terça-feira, setembro 14, 2021

Crônicas do Novo Normal - I: a propósito do bichano y do imunizante




Esta nossa indigitada Terra de Santa Cruz é mesmo um país deveras... singular, em y por tudo sui generis.

Senão vejamos: estava hoje este vosso humílimo confrade, cidadão pacato y ordeiro que é, num posto de vacinação situado no outrora idílico y bucólico bairro do Jardim Botânico, sentado calmamente à espera de sua republicana y salvífica (oh glória... 🙄) dose de imunizante Pfizer, enquanto uma diligente y abnegada enfermeira preenchia o comprovante y preparava a ampola, quando um lépido y faceiro felino ex nihilo aboletou-se em meu colo.

Após recuperar-me do óbvio sobressalto suscitado pela inusitada ocorrência, notei que o ronronante y madraço bichano esfregava sua cabeça em meu regaço, nitidamente à espera de afagos, no que foi aliás prontamente atendido. A enfermeira, de nome Marli, então manifestou-se, sorridente: “uma gracinha, né?? É o Davi. Todo mundo aqui adora ele! E ele pelo visto gostou do senhor, nunca tinha visto fazer isso antes, pular no colo de um estranho!”. Ainda um tanto quanto perplexo, pude tão somente murmurar algumas palavras de constrangido assentimento, enquanto recebia minha cívica y científica vacina.

Moral da história: ao que tudo indica, eu não apenas não tinha o direito de expressar qualquer sentimento de inconformismo com o ocorrido (sem que se possa atribuir ‘responsabilidade’ alguma ao simpático y meigo animalzinho, claro está), vale dizer, a insólita y porventura um tanto quanto antisséptica presença de um gato zanzando por entre caixas de medicamentos, como deveria, antes pelo contrário, me sentir agraciado, dir-se-ia até mesmo abençoado, c/ o facto de ter sido o distinto alvo dos protestos da mais elevada estima y consideração de messire felis catus Davi...

MAS ENFEEEM...


*


Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte / Deserto dos Tártaros 


sábado, maio 29, 2021

A propósito da Tradizione Ermetica


Alphonse van Worden - 1750 AD




Egrégios irmãos d'armas:

Certa feita defini como modelos paradigmáticos de excelência intelectual aqueles indivíduos que fossem capazes de articular exemplarmente as 6 virtudes que reputo como cardeais no exercício da atividade intelectual:


CRIATIVIDADE

RIGOR

OUSADIA

LUCIDEZ

CLAREZA

PROFUNDIDADE 


A excelência intelectual seria idealmente alcançada mediante a perfeita coordenação entre estas seis virtudes. Digo 'idealmente' por estar cada vez mais convencido da inexequibilidade prática desse paradigma, que no fundo existe tão somente como possibilidade teórica, 'estrela-guia' a servir de farol de orientação. Destarte, o que há são combinações parciais desses elementos. Inclusive, tenho cá para mim que um patamar realista de notável excelência intelectual já é obtido quando três dessas virtudes atingem máxima potência de realização. 

Pois bem: La Tradizione Ermetica: nei suoi simboli, nella sua dottrina e nella sua «Arte Regia» (1931), obra de lavra do filósofo italiano Giulio Cesare Andrea Evola, dito Julius Evola, é precisamente um desses casos. Nela o autor de "Gli uomini e le rovine" logra um amálgama particularmente feliz entre RIGOR, PROFUNDIDADE e CLAREZA, o que não deixa de ser sobremaneira surpreendente, tanto em virtude das asperezas notoriamente características do acervo de questões abordado no volume quanto no que tange às idiossincrasias de seu autor. Explico: se profundidade e rigor são qualidades que encontramos em praticamente toda a longa trajetória intelectual de Evola, quero crer que o mesmo juízo não pode ser feito quando se está a falar em clareza; muito pelo contrário, vale dizer: malgrado escreva maravilhosamente bem, malgrado o ínclito pensador peninsular é penosamente hermético (sem duplo sentido, se faz favor), o que também se deve, há que reconhecer, às dificuldades inerentes aos temas habitualmente tratados por ele. 

Mas enfim, não é o caso deste livro em particular, o que torna Evola digno de todos os encômios e louvores: converter as crípticas, labirínticas e polissêmicas sendas do simbolismo alquímico num itinerário relativamente compreensível e cristalino para leigos definitivamente NÃO é uma tarefa NADA fácil. Sobre o tema já li tomos de incontestes sumidades tais como Fulcanelli, Mircea Eliade, C. G. Jung, Titus Burckhardt, Serge Hutin etc. e posso afirmar com tranquilidade: nenhum deles ilumina o monólito negro da alquimia com a mesma amplitude que este precioso volume de Evola. Pela primeira vez estou a compreender de maneira visceral, íntima, uma verdade essencial que eu intuía apenas no plano teórico como mero conceito: a dimensão fundamentalmente ESPIRITUAL e METAFÍSICA da tradição hermética, a profunda correspondência existente entre os processos alquímicos e os processos espirituais, entre o 'exterior' e o 'interior', o 'visível' e o 'invisível', o 'material' e o 'imaterial', o 'imanente' e o 'transcendente', o 'natural' e o 'sobrenatural'. 

La Tradizione Ermetica é, em suma, uma leitura transformativa, no sentido mais recôndito e crucial desta palavra.



domingo, janeiro 10, 2021

Apontamentos sobre o pensamento conservador - II: a próposito de Charles Maurras

 Alphonse van Worden - 1750 AD





Há já alguns meses comentara eu convosco, excelsos irmãos d'armas, ter adquirido certas obras de pensadores importantes para a formação de um bom militante dissidente; outrossim prometi que tão logo fosse possível, escreveria alguma coisa a propósito delas.

E principiarei registrando algumas observações a propósito de Charles Maurras, o excelso patriarca da direita católica francesa na primeira metade do século XX, fundador da Action Française e principal teórico do Nacionalismo Integral.  

Escritor que sou, gostaria à partida de dizer uma ou duas palavras sobre as qualidades estilísticas de nosso autor. Que ventura, pois, é ter a oportunidade de enfim ler Maurras no original (no caso um volume que recolhe Enquête sur la monarchie - 1900 e mais alguns artigos avulsos)! Pois o iracundo polemista não é apenas o legatário espiritual da longa e avgvsta tradição do pensamento católico galicano francês, que deita raízes em Bossuet e Richelieu no século XVII e depois se espraia pela escola contrarrevolucionária e anti-iluminista de Joseph de Maistre e Louis de Bonald: é também o herdeiro literário por excelência dessa nobre estirpe. A exemplo de sua ilustre progênie, a prosa maurrasiana é solene, severa e hierática, conjugando o estrondo e a ira dos profetas do Antigo Testamento, o ostinato rigore conceitual da melhor tradição cartesiana e a limpidez cristalina e majestosa da dicção clássica, que tão somente poderia ser haurida d’uma profunda intimidade c/ as obras-primas da literatura greco-romana e da própria plêiade renascentista francesa.

Ideologicamente falando, por seu turno, propugna Maurras um retorno ao regime monárquico, num modelo que de certo modo representa um aggiornamento do modelo de regime monárquico vigente no Medievo; com efeito, trata-se d’uma monarquia tradicional, hereditária, antiparlamentar e descentralizada. A fórmula não é si mesmo inovadora, admitamos; o que assume particular interesse para o leitor de hoje, por conseguinte, é a maneira como o autor interpreta cada um desses parâmetros. Para efeitos desta breve nota, considerarei dois exemplos que me parecem particularmente emblemáticos.  

