual da longa e avgvsta tradição do pensamento católico galicano francês, que deita raízes em Bossuet e Richelieu no século XVII e depois se espraia pela escola contrarrevolucionária e anti-iluminista de Joseph de Maistre e Louis de Bonald: é também o herdeiro literário por excelência dessa nobre estirpe. A exemplo de sua ilustre progênie, a prosa maurrasiana é solene, severa e hierática, conjugando o estrondo e a ira dos profetas do Antigo Testamento, o ostinato rigore conceitual da melhor tradição cartesiana e a limpidez cristalina e majestosa da dicção clássica, que tão somente poderia ser haurida d’uma profunda intimidade c/ as obras-primas da literatura greco-romana e da própria plêiade renascentista francesa.

Ideologicamente falando, por seu turno, propugna Maurras um retorno ao regime monárquico, num modelo que de certo modo representa um aggiornamento do modelo de regime monárquico vigente no Medievo; com efeito, trata-se d’uma monarquia tradicional, hereditária, antiparlamentar e descentralizada. A fórmula não é si mesmo inovadora, admitamos; o que assume particular interesse para o leitor de hoje, por conseguinte, é a maneira como o autor interpreta cada um desses parâmetros. Para efeitos desta breve nota, considerarei dois exemplos que me parecem particularmente emblemáticos.  

Consideremos, em primeiro lugar, o sentido que o termo ‘hereditário’ assumirá no léxico do pensador francês. Maurras deixa bem claro que não se trata exatamente d’uma herança ‘biológica’, ‘sanguínea’, mas sobretudo d’uma transmissão de índole ‘vocacional’, pela tradição oral e pela educação no meio familiar. Em suas próprias palavras:  

“Não se trata, em absoluto, de assegurar fisiologicamente ao serviço do Estado, de geração em geração, um conjunto de indivíduos mais distinto que o comum dos cidadãos; trata-se, c/ efeito, de utilizar as aptidões particulares, especiais e técnicas que se fixam em certo grau pelo sangue, mas sobretudo pela tradição oral e pela educação. Não se trata, em absoluto, do GRAU dessas aptidões, mas de sua QUALIDADE, ou, caso assim desejemos, de sua orientação consuetudinária. Nasce-se juiz ou comerciante, militar, agricultor ou marinheiro e, quando se nasceu tal ou qual, também se é, não só por natureza, mas também por posição, mais capaz de executar de maneira útil a função correspondente: um filho de diplomata ou de comerciante encontrará nas palestras de seu pai, no círculo de sua família e de seu mundo, na tradição e no costume que o haverão de envolver e sustentar, os meios eficazes de progredir mais rapidamente do que qualquer outro, seja no comércio ou na diplomacia.” (ENQUÊTE SUR LA MONARCHIE). 

Tão logo aplique à política tal raciocínio, no caso específico à forma monárquica, e de imediato o leitor chegará a uma inevitável conclusão: da mesma maneira que que o negociante, o militar, o comerciante, o marinheiro, o juiz ou o camponês, o príncipe soberano é uma variedade social de tipo humano, sujeita aos mesmíssimos parâmetros e regras das demais variedades. O exercício sistemático e contínuo da função através dos tempos adapta de modo quase que intuitivo, orgânico os filhos da família real à prática da governança. Destarte, o príncipe soberano, herdeiro d’outro príncipe soberano, estará não apenas por natureza e disposição, mas sobretudo por posição e adestramento específico, melhor preparado para bem exercer a função de príncipe soberano do que qualquer outro homem sobre a Terra.  

O segundo e último exemplo que me apeteceria sublinhar é caudatário do primeiro ou, melhor dizendo, é um desdobramento dele.  

