sábado, maio 01, 2010

Breve nota sobre a disjunção 'Tradição / Tradicionalistas'

Alphonse van Worden - 1750 AD






Preclaros irmãos d'armas:

Tendo em vista a centralidade do conceito de TRADIÇÃO para qualquer movimento político que se insira no espectro do antiliberalismo, torna-se mister, portanto, para os que comungam de tal acervo de ideias, esboçar algumas considerações a propósito.


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A meu juízo, o que se deveria entender por TRADIÇÃO, no sentido mais lato do termo, é um corpo de doutrinas, saberes, ritos, costumes, normas e ordenamentos que interage continuamente com o Presente, tornando-se, assim, capaz de fecundar o Futuro. Trata-se, pois, d’um processo DIALÓGICO, onde o que FOI flui através do que É para engendrar o que SERÁ.

Por outro lado, defino como ‘tradicionalista’ qualquer perspectiva que, encerrando o legado d’uma determinada tradição numa esfera impermeável, impõe-lhe a fixidez do rigor mortis conceitual e, ao fim e ao cabo, reduzindo-a à condição fóssil, lhe impossibilita qualquer possibilidade de intervenção na História.

A Tradição é, pois, um organismo pleno de energia vital; os ‘tradicionalistas’, por seu turno, elementos que se conformam em fazer a autópsia de um cadáver que, inadvertidamente ou não, eles próprios gestaram.

Transmitida per saecula saeculorum num fluxo permanente, a Tradição é sempre uma força heurística, capaz de propagar-se em novas formas que obedecem a imperativos não raro desconhecidos dos homens comuns e, portanto, acessíveis e compreensíveis tão somente aos grandes iniciados. À guisa de ilustração, podemos afirmar que nada há de mais revolucionário, por exemplo, que o desaparecimento de ínclitas tradições como a nórdica e celta, para a chegada d'uma nova, o Cristianismo, ou também do desaparecimento do brahmanismo para o advento do budismo, e mais tarde da ressurreição do brahmanismo frente ao budismo na Índia. Essa extraordinária dinâmica auto-renovadora da Tradição é ignorada pelos 'tradicionalistas', que não atentam para o facto de que a Tradição, malgrado impessoal, não-humana e além do espaço-tempo, faz uso de meios pessoais e temporais no intuito de indicar à Humanidade as sendas para a realização espiritual.

Cultivar uma Tradição é, portanto, exaltar a presença ativa de sua potência criadora. Destarte, quando, por exemplo, um Marinetti escreve, no manifesto inaugural do Futurismo, que “um automóvel de corrida com seu cofre enfeitado com tubos grossos, semelhantes a serpentes de hálito explosivo... um automóvel rugidor, que correr sobre a metralha, é mais bonito que a Vitória de Samotrácia”; ou que é preciso “destruir os museus, as bibliotecas, as academias de toda natureza”, seria insensato, para não dizer estúpido, tomá-lo ao pé da letra. O célebre escritor italiano estava, na verdade, através de hipérboles deliberadamente caricatas, lançando nas entrelinhas uma sábia advertência: o culto marasmódico a qualquer tradição, por mais pujante que ela possa ser, ocasiona a perda de sua capacidade heurística, transformando-a num orco cinéreo de símbolos mortos e ‘relíquias’ inertes.

Não há, portanto, pior inimigo para a Tradição que o próprio ‘tradicionalista’, que extrai a seiva vital de seu objeto de adoração até convertê-lo num deserto lunar.

Honrar a Tradição significa, enfim, encará-la como força dinâmica, feraz, ‘princípio alquímico’ capaz de amalgamar passado, presente e futuro para lograr o ETERNO.

Ode a Antônio Conselheiro




Ode a Antônio Conselheiro


Labirintos da História, Espirais Oníricas, Vórtices de Fé! O estratosférico Êxtase da Morte, Massacres, Guerras, Guerrilhas, Levantes, Revoluções, Ecclesia et Imperium, salto Temerário na Escuridão Inefável, e assim, ínclita síntese já nas Trovas de Bandarra predita, o Sertão virou Mar, e o Mar virou Sertão!

A Vitória final do Avatar Sagrado, o Advento do Terrível Destino, sob a égide de El-Rei Dom Sebastião, que legará o mirífico Reino da Sublimação Universal aos deserdados da Terra, e destinará Aos tormentos do Inferno aqueles que, sob a égide da ímpia República, subverteram os sempiternos ritos da Tradição

Não tememos a morte, pois já estamos mortos; combatemos no Tempo, mas Vivemos na Eternidade. É a ressurreição dos Heróis, a revolta do Coração contra a Ditadura da Razão, que humilhará a ciência dos ‘civilizados’, arrojará Fogo sobre a Terra e submeterá os que não têm sede alguma de realização espiritual

A GUERRA, derradeira oportunidade para o homem contemporâneo, ser avesso ao Substrato transcendente que lastreia seus mais atávicos alicerces, elevar-se à Olímpica esfera das virtudes do Guerreiro Santo, para quem o combate tem Sua Recompensa em si mesmo, ‘inda que não coroado pela vitória

Dimensão cósmica que se projeta na ETERNIDADE, onde triunfaremos sobre os Sicários do 'Reino da Quantidade', sombras voláteis e fugidias do ‘Agora’, Submetidas ao fluxo errático e transitório do TEMPO, pois, como reza venerável saga dos augustos filhos de Oðinn, “a fidelidade é mais forte do que o fogo”

Imbuir-se d'uma disposição d’alma que envolve, em última instância, a Fome do Absoluto; o esquecimento de si mesmo no ‘Vale do Aniquilamento’; precipitar-se No turbilhão flamejante das paixões Revolucionárias; engajar-se nos horizontes da Revolta messiânica além do inconsciente cósmico

Antônio Conselheiro içou âncora, enfunaram-se as velas, fez-se ao mar... Resignado A matar e a morrer, o admirável coração tranqüilo, a espada violenta, singrando Vasto Oceano, onde a Lux Aeterna se desintegra em reflexos crepusculares... Pois "Navegar é Preciso", mesmo sendo árduo o périplo, incerto o fado...

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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

quinta-feira, abril 01, 2010

A propósito das idéias políticas de Ruhollah Khomeini

Alphonse van Worden - 1750 AD






Áticos irmãos d’armas:

Gostaria de vos falar hoje a respeito de um dos líderes revolucionários mais insignes e importantes da última centúria: o Ayatollah Sayyid Ruhollah Musavi Khomeini (1902 - 1989), líder espiritual e político da Revolução Islâmica iraniana de 1979.

Figura controvertida, cujo legado histórico é sistemática e continuamente vilipendiado pela mídia mainstream no Ocidente, é mister que possamos, antes de qualquer coisa, compreender as profundas motivações que levaram Khomeini a se engajar no universo da política, bem como as profundas implicações do processo revolucionário islâmico para a nação persa. Tal é o móvel, vale dizer, das breves considerações que se seguem.

A meu juízo, a Revolução Islâmica salvou o Irã não apenas da tenebrosa ditadura de Reza Pahlevi, mas, sobretudo, d'algo infinitamente pior: o mergulho no báratro da desagregação espiritual e cultural d'uma civilização milenar. Pahlevi estava simplesmente DESTRUINDO a própria essência primordial da nação iraniana, assim como antes, por exemplo, Kemal Atatürk arrasara séculos de tradição otomana na Turquia; destarte, a Revolução Islâmica não apenas 'resgatou' política e socialmente o Irã, mas efetivamente RESSUSCITOU a alma de toda uma nação.

Sobre o exercício do governo pela casta sacerdotal, há que ter em mente algo crucial: mesmo no âmbito do xiismo, onde o clero sempre teve uma atuação pública mais significativa que entre os sunitas, o modelo de governo consagrado pela tradição não preconiza que a administração fique DIRETAMENTE a cargo dos clérigos. Não obstante, Khomeini teve o descortino, a ousadia e, o que é mais importante, o DESPRENDIMENTO em compreender que, no contexto que o país atravessava, era necessário romper com a ortodoxia.

Assim sendo, em lugar de permanecer alheio às buliçosas lides do mundo, como sempre fora de seu talante desde a mocidade, consagrado a uma contemplativa existência de estudo e meditação, Khomeini teve a coragem e a generosidade de engajar-se no terrível universo da luta política para salvar sua pátria, logrando ainda convencer outros clérigos de que chegara o momento da renúncia, da abnegação, da santa resignação, enfim, em tomar parte das vicissitudes e sacrifícios envolvidos na conturbada esfera da ação política.