Consideremos, em primeiro lugar, o sentido que o termo ‘hereditário’ assumirá no léxico do pensador francês. Maurras deixa bem claro que não se trata exatamente d’uma herança ‘biológica’, ‘sanguínea’, mas sobretudo d’uma transmissão de índole ‘vocacional’, pela tradição oral e pela educação no meio familiar. Em suas próprias palavras:  

“Não se trata, em absoluto, de assegurar fisiologicamente ao serviço do Estado, de geração em geração, um conjunto de indivíduos mais distinto que o comum dos cidadãos; trata-se, c/ efeito, de utilizar as aptidões particulares, especiais e técnicas que se fixam em certo grau pelo sangue, mas sobretudo pela tradição oral e pela educação. Não se trata, em absoluto, do GRAU dessas aptidões, mas de sua QUALIDADE, ou, caso assim desejemos, de sua orientação consuetudinária. Nasce-se juiz ou comerciante, militar, agricultor ou marinheiro e, quando se nasceu tal ou qual, também se é, não só por natureza, mas também por posição, mais capaz de executar de maneira útil a função correspondente: um filho de diplomata ou de comerciante encontrará nas palestras de seu pai, no círculo de sua família e de seu mundo, na tradição e no costume que o haverão de envolver e sustentar, os meios eficazes de progredir mais rapidamente do que qualquer outro, seja no comércio ou na diplomacia.” (ENQUÊTE SUR LA MONARCHIE). 

Tão logo aplique à política tal raciocínio, no caso específico à forma monárquica, e de imediato o leitor chegará a uma inevitável conclusão: da mesma maneira que que o negociante, o militar, o comerciante, o marinheiro, o juiz ou o camponês, o príncipe soberano é uma variedade social de tipo humano, sujeita aos mesmíssimos parâmetros e regras das demais variedades. O exercício sistemático e contínuo da função através dos tempos adapta de modo quase que intuitivo, orgânico os filhos da família real à prática da governança. Destarte, o príncipe soberano, herdeiro d’outro príncipe soberano, estará não apenas por natureza e disposição, mas sobretudo por posição e adestramento específico, melhor preparado para bem exercer a função de príncipe soberano do que qualquer outro homem sobre a Terra.  

O segundo e último exemplo que me apeteceria sublinhar é caudatário do primeiro ou, melhor dizendo, é um desdobramento dele.  

Muito bem: de maneira a assessorar o monarca nas lides governamentais, seria mister estabelecer uma nova aristocracia, em bases igualmente hereditárias, tal como a família real. Certamente a questão dos laços de consanguinidade desempenhará um papel de relevo no processo, mas de modo algum o esgota, e nem sequer constitui seu aspecto mais importante. Crê Maurras que esta aristocracia deve ser ‘aberta’, sendo o acesso a ela potencialmente facultado a todos, por via da honra e do mérito. E ele audaciosamente vai além, prenunciando sob certos aspectos as ideias de Georges Sorel:  

“Por que não uma nobreza operária, como outrora houve uma nobreza togada? (Relembremo-nos de que o texto em tela data de 1900, e de que portanto a sociedade industrial estava na ordem do dia) (...) Quando a nova classe dos togados adquiriu enorme importância, à nobreza da espada acrescentou-se a nobreza togada, e o rei cumulou-lhe de benefícios até a saciedade. Pois bem! Hoje, devido aos progressos do maquinismo, nasceu uma nova classe poderosa. (...) O Estado atual carece de força como de luz. Realizai, pois, o Estado consciente e poderoso, isto é, estabelecei incontinenti a monarquia hereditária: tal Estado prevalecerá e ousará; logo saberá onde estender sua proteção, e ninguém em sã consciência confundirá suas complacências no tocante a uma justa e nova aristocracia do trabalho com as habituais baixezas de ordem eleitoral, disseminadas sem discernimento entre os líderes políticos do mundo operário pelos abantesmas de ministros que presidem o regime republicano." (ibid). 

Conforme assinalei adrede, no excerto acima já estamos no universo soreliano: é uma hipotética transição entre o nacionalismo integral, então uma realidade já consolidada e atuante, e uma nova ordem corporativa, sob o império duma nova aristocracia. Mas isso já é uma conversa para outra ocasião...

segunda-feira, setembro 07, 2020

OPVS




 Aplaudi, ó irmãos d'armas, mais este excelso fruto da parceria literária entre dois egrégios discípulos do cap. Van Worden: os srs. Alfredo d'Annunzio (ARRS) e Gabriel C. Rodriguez.


OPVS

Numa das mais antigas galerias comerciais da cidade de Ooth-Nargai, uma imponente estrutura em pórfiro, pavimentada por lajes de mármore negro e azul, e encimada por um teto rendilhado em hipnóticas abstrações geométricas, havia, segundo me disseram, uma fabulosa livraria, especializada em obras raras, e que possuía em seu acervo livros jamais editados, e até mesmo, especulava-se, manuscritos de obras imaginárias...

Morando nos arredores da cidade, cujo centro parecia estar a cada ano mais distante, era-me custoso ir até a galeria, uma vez que para nós, seres periféricos, tornava-se difícil a orientação nos meandros labirínticos de uma arquitetura cada vez mais intrincada. A necessidade, contudo, haveria de resolver a questão: um antigo pagamento, já há muito prometido, finalmente estava à minha disposição. A sensação de poder gerada pelo dinheiro (uma quantia bastante razoável, asseguro-lhes) encorajou-me a procurar a famosa loja.

Ao atingir os majestosos portais de ônix que guarneciam sua entrada, percebi o profundo silêncio que emanava da galeria, em flagrante contraste com o ruído que se poderia esperar de um centro comercial. Não demorei a encontrar a livraria, cujo nome fazia jus à sua reputação: 


Arcana Coelestia


Entrei. Os fregueses, imersos em seus lúcidos sonhos, flutuavam ao redor das imponentes estantes, onde o périplo dos séculos se dissolve em reflexos crepusculares.

Solitário, e bem no centro da livraria, despertou-me atenção um alentado tomo de capa negra, pousado sobre um magnífico pedestal em estilo bizantino.

Aproximei-me. O volume, encadernado em marroquim, intitulava-se OPVS. O frontispício, igualmente espartano, informava que a obra em questão era um manuscrito perdido, encontrado pelo alquimista francês Fulcanelli (1839 - 1923) no ano de 1880 numa biblioteca em Praga, e editado, em exemplar único, logo após a morte de seu descobridor. Quanto à autoria, as referências eram outrossim crípticas: o próprio Fulcanelli cria ser obra inexoravelmente entretecida per saecula saeculorum pelos fatais sortilégios do DESTINO; consoante o igualmente douto parecer de messire Eugéne Canseliet, todavia, era mister atribuir OPVS aos fortuitos jogos de ars combinatoria do ACASO...

 

Na página seguinte, li as seguintes palavras:

 

Houve o conhecimento; doravante haverá o OPVS.

Eis a verdade da Fé: chegamos ao ponto derradeiro, à última fronteira; à morte da palavra; ao fim da linguagem.

Todo o universo, os insondáveis desígnios do universo, o verbo de deus, a dança de Shiva, os aeons de Brahman, concentram-se na cosmogonia infinita de pontos insepultos...

