segunda-feira, julho 11, 2022

Farsa surrealista y Anarquia: a propósito do Walerian Borowczyk

Alphonse van Worden - 1750 AD 






Ah os anos 80 e seus indefectíveis cult movies, circulando entre cenáculos esotéricos de cinéfilos exaltados em abomináveis fitas VHS piratas, a partir de videolocadoras igualmente suspeitas... 

Pois bem: presença cativa nesta plêiade era o clássico do cinema libertino-libertário CONTES IMMORAUX (1973), do polaco exilado em França Walerian Borowczyk.  É talvez o filme que melhor ilustra a definição cunhada para o diretor por um crítico da Cahiers du Cinema: “trata-se de um gênio que por acaso também era pornógrafo”.  C/ suas composições visuais sempre inventivas e amiúde requintadas, até mesmo suntuosas, a obra mais famosa do cineasta polonês é de fato arte fílmica da melhor qualidade a serviço da velha e boa causa da sacanagem, e impressionou imenso este vosso então ainda jovem irmão d'armas.  

O dado concreto é que desde então fiquei c/ vontade de conhecer melhor a trajetória deste peculiar realizador, mas seja lá porque cargas d'água tão somente este ano vim a fazer isto, ao inadvertidamente topar com um generoso acervo de obras de Borowczyk à disposição no salvífico y civilizatório Mubi. 

C/ efeito, a messe é farta y variada, incluindo desde seus fascinantes experimentos em stop motion (curtas que prenunciam a estética grand-guignolesca que o tcheco Jan Švankmajer imprimiria depois ao formato) aos sempre controversos longas, obras como LA BÊTE (1975), BLANCHE (1972) e GOTO L'îLE D'AMOUR (1969). 

E d'entre estes últimos o destaque vai inelutavelmente para o desconcertante GOTO, uma alegoria política em compasso de farsa surrealista. Conceitualmente falando, é como se o Roussell de Locus Solus se inspirasse no Das Schloss de Kafka para compor uma peça satírica de cunho anarquista, acrescentando aqui e ali à receita algumas boas pitadas de Buzzatti e Potocki. Em termos de linguagem cinematográfica, por seu turno, Borowczyk se calhar até surpreendentemente retroage algumas décadas e evoca o chamado ‘realismo poético’ do cinema francês pré-Nouvelle Vague / II Guerra Mundial, reivindicando o insigne legado de figuras como Marcel Carné, Jean Renoir, Georges Franju etc. Assim sendo, oferece ao espectador um estimulante contraponto entre o caráter insólito da narrativa e a sóbria, rigorosa elegância formal da filosofia estética; sábia e salutar contraposição, desafortunadamente ausente, vale dizer, em obras ulteriores do cineasta. De resto, destaquemos as excelentes atuações de Guy Saint-Jean no papel de Grozo, o ambicioso marginal que metódica e implacavelmente subverte a ordem constituída na ilha; o célebre Pierre Brasseur encarnando Goto III, o malfadado soberano; e sobretudo Fernand Bercher, esplêndido como um excêntrico e ‘nefelibático’ mestre-escola. 



O peculiar cinema de Jacques Rivette - II


Como se fora uma adaptação teatral d'um romance de piratas de Rafael Sabatini encenada pelo Living Theatre sob a batuta de Antonin Artaud, c/ trilha sonora de Giacinto Scelsi executada pela Third Ear Band; ou então uma versão particularmente experimental de clássicos hollywoodianos do cinema de aventura como Sea Hawk ou Captain Blood (por sinal criações saídas originalmente da pena de Sabatini), em compasso de happening surrealista. 