Há também que salientar que tão somente a inquestionável liderança de Khomeini poderia ser capaz de galvanizar as massas para a implementação do ousado e ambicioso programa revolucionário, que envolve toda uma nova concepção de democracia, tal como podemos perceber através de uma das mais significativas passagens da obra do venerável Marja al-taqlid:


“Um governo islâmico não pode ser totalitário ou despótico, mas sim de natureza democrática e constitucional. Todavia, no modelo de democracia em tela, as leis não são formuladas a partir da vontade popular, mas sim a partir dos princípios do Qu’ran e da Sunnah. Destarte, a constituição, bem como o código civil e o criminal, devem ser tão somente inspirados pelas leis islâmicas presentes no Q’uran e transcritas pelo Profeta. O regime islâmico é o governo do direito divino, e suas leis não podem ser modificadas ou contestadas. (...)“Em qualquer governo islâmico legítimo, os poderes legislativo, executivo e judiciário são substituídos por um Conselho Religioso de Planejamento. O Conselho mantém cada órgão administrativo informado a propósito das leis islâmicas que lhe concernem, garantindo que as políticas públicas a serem implementadas estejam de acordo com a lei religiosa; e a partir da totalidade de tais iniciativas, é estabelecida a orientação política geral para todo o país.” (...) “O governo islâmico, portanto, está submetido às leis do Islã, que não são provenientes nem do povo nem tampouco de representantes, mas diretamente de Allah e Sua vontade divina. A legislação corânica, que nada mais é que a própria lei divina, constitui a essência primordial de qualquer regime islâmico, a autoridade suprema que governa todos os cidadãos sob sua jurisdição. O Profeta, os Califas e toda a ummah devem obediência absoluta às leis eternas do Todo-Poderoso, que permanecem inalteráveis até o final dos Tempos, e são transmitidas aos mortais por intermédio do Qu’ran e do Profeta.”


O excerto em tela envolve, a meu ver, três questões de cunho fundamental:

Em primeiro lugar, o facto de que o modelo implementado pela República Islâmica do Irã representa uma alternativa soberana e democrática para toda a região. Afinal, conquanto não seja uma ‘democracia representativa’ tout court, vale dizer, meramente em termos de formalismo jurídico-institucional, o Irã é uma legítima democracia de massas, onde as instituições e instâncias governantes emanam da religião professada pela quase totalidade de seus cidadãos, que subscrevem amplamente um sistema político, social e econômico derivado das formulações legais da Shariah. E hoje, 30 anos após o triunfo da Revolução Islâmica, o legado de Khomeini permanece incólume: o sábio Ayatollah Khamenei, bem como os demais clérigos do Conselho dos Guardiães e da Assembléia dos Estudiosos, governam o país plenamente imbuídos do mesmos ideais acalentados por Khomeini.

A passagem supracitada também ilustra, de maneira cabal, que um homem plena e visceralmente convicto da Verdade suprema das Leis Eternas, não se importa com o vozerio fátuo e volúvel das multidões, pois ele detém o Caminho, enquanto todos os demais, de orgulhosa insensatez e falsas 'certezas' prenhes, em verdade vagueiam perdidos por um orco de trevas; trata-se d'um modo de pensar que não se faz presente apenas no universo islâmico, mas que também reverbera n'outras formações culturais, tal como nos relembra a esplêndida máxima lavrada por Santo Atanásio de Alexandria (295 - 373), bispo de Alexandria reverenciado como santo tanto por católicos quanto ortodoxos: “Se o mundo estiver contra a verdade, então Atanásio estará contra o mundo!”

Por fim, o ínclito patriarca da Revolução Islâmica demonstra à perfeição que é lícito e oportuno buscar uma pratica política que assome do próprio âmago da consciência religiosa; ou, melhor dizendo, um impulso de transformação social, cultural e espiritual que nasça não da razão política, mas dos postulados transcendentes da fé, que faça da religião um agir político, e do agir político uma religião. Portanto, a despeito de quaisquer dissensões de âmbito teológico e doutrinário (que são múltiplas e inexoráveis, seria  negá-lo), creio, por exemplo, que a Igreja deveria estudar atentamente o eloqüente exemplo da Revolução Islâmica iraniana: com efeito, a liderança de Khomeini, a um só tempo demonstrando extrema sagacidade e fidelidade aos cânones de sua religião, não somente canalizou politicamente o Islã para fazer a revolução iraniana, ou seja, fez uso da religião para agir politicamente, mas outrossim lançou mão da política para atuar religiosamente em prol da regeneração espiritual e moral de seu país.

Pensamentos de William Faulkner



Sobre a arte do escritor

Um escritor é uma criatura arrastada por demônios. Não sabe por que o escolheram, e normalmente está ocupado demais para se perguntar isso. É totalmente amoral, pois irá roubar, mendigar, pedir emprestado ou furtar de quem quer que seja para ver seu trabalho realizado. A única responsabilidade do escritor é para com sua arte. Será inteiramente desapiedado se for um bom escritor. Tem um sonho. Isso o angustia tanto que ele tem que se livrar dele. Não tem paz até então. O resto vai por água abaixo: honra, orgulho, decência, segurança, felicidade, tudo. Para que o livro seja escrito. Se um escritor tiver que roubar a sua mãe, não hesitará; a “Ode a uma urna grega” (John Keats) vale mais do que qualquer punhado de velhas.


Sobre o melhor ambiente / emprego para um escritor

O melhor emprego que já me foi oferecido foi o de zelador de um bordel. Na minha opinião, é o ambiente perfeito para um artista trabalhar; (...) tem um teto seguro e nada para fazer, senão cuidar de umas poucas contas e ir uma vez por mês pagar à polícia local. O lugar é quieto de manhã, que é a melhor hora para se trabalhar. Há bastante vida social à noite, se ele quiser participar para não se aborrecer; (...) todos os moradores da casa são mulheres, que o acatariam e o chamariam de ‘doutor’. Todos os contrabandistas de bebida da região também o chamariam de ‘doutor’. E ele poderia tratar os policiais pelo primeiro nome.


Sobre o trabalho

Na minha opinião é uma vergonha que haja tanto trabalho no mundo. Uma das coisas mais tristes é que a única coisa que um homem pode fazer oito horas por dia, dia após dia, é trabalhar. Não se pode comer oito horas por dia, nem beber oito horas por dia, nem fazer amor oito horas por dia – tudo o que se pode fazer durante oito horas é trabalhar. É esse o motivo pelo qual o homem torna, a si e a todos os demais, infelizes e miseráveis.


Sobre a subvenção oficial à cultura

Eu nunca soube que algo bom em literatura tivesse se originado da aceitação de uma oferta gratuita em dinheiro. O bom escritor nunca pede auxílio a uma instituição cultural. Está ocupado demais escrevendo alguma coisa. Se não é um escritor de primeira classe, ilude-se dizendo que não tem tempo ou liberdade econômica. Pode surgir arte boa de assaltantes, contrabandistas ou ladrões de cavalo. As pessoas na verdade têm medo de descobrir que podem suportar muita adversidade e pobreza. Têm medo de descobrir que são mais resistentes do que pensam. Nada pode destruir o bom escritor. (...) Se um homem não é um escritor de primeira classe, então não há nada que possa ajudá-lo muito, porque aí já vendeu sua alma por uma piscina.


Sobre o sucesso

O sucesso é feminino, é como uma mulher; se você se curva diante dela, ela passa por cima de você. Então o jeito de tratá-la é dar-lhe as costas da mão. Aí, talvez, ela venha a rastejar.


Sobre a relação crítica literária / escritor

O artista está um degrau acima do crítico, pois está escrevendo alguma coisa que porá o crítico em movimento. O crítico está escrevendo alguma coisa que porá todo o mundo em movimento, menos o artista.


Sobre a psicanálise

Todo mundo falava de Freud quando eu vivia em Nova Orleans, mas nunca o li. Nem Shakespeare o leu. Duvido que Melville o tenha lido, e tenho certeza de que Moby Dick não o fez.


Sobre a questão racial nos EUA (especificamente a partir do célebre ‘caso Emmet Till’)

Se nós, americanos, sobrevivermos, será porque escolhemos, elegemos e defendemos ser antes de tudo americanos; apresentar ao mundo uma frente homogênea e inquebrantável, seja de americanos brancos ou negros, roxos, azuis ou verdes. Talvez a finalidade desse triste e trágico erro, cometido por dois brancos adultos contra uma sofrida criança negra, seja provar se merecemos ou não sobreviver. Porque se nós, na América, chegamos ao ponto, na nossa desesperada cultura, de assassinar crianças, seja por qual razão ou cor, não merecemos sobreviver, e provavelmente não sobreviveremos.


Sobre pessoas que alegam não entender seus livros, mesmo após os lerem duas ou três vezes

Que leiam quatro vezes.