Todo o Universo, temerário leitor... Pois também tu cá estás: teus sentimentos, tuas mais recônditas memórias, tuas mais íntimas sensações, o que jamais pensaste, mas poderias ter pensado, e até mesmo o que ainda pensarás e sentirás.

Por teres ousado ler o que jamais deveria ser lido, aqui permanecerás, defronte ao OPVS, pelos séculos dos séculos, imóvel e silente...



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Ten. Giovanni Drogo 

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

quarta-feira, setembro 02, 2020

Brevíssima nota a propósito de D. Luis de Góngora y Argote


Alphonse van Worden - 1750 AD


Se por acaso, venerabilíssimos irmãos d’armas, nunca lestes D. Luis de Góngora y Argote, sinto muito em dizer, mas não tendes uma real dimensão do que é o rebuscamento estilístico e formal em matéria de literatura.

Com efeito, o avatar supremo do culteranismo leva às últimas consequências, ao mais radical paroxismo os postulados estilísticos desta excêntrica escola da barroco literário ibérico: os labirínticos jogos de palavras; a profusão de alusões eruditas, mormente de cariz mitológico; a catadupa de figuras de linguagem, tudo na poesia gongorina explode em miríades policromáticas de fogos de artifício verbais, num vertiginoso bailado onde a perigosa fronteira entre o sublime e o ridículo, é mister admitir, amiúde é violada. Mas pouco importa: quando tudo se 'encaixa', e a frivolidade do tema não atrapalha a apreciação do virtuosismo formal, Góngora atinge patamares de excelência que pouquíssimos outros autores lograram alcançar. O insigne Dámaso Alonso, por exemplo, irá denominá-lo o "místico das palavras", o que significa dizer que o notável mestre do Siglo de Oro lograva conferir "um sentido mais puro às palavras da tribo" (Mallarmé), haurindo de sua mera literalidade uma plêiade inaudita de signos encantatórios, de sua prosaica denotação novas galáxias semânticas.

Vejamos ao sabor do acaso, pois, as cincos estrofes iniciais de El Panegírico al Duque de Lerma (1617), obra da maturidade do autor (e que sem dúvida influenciaria ulteriormente Bossuet, o indisputado primus inter pares do gênero), se calhar não tão célebre quantos as Soledades (1613), mas a meu ver ainda mais complexa e fascinante.


*

I

 Si arrebatado merecí algún día
tu dictamen, Euterpe, soberano,
bese el corvo marfil hoy de esta mía
sonante lira tu divina mano;
émula de las trompas su armonía,
el Séptimo Tríón de nieves cano,
la adusta Libia sorda aun más lo sienta
que los áspides fríos que alimenta.


II

 Oya el canoro hueso de la fiera,
pompa de sus orillas, la corriente
del Ganges, cuya bárbara ribera
baño es supersticioso del oriente;
de venenosa pluma, si ligera,
armado lo oya el Marañen valiente;
y débale a mis números el mundo
del fénix de los Sandos un segundo.


III 

  Segundo en tiempo sí, mas primer Sando
en togado valor, dígalo armada
de paz su diestra, díganlo trepando
las ramas de Minerva por su espada,
bien que desnudos sus aceros cuando
cerviz rebelde o religión postrada
obligan a su rey que tuerza grave
al templo del bifronte dios la llave.


IV 

  Este, pues, digno sucesor del claro
Gómez Diego, del Marte cuya gloria
a las alas hurtó del tiempo avaro
cuantas le prestó plumas a la historia,
éste, a quien guardará mármoles Paro
que engendre el arte, anime la memoria,
su primer cuna al Duero se la debe
si cristal no fue tanto cuna breve.


V 

  Del Sandoval, que a Denia aun más corona
de majestad que al mar de muros ella,
Isabel nos lo dio, que al sol perdona
los rayos que él a la menor estrella,
hija del que la más luciente zona
pisa glorioso, porque humilde huella
(general de una santa compañía)
las insignias ducales de Gandía.



sexta-feira, julho 24, 2020

A propósito de Sleepy Hollow (Tim Burton, 1999)




Resgatando cá esta bela crônica, originalmente publicada na revista online Contracampo. 

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SLEEPY HOLLOW (1999) - Tim Burton

De quando em quando o velho e carcomido cinemão americano ainda nos brinda com uma obra admirável. Desta vez a gratíssima surpresa chama-se Sleepy Hollow (1999), último filme de Tim Burton, em cartaz no Rio de Janeiro. Urdido pelo grande prestidigitador de artifícios visuais que Burton sempre foi, Sleepy Hollow resgata uma linhagem cinematográfica pouco freqüentada nas últimas décadas: o verdadeiro cinema fantástico, na melhor tradição de milagres feéricos como La Chute de la Maison Usher (1924), de Jean Epstein, La Belle et la Bête (1946), de Jean Cocteau, ou The Innocents (1961), de Jack Clayton; e já não era sem tempo, pois 15 longos anos nos separavam do último exemplar que tivemos deste nobre gênero da Sétima Arte, o inglês The Company of Wolves, de Neil Jordan. A exemplo de seus ilustres antecessores (notadamente Epstein e Clayton), Burton, que muitas vezes malbarata seus dotes de ilusionista em roteiros medíocres, desta vez pode contar com um material dramático de primeira linha, a célebre novela The Legend of Sleepy Hollow (1819), obra-prima do escritor norte-americano Washington Irving.


O filme é, sobretudo, uma orgia visual estupefaciente, um inebriante bailado de deslumbrantes tableaux vivants, que harmonicamente fluem da paleta de Tim Burton e de seu fotógrafo Emmanuel Lubezki, ambos convertidos em pintores de pesadelos vivos. Nas passagens tenebrosas e sombrias, sentimos o inequívoco eco do atroz universo gótico de Mathias Grunewald e Pieter Brueghel, das litanias flamejantes de Hieronymus Bosch, dos fogos-fátuos oscilantes de Henry Fuseli e Caspar David Friedrich, dos espectros ominosos de Gustave Moreau; nos interlúdios líricos e serenos, vemos entrar em movimento o êxtase solar das névoas de William Turner, o sonho idílico das telas de Sir Thomas Gainsborough. Deve ser enaltecida a mestria com que Burton conseguiu manejar esse acervo de epifanias pictóricas sem prejuízo para o ritmo frenético de sua narrativa. Sleepy Hollow é, de fato, um filme de ação incessante, de sobressaltos contínuos e faiscantes. Mas reparem: não se trata, de modo algum, do tipo de ação dramática que encontramos habitualmente no lixo radioativo emitido por Hollywood, onde o compasso desvairado das imagens exerce um efeito paralisante sobre o entendimento do público. Na fita de Tim Burton, o movimento espasmódico, ao contrário, é um veículo surreal que descortina perspectivas insólitas e fascinantes para o espectador, que encontra na tapeçaria onírica de Sleepy Hollow um véu diáfano e etéreo entre o que contempla e a "realidade" palpável. Os cenários do filme parecem atormentados por uma inefável discordância interior, tensão que conduz à misteriosa animação do inorgânico aspirada pelos românticos e expressionistas alemães. A energia cinética presente neste inorgânico, que murmura gritos silenciosos, movendo-se numa dimensão insólita entre o delírio e o assombro, no estado de animação suspensa em que se encontram os objetos, é o caminho para atingir a essência de um absoluto que independe do estabelecimento de quaisquer relações transitórias.