Muito bem: de maneira a assessorar o monarca nas lides governamentais, seria mister estabelecer uma nova aristocracia, em bases igualmente hereditárias, tal como a família real. Certamente a questão dos laços de consanguinidade desempenhará um papel de relevo no processo, mas de modo algum o esgota, e nem sequer constitui seu aspecto mais importante. Crê Maurras que esta aristocracia deve ser ‘aberta’, sendo o acesso a ela potencialmente facultado a todos, por via da honra e do mérito. E ele audaciosamente vai além, prenunciando sob certos aspectos as ideias de Georges Sorel:  

“Por que não uma nobreza operária, como outrora houve uma nobreza togada? (Relembremo-nos de que o texto em tela data de 1900, e de que portanto a sociedade industrial estava na ordem do dia) (...) Quando a nova classe dos togados adquiriu enorme importância, à nobreza da espada acrescentou-se a nobreza togada, e o rei cumulou-lhe de benefícios até a saciedade. Pois bem! Hoje, devido aos progressos do maquinismo, nasceu uma nova classe poderosa. (...) O Estado atual carece de força como de luz. Realizai, pois, o Estado consciente e poderoso, isto é, estabelecei incontinenti a monarquia hereditária: tal Estado prevalecerá e ousará; logo saberá onde estender sua proteção, e ninguém em sã consciência confundirá suas complacências no tocante a uma justa e nova aristocracia do trabalho com as habituais baixezas de ordem eleitoral, disseminadas sem discernimento entre os líderes políticos do mundo operário pelos abantesmas de ministros que presidem o regime republicano." (ibid). 

Conforme assinalei adrede, no excerto acima já estamos no universo soreliano: é uma hipotética transição entre o nacionalismo integral, então uma realidade já consolidada e atuante, e uma nova ordem corporativa, sob o império duma nova aristocracia. Mas isso já é uma conversa para outra ocasião...

segunda-feira, setembro 07, 2020

OPVS




 Aplaudi, ó irmãos d'armas, mais este excelso fruto da parceria literária entre dois egrégios discípulos do cap. Van Worden: os srs. Alfredo d'Annunzio (ARRS) e Gabriel C. Rodriguez.


OPVS

Numa das mais antigas galerias comerciais da cidade de Ooth-Nargai, uma imponente estrutura em pórfiro, pavimentada por lajes de mármore negro e azul, e encimada por um teto rendilhado em hipnóticas abstrações geométricas, havia, segundo me disseram, uma fabulosa livraria, especializada em obras raras, e que possuía em seu acervo livros jamais editados, e até mesmo, especulava-se, manuscritos de obras imaginárias...

Morando nos arredores da cidade, cujo centro parecia estar a cada ano mais distante, era-me custoso ir até a galeria, uma vez que para nós, seres periféricos, tornava-se difícil a orientação nos meandros labirínticos de uma arquitetura cada vez mais intrincada. A necessidade, contudo, haveria de resolver a questão: um antigo pagamento, já há muito prometido, finalmente estava à minha disposição. A sensação de poder gerada pelo dinheiro (uma quantia bastante razoável, asseguro-lhes) encorajou-me a procurar a famosa loja.

Ao atingir os majestosos portais de ônix que guarneciam sua entrada, percebi o profundo silêncio que emanava da galeria, em flagrante contraste com o ruído que se poderia esperar de um centro comercial. Não demorei a encontrar a livraria, cujo nome fazia jus à sua reputação: 


Arcana Coelestia


Entrei. Os fregueses, imersos em seus lúcidos sonhos, flutuavam ao redor das imponentes estantes, onde o périplo dos séculos se dissolve em reflexos crepusculares.

Solitário, e bem no centro da livraria, despertou-me atenção um alentado tomo de capa negra, pousado sobre um magnífico pedestal em estilo bizantino.

Aproximei-me. O volume, encadernado em marroquim, intitulava-se OPVS. O frontispício, igualmente espartano, informava que a obra em questão era um manuscrito perdido, encontrado pelo alquimista francês Fulcanelli (1839 - 1923) no ano de 1880 numa biblioteca em Praga, e editado, em exemplar único, logo após a morte de seu descobridor. Quanto à autoria, as referências eram outrossim crípticas: o próprio Fulcanelli cria ser obra inexoravelmente entretecida per saecula saeculorum pelos fatais sortilégios do DESTINO; consoante o igualmente douto parecer de messire Eugéne Canseliet, todavia, era mister atribuir OPVS aos fortuitos jogos de ars combinatoria do ACASO...

 

Na página seguinte, li as seguintes palavras:

 

Houve o conhecimento; doravante haverá o OPVS.

Eis a verdade da Fé: chegamos ao ponto derradeiro, à última fronteira; à morte da palavra; ao fim da linguagem.