Com efeito, não é por acaso que Jacques Rivette concebeu este NOROÎT - UNE VENGEANCE (1976) como uma espécie de desdobramento / sequência de seu filme anterior (DUELLE, do mesmo ano), ambos formando a primeira metade d'uma tetralogia que infelizmente jamais seria completada: Scènes de la Vie Parallèle. De fato, trata-se em tudo y por tudo d'um universo PARALELO, onde tanto as convenções tradicionais da mise-en-scène cinematográfica y teatral quanto os cânones habituais da estética fílmica são completamente abolidos / subvertidos. O consenso crítico, vale dizer, costuma apontar Jean-Luc Godard como o mais vanguardista entre os cineastas da Nouvelle Vague, mas hoje estou cada vez mais convencido de que este galardão deveria ser atribuído a Rivette.  

O enredo é uma livre adaptação d'uma clássica tragedy of blood do teatro jacobita inglês (The Revenger's Tragedy / 1606), peça de autoria até hoje controversa (alguns especialistas atribuem a Thomas Middleton, outros a Cyril Tourneur), mas você só reconhecerá a fonte caso seja efetivamente um scholar na matéria, tenha certeza. Diria eu, contudo, que o filme de certa maneira evoca / reverbera outros idiomas dramáticos, sobretudo as escolas japonesas do Noh e do Kabuki, referência que fica particularmente evidenciada no magnífico número final, um hipnótico bailado / baile à fantasia, eivado de ressonâncias esotéricas e alusões mitopoéticas à tradição helênica. 

Isto dito, não me furto a apontar outra possível fonte de inspiração: as Four Plays For Dancers (1921) de W.B.Yeats, obra-prima do teatro de vanguarda criminosamente esquecida na atualidade. Igualmente tributária das tradições teatrais nipônicas, esse quatuor de peças do grande poeta irlandês se estrutura como uma série de  intensos tableaux vivants, onde a trama é contada muito mais através dos números musicais e de balé do que propriamente por meio dos diálogos, assim como ocorre em NOROÎT. Aliás, mais do que precisamente uma trama, o que temos em ambos os casos afigura-se muito mais como conjuração d'uma atmosfera, d'uma galáxia de evocações y cavilações oníricas. 

Agora, nem tudo são flores: há cenas y sequências de tal modo aleatórias y gratuitas que resulta praticamente impossível o espetador não se ver assaltado por uma recorrente impressão de... mistificação. Se bem que... pensando melhor, no fundo isso é até bom... explico: este vosso confrade chegou a um estágio como espectador y ouvinte (literatura é outro papo, obedece a outros parâmetros) em que a circunstância de 'gostar' ou não de um filme, uma peça de teatro, um disco já não é o mais importante: importa antes o assombro, a perplexidade, o espanto, o pasmo, até mesmo a consternação - caleidoscópio de sensações que NOROÎT indubitavelmente suscita a mancheias.

Por fim, como bonus track, registro que a obra é protagonizada por lady Geraldine Chaplin, uma de minhas três atrizes favoritas em todos os tempos ao lado de Renée-Jeanne Maria Falconetti e Emmanuelle Riva, o que por si já é suficiente para tornar qualquer filme pelo menos digno de atenção.


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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte / Deserto dos Tártaros 

O peculiar cinema de Jacques Rivette - I


 

Leni (Rainha da Noite): oh tu, Filha do Sol, que de tão longe atacas! Eu desafio-te!

Viva (Rainha do Sol): oh tu, Filha da Lua, destruidora de cidades! Eu desafio-te.

[em turnos]

Viva: na primeira lua cheia da primavera...

Leni: no crepúsculo...

Viva: entre a noite e o dia, no Jardim das Sombras...

Leni: sob a Árvore dos Ventos do Noroeste, aguardarei por ti.

Viva: também eu... aguardarei por ti.

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Jacques Rivette sempre foi o mais idiossincrático cineasta da ala mais 'experimental', digamos assim, da nouvelle vague francesa (o que não é dizer pouco, já que estamos a falar de figuras tais como Godard, Resnais e Chris Marker, por exemplo).

E hoje gostaria de dizer algumas palavras a propósito d'uma de suas criações mais desconcertantes: DUELLE - UNE QUARANTAINE (1976).