Outro ponto a ser ressaltado é a extrema felicidade de Burton na escolha de seu elenco. O casal de protagonistas (Johnny Depp e Christina Ricci) está excelente. Depp, emprestando seu charme gauche e habitual nonchalance ao detetitve Ichabod Crane, confere uma feição irônica a seu personagem, ao mesmo tempo em que consegue expressar o cárater perplexo e sensível do Crane original de Washington Irving. Cristina Ricci, sempre cativante em sua beleza frágil e singular, interpreta a donzela gótica Katrina Van Tassel. Evanescente e sensual, inocente e enigmática, Ricci faz de Katrina uma heroína romântica digna dos mais belos devaneios femininos de Edgar Allan Poe e Villiers de L’Isle-Adam. Os coadjuvantes estão igualmente fabulosos: Ian McDiarmid (Doutor Lancaster), Michael Gambon (Baltus Van Tassel), Richard Griffiths (Juiz Samuel Philipse), Jeffrey Jones (Reverendo Steenwyck) e Michael Gough (Tabelião Hardenbrook) formam uma galeria de tipos que poderia figurar nos melhores relatos de E.T.A Hoffmann. Ainda dentre os coadjuvantes, destaque especial para a bonita Miranda Richardson, que compõe uma sinistra e requintada Lady Van Tassel, e, obviamente, para Christopher Walken, esplêndido como o aterrador Cavaleiro sem Cabeça. Lembremos também da simpática homenagem que Tim Burton presta a um de seus ídolos de infância, o lendário ator inglês Christopher Lee, que faz uma ponta como o Burgomestre de Nova York.


Sleepy Hollow é um filme que merece ser visto, revisto e conservado para noites de brumas imprecisas e emanações espectrais. Pois, afinal de contas, quantos anos mais teremos de esperar por outro filho da augusta estirpe das fantasias atmosféricas e elegantes?

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Ten. Giovanni Drogo 

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros


sábado, junho 06, 2020

Uma crônica crepuscular


Alphonse van Worden - 1750 AD
                                                                      

Hoje este vosso inditoso confrade viveu uma das experiências mais dolorosamente amargas de seu já longevo périplo sobre a Terra; não obstante, revestiu-se o episódio outrossim d'um cariz melancolicamente poético, conforme os senhores verão.

Vamos lá: perambulava eu sem rumo definido por um aprazível reduto da alta burguesia carioca (Shopping Leblon) quando súbito senti um leve abraço em torno de meus joelhos. Voltei-me para baixo, surpreso, e contemplei os olhinhos vivazes e travessos de um anjinho barroco de della Robbia animado pelo sopro divino, ou então um gracioso zéfiro renascentista emanado d'uma tela de Botticelli. Era uma encantadora garotinha loira d'uns dois anos de idade, ricamente ataviada. Agachei-me para falar com ela, e a pequenina gritou, com sua vozinha argentina: "papai, papai!".

Instantes depois, outra voz fez-se ouvir, num tom de amável, complacente e divertida admoestação: "Vitória querida, não é o papai não, meu anjo!". Voltei-me para a recém-chegada e o que vi foi seguramente uma das mais belas mulheres em que já tive a (des)ventura de pôr os olhos nesta vida: uma verdadeira valquíria encarnada, Bibi Andersson rediviva, vênus resplendente, iridescente e refulgente em seu porte de sílfide, oceano de longos cabelos platinados, semblante radiante e impecável elegância; atrás dela, uma criada, num irrepreensível uniforme negro com rendas brancas, trazia o filhinho menor num carrinho de bebê.


A moça (que deve andar pelos seus 30, 35 anos), ligeiramente atrapalhada com sua constelação de sacolas e embrulhos, sorriu para mim com seus dentes imaculados e disse: "você me desculpe, ela é assim mesmo, não para quieta!", e contemplando meu rosto com certo espanto, continuou: "nossa, mas você realmente é muito parecido com o meu marido, impressionante! Idade, rosto, porte, altura, que engraçado! E ainda por cima eu tinha dito a ela que o pai já estava chegando para apanhar a gente haha!". Tudo em seu rosto e modo de ser exalava uma felicidade serena, altaneira e convicta, a felicidade daqueles que têm plena certeza de onde vieram e sabem com absoluta segurança para onde irão, a felicidade de quem só poderia ser mãe d'uma VITÓRIA, em todos os sentidos possíveis e concebíveis.


Obviamente afaguei o rosto da criança, proferi algumas amabilidades protocolares e foi isso, despedimo-nos, aquela linda e feliz família rumando ao encontro do pai e marido, e eu... eu... Deus meu, que tenho feito de minha vida? Pus-me então a pensar em meu desconhecido e privilegiado doppelgänger: que teria feito ele, por exemplo, para merecer aquela plêiade de arcanjos, da valquíria digna d'uma saga nórdica à bela prole áurea? Teria ele nascido em 'berço esplêndido', desfrutado das prerrogativas e oportunidades que tal condição proporciona? Ou, pelo contrário, na intricada e complexa trama que compõe a diáfana tule da vida, ele soube entretecer os fios certos e desatar os nós cegos, ao passo que eu tudo emaranhei? Difícil saber... o fato é que aquele afortunado homem era aguardado alegremente por sua maravilhosa família, ao passo que eu... eu... enfim, que importa? QUEM se importa?



domingo, março 08, 2020

Ad Majorem Dei Gloriam I - Sancta Inquisitio


¡Adelante, España! - Homenaje a Dom Miguel y a José António Primo de Rivera






In laude di Ezra Pound




In Memoriam IX






Ascetismo

Austeridade


Disposição marcial


Espírito de sacrífico



Tais foram os principais atributos que caracterizaram o venerável Major-General iraniano قاسم سلیمانی, comandante da Força Quds entre 1998 e 2020, cuja gloriosa folha de serviços a serviço da revolução islâmica tão somente os pósteros serão capazes de dimensionar em toda a sua magnitude.

Soleimani foi martirizado a 3 de janeiro deste ano pelos solertes sicários do Grande Satã; não obstante, tal como sempre ocorre, o sangue dos mártires jamais é derramado em vão: seu exemplo frutificará e a causa à qual dedicou sua existência triunfará no iridescente palco da História.


O Gen. Soleimani, que para vós se descortinem, infindas e altaneiras, as iridescentes veredas da ARCANA COELESTIA!!!



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Ten. Giovanni Drogo


Forte Bastiani


Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

quinta-feira, agosto 29, 2019

A um venerável mestre, com devoção, carinho e saudade

Alphonse van Worden - 1750 AD

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Segue abaixo uma crônica que escrevi a propósito de meu venerável e mui estimado mestre Fernando Baptista Gonçalves, texto que se reveste de significado 'inda mais importante neste momento em que (oxalá!) inicio minha trajetória como escritor profissional.



















No transcurso de solitário passeio pela Floresta da Tijuca há alguns meses, visitado fui de forma particularmente vívida pela deusa Mnemosine; e na confluência de sentimentos a um só tempo melancólicos e felizes, recordava algumas jornadas de minha infância e mocidade, quando gradativamente minhas reminiscências centraram-se na excepcional figura do professor Fernando Baptista Gonçalves, figura axial em minha trajetória no decorrer do ginásio e do secundário. Notável educador, figura humana de primeiríssima plana, modelo de conduta moral e intelectual, o velho 'Gonça', como carinhosamente era chamado por seus alunos, foi de sobejo o melhor professor que já tive em qualquer nível, magnífico tanto em termos acadêmicos quanto humanos. O amor que tenho à literatura e às artes devo em grande medida aos ensinamentos deste homem notável, que com imensa erudição e flamejante entusiasmo, logrou inculcar-me grande devoção ao que de melhor nossa civilização produziu. No que tange à sua personalidade, foi para mim um verdadeiro modelo de caráter, sempre justo e solidário, bem como, malgrado severo, dono de enorme sensibilidade.