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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

domingo, março 21, 2010

Galeria de Espelhos




(d’aprés Spiegelsaal  / Kraftwerk)


"Ela olha para ela em vez de olhar para ti, e por isso não te conhece. Durante as duas ou três pequenas explosões de paixão que ela se permitiu a teu favor, ela, por um grande esforço de imaginação, viu em ti o herói dos seus sonhos, e não tu mesmo como realmente és."

Stendhal  / Le Rouge et le Noir (O Vermelho e o Negro - 1830)

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Por longos corredores de metal
A jovem enfim chegou à Galeria de Espelhos
E tornou-se uma projeção de tempos idos

Até as maiores estrelas se descobrem em espelhos


Sua verdadeira face fragmentou-se
Naquele labirinto de luzes glaciais
Estilhaços de memórias ancestrais

Até as maiores estrelas encontram sua face em espelhos


Ela apaixonou-se por seu próprio reflexo
Refratado naquele frio oceano de cristal
Até perder-se por completo de si mesma

Até as maiores estrelas se detestam nos espelhos


Então recriou-se como personagem de si mesma
Personalidade nova, nova identidade
Sem passado, sem memórias

Até as maiores estrelas se transformam em espelhos


A moça agora pertence aos espelhos
Que reverberam eternamente o espectro
Daquela que já não sabe quem foi

Até as maiores estrelas vivem encerradas em espelhos






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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

segunda-feira, março 01, 2010

Breve nota sobre a questão do ‘Guerreiro Santo’ no âmbito do pensamento de Yamamoto Tsunetomo

Alphonse van Worden - 1750 AD





No ensaio de minha lavra a propósito do pensamento de Sheykh Osamma Bin Laden (disponível neste espaço), mencionei, a respeito do arquétipo do 'Guerreiro Santo', bem como à guisa de exemplo da convergência entre as diversas esferas da Tradição, a figura do monge zen e bushi japonês Yamamoto Tsunetomo (1659 - 1719).

Muito bem: trata-se do autor do célebre Hagakure (1710), obra que expõe os preceitos do Bushidō, o código de honra samurai. E logo à partida, Tsunetomo nos oferece se calhar a mais sublime definição do arquétipo em tela, cujos traços essenciais reverberam nos '10.000 imortais' de Xerxes; no janízaro otomano; no kṣhatriya védico; nos hashasheen de Al Alamut; no cruzado cristão, etc.:


"Descobri que a Via do Samurai reside na morte. Numa situação de crise, quando as possibilidades de viver ou morrer são iguais, devemos optar pela morte; é necessário, para tanto, munir-se de coragem e agir. Há quem diga que morrer sem ter levado a bom termo sua missão significa morrer em vão. Trata-se do argumento advogado pelos mercadores arrogantes que enxameiam por Osaka; na verdade, contudo, não passa d’uma contrafação simiesca da ética dos samurais.

É muito difícil fazer uma escolha criteriosa num contexto onde as possibilidades de viver ou morrer são equivalentes. Todos nós preferimos viver, e é natural que o ser humano sempre acabe encontrando boas razões para seguir vivendo. Todavia, aquele que escolhe continuar vivo após ter fracassado em sua missão será desprezado, a um só tempo qualificado como covarde e vil. Aquele que, por outro lado, morre após ter falhado, pode ser até considerado um fanático que desperdiçou sua vida; não obstante, não será desonrado. Tal é a Via do Samurai.

Para ser um samurai perfeito, é mister estar sempre preparado para morrer. Quando um samurai está permanentemente disposto a morrer, logrou alcançar mestria na Via, e assim pode dedicar-se, sem cessar, ao pleno exercício de seus deveres."


N’outra passagem, o autor enfatiza, em termos análogos, a atitude adequada de um guerreiro:


"Todos os dias, sem falta, devemos nos considerar mortos. Existe um ditado dos antigos: ‘Saia de baixo do beiral do telhado, e você é um homem morto. Saia pelo portão e o inimigo está esperando’. Não é questão de ser cuidadoso. É considerar-se morto de antemão."


Alguns meses antes de ler o Hagakure, por acaso estive a investigar um livro assaz interessante (Zen War Stories, Brian Daizen Victoria, Routledge-Curzon, 2003), onde é abordada a profunda relação existente entre algumas doutrinas do zen-budismo e o militarismo japonês. O autor adota um  risível tom de 'denúncia' no tocante à questão, mas o que de facto importa no livro é a descrição, sucinta e informativa, a propósito da peculiar 'ética guerreira' que emerge dos ensinamentos zen-budismo, ethos aliás comum a todas as sociedades 'tradicionais' (empregando aqui o termo 'tradicional' em sua acepção de ‘anti-moderno’):


"Muitos dos soldados na presente guerra estão de tal modo determinados a morrer no campo de batalha, que conduzem seus próprios funerais públicos antes de partir para o front. Isto não comporta nenhum elemento de ridículo para os japoneses. Pelo contrário, é admirado como espírito do verdadeiro samurai, que segue para a batalha sem nenhum pensamento de retornar."


Conforme já tivemos a oportunidade de frisar n’outras ocasiões, tal é, atravessando incólume o manar dos séculos, a atitude do verdadeiro guerreiro, do autêntico kshatriya, homem para quem a guerra é um veículo de realização espiritual; uma esfera à parte, que vai muito além das causas e circunstâncias que condicionam cada conflagração em particular; dimensão cósmica, pois, que se projeta na Eternidade, onde os ‘guerreiros santos’ não podem ser derrotados pelos escravos do ‘Reino da Matéria’, da névoa fátua e efêmera do AGORA, submetidos que estão ao fluxo errático e transitório do Tempo.

Trata-se d’algo que o pragmatismo ocidental, pejado de confiança irrestrita no domínio da técnica sobre a vontade, no primado da superioridade tecnológica em detrimento da força inerente a uma convicção espiritual arcana, jamais logrará compreender. Olvidaram-se, pois, de prestar atenção aos que, lucidamente, e já há muitos lustros, denunciaram a insensata prepotência de tal visão de mundo:


"A energia que de fato molda o mundo emana das emoções - orgulho racial, culto a líderes, crença religiosa, amor à guerra - que os intelectuais liberais descartam como anacronismos e que, em geral, destruíram por completo em si mesmos a ponto de terem perdido todo o poder de ação."

(George Orwell - Wells, Hitler and the World State - 1941)



Cormac McCarthy: um profeta em nosso tempo




Diletos irmãos d'armas:

Após ler e reler o magistral romance The Road, do norte-americano Cormac McCarthy, senti que deveria,  enfatizar a importância que esse livro assume, creio eu, como obra de cunho profundamente cristão.

O enredo é simples, d'uma simplicidade quase franciscana, de maneira que a sinopse apresentada pela editora da versão em português o resume perfeitamente:

Num futuro não muito distante, o planeta encontra-se totalmente devastado. As cidades foram transformadas em ruínas e pó, as florestas se transformaram em cinzas, os céus ficaram turvos com a fuligem e os mares se tornaram estéreis. Os poucos sobreviventes vagam em bandos. Um homem e seu filho não possuem praticamente nada. Apenas uns cobertores puídos, um carrinho de compras com poucos alimentos e um revólver com algumas balas, para se defender de grupos de assassinos. Estão em farrapos e com os rostos cobertos por panos para se proteger da fuligem que preenche o ar e recobre a paisagem. Eles buscam a salvação e tentam fugir do frio, sem saber, no entanto, o que encontrarão no final da viagem. Essa jornada é a única coisa que pode mantê-los unidos, que pode lhes dar um pouco de força para continuar a sobreviver.

Muito bem: nunca antes li qualquer texto (Apocalipse incluso) que me transmitisse, de modo tão intenso e arrebatador, a um só tempo, o lancinante desespero experienciado pelo Homem num 'mundo sem Deus', por lado e, por outro, a presença do Criador como única salvaguarda para a Humanidade.

A obsessão do pai é proteger a vida de seu filho numa apocalíptica 'Waste Land' de ruínas, restos de árvores calcinadas, frio glacial e atmosfera poluída, um cenário de pesadelo também percorrido por luciferinos bandos de assassinos e canibais.

Não obstante, à medida que prosseguimos na leitura, percebemos que não interessa ao pai apenas velar pela sobrevivência física de seu filho, mas também lutar pela integridade de sua alma. E é então que percebemos que a obra  ultrapassa seu escopo meramente ficcional e se converte em veículo para a TRANSCENDÊNCIA.

Podemos, de certo modo, supor que, ao fim e ao cabo, todos os 'sobreviventes' da catástrofe que se abateu sobre o planeta já estão 'mortos', e que, na verdade, são espectros a vagar pelo "Reino crepuscular da Morte", como diria TS Eliot. Não obstante, se mortos estão, ainda não foram julgados...; destarte, The Road revela-se como alegoria sobre a grande tribulação que precede o Juízo. E a grande missão do pai, seu DEVER SAGRADO, é preservar, através da dignidade e inocência inerentes à alma infantil, a própria Palavra de Deus, o sumo sentido de Sua bondade e amor, num mundo onde tudo mais se desintegrou.