O cineasta concebia inicialmente o filme como a primeiro capítulo de um ambicioso ciclo em quatro partes: Scenes de la Vie Parallelle. O título não poderia ser mais perfeito: DUELLE de fato mergulha o espectador numa dimensão paralela, um mundo onírico y fantasmático, um labirinto de símbolos y enigmas, que a um só tempo hipnotiza y inquieta.  

A trama, eivada de significados místicos, ressonâncias esotéricas  e crípticas alusões alquímicas y astrológicas, poderia ser resumida da seguinte maneira: numa Paris de todo despida de clichês turistoides y magnificamente bem fotografada, temos o sempiterno y mortal conflito entre duas entidades cósmicas que a cada ano encarnam em avatares humanos durante 40 dias no inverno: a Rainha da Noite e a Rainha do Sol. Ambas desejam encerrar essa espécie de samsara e permanecer para sempre na Terra; para tanto, precisam tomar posse d'um arcano artefato de poder há séculos perdido: uma joia chamada Fada Madrinha. E nesse duelo, como o próprio título do filme aponta, manipulam céus y terras, mundos y fundos, mulheres y homens, empregando os astuciosos expedientes de sedução y sugestão.  

Uma sinopse como essa à primeira vista parece pressupor toda sorte de efeitos visuais, trucagens etc. tal, não é mesmo? Pois nada poderia estar mais longe da verdade: DUELLE é um filme espartanamente despojado de quaisquer artifícios nesse sentido. C/ efeito, a maneira como Rivette constrói seu universo paralelo inteiramente através das sutilezas do mise-en-scène, da hermética geometria de gestos y olhares, da polifonia polissêmica de seus diálogos.

De resto, o desempenho dos atores é uniformemente magistral, mas eu não poderia deixar de sublinhar a sinistra y sibilina elegância de Juliet Berto, eterna fêmea-serpente das artes fílmicas gaulesas, como Reine de La Nuit.


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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte / Deserto dos Tártaros 

quinta-feira, julho 07, 2022

A propósito da potência evocativa da imagem fotográfica

Alphonse van Worden - 1750 AD 




Meus mui estimados irmãos d'armas, savdações! 


Para vossas senhorias entenderem a que ponto pode chegar a influência de uma simples fotografia, o quão profundamente ela pode plasmar aspectos fundamentais da consciência d'um indivíduo, se calhar até mesmo seu horizonte existencial... 

Pois bem: resulta sumamente difícil transmitir aos senhores  do que representou para mim, então um menino de 8 anos, a matéria de capa da Revista Manchete em 1979 sobre a Revolução Iraniana, mormente as fotos de página inteira exibindo o Ayatollah Khomeini em 1979, tendo apenas 8 anos de idade. Com seu a um só tempo hierático, imponente y ameaçador hábito negro, a copiosa y venerável barba branca, ele parecia mais um personagem saído das páginas do SENHOR DOS ANÉIS do que qualquer outra coisa, como se fora uma espécie de releitura de Saruman. E como se não bastasse o impacto visual, a estrondosa, estrepitosa, avassaladora manchete, praticamente uma declaração de guerra CÓSMICA ao UNIVERSO, de todo irresistível para um garoto de imaginação feérica como a minha:


AIATOLÁ: UM FANÁTICO CONTRA O MUNDO


Trata-se praticamente d'uma variante do célebre lema de S. Atanásio de Alexandria, um dos mais insignes teólogos y doutores da Igreja: SE O MUNDO FOR CONTRA A VERDADE, ENTÃO ATANÁSIO SERÁ CONTRA O MUNDO! Ora pois: como alguém que tem a audácia, a bravura, a intrepidez, a desassombrada convicção, o "admirável coração tranquilo" de se levantar contra o próprio MUNDO, poderia ser 'ruim' sob qualquer ângulo ou hipótese?! Inconcebível!

Enfim, foi algo que nunca mais me esqueci, uma imagem que ficou impressa em minha mente, em meu subconsciente, e é c/ absoluta certeza a fonte originária de todo o meu interesse pelo país, por sua cultura e pelo processo revolucionário islâmico.