Gonça tinha o admirável hábito de apresentar a seus alunos as obras-primas da música erudita, as quais executava por intermédio de uma vetusta e inesquecível eletrola vermelha. Lembro-me, pois, como se fosse hoje, d'uma determinada vez em que colocou para tocar a Abertura 1812 de Tchaikovski. Podeis bem imaginar, é claro, como era árdua a tarefa de despertar o interesse de um bando de adolescentes irrequietos pelo rarefeito universo da música erudita, não é mesmo? Pois o saudoso prof. Gonçalves mesmerizou a turma com uma interpretação simplesmente memorável, digna de um ator da Comédie-Française em grande forma: não satisfeito em explicar o contexto artístico e histórico da composição, ele literalmente interpretou-a, ilustrando de modo vívido e contagiante o que cada passagem tencionava evocar. Num espetáculo formidável, inolvidável, saltava ele para lá e para cá, narrando e ilustrando os factos abordados pela peça: "eis o troar dos canhões do Marechal Murat nas colinas de Borodino!"; "agora a vanguarda de Kutuzov está perseguindo o que restou da Grande Arméé!". Ah grandíssimo mestre, lux sapientiae, primus inter pares!!! 

O mui querido Gonça desafortunadamente não mais está entre nós já há muitos lustros, mas continuará sempre vivo no afeto e na memória deste seu eternamente grato discípulo.

terça-feira, junho 18, 2019

Brevíssima nota a propósito da esfera semântica da poesia

Alphonse van Worden - 1750 AD


Em sua conferência From Poe to Valéry (1948), T.S.Eliot sustenta que o autor de The Raven  é um tanto quanto descuidado em relação à esfera semântica de sua poesia, não raro atribuindo às palavras significados de todo incompatíveis com sua denotação.

À guisa de exemplo para sua assertiva, o poeta anglo-americano cita a seguinte estrofe de To -- -- --. Ulalume: A Ballad (1847):


It was night in the lonesome October
Of my most immemorial year


Eliot argumenta que o período de tempo aludido por Poe não pode ser 'imemorial', já que este não apenas dele se recorda, mas inclusive o faz com riqueza de pormenores.

Dito isto, ousarei dissentir do excelso autor de Ash Wednesday. Penso que uma das mais importantes possibilidades da ars poetica consiste justamente em operar uma espécie de sabotagem deliberada no plano sematológico do poema, pervertendo assim o sentido habitual / convencional das palavras para engendrar a formação de novos e surpreendentes campos semânticos; trata-se, com efeito, d'uma das formas pelas quais a poesia logra desencadear o assombro.

Assim sendo, se Poe está a falar em seu 'ano mais imemorial', ainda que dele possa se lembrar, poderíamos especular que o mais ilustre filho de Baltimore pretende dizer que mesmo que nos recordemos de todos os detalhes de uma época, sua substância central, o 'eu profundo' de suas motivações, sensações, emoções e sentimentos, permanece para sempre irresgatável.

Não por acaso, o glorioso vate gaulês Stéphane Mallarmé (que para Eliot, vale dizer, ao lado justamente de  Poe, Valéry e também de Baudelaire, forma um ilustríssimo quarteto literário caracterizado pela autoconsciência progressiva no tocante aos procedimentos e recursos formais da linguagem, bem como pela concentração deliberada nos métodos de composição) afirma, emblematicamente no soneto que escreveu em louvor a Poe, que o mister do poeta é "conferir um sentido mais puro às palavras da tribo".

terça-feira, abril 16, 2019

A incrível, fascinante y trágica trajetória d'um conservador britânico brasileiro





Em caráter rigorosamente excepcional publicaremos hoje um escrito da lavra dos Srs. Alfredo degli Antelminelli e Gabriel Schmitt, em virtude não só de sua inquestionável excelência literária, mas sobretudo por sua relevância filosófica e moral para o presente momento da vida nacional.  


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A INCRÍVEL, FASCINANTE Y TRÁGICA TRAJETÓRIA D'UM CONSERVADOR BRITÂNICO BRASILEIRO

Alfredo degli Antelminelli & Gabriel Schmitt 

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Bernardo da Silva Ferreira (1993 - 2018) foi um insigne conservador britânico brasileiro. Nasceu na cidade de Catolândia, um município modesto de três mil habitantes no interior da Bahia.

Bernardo desde cedo deu sinais de que seria um predestinado: aos três anos usava plastron e cartola; aos cinco, monóculo e pince-nez; aos seis atormentou de tal modo seus pobres pais para que lhe comprassem uma casaca que o infausto casal, mesmo ao preço de se ver nos umbrais da fome, outra alternativa não teve senão ceder. Lá pelos 10 anos, por fim, passou a exigir dos locais que o chamassem de 'Sir Bernard Smith'.

Como 99% dos brasileiros, ganhou seu primeiro computador na era Lula, e certo dia, navegando pela internet, num artigo da Wikipedia leu a frase "para que o mal triunfe só basta que os homens bons não façam nada", célebre citação do filosofo britânico Edmund Burke. Ó sumo lume do entendimento transfinito! Hosannah nas alturas! Com efeito, esse divo instante foi um divisor de águas na sua vida: a partir de então, fez tudo o que um lídimo conservador britânico brasileiro leva a cabo em sua vida, vale dizer, passou os anos seguintes lendo verbetes na Wikipedia sobre a revolução industrial, Adam Smith, John Stuart Mill e a Era Vitoriana.

Aos 16 anos, Sir Bernard já trabalhava como balconista numa mercearia no subúrbio de Vitória da Conquista, onde impressionava (e irritava) todos os colegas e fregueses com suas frases em inglês, tais como 'weRR mustá belevá in te futurÊ' ou ‘absÓlÚtÍ pÓwÉr cÓrrÚpts absÓlÚtelÝ, sempre proferidas na impecável prosódia do pelourinho oxfordiano. Aos 18 anos conheceu o grupo de Facebook "Estudantes Para a Liberdade", onde finalmente encontrou um Shangri-La de excelência Intelectual. Seu entusiasmo com o grupo era tanto que o administrador da página, um certo Gabriel Vincent, começou a ficar enciumado. Todavia, como não era de bom tom haver um contencioso explícito entre cavalheiros de tão alta estirpe, os dois julgaram que deveriam entreter apenas uma chivalric rivalry, pois a expressão em inglês era muito elegante.

Na casa dos 22 anos, os pais de Bernardo, pessoas simples, mas de muito bom coração, começaram a se preocupar seriamente com a saúde mental de seu rebento: o rapaz dilapidava seus parcos haveres com tomos no original de seus autores preferidos do conservadorismo britânico, mesmo sendo incapaz de lê-los, já que seus conhecimentos no idioma limitavam-se a umas poucas citações e frases feitas.

O jovem, no entanto, era um purista incorrigível e dizia que a tradução para uma língua tão terceiro-mundista quanto o português maculava a formosa obra do pensamento conservador britânico.  Intensificando a simbiose, um belo dia começou a usar cachecóis e pesados sobretudos, mesmo padecendo sob o inclemente sol de sua terra.  Como se não bastasse, o envolvimento com os "Estudantes para a Liberdade" paulatinamente o levou ao paroxismo: às vésperas de completar 23 anos, fugiu de casa e colocou um anuncio no jornal, onde manifestava a vontade de ser adotado por uma família britânica.