Enfim, confrades: recomendo-vos expressamente a leitura desse livro. Trata-se d'uma EPIFANIA.

O autor foi oficial da Força Aérea Norte-Americana, depois graduou-se em Artes e então iniciou carreira como escritor. Tem 74 anos de idade, e consta ser um homem muito recluso. Dele li , além The Road, os romances Blood Meridian, or the Evening Redness in the West e Cities of the Plain.

Blood Meridian e Cities of the Plain poderiam ser definidos como 'westerns gótico-apocalípticos', apresentando uma visão extremamente sombria, desolada e violenta a propósito da condição humana. Blood Meridian, sobretudo, malgrado seja um livro particularmente brutal e sinistro, tem um cariz metafísico muito intenso, o que me levaria, a esse respeito, a se calhar compará-lo a uma obra como Moby Dick, ou seja, um vasto e ambicioso painel alegórico da revolta do Homem desesperado contra Deus e a Criação.

Em The Road, contudo, penso que há uma transformação emblemática no ethos de McCarthy, que celebra a capacidade do ser humano, apesar de toda a destruição e horror à sua volta, de tornar-se custódio da Palavra de Deus.

Um aspecto a ser destacado é a riqueza estilística do autor, que se serve generosamente de todos os recursos disponíveis em seu idioma. É capaz de elaborar metáforas complexas e surpreendentes e, em muitas passagens, o tom grave, majestoso, solene de sua escrita remete à King James Bible, que talvez seja até hoje o mais belo exemplo de prosa em língua inglesa.

É um escritor de difícil leitura no original, vale frisar ; não obstante, para os que tiverem um bom domínio do idioma inglês, vale à pena encarar o desafio, pois McCarthy é indubitavelmente um mestre em sua arte.





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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Ahmadinejad decreta fim do primado das 'Grandes Potências'

Alphonse van Worden - 1750 AD




O presidente do Irão, Mahmoud Ahmadinejad, acusou hoje o chefe de Estado norte-americano, Barack Obama, de seguir as mesmas políticas do seu antecessor, George W. Bush, e salientou que a era do capitalismo e do domínio das grandes potências chegou ao fim.

Ahmadinejad foi aclamado na emblemática Praça Azadi, onde pronunciou um discurso incendiário e de carácter nacionalista por ocasião dos 31 anos da revolução que derrubou do poder o último xá da Pérsia, Mohamad Reza Pahlevi.

«Há uma opinião que afirma que Obama pôs uma máscara, mas, na verdade, segue as mesmas políticas que Bush. Nós não desejaríamos que isto fosse verdade», afirmou.

As palavras de Ahmadinejad foram respondidas com gritos de «Morte aos Estados Unidos» e «Morte a Israel». A multidão presente também agitava bandeiras do Irão e retratos do fundador da República Islâmica, o ayatollah Ruhollah Khomeini, e do actual líder religiosos, o ayatollah Ali Khamenei.

Ahmadinejad ainda acusou Obama de trabalhar a favor dos interesses de Israel e cobrou-lhe as «verdadeiras mudanças de que falou».

O presidente do Irã retomou seu tom desafiador e anunciou que seu país tem capacidade para enriquecer urânio até 80%, mas que por enquanto não está interessado em chegar a esse nível e que não procura ter armas nucleares.

"Quando dizemos que não estamos fabricando a bomba, estamos falando sério. Se quiséssemos fazê-lo, anunciaríamos", ressaltou.


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O indômito presidente da República Islâmica do Irã, Mahmud Ahmadinejad, uma vez mais indicou a senda a ser palmilhada por todos nós, irmãos d'armas na guerra contra o imperialismo talassocrático-sionista: é mister demonstrar, como outrora o fez o Grande Timoneiro, que as 'Grandes Potências' ocidentais são 'TIGRES DE PAPEL', e que nada podem fazer contra os que, de indelével convicção embutidos 'combatem o bom combate' sob a égide do Altíssimo.


VIVA A GLORIA REPÚBLICA ISLÂMICA DO IRÃ NO TRIGÉSIMO-PRIMEIRO ANIVERSÁRIO DA SACROSSANTA REVOLUÇÃO LIDERADA POR RUHOLLAH KHOMEINI!


VIVA O ÍNCLITO LÍDER SUPREMO, AYATULLAH ALI KHAMENEI!


MORTE AO GRANDE SATÃ E SEUS LACAIOS!



segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Apontamentos sobre a filosofia britânica III - O Problema da Indução em John Locke

Alphonse van Worden - 1750 AD






Podemos de sobejo verificar que a questão em pauta, ainda que numa abordagem inicial e preliminar, já pode ser encontrada na filosofia do inglês John Locke (1632-1704), que em seu Essay Concerning Human Understanding (1690), percebeu a existência do problema da indução, ou melhor, de um problema da indução, já que as dificuldades envolvendo o conhecimento das proposições universais sobre o mundo assumem contornos próprios em cada sistema epistemológico. A preocupação central de Locke no Essay talvez seja a de determinar os limites do conhecimento, e tais proposições ocupam um lugar de destaque nessa investigação, pois, como salienta o filósofo, as verdades gerais, sendo as mais ambicionadas pelo entendimento humano, são também aquelas com maior capacidade de expandir nosso conhecimento.

Embora usualmente se reconheça que Locke lançou as bases do empirismo moderno, a relevância de suas contribuições epistemológicas não tem sido adequadamente reconhecida; a ausência, pois, de referências a Locke na volumosa literatura sobre a indução é um exemplo desta falha.

No livro I do Essay, Locke apresenta uma argumentação cerrada contra a doutrina do conhecimento inato e, a partir do livro II, desenvolve sua teoria positiva sobre as origens e a extensão do conhecimento. Locke advoga o princípio de que todas as nossas idéias, isto é, “quaisquer que sejam as verdades que a razão possa com segurança nos revelar” (Livro I, cap.I, 8), provêm, em última instância, da 'experiência', em suas modalidades de sensação e reflexão. Sendo todo conhecimento humano estruturado a partir de 'idéias', Locke acredita estabelecer assim que todo o conhecimento provém, em última instância, da experiência. As idéias diretamente fornecidas pela sensação e pela reflexão Locke denomina 'idéias simples':


(...) não há nada que possa ser mais evidente para um homem
do que a percepção clara e distinta que possui acerca destas
idéias simples; as quais, sendo em si mesmas indivisíveis,
nada contêm em si senão uma aparência ou concepção
uniformes na mente, e não distinguíveis em idéias diferentes.
A mente não as pode criar ou destruir. Estas idéias simples,
que são o material constitutivo de todo nosso conhecimento,
são sugeridas ou fornecidas à mente tão somente pelas duas
vias acima mencionadas: sensação e reflexão.


'Idéias simples' podem ser conjugadas na mente de modo a originarem novas idéias, as 'idéias complexas'; tais idéias, por sua vez, são formadas por 'combinação', 'comparação' e 'abstração', podendo constituir-se como idéias de 'modo', de 'substâncias' e de 'relação'. Observemos agora como Locke irá definir estes três tipos de idéia:


Idéias de modo. Em primeiro lugar, denomino modos as idéias
que, apesar de compostas, não contêm em si a suposição
da possibilidade de subsistirem por si mesmas, mas são
são consideradas dependentes ou atributos de substâncias,
tais como as idéias expressas através das palavras triângulo,
gratidão, assassinato, etc. (...)

Idéias de substâncias, singulares e coletivas. (...) as idéias de
substâncias consistem em combinações de idéias simples de
maneira a representar distintas coisas particulares que
subsistem por si mesmas, onde a suposta ou confusa idéia de
substância, tal como se constitui, é sempre a primeira e a
principal. (...)

Idéias de relação. (...) o último tipo de idéias complexas
é o que chamamos de Relação, que consiste na
consideração e comparação de uma idéia com outra.


Idéias tais como 'mesa', 'água', 'homem', 'Deus', 'alma' são exemplos de idéias de substâncias; por sua vez, idéias como as de 'causa e efeito', 'semelhança', 'proporcionalidade' constituem exemplos do que Locke denomina idéias de relação

A despeito da grande variedade de seus múltiplos e intricados esquemas de classificação, ao longo das edições do Essay e mesmo em diferentes partes de uma mesma edição, as idéias de modo e de relação não aportam problemas significativos para Locke; as idéias de substâncias, no entanto, envolvem o filósofo inglês em algumas dificuldades: ao mesmo tempo em que reconhece que não temos qualquer idéia clara e distinta de substância em geral, não consegue desvencilhar-se completamente dessa noção metafísica. Ao longo do livro, torna-se patente a constatação de que Locke, mesmo reconhecendo seu caráter obscuro, necessita da idéia de substância para sustentar sua perspectiva. Vejamos alguns trechos do capítulo XXIII do livro II, que trata especialmente dessa idéia (parágrafos 2 e 3):


De modo que se alguém se examinar acerca da noção que possui
de substância em geral, descobrirá que não tem outra idéia dela,
à exceção da suposição de não saber o que sustenta as qualidades
capazes de produzir idéias simples em nós, comumente denominadas
acidentes(...).