Todo o universo, os insondáveis desígnios do universo, o verbo de deus, a dança de Shiva, os aeons de Brahman, concentram-se na cosmogonia infinita de pontos insepultos...

Todo o Universo, temerário leitor... Pois também tu cá estás: teus sentimentos, tuas mais recônditas memórias, tuas mais íntimas sensações, o que jamais pensaste, mas poderias ter pensado, e até mesmo o que ainda pensarás e sentirás.

Por teres ousado ler o que jamais deveria ser lido, aqui permanecerás, defronte ao OPVS, pelos séculos dos séculos, imóvel e silente...



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Ten. Giovanni Drogo 

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

quarta-feira, setembro 02, 2020

Brevíssima nota a propósito de D. Luis de Góngora y Argote


Alphonse van Worden - 1750 AD


Se por acaso, venerabilíssimos irmãos d’armas, nunca lestes D. Luis de Góngora y Argote, sinto muito em dizer, mas não tendes uma real dimensão do que é o rebuscamento estilístico e formal em matéria de literatura.

Com efeito, o avatar supremo do culteranismo leva às últimas consequências, ao mais radical paroxismo os postulados estilísticos desta excêntrica escola da barroco literário ibérico: os labirínticos jogos de palavras; a profusão de alusões eruditas, mormente de cariz mitológico; a catadupa de figuras de linguagem, tudo na poesia gongorina explode em miríades policromáticas de fogos de artifício verbais, num vertiginoso bailado onde a perigosa fronteira entre o sublime e o ridículo, é mister admitir, amiúde é violada. Mas pouco importa: quando tudo se 'encaixa', e a frivolidade do tema não atrapalha a apreciação do virtuosismo formal, Góngora atinge patamares de excelência que pouquíssimos outros autores lograram alcançar. O insigne Dámaso Alonso, por exemplo, irá denominá-lo o "místico das palavras", o que significa dizer que o notável mestre do Siglo de Oro lograva conferir "um sentido mais puro às palavras da tribo" (Mallarmé), haurindo de sua mera literalidade uma plêiade inaudita de signos encantatórios, de sua prosaica denotação novas galáxias semânticas.

Vejamos ao sabor do acaso, pois, as cincos estrofes iniciais de El Panegírico al Duque de Lerma (1617), obra da maturidade do autor (e que sem dúvida influenciaria ulteriormente Bossuet, o indisputado primus inter pares do gênero), se calhar não tão célebre quantos as Soledades (1613), mas a meu ver ainda mais complexa e fascinante.


*

I

 Si arrebatado merecí algún día
tu dictamen, Euterpe, soberano,
bese el corvo marfil hoy de esta mía
sonante lira tu divina mano;
émula de las trompas su armonía,
el Séptimo Tríón de nieves cano,
la adusta Libia sorda aun más lo sienta
que los áspides fríos que alimenta.


II

 Oya el canoro hueso de la fiera,
pompa de sus orillas, la corriente
del Ganges, cuya bárbara ribera
baño es supersticioso del oriente;
de venenosa pluma, si ligera,
armado lo oya el Marañen valiente;
y débale a mis números el mundo
del fénix de los Sandos un segundo.


III 

  Segundo en tiempo sí, mas primer Sando
en togado valor, dígalo armada
de paz su diestra, díganlo trepando
las ramas de Minerva por su espada,
bien que desnudos sus aceros cuando
cerviz rebelde o religión postrada
obligan a su rey que tuerza grave
al templo del bifronte dios la llave.


IV 

  Este, pues, digno sucesor del claro
Gómez Diego, del Marte cuya gloria
a las alas hurtó del tiempo avaro
cuantas le prestó plumas a la historia,
éste, a quien guardará mármoles Paro
que engendre el arte, anime la memoria,
su primer cuna al Duero se la debe
si cristal no fue tanto cuna breve.


V 

  Del Sandoval, que a Denia aun más corona
de majestad que al mar de muros ella,
Isabel nos lo dio, que al sol perdona
los rayos que él a la menor estrella,
hija del que la más luciente zona
pisa glorioso, porque humilde huella
(general de una santa compañía)
las insignias ducales de Gandía.