Finalmente, aos 25 anos, chegou à conclusão que define à perfeição o ‘conservadorismo’ britânico, ao bradar, noite alta, para as melancólicas ruas da cidade que jamais o compreendeu: 'sou conservador em moral e costumes, mas liberal em economia!'. Desse momento em diante, a coisa realmente enveredou por um caminho sem volta. Candidatou-se a vereador pelo MBL, mas obteve apenas um voto, o dele mesmo. Frustrado com o insucesso eleitoral, assestou suas baterias contra o primitivo e retrógrado povo do interior da Bahia, que não estava preparado para ideias tão sofisticadas (e chiques) quanto as do conservadorismo britânico que ele advogava. Verberou mormente contra o coronel Justiniano Salviano de Albuquerque, principal mandachuva da política local, que não teria aberto os cofres para a campanha de nosso herói. 

Enfurecido com a audácia de Bernard, o coronel seguiu o Lord Acton do Recôncavo até um motel que este frequentava com muita assiduidade. Ao arrombarem a porta, Justiniano e seus capangas se surpreenderam, pois encontraram o jovem conservador britânico brasileiro com uma boneca inflável que tinha o rosto de Margaret Thatcher. Passado o pasmo inicial, Fagundes, líder dos jagunços, sacou sua pistola e desferiu um balázio no tórax de Bernardo. O sangue escorreu pela tatuagem de peito inteiro que ele fizera, com a figura de Winston Churchill segurando um charuto, e suas palavras finais, já agonizando, foram 'nevVÁ surrENdÁ'. 

Consta que chegando ao Além ele enfim encontrou os autores e políticos britânicos que tanto venerou em vida. Churchill o chamou de 'idiota'; Maggie ‘the milk snatcher’ Thatcher grunhiu; Adam Smith e John Stuart Mill gargalharam; e Chesterton escreveu um artigo desancando-o de alto a baixo.



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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani


Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros







quinta-feira, fevereiro 21, 2019

O MONSTRO



Alphonse van Worden - 1750 AD



That is not dead which can eternal lie.
And with strange aeons even death may die

H.P.Lovecraft  (The Nameless City - 1921)



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Muito do que queria que tivesse acontecido jamais ocorreu; muito do que deveria ter sido, não foi. A grama e os dias de luz sumiram sob prédios e casas em ruínas, dando lugar a noites escuras, cinzas e pó. Aqui não existe mais nada para mim. Só me resta uma tarefa a cumprir antes de partir: tenho uma história para contar. Não me importo se alguém a lerá (se é que ainda haverá alguém para lê-la...); quero apenas contar essa história, pois muito dela eu vi, ouvi e senti. Este é o meu relato, esta é minha vida. Neste relato verto todo o meu ódio, o meu ressentimento, a minha frustração, a minha tristeza e, por fim, a minha indiferença... É preciso, enfim, dizer que o MONSTRO está aqui. 

(...)

E o MONSTRO apareceu. Já não sei precisamente quando, como ou por que, mas tão somente que, certo dia, surgiu o MONSTRO, num cômodo pequeno e escuro de minha casa. Decerto tenho algum vínculo ignoto com o MONSTRO, pois sou obrigada a velar por ele. ELE não fala, não sente, não se move, não ouve, não vê. ELE apenas existe. e em seu mero existir, torna progressivamente mais irreal e tortuosa a minha existência, bem como a de meus filhos. ELE traz consigo um horror mudo, inerte, isto me assusta, me angustia mais que uma grande catástrofe. Tudo está silente, estático, e a convivência com ELE torna-me cada vez mais apática; sinto, por vezes, que talvez tenha sido absorvida por essa criatura. Aos poucos esqueço o gosto da comida, o som da música, e já nem mesmo sei meu próprio nome. Se calhar seria melhor também não falar, sentir, ver ou ouvir, já que assim, quem sabe, estaria sofrendo menos. Não sei por quanto tempo mais eu posso aguentar.

(...)

Minha casa sempre foi muito pacata e ordeira. Todavia, a simples presença do MONSTRO a converteu num abismo de dor, remorso, ódio, exaustão e desespero. E tudo parece emanar do MONSTRO, que dissemina sua danação por cada recanto do que um dia chamei de ‘lar’. Não raro sou acometida por soturnos devaneios, e chego a pensar que tudo se transformará numa ominosa câmara ardente, com o MONSTRO no centro. ELE encolhe paulatinamente, dia após dia; está cada vez mais fraco. Sempre abro a porta do pequeno cômodo na vã esperança de vê-lo morto, mas ELE permanece vivo. Perdi por completo a noção do tempo, pois todos os meus dias se tornaram absolutamente iguais desde que o MONSTRO surgiu. Ele está me dissolvendo. Meus filhos não falam mais comigo, e evitam ao máximo entrar em casa. Exigem que eu faça alguma coisa, que coloque um fim em tudo isso, mas não percebem que isso é impossível; destarte, brigam comigo, acusam-me de ser fraca, como se eu fosse culpada pelo que está acontecendo. “Mate-o!”, eles dizem; mas como fazê-lo? ELE simplesmente permanece vivo, o coração continua batendo, não há como matá-lo. Meus filhos, contudo, não compreendem isso, e sinto-os cada vez mais distantes de mim. Perco, ao fim e ao cabo, o controle sobre minha própria vida essa que agora está atrelada ao destino do MONSTRO. O fim dele será o meu também, pois ele perdurará pulverizando minha mente, até o aniquilamento total de minha consciência. Perco minhas forças, e estou convicta de que o MONSTRO é invencível.

(...)

Um quarto pequenino, mal iluminado; uma cama; um MONSTRO. ELE não provoca medo, mas me deixa paralisada; não provoca horror, mas contemplá-lo é como contemplar o nada, informe matéria sem alma, invólucro inaudito e sem nome, rosto ou expressão. Inefável, inexplicável, incompreensível, assim ELE é. Entretanto, o MONSTRO tem contornos vagamente similares aos de um ser humano. Tem dois lindos olhos verdes que jamais piscam, lábios vermelhos, a pele clara, assim como os parcos fios de cabelos, aparentemente raspados. Não há, contudo, ossos na metade da cabeça, que parece ter sido afundada por um grande traumatismo; seus membros, posteriores e inferiores, são hoje como esquálidas patas d’uma espécie de aracnídeo antediluviano.  Havia, também, um buraco em seu pescoço, que foi revestido por com várias ataduras, posto ser impossível suportar o odor insuportável que exalava do pequeno orifício. O MONSTRO jaz deitado na cama, e não é possível colocá-lo em pé; é como se fosse um Cristo putrefato, crucificado no lenho da abominação; creio que está sempre a dormir, sem jamais se mexer. De longe é possível ouvir as batidas do seu coração. Definha aceleradamente, e está ficando raquítico. Não existem mais vestígios de musculatura, a apenas uma tênue camada de pele reveste os ossos. De início, jorrava secreções através do orifício em seu pescoço, empesteando as paredes do cômodo. Com as ataduras, logrei controlar as secreções; no entanto, escaras tenebrosas começaram a aparecer, grandes e profundas feridas, que jamais cicatrizam. Ele goteja sangue pelo cômodo.  Apodrece progressivamente, se alguém tivesse coragem de tocá-lo, perceberia que sua pele está tão fina e ressecada que, caso a puxassem, poderiam arrancar num só movimento todo o tecido dele. O cheio do seu sangue é álacre, a textura da sua carne, que em muitos pontos está à mostra, é semelhante a de um pedaço de carne podre. As moscas estão rondando o quarto, mas todas que se aventuram a provar de sua carne morrem de imediato. São legiões de moscas, que fenecem após um derradeiro instante de deleite com essa carne amaldiçoada! À partida o MONSTRO urinava e defecava; agora, todavia, já não excreta mais nada. Está morto em vida, cada vez mais morto, mas sei que jamais perecerá.

(...)

Nos últimos dias, vejo na TV, com absoluta indiferença, notícias sobre um estranho fenômeno: em todo o planeta, centenas de milhares de pessoas estão morrendo, sem qualquer razão aparente.  Cientistas em pânico creem tratar-se d’algum vírus desconhecido e letal, ao passo que os religiosos dizem que é o Apocalipse. Levo um bom tempo até perceber que meus filhos também estão mortos, Como? Por quê? Ninguém sabe. É realmente curioso... julgava-os saudáveis, ao menos aparentemente. Em diabólica epifania, constato que tudo isto está relacionado à presença do MONSTRO. Mesmo no limite de minhas forças, é preciso fazer um derradeiro esforço para matá-lo.  

(...)

Cidades, regiões, países, continentes inteiros, estão desabitados. E não há explicações.

(...)

Em minha cidade, apenas eu e o MONSTRO continuamos vivos. Fiz o possível: por incontáveis horas tentei sufocá-lo com um travesseiro, afogá-lo na banheira, e então  ateei fogo ao MONSTRO. Mas nada surtiu efeito. O coração continuar a bater como se nada tivesse acontecido. ELE não reage a nada, e nem mesmo a morte pode atingi-lo. É hoje tão somente um pedaço carbonizado de carne, e ainda assim, prossegue respirando. Numa última e desesperada tentativa de destruí-lo, apanhei um canivete e perfurei, até ficar com os braços dormentes, a superfície desprovida de ossos no crânio do MONSTRO. Retalhei o que pude, e me surpreendi ao verificar que não havia absolutamente mais nada ali. O MONSTRO não tinha qualquer resquício de massa cerebral, estava vazio. Admiti enfim, aterrada, que qualquer tentativa de assassiná-lo era inútil. O MONSTRO existe, inexoravelmente EXISTE, e não há nada que se possa fazer.  

O MONSTRO veio até nós, e consigo trouxe nosso fim.  Só o MONSTRO permanece, e a Terra não pode suportar sua presença.

(…)

Os últimos remanescentes da Humanidade desaparecem; a internet já não funciona, tampouco recebo qualquer transmissão de rádio ou TV; estou isolada e porventura todos já morreram.

(...)

Perambulo sem rumo por estradas desertas. Logo o Universo inteiro irá sucumbir, pois o MONSTRO matou a própria morte, e deseja, flutuando no vórtice da obliteração total, saborear solitariamente seu triunfo. É o reflexo crepuscular, o blasfemo legado de incontáveis civilizações, de milênios de História. Nada mais ‘será’ no crepúsculo de todas as eras... Mas ELE existe...  EXISTE, EXISTE,  EXISTE,  EXISTE, EXISTE, EXISTE, EXISTE,  EXISTE,  EXISTE, EXISTE,  EXISTE, EXISTE, EXISTE........ 

sexta-feira, dezembro 14, 2018

Eis então que num sonho...






Tive hoje um sonho sobremaneira curioso.

Encontrava-me num espaço imenso, úmido e soturno, espécie de amálgama entre os Carceri d'Invezione de Piranesi e as secretarias do Tribunal de Kafka tal como representadas no filme de Orson Welles.


Havia à minha volta uma multidão de vampiros de aparência andrajosa, circulando para lá e para cá em pequenos grupos, murmurando com aspecto preocupado palavras incompreensíveis. Eis então que encontro meu amigo Gabriel Schmitt, com um ar entre assustado e aparvalhado. 


Pergunto-lhe:


- O que você está fazendo aqui? 

- Não sei... recebi uma carta dizendo que deveria estar aqui, sob pena de enfrentar as mais terríveis consequências, e então resolvi vir... mas não sei o motivo.
- Estranho... você não deveria estar aqui... foi algum erro da Organização... mas enfim, já que está aqui, fique calado, não diga uma só palavra. Essas pessoas que você está vendo, todas elas são projeções da minha imaginação, compreende? Só eu e você somos reais aqui... portanto, fique quieto. 
- Mas e você, o que está fazendo aqui? 
- É uma questão complicada, você não entenderia... digamos que se trata de uma disputa patrimonial... um contencioso sobre uma herança.

Nisso aparece Caronte, segurando uma tocha numa das mãos, e um astrolábio na outra. A entidade se dirige a mim:


- Magister, a audiência já vai começar. Acompanhe-me, por favor.


Gabriel, consternado, faz menção de se levantar do assento de pedra onde estava, e diz:


- E agora, o que é que eu faço?


Respondo-lhe:


- Bem... pode vir... mas lembre-se: não diga nem uma palavra sequer!


Infelizmente despertei neste momento.



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Ten. Giovanni Drogo


Forte Bastiani


Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

domingo, agosto 19, 2018

A propósito de Paul Valéry



Alphonse van Worden - 1750 AD


Inclitíssimos irmãos d’armas:

Tenciono hoje pôr à vossa disposição algumas reflexões a propósito de Paul Valéry, que indubitavelmente tem sido uma das referências intelectuais mais constantes e vitais ao longo de minha trajetória.

À moda dos Cahiers do primus inter pares das letras francesas, do incomparável mâitre à penser da literatura universal no século XX, tais reflexões assumirão um caráter essencialmente assistemático, fragmentário; não obstante, se do autor de Ébauche d’un serpent (1921) ainda posso - mesmo que tão somente, claro está, em caráter de miserável simulacro - emular dos aforismas o estilo, decerto o refulgente descortino crítico de seu gênio é páramo que nem de muitíssimo longe poderia ter a esperança de vislumbrar.

Isto assente, procedamos.


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Valéry foi inelutavelmente uma das inteligências mais fulgurantes da cultura universal em todos os tempos, tendo se demonstrado capaz de articular exemplarmente as seis virtudes que reputo como cardeais no exercício da atividade intelectual: Criatividade / Rigor / Ousadia / Lucidez / Clareza / Profundidade. Trata-se d'um autor / pensador cujo talento multiforme e surpreendente se manifestou, sempre com rara consistência e beleza, nas mais diversas esferas do conhecimento e da arte. Há que frisar, sobretudo, que a trajetória intelectual de Valéry (obra poética inclusa) pode ser definida como uma ampla investigação, de cariz analítico, metódico e sistemático, dos processos operacionais da inteligência no âmbito da atividade criadora; com efeito, tal é a o alpha e o omega de sua obra, vale dizer, a tentativa de identificar uma 'atitude central' a coordenar todas as operações criadoras do intelecto. Tal perspectiva, creio, delineia horizontes de capital importância no bojo da epistemologia, cujo alcance e profundidade ainda estão a ser mapeados, sobretudo no espectro da vasta galáxia que são seus Cahiers.  É mister, outrossim, elencar os demais aspectos cruciais da epopeia valeryana: a autoconsciência progressiva no tocante aos procedimentos e recursos da linguagem, bem como a concentração deliberada nos métodos de composição; a valorização do ostinato rigore (d'après Poe e Mallarmé) como princípio criativo fundamental, em detrimento da inspiração e da espontaneidade, que Valéry em boa medida encara como quimeras românticas; a convicção de que a grande obra de arte não está propriamente no ‘produto acabado’ (quadros, poemas, esculturas etc.) em si, mas no próprio processo de criação, expressão privilegiada da inteligência.