Sendo assim, constituída uma idéia obscura e relativa de substância
em geral, passamos a ter idéias dos tipos particulares de substâncias,
apreendendo estas composições de idéias simples descobertas pela
experiência e observação dos sentidos humanos como existindo
unidas e, portanto, supostamente derivadas da constituição interna
particular ou essência desconhecida daquela substância. Desse modo,
passamos a ter as idéias de um homem, de um cavalo, do ouro, da água,
etc. Apelo à experiência própria de cada um para saber se alguém
possui uma idéia mais clara acerca de tais substâncias, além daquela de
certas idéias simples coexistindo juntas.


Para considerarmos o estatuto epistemológico das proposições universais na filosofia de Locke, é importante vermos brevemente como ele entendia as idéias 'gerais' ou 'abstratas'. Embora essa delicada questão seja abordada em diversos lugares no Essay, a passagem a seguir nos parece particularmente significativa no contexto da argumentação lockeana:


(...) Palavras tornam-se gerais quando são tomadas como signos de
idéias gerais; e idéias tornam-se gerais quando separamos delas as
circunstâncias de tempo e lugar, bem como quaisquer outras idéias
que possam determiná-las para esta ou aquela existência particular.
Por essa via de abstração tornam-se capazes de representar mais do
que um indivíduo.


O nominalismo que transparece nesse trecho é enfatizado logo em seguida. No parágrafo 11 do mesmo capítulo, por exemplo, Locke afirma que as noções de 'generalidade' e 'universalidade' não fazem parte da existência real das coisas, sendo tão somente expedientes do entendimento humano para uso próprio, referindo-se, portanto, apenas a signos que representam palavras ou idéias.

Ainda nesse mesmo cap. III, Locke introduz a distinção entre 'essência real' e 'essência nominal', concepção importante para, dentre outras coisas, a determinação da extensão do conhecimento das proposições universais sobre substâncias, conforme veremos mais adiante. A noção de 'essência real' corresponde à noção clássica de essência, tal como era formulada pela literatura filosófica existente na época de Locke, ou seja, "o ser de qualquer coisa pelo qual ela é o que é" (Cap. III, 15). Por sua vez, a noção de 'essência nominal' significa para Locke uma idéia abstrata referida por um termo geral, distinta da constituição real da essência, da qual, contudo, irá depender, assim como todas as suas propriedades. 'Essências nominais' são, pois, devemos salientar, criações da mente.

No caso de idéias simples e de modo, essências reais e nominais são coincidentes; em se tratando de substâncias, todavia, as essências nominais não coincidem com as reais, muito embora o desideratum da mente ao criá-las seja o de reproduzir a Natureza tão fielmente quanto possível. Uma cópia completa e perfeita é, porém, inatingível, já que exigiria o conhecimento das essências reais, isto é, das constituições reais das coisas, que se configuram como o fundamento de todas as propriedades que se combinam para formar sua essência nominal. Entretanto, sublinha Locke, isto não quer dizer que as essências reais das substâncias nos sejam completamente desconhecidas.

Passemos agora ao livro IV do Essay, intitulado Of Knowledge and Probability. Notemos preliminarmente que, para Locke, assim como para toda a filosofia moderna de um modo em geral, a certeza é condição necessária para o conhecimento. Logo no segundo parágrafo do primeiro capítulo desse livro encontramos a seguinte definição de conhecimento:


O conhecimento humano é a percepção da consonância ou
Dissonância entre duas idéias. Parece-me, pois, que o
conhecimento nada mais é que a percepção da conexão e
consonância, ou desconexão e dissonância entre quaisquer
de nossas idéias. Ele consiste somente nisso. Onde há essa
percepção, aí existe conhecimento; e onde não há, embora
possamos imaginar, supor ou crer, ficaremos sempre aquém
do conhecimento.


Caso Locke tivesse se limitado a essa definição estrita de conhecimento, acabaria forçosamente confinando-se à esfera das idéias, sem recurso à experiência. Assim sendo, amplia logo em seguida sua definição (Cap. I, 3 e 7), a fim de incluir aquilo que chama de "conhecimento de existência real", limitado à existência do eu, de Deus e das coisas materiais atualmente presentes aos sentidos.

Desse modo, o filósofo inglês propõe que há quatro tipos de consonância ou dissonância entre idéias: 1) 'identidade e diversidade'; 2) 'relação'; 3) 'coexistência, ou conexão necessária'; e 4) 'existência real'. No primeiro, “(...) a mente percebe por este meio, de modo claro e infalível, que cada idéia concorda consigo mesma, que ela é o que é, e que todas as idéias distintas discordam, isto é, que uma não é a outra” (Cap. I, 4). Lançando mão de exemplos dados pelo próprio Locke: 'branco não é vermelho, redondo não é quadrado'; o segundo consiste na percepção da relação entre duas idéias quaisquer, de qualquer tipo, seja de substâncias, de modos ou qualquer outro; o terceiro tipo de consonância/dissonância entre idéias, o de coexistência ou conexão necessária, se refere particularmente às idéias de substâncias, vale dizer, à ligação de uma idéia a idéia de uma determinada substância. A natureza dessa ligação não é inicialmente clara, o que se reflete no próprio modo ambíguo pelo qual Locke a denomina: conexão necessária sugere que se trata de uma ligação a priori entre as idéias, enquanto que coexistência não envolve necessariamente tal conotação. O exemplo emblemático de Locke para ilustrar o conhecimento por coexistência é a proposição 'o ouro é fixo (i.e. não se consome no fogo)', ao qual retornaremos mais adiante.

Passemos agora ao caso específico do conhecimento das proposições universais. Como vimos, excetuando-se o problemático conhecimento de existência real, conhecimento é, para Locke, a percepção da consonância ou dissonância entre idéias. Ele será universal se e somente se as idéias forem abstratas:


Pois aquilo que for conhecido acerca de tais idéias gerais será
verdadeiro com relação a toda coisa particular na qual aquela
essência, i.e. idéia abstrata, for encontrada. [...] De modo que
todo conhecimento geral terá de ser procurado e encontrado
apenas em nossas próprias mentes.


Além disso, no capítulo VI, Of Universal Propositions: their Truth and Certainty, o autor assevera, já no parágrafo 4, que “não podemos estar certos da verdade de nenhuma proposição geral, a menos que conheçamos os limites e a extensão precisos das espécies designadas por seus termos” (cap. VI, 4). Tal conhecimento pressupõe, pois, o conhecimento das essências dessas espécies.

No caso das idéias simples e de modo, em que as essências reais coincidem com as nominais, como já ressaltamos, as espécies podem ser conhecidas de maneira precisa e completa. A verdade das proposições universais a seu respeito poderá então ser claramente determinada, caso houver percepção de sua consonância ou dissonância. Enquadram-se nessa categoria as proposições gerais de identidade e diversidade de idéias simples, como, por exemplo, 'Tudo que é branco é branco', 'Nada que é quadrado é redondo', bem como as que se baseiam nas demais relações entre idéias, que não as de coexistência. Segundo Locke, estas últimas formam o espectro mais amplo de nosso conhecimento, e incluem, paradigmaticamente, as proposições da matemática. A extensão do conhecimento depende aqui de nossa capacidade de encontrar idéias intermediárias, que nos permitem conceber a relação entre as idéias em questão. Dificuldades aparecem, no entanto, quando consideramos as idéias de substâncias, “onde uma essência real distinta da nominal é suposta constituir, determinar e limitar as espécies” (Cap. VI, 4). Nenhuma proposição universal sobre uma substância poderá ser conhecida se uma referência à sua essência real for subentendida, “porque não conhecendo essa essência real, não podemos saber o que é, ou não é, daquela espécie e, conseqüentemente, o que pode ou não ser afirmado com certeza a seu respeito” (Ibid., 4). Em outras palavras: como não temos acesso às essências reais das substâncias, nunca poderemos perceber a conexão necessária ou coexistência de uma idéia com uma dada idéia de substância, quando estas se referirem às essências reais. Locke conclui: “Os nomes de substâncias, então, sempre que tomados para representar espécies que se supõem constituídas por essências reais (...) não são capazes de trazer certeza ao entendimento” (Cap. VI, 5).

Assim, para obtermos algum conhecimento geral sobre as substâncias, temos que nos referir exclusivamente às suas essências nominais, isto é, determinadas coleções de idéias que decidimos (motivados por observações) tomar como constitutivas de tais essências. Mas surge aqui outra dificuldade não menos séria:


Por outro lado, quando os nomes das substâncias forem usados
como devem ser, para [designar] as idéias que os homens têm em
suas mentes, não nos servirão para fazer muitas proposições
universais de cuja verdade possamos estar certos, embora, neste
caso, possuam significação clara e determinada; não porque nesse
seu uso estejamos incertos acerca de que coisas significam, mas
porque as idéias complexas que eles designam são combinações
de idéias simples tais que não trazem em si nenhuma conexão ou
repugnância que possa ser descoberta a não ser com muito poucas
outras idéias.


Vejamos agora como Locke fundamenta essa tese de que "a conexão entre a maioria das idéias simples é desconhecida" (Cap. III, 10). Há três casos a considerar:

Conexões entre idéias de qualidades primárias - essas são as únicas conexões de idéias simples que Locke considera concebíveis pela mente humana; todavia, vale dizer, em todo o Essay o filósofo inglês só nos fornece dois exemplos concretos de conexões conhecidas desse tipo:


Na verdade, algumas poucas qualidades primárias têm uma
dependência necessária e conexão visível umas com as
outras, como forma necessariamente supõe extensão; e a
capacidade de receber ou comunicar movimento supõe solidez.


Conexões entre idéias de qualidades primárias e secundárias - no que tange a estas, o filósofo inglês não apenas as considera desconhecidas, mas também incognoscíveis e inconcebíveis; entretanto, como na concepção de mundo adotada por Locke, todas as qualidades secundárias supostamente decorrem das qualidades primárias das partes diminutas e imperceptíveis dos corpos, o autor tem que admitir que essas conexões de fato existem, e as atribui “(...) à determinação arbitrária daquele Agente Todo-Sábio que as fez ser tais quais são (...) e de um modo totalmente acima da concepção de nossos fracos entendimentos" (Cap. III, 28).

Conexões entre idéias de qualidades secundárias - estas são a fortiori desconhecidas, incognoscíveis e inconcebíveis. Há aqui dois obstáculos intransponíveis para o conhecimento: 1) nossa falta de sentidos suficientemente aguçados para descobrir as propriedades primárias particulares das partes diminutas de cada tipo de corpo, que são a raiz de onde brotam suas qualidades secundárias; 2) nossa referida incapacidade de descobrir, e mesmo de conceber, as conexões entre qualidades primárias e secundárias, o que constitui um fator ainda mais irresgatável de ignorância. Portanto, “em todas as qualidades secundárias não podemos descobrir nenhuma conexão” (Cap. VI, 7), “exceto naquelas referentes a um mesmo sentido, que necessariamente se excluem umas às outras” (Cap. VI, 10).

Ilustremos agora a posição de Locke recorrendo a seu emblemático exemplo: a proposição 'O ouro é fixo'. Nunca podemos obter certeza sobre sua verdade, pois se a palavra ouro denotar uma espécie definida pela Natureza por meio de uma essência real, é evidente que, não conhecendo quais substâncias particulares pertencem a essa espécie (pois não temos qualquer idéia clara dessa essência real), não poderemos afirmar nada com certeza universal acerca do ouro. E, se por outro lado, ouro denotar uma espécie determinada por sua essência nominal, ou seja, a idéia complexa de um corpo possuidor de uma determinada cor amarela, e também maleável, fusível e pesado, as únicas qualidades que com certeza poderemos atribuir ao ouro são aquelas cujas idéias tenham uma conexão necessária (que possa ser descoberta) com as que formam essa essência nominal. Contudo, pelo que acima foi visto, isso só ocorre com as idéias referentes a um mesmo sentido; saberemos com certeza que a proposição 'Nenhum ouro é azul 'é verdadeira, por exemplo. Mas não sendo capazes de descobrir qualquer conexão necessária da idéia de fixidez com aquelas idéias, ou com o seu conjunto, nunca teremos certeza se o ouro é ou não fixo, a menos que modifiquemos a essência nominal do ouro, de modo a incluir a idéia de fixidez; nesse caso, porém, a proposição O ouro é fixo expressará uma verdade puramente verbal, que nada instrui sobre o mundo. E o problema, portanto, continuará se apresentando em relação às demais qualidades, como a solubilidade em aqua regia, a ductilidade, etc., e desse modo nunca poderá ser eliminado.

Concluímos que nosso conhecimento universal sobre substâncias é extremamente reduzido, incluindo apenas: 1) as proposições referentes aos poucos casos de conexão entre idéias de qualidades primárias que podem ser descobertas; 2) as proposições do tipo ‘Nenhum ouro é azul’; 3) aquelas a que Locke chama trifling, que nada acrescentam ao conhecimento das coisas, mas "apenas ensinam a significação das palavras" (Cap. VIII, 7). Observando exemplos fornecidos pelo auto, tais como 'O chumbo é um metal', 'Todo ouro é fusível', 'Todo homem é um animal', subentende-se, pois, que o que está sendo predicado dos sujeitos faz parte de suas essências nominais.

Ficam, assim, excluídas do âmbito do conhecimento praticamente todas as proposições universais instrutivas sobre o mundo exterior, tais como 'Todo homem será envenenado pela cicuta' ou 'Nenhum homem pode se nutrir de madeira ou de pedras' (Cap. VI, 15), e as leis científicas de tipo fenomenológico em geral. Essa importante conseqüência do empirismo de Locke entra em conflito com a visão epistemológica não apenas do Senso Comum, mas também da Ciência, que assumem que dispomos de meios para elevar nossa crença em proposições dessa classe ao estatuto de conhecimento, fornecendo-lhes alguma justificação segura.

Ao demonstrar que, em sua teoria epistemológica, a via de acesso para o conhecimento universal acerca de substâncias é uma via bloqueada, Locke trouxe à tona o Problema da Indução. Dada a importância das proposições gerais sobre o mundo na vida prática e na ciência, colocou-se a questão de que posição poderiam ocupar na escala epistêmica, destronadas que foram de seu estatuto de conhecimento certo. Salientemos aqui que, aparentemente, Hume beneficiou-se da análise de Locke, assumindo como ponto partida que o conhecimento dessas proposições não cai no âmbito das relações de idéias, para então se dedicar a mostrar que, enquanto expressão de questões de fato, também não são seguras. Podemos afirmar, todavia, que o próprio Locke iniciou as investigações desse ponto. Muito embora o papel primordial por ele atribuído à experiência seja o de fonte das idéias, o filósofo inglês admite que ela pode fornecer conhecimento direto de proposições particulares sobre substâncias, a saber, a coexistência de uma determinada idéia com uma idéia particular de substância: “A experiência tem de me ensinar aqui o que a razão não pode” ( Cap. XII, 9). Mas tal experiência não fornece certeza senão sobre o que já foi experimentado; jamais redunda em conhecimento universal, ou mesmo acerca de instâncias ainda não observadas. Saberemos, por exemplo, que este determinado pedaço de ouro mostrou-se fixo em tais e tais testes a que foi submetido; não podemos, no entanto, afirmar que se mostrará fixo em outros testes, e muito menos que 'todo' ouro é fixo. Vejamos algumas passagens importantes sobre esse assunto. Após reiterar que o conhecimento das substâncias oferecido pelo acordo ou desacordo entre as idéias é muitíssimo reduzido, Locke acrescenta:


Em todas essas investigações o nosso conhecimento vai muito
pouco além de nossa experiência. (...) Ficamos apenas com a
assistência de nossos sentidos para conhecer que qualidades as
substâncias contêm. (...) Pois essa coexistência não pode ser
conhecida além do que é percebida; e ela não pode ser percebida
a não ser em objetos particulares, pela observação de nossos
sentidos, ou, em objetos gerais (i.e, idéias abstratas), pela conexão
necessária das próprias idéias.


E no parágrafo 28 desse mesmo capítulo lemos:


Pois onde a conexão entre as idéias nos falte, somos cabalmente
incapazes de conhecimento universal e certo; e ficamos (...) apenas
com a observação e o experimento que, quão estreitos e confinados
são, quão distantes estão do conhecimento geral, não precisa ser
dito.


A incerteza sobre a próxima ocorrência de um fenômeno que vem se repetindo é exposta taxativamente na seguinte passagem:


Não podemos estar mais seguros sobre as propriedades e modos de
operação dos corpos do que alcançam uns poucos testes que fazemos.
Mas se eles darão certo de novo, não podemos ter certeza. Isso impede
nosso conhecimento certo de verdades universais sobre os corpos naturais.