Exemplo lapidar de toda essa refinada ars combinatoria é o célebre poema Le Cimetière marin (1922), composição estruturada com elegância e precisão matemáticas em seus requintados arabescos verbais.


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Ao apreciarmos a ars poetica de Valéry, é possível constatar, pois, que o egrégio vate francês não está propriamente preocupado com o resultado final de seus poemas, mas sim em observar a dinâmica de sua inteligência criativa ao concebê-los. Para Valéry o labor poético é essencialmente uma operação do intelecto; a autoconsciência progressiva no tocante aos recursos e procedimentos da linguagem e a concentração deliberada nos métodos de composição são, destarte, muito mais importantes que elementos vagos como 'espontaneidade', 'inspiração' e 'intuição'. Acrescente-se ainda que não lhe importavam tanto os 'fins', mas sobretudo os 'meios'. Acreditava, pois, que um artista nunca termina efetivamente um trabalho, mas tão somente o 'abandona': o fundamental é o caminho, não o termo, a chegada; e é exatamente por isso que o autor de La jeune parque (1917) chega a afirmar que a grande obra de arte não está numa tela, numa escultura ou num poema consumados, mas sim no próprio processo de criação.


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Há uma observação de Valéry que a meu ver ecoa no plano literário a distinção essencial que há em filosofia entre 'analíticos' e 'continentais: a prosa, sobretudo a prosa de não ficção, deve 'terminar'  exatamente onde 'termina' a linguagem, ou seja, ela não deve dizer mais do que o plano semântico da linguagem lhe faculta; a poesia, por outro lado, deve 'COMEÇAR' onde 'termina' a linguagem, isto é, ela emerge justamente quando a linguagem já não mais consegue dar conta daquilo que queremos dizer. Sublinhe-se, ademais, que o aedo francês define poesia como "a permanente hesitação entre som e sentido", vale dizer, a oscilação perpétua entre o dizível e  o indizível, o tangível e o intangível.


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"M. Teste avait peut-être quarante ans. Sa parole était extraordinairement rapide, et sa voix sourde. Tout s’effaçait en lui, les yeux, les mains. Il avait pourtant les épaules militaires, et le pas d’une régularité qui étonnait. Quand il parlait, il ne levait jamais un bras ni un doigt : il avait tué la marionnette. Il ne souriait pas, ne disait ni bonjour ni bonsoir ; il semblait ne pas entendre le « Comment allez-vous ? »"


La Soirée avec monsieur Teste (originalmente publicado em 1896 / expandido na edição póstuma de 1946 com o acréscimo dos textos que formam o Cycle Teste), misto de romance 'abstrato' / ensaio analítico, sem dúvida constitui uma das obras mais singulares e fascinantes de Paul Valéry.

Trata-se d'uma reflexão sobre a dissociação progressiva entre a 'razão pura' e a sensibilidade no seio da personalidade do protagonista. Teste é obcecado pelo ostinato rigore da EXPRESSÃO, não só na esfera conceitual, verbal e formal, mas também no plano dos sentimentos, e até mesmo no âmbito dos mais prosaicos hábitos e ações do cotidiano. Cada pensamento, sentimento, vocábulo, ato ou gesto supérfluo é por ele rejeitado, o que ao fim e ao cabo terminará por levá-lo a 'inviabilizar' a própria VIDA, dimensão inexoravelmente entretecida nas ramagens do fortuito, do arbitrário e do fugaz.

Algo irônicos e melancólicos, os textos do 'Ciclo' talvez sejam uma espécie de originalíssima autobiografia espiritual do autor.


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A meu juízo a inteligência mais privilegiada já surgida em França, Valéry era movido, conforme já salientei n'outras ocasiões, por uma busca metódica e sistemática pelo ostinato rigore em todos os campos da linguagem.

O autor de Regards sur le monde actuel (1931) chega a afirmar, em determinada passagem de seus Cahiers, que uma demonstração matemática ou uma proposição científica lhe proporcionava mais prazer estético que a leitura d'um romance; buscava, assim, lograr um grau máximo de precisão tanto no plano formal quanto na esfera semântica.

Em Sur Bossuet (1937), magnífico ensaio a propósito do notável bispo e teólogo francês, Valéry sustenta que a prosa de Bossuet é de tal modo rigorosa, majestosa e severa que o facto de concordarmos ou não com as ideias advogadas pelo autor não tem a menor importância. E vai além, n'outra passagem dos Cahiers: dar ou não assentimento às concepções d'um pensador não é o que importa, mas sim verificar a solidez de sua 'engenharia textual', a consistência de sua 'arquitetura conceitual'.

E Valéry está certo; sempre esteve; sempre estará.


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Todo artista que atinge alguma consagração, isto é, algum nível de reconhecimento crítico, demonstra n'alguma medida deter autoconsciência a propósito dos recursos e procedimentos de que se serve para criar, dos métodos de composição e de suas possibilidades últimas enquanto criador. Paul Valéry talvez tenha sido o autor mais deliberadamente autoconsciente em toda a história da literatura, o que por si só ilustra o grau de excelência que logrou atingir.


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Num de seus magníficos escritos compilados nos volumes de Variété (1924-44), Valéry declarou que se calhar seu desiderato supremo seria a criação d'uma 'Commedia da inteligência'. Dante escrevera a Divina; Balzac a Humana; Valéry, por seu turno, almejava a da abstração total. Analogamente, chega a afirmar que uma demonstração matemática proporcionava-lhe maior deleite e satisfação estética que a leitura d'um romance.  Por fim, na conferência De l’enseignement de la poétique au Collège de France (1937), especulou sobre a possibilidade de uma história da literatura que não mencionasse autor algum, mas que, com efeito, fosse concebida como uma espécie de "História do Espírito Universal enquanto produtor e consumidor de literatura". Em suma: três exemplos que ilustram à perfeição a 'atitude central' tanto do ars poetica quanto do corpus teórico valeryanos, qual seja, um verdadeiro CULTO da inteligência, não só como uma espécie de apologética suprema da criação, mas inteligência como expressão por excelência da próprio BELO. 


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Em Quelques notes sur la technique littéraire (1889), Valéry afirma o seguinte:

"Tanto mais apreciaremos a arte de nosso tempo quanto mais misteriosa, restrita e inacessível ela for para as multidões. Pouco importa que resulte impermeável à maioria, que seja privilegio duma minoria, alcançável apenas por um punhado de eleitos, para quem é um reino divino do mais alto grau de esplendor e pureza."

Como de hábito está correto o grande luminar das letras francesas. Com efeito, é mister que a arte sempre seja apanágio exclusivo d'um cenáculo restrito, perspectiva que hoje, tendo em vista a hecatombe cultural de nossos tempos, precisaria ser advogada com maior veemência ainda. Lembremo-nos sempre: democratização (não só no plano das artes, mas também nas esferas do conhecimento em geral e da política) = vulgarização, diluição, abastardamento.