A conseqüência, que Locke expõe com clareza, é a impossibilidade daquilo que chama de 'filosofia científica', ou uma 'ciência perfeita dos corpos':


Quanto às coisas em que, até onde nossa observação possa alcançar,
observamos de maneira constante ocorrer regularmente, podemos
concluir que agem por uma lei que as determina; contudo, por uma lei
que desconhecemos. Embora causas funcionem de modo estável, e
efeitos fluam delas de modo constante,suas conexões e dependências
não podendo ser descobertas em nossas idéias, só podemos ter um
conhecimento experimental a seu respeito.(...) Mas quanto a uma ciência perfeita dos corpos naturais (...) concluo ser esforço vão procurá-la.


Na investigação das razões da incerteza da extrapolação indutiva do conhecimento, Hume indubitavelmente vai mais longe que Locke, argumentando que todas as inferências sobre questões de fato fundam-se na relação de causa e efeito; que todas as inferências sobre essa relação fundam-se, a seu turno, na experiência; que em todos os raciocínios experimentais há um passo que não encontra suporte em nenhum argumento ou processo do entendimento a suposição de que o curso da Natureza continuará sempre o mesmo; e, finalmente, que a mente dá esse passo em virtude de um mero hábito.

No capítulo XII, Of the Improvement of our Knowledge, após expressar a suspeita de que “não se pode fazer da filosofia natural uma ciência” (Cap. XII, 10), Locke tenta tranqüilizar o Senso Comum e a Ciência, esclarecendo que não pretende “desprezar ou desencorajar o estudo da Natureza” (Cap. XII, 12), mas apenas advertir que não devemos esperar conhecimento onde ele não pode ser obtido. Não desejando que a falta de conhecimento dotado de certeza absoluta possa significar um estado de ignorância plena, Locke irá desenvolver, nos capítulos XIV, XV e XVI, estudos pioneiros sobre os graus de assentimento inferiores à certeza. Em sua análise das bases do assentimento, procura assegurar a certas leis naturais uma posição elevada na escala de confiabilidade epistêmica. No caso que aqui nos interessa mais de perto, sobre o “funcionamento regular de causas e efeitos no curso ordinário da Natureza”, por exemplo, se o assentimento geral de todos os homens em todas as épocas concordar com a nossa experiência constante e sem falhas, as “probabilidades se elevam tão próximo da certeza, que passam a governar os nossos pensamentos de modo tão absoluto, e a influenciar tão plenamente nossas ações como a demonstração mais evidente” (Cap. XVI, 6).

Faz-se mister reconhecer, sob o olhar privilegiado da filosofia contemporânea, que a proposta específica de Locke para o estabelecimento dos graus de probabilidade e assentimento padece de várias deficiências; em especial, é difícil discernir claramente se, para o filósofo inglês, o conceito de probabilidade é inteiramente subjetivo ou se reflete, em alguma medida, propriedades objetivas do mundo. De qualquer forma, o que aqui pretendemos sublinhar aqui é que, pelo menos no que tange ao “governo de nossos pensamentos”, à formação de nossas crenças, a experiência de regularidades tem, segundo Locke, uma influência determinante. No desenvolvimento da filosofia empirista por ele (re)inaugurada , caberá a David Hume a análise detalhada dessa influência e da própria noção de crença.

Uma questão que aqui não abordaremos extensivamente, mas que seria assaz pertinente numa análise mais acurada das teses de Locke quanto ao estatuto epistemológico das ciências naturais, é seu reconhecimento de que nem todas as leis dessas ciências devem ser entendidas como generalizações indutivas; parece-nos razoável atalhar que, nesse particular, Locke tenha antecipado algumas concepções recentes da Filosofia da Ciência. Para ele, o domínio das proposições que são apenas prováveis divide-se entre as que, tratando de 'questões de fato' e sob o escrutínio de nossa observação, “são capazes de serem testemunhadas pelos homens”, e as que versam “sobre coisas que, escapando à descoberta de nossos sentidos, não são capazes de tal testemunho” (Cap. XVI, 5). Neste último caso, teremos que formular hipóteses, em geral motivadas por analogias. Vejamos agora, apenas a título ilustrativo, estas interessantes considerações, presentes no parágrafo 13 do capítulo XII, a respeito do “verdadeiro uso de hipóteses”. Após haver alertado, no parágrafo anterior, que “devemos tomar cuidado com hipóteses e princípios errados”, Locke adita:


Não que não possamos, para explicar os fenômenos da Natureza, fazer uso de nenhuma hipótese provável qualquer que seja; hipóteses, se forem bem feitas, são pelo menos grandes auxiliares da memória, e freqüentemente direcionam-nos para novas descobertas. O que quero dizer, porém, é que não devemos adotar qualquer uma com demasiada pressa, (...) antes que tenhamos examinado muito bem os detalhes, feito vários experimentos com a coisa que queremos explicar com nossa hipótese, e verificado que ela concorda com todos eles; que os nossos princípios (i.e., hipóteses) nos hajam conduzido bem ao longo desses experimentos, e que não são inconsistentes com um fenômeno natural quando parecem acomodar e explicar outro. E que pelo menos tomemos cuidado para que o nome princípios não nos engane, nem se imponha sobre nós, fazendo-nos aceitar por uma verdade inquestionável o que na realidade é, quando muito, uma conjetura muito duvidosa, como é o caso da maioria das (e quase diria de todas as) hipóteses da filosofia natural.


Assim, Locke adverte contra a atribuição de um grau epistêmico demasiadamente elevado às hipóteses, ressalta sua função heurística, estabelece como condições de sua aceitação a sujeição a testes e a sua abrangência, destacando, por fim, a natureza conjetural das hipóteses da filosofia natural; concepções que, como veremos num momento ulterior de nossa dissertação, serão retomadas, ainda que sob perspectiva e abordagem distintas, por autores do porte dos alemães Hans Reichenbach (1891-1953) e Carl Gustav Hempel (1905-1997), dois pináculos da Filosofia da Ciência e da Lógica no século XX.

segunda-feira, janeiro 25, 2010

A propósito da Ordem Hermética da Estrela Solitária





* O presente artigo foi escrito a propósito da final do Campeonato Carioca de 2009, em partida ocorrida a 3 de maio; não obstante, como o ethos primordial do Glorioso jamais mudará, penso que não há problema em publicá-lo por aqui já há algum tempo após o sucedido.

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Hmmmm...

Senão vejamos: Flamengo 2 x 0 no primeiro tempo, com plena justiça, registre-se; voltamos para a etapa final e, logo no minuto inicial, o Botafogo tem uma penalidade máxima à sua disposição, naturalmente desperdiçada, ça va sans dire...; não obstante, é óbvio que a coisa não seria assim tão simples: com dois tentos em seqüência, aos 16 e 18 minutos, empatamos o prélio. Escusado sublinhar que, caso estivéssemos a falar dum scratch 'normal', na verdade já deveríamos estar em vantagem, com 3 x 2 no score.

Muito bem: logo por ocasião do empate, dois cenários de imediato delinearam-se em minha mente:


a) 'levaremos o terceiro gol aos 48, 49 minutos do segundo tempo, por ocasião d'um tiro de canto, onde a bola, após uma despretensiosa rebatida do adversário, ricocheteará numa das traves; depois nas costas de nosso arqueiro; e, por fim, rolará suave, graciosa e caprichosamente para o fundo da meta';

b) 'caso a hipótese a) não se concretize, decerto perderemos a disputa de tiros livres da marca do penalty, de preferência consagrando o guarda-redes inimigo.'


E foi precisamente o que ocorreu, é claro.

Isto posto, excelsos irmãos d'armas, em verdade vos digo:

Estou plenamente convicto de que o Botafogo de Futebol e Regatas não é, na verdade, um clube de futebol; trata-se tão somente d'uma fachada, à guisa de encobrir a vera natureza da instituição: uma ordem hermética, uma sociedade arcana e secreta, cujo talante é exercitar os aspectos mais fatalistas e sombrios da índole dos kshatriya, a casta dos GUERREIROS na tradição védica.

O kshatriya é um homem para quem a guerra assume os contornos d'um veículo de realização espiritual; uma esfera que vai muito além das causas e circunstâncias que condicionam cada conflagração em particular, estabelecendo-se, pois, como dimensão cósmica, que se projeta na ETERNIDADE, sem preocupar-se com o fluxo errático e transitório do TEMPO.

Enfim, tal é o cruel, malgrado egrégio, fado da Estrela Solitária, como admiravelmente o sintetiza Gabriele d'Annunzio (ou se calhar Mussolini, há controvérsias):


O resultado da batalha tem, para nós, pouca importância. Para nós, o combate tem a sua recompensa em si mesmo, ainda que não seja coroado pela vitória ... Enquanto isso, navegar é preciso. Mesmo contra a maré. Mesmo contra o rebanho. Mesmo que o naufrágio espere os solitários e orgulhosos emissários de nossa heresia.

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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros



quarta-feira, dezembro 23, 2009

Se me permitis, insignes leitores, um sincero desabafo em tom turpiloqüente...




FODA-SE a Conferência de Copenhagen!

FODA-SE a consciência ecológica!

FODA-SE a preservação ambiental!

FODA-SE o desenvolvimento sustentável!

FODAM-SE os produtos ecologicamente 'corretos'!

FODAM-SE o Greenpeace, a PETA e todas essas malditas ONG's!

FODA-SE a Humanidade, espécie inelutavelmente fracassada e credora de toda danação!

FODA-SE, por fim, este planeta hediondo, que já deveria ter acabado há muito tempo!



Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

terça-feira, dezembro 01, 2009

Breve nota a propósito de Ernst Jünger

Alphonse van Worden - 1750 AD






Ao lado de autores como Carl Schmitt, Charles Maurras e Georges Sorel, assoma também a figura do pensador, escritor e militar alemão Ernst Jünger (1895 - 1998) como um dos elementos vitais tanto na superação definitiva d’uma cosmovisão ideológica que hodiernamente já não faz mais qualquer sentido – isto é, a clássica dicotomia entre ‘esquerda’ / ‘direita’; quanto, sobretudo, na formatação filosófica e política d’uma nova síntese dinâmica entre, de um lado, os valores da Tradição (honra, senso de dever, disciplina, abnegação, coragem e ascetismo) e, de outro, a constelação de perspectivas ideológicas, à ‘esquerda’ e à ‘direita’, cujo eixo de gravidade se estabelece a partir da rejeição radical tanto do liberalismo quanto do socialismo marxista.

Homem cujo pensamento não pode ser enquadrado em categorias estanques (consoante bem assinala nosso Otto Maria Carpeaux, a ideologia jüngeriana poderia ser descrita como um amálgama de “nacionalismo e cosmopolitismo estético, heroísmo e tecnocracia, violência física e nobreza d’alma, aristocratismo e neobarbarismo.”); testemunha privilegiada da vertiginosa miríade de transformações ocorridas durante sua longeva existência; bem como autor criativo, ousado e polêmico, cujo legado multifário assume um escopo veramente renascentista (com tomos abrangendo temas que vão de reflexões sobre a sociedade industrial à entomologia), não pretendemos traçar aqui um panorama abrangente do opus jüngeriano; tratar-se-ia, ademais, de empreitada para a qual ainda não estamos devidamente preparados, mas que, sem dúvida, tencionamos levar a cabo no futuro. Destarte, tão somente teceremos algumas considerações preliminares a propósito de uma das claves centrais do pensamento de Jünger: o extraordinário descortino que revelou ao perceber, já nos primeiros decênios do século XX, que a verdadeira subversão da ordem instaurada pelo Iluminismo tão somente poderia ser lograda pela convergência entre revolta romântica como fundamento espiritual, por um lado; e as conquistas tecnológicas da Modernidade como instrumento de ação, por outro.

Assim sendo, o escritor alemão advoga, a um só tempo, teses aparentemente antitéticas, tais como o primado d’uma ‘Aristocracia do Espírito’, que floresceria, em sua potência máxima de realização, encarnada nos arquétipos do Guerreiro, do Pensador e do Poeta; e a premente necessidade, de maneira a proteger a nação de qualquer ameaça externa, de um Estado de ‘Mobilização Total’ (Die Totale Mobilmachung - 1930) da sociedade industrial em prol de um esforço de guerra permanente.

A esse respeito, destaca-se, como emblemático exemplo inicial de sua capacidade de trabalhar a partir de diferentes linhas de fuga, na obra de Jünger o extraordinário In Stahlgewittern (Tempestades de Aço - primeira edição em 1920 / edição definitiva em 1961). O supracitado volume constitui tanto um relato de vigoroso e implacável realismo (e, ao mesmo tempo, pejado de êxtase delirante) sobre suas experiências como tenente do exército alemão na I Guerra Mundial, quanto um dionisíaco ensaio sobre a guerra como veículo de sublimação ascética e realização espiritual.

Jünger encara a experiência bélica, portanto, como derradeira oportunidade para o homem contemporâneo, ser avesso ao substrato mítico e religioso que lastreia seus alicerces históricos e culturais, livrar-se do pragmatismo medíocre e conformista, para então alçar-se à olímpica esfera das virtudes de um legítimo Kshatrya (o arquétipo védico do Guerreiro), para quem o combate tem sua recompensa em si mesmo, ainda que não seja coroado pela vitória; ou, em outras palavras: um homem para quem a guerra é uma esfera que vai muito além das causas e circunstâncias que condicionam cada conflagração em particular, estabelecendo-se, ao contrário, como dimensão cósmica que se projeta na ETERNIDADE, onde os autênticos kshatriya não podem ser derrotados pelos escravos do 'Reino da Quantidade' (Guenón), das sombras voláteis e fugidias do Agora, submetidos ao fluxo errático e transitório do TEMPO.

Para Jünger, portanto, mesmo que a vertiginosa evolução tecnológica da arte da guerra na modernidade acabe, ao fim e ao cabo, por minimizar a iniciativa individual do guerreiro, sua glória o projeta nos páramos da Eternidade. O mesmo acervo de idéias seria retomado mais tarde, vale dizer, n’outro texto do autor, o flamejante e exaltado ensaio Der Kampf Als Inneres Erlebnis (A Guerra como experiência interior - 1922), onde Jünger, à luz do Bhagavad Gita, reafirma sua concepção da guerra como transfiguração coletiva do conflito primordial entre o BEM e o MAL, dimensões presentes no espírito de cada ser humano e que, no âmbito em pauta, atingem seu mais elevado grau de depuração.






Frolic Froth: vertigens alucinógenas de 'Tarahumaras sônicos'




Ontem este vosso escriba estava a escutar o álbum Snailking , titânica obra-prima de psyched out heavy stoner space rock urdida pelos mestres piemonteses do Ufomammut, quando comecei a divagar sobre possíveis conexões estilísticas que poderiam ser estabelecidas fora d'um universo de referência mais óbvio (Electric Wizard, Yob, Neurosis, Kyuss).

Primeiramente vieram-me à mente os norte-americanos do Subarachnoid Space, e depois os suecos do Spacious Mind; não obstante, logo descartei tais hipóteses, pois ao grupo norte-americano falta o peso cataclísmico que caracteriza o Ufomammut e, aos suecos, a atmosfera de estupefaciente paranóia. Eis então que, de súbito, me ocorreu à mente a formação mexicana Frolic Froth, e ao revisitar seu disco de estréia, Eponymous (1996), confirmou-se minha intuição: se Ufomammut é 'Electric Wizard on acid meets a martian Neurosis in the 'no man's land' of sonic neverness' , Frolic Froth é a variante psych avant kraut de tal cópula bestial, estraçalhando cérebros desavisados com catadupas de lisergia guitarrística e avalanches de magma percussivo.

Por mais que a globalização tenha nos habituado a estes curiosos fenômenos de transposição de formas culturais exógenas para contextos tradicionalmente insuspeitos, confesso-vos que ainda me causa espécie constatar a existência de uma banda como o Frolic Froth: Raios partam, como é possível o México parir um petardo tão avassalador e transtornado de psychedelic avant metal como Eponymous?! Mas o facto é que o disco existe, e que tranquilamente se qualifica como um dos melhores do gênero já feitos na América Latina, se não for O melhor.

U.F.O.L.O.G.Y., faixa de abertura, é a pièce de résistance do álbum, um inolvidável maremoto de 22 minutos em sonic evisceration full mode ON, desde a espectral ambiência de sua introdução, à moda de um Black Sabbath from outer space, até a estupefaciente aterrissagem final em compasso de lisergia kraut, com imponentes sobretons de Guru Guru goes cosmic doom (sobretudo em se tratando das estupendas tramas de guitarra elétrica urdidas por Jorge Beltran), efeitos eletrônicos alucinógenos e tonitruantes explosões rítmicas.

Malgrado não sejam tão arrebatadoras, as duas faixas complementares não deixam a peteca cair: Loop Us soa como um implausível (mas fascinante) híbrido entre a obsessiva geometria sonora do math rock, assimetrias R.I.O , samples de violinos e o peso obnubilado do stoner doom; a hipnótica Moonmole, por fim, de fatura mais atmosférica e rarefeita, encerra o álbum numa nota de índole contemplativa, mas nem por isso menos poderosa.

Enfim, confrades: um excelente disco no âmbito da sempre estimulante fusão entre as fronteiras mais extremas da psicodelia e do metal, e que deixa no ar uma pergunta que não quer calar: por que cargas d'água não vemos bandas brasileiras desenvolvendo um trabalho da mesma qualidade e ousadia?



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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros