segunda-feira, abril 09, 2007

Capitalismo x Feudalismo na perspectiva kurziana

Alphonse van Worden - 1750 AD






O sociólogo e economista marxista alemão Robert Kurz, para além de suas controversas, malgrado percucientes análises a propósito da configuração atual do ‘sistema produtor de mercadorias’, tem sido particularmente útil no desmonte de certas ficções pseudo-revolucionárias, de origem mormente iluminista. Em seu livro Os Últimos Combates podemos encontrar, em diversos ensaios, referências positivas a respeito da sociedade feudal, não apenas no tocante ao processo de modernização que iria redundar, a partir dos séculos XVII e XVIII, na consolidação do capitalismo, mas até mesmo em relações a certos aspectos do próprio sistema capitalista.

Kurz salienta, com freqüência e sempre de modo enfático, que a vida dos camponeses, servos e artesãos medievais era, de uma maneira geral, mais livre e confortável que o padrão de vida do proletariado, e mesmo da classe média baixa, no século XIX e no início do século XX. No ensaio Escravos da luz sem misericórdia, por exemplo, o autor alemão, fazendo um cotejo entre a duração da jornada de trabalho na atualidade e no período medieval, nos diz ser possível constatar, por intermédio da consulta a documentos da época, "que a jornada de trabalho dos servos nas glebas 'devia durar da alvorada ao meio-dia'. Ou seja, a jornada de trabalho era mais reduzida do que hoje não apenas em termos absolutos, mas também relativos, por variar conforme a estação e ser menor no inverno que no verão" (pág.250); n'outra passagem do mesmo texto, escreve o seguinte: "Nos séculos XVIII e início do XIX, tanto o prolongamento absoluto quanto o relativo da jornada de trabalho, por meio da introdução da hora econômica abstrata, foram sentidos como uma tortura. Por muito tempo, houve uma luta desesperada contra o trabalho noturno ligado à industrialização. (...) Quando na Idade Média calhava de os artesãos trabalharem à noite por razões de prazo, cabiam-lhes lautos repastos e salários principescos. O trabalho noturno era uma rara exceção. E consta das grandes 'façanhas' do Capitalismo ter logrado converter o aguilhão tempo em regra geral da atividade humana"(pág.251). Na conclusão deste texto, Kurz faz uma severa crítica ao próprio pensamento marxista, que se converte em 'religião do trabalho': "O Marxismo, em contraste à sua própria pretensão social, foi um protagonista do 'trabalho abstrato', à medida que sucumbiu ao pensamento mecanicista do Iluminismo e a seu pérfido simbolismo da luz" (pág.253).

Observem agora este trecho do ensaio Gênese do Absolutismo do Mercado, onde Kurz analisa o impacto social das transformações ocorridas na fase inicial da implantação do sistema capitalista: "O absolutismo lançara então a primeira base do moderno modo de produção capitalista, ao dar sinal verde para que a economia monetária de mercado suprisse as demandas de seu gigantesco aparato militar e burocrático. A grande maioria das pessoas sentiu esse desenvolvimento como uma repressão insolente e francamente monstruosa. De fato, o antigo e 'simples' feudalismo sangrara apenas superficialmente os camponeses e artesãos da sociedade agrária, os quais reservavam uma pequena parcela de seus produtos aos senhores feudais ou lhes faziam certos trabalhos. Quanto ao resto, no entanto, o feudalismo os deixava em paz. Em seus campos e suas oficinas, eles podiam fazer o que bem entendessem. Além disso, eles dispunham de sua própria administração local" (pág.264). Afirmações como essas que citei não constituem exceções, repetindo-se em diferentes passagens do livro, sempre enfatizando a opressão social da modernidade capitalista frente a uma sociedade feudal onde havia mais liberdade e respeito pela dignidade humana.

Vale dizer que tal contexto de opressão já assumia contornos bem nítidos e inequívocos para muitos autores e pensadores do período em tela. Ao examinarmos a produção literária inglesa dos séculos XVIII e XIX, não é difícil encontrar numerosos testemunhos da brutalidade, sobretudo em termos de relações de trabalho e bem-estar social, que caracterizou a transição da economia feudal para o modo de produção capitalista; assim sendo, as páginas de autores tais como John Ruskin, William Blake, Charles Dickens, Thomas Carlyle, Robert Owen, William Morris estão pejadas de sentimentos de horror, consternação e indignação a propósito dos diversos efeitos dessa perversa dinâmica de transformação sistêmica; com efeito, as más condições de vida da classe trabalhadora não eram o único e, em alguns casos, tampouco mesmo o mais freqüente, alvo dessa rejeição quase generalizada: Ruskin, Blake e Morris, por exemplo, além de condenarem a iniqüidade da exploração econômica capitalista, também verberam contra o pragmatismo espiritual subjacente a tal visão de mundo, bem como chegam a antever, ainda que de forma vaga e intuitiva, que a dinâmica estruturante da ‘nova ordem’ fatalmente conduziria à absorção de toda a vida humana pela lógica fria e implacável da rentabilidade mercantil.

Como reflexão de índole mais analítica e sistemática a propósito do mesmo acervo de temas, lastreada, inclusive, por estatísticas e estudos disponíveis à época, temos o célebre volume A Situação das Classes Trabalhadoras na Inglaterra (1845), de lavra do filósofo alemão Friedrich Engels (1820 - 1895); nessa obra, que se reveste de grande importância tanto como testemunho histórico quanto como crítica social, o autor denuncia, nos termos mais candentes, toda a truculência com que vastos contingentes populacionais foram praticamente arrancados do campo e confinados nos arrabaldes das grandes cidades sem as mais elementares condições de moradia, higiene e espaço físico.

Por mais 'heterodoxa' que sua interpretação do marxismo possa parecer, trata-se, creio, d'uma lufada de ar fresco necessária no âmbito dessa corrente de pensamento, que não pode mais coadunar com a pregação renitente e equivocada da Idade Média como tétrica 'idade das trevas', mundo sombrio de opressão e ignorância.

quinta-feira, março 01, 2007

Notas de reflexão crítica IV - Duchamp, Warhol e o vazio da arte contemporânea

Alphonse van Worden - 1750 AD






- O anarquismo estético de Marcel Duchamp, assim como o terrorismo conceitual de figuras como Tristan Tzara e Marinetti, desempenhou uma saudável função dessacralizadora na época em apareceu, 'desarrumando o arrumado' e desafinando o coro dos contentes e satisfeitos à época com os classicismos de segunda mão herdados do século XIX. Isto posto, é mister concluir que o problema não radica tanto nos criadores de uma determinada perspectiva, mas sim no epigonismo estéril dos discípulos: destarte, tanto epígonos quanto exegetas extrapolaram os elementos circunstanciais, portanto temporal e espacialmente localizados, e que deram substância e pertinência a movimentos como o dadaísmo, transformando-os em balizamento e objetivo final para a arte como um todo. A conseqüência deste processo nefando é o elogio acrítico e alienante da desconstrução como nec plus ultra da excelência artística, até que nada mais reste senão terra arrasada para ser 'dessacralizada'.

- Malgrado tenha desempenhado um papel interessante à partida, Duchamp exerceu, ao fim e ao cabo, influência das mais nefandas no quadro da sensibilidade estética ocidental. Seu deletério legado é o grande responsável pelo esvaziamento progressivo da carga simbólica que sempre esteve embutida na obra de arte, isto é, da obra de arte como instância capaz de evocar toda sorte de associações e ressonâncias, tanto de cunho emocional quanto intelectual.

- Ao urdir objetos 'artísticos' destituídos de qualquer capacidade evocativa, cuja finalidade esgota-se em si mesmo, entidades unidimensionais em sua horizontalidade estéril e rasa, Duchamp indiretamente gestou Warhol, Beuys e todo o lixo tóxico de 'instalações' e 'propostas' que infestam as galerias no cenário hodierno. Podemos asseverar, pois, que o urinol de porcelana que o artista francês designa como Fontaine, enviando-o, em 1917, a uma exposição de artistas independentes, é o receptáculo simbólico perfeito para abrigar seu ominoso legado...

- Se antes tínhamos um Botticelli transfigurando o platonismo em celestial lux aeterna; um Brueghel convertendo o misticismo pietista em fantasmagoria pictórica; ou um Goya traduzindo a inteligência crítica iluminista em arte libertária, temos hoje, pós-Duchamp, uma espectral legião de espertalhões e/ou idiotas prepotentes reverberando acriticamente um constrangedor vazio de significados disfarçado de 'desconstrucionismo', 'pós-modernidade' ou quaisquer outras estultícias do mesmo jaez.

- Hoje vemos, por exemplo, manifestações de arte abstrata em qualquer canto, até mesmo em banheiros e salas de espera. Isto ocorre justamente pelo facto de que o que outrora foi transgressão, hoje se converteu em mero 'transgressismo', ou seja, foi perfeitamente diluído e absorvido pela mediocridade do gosto médio; desta maneira, poderíamos afirmar que o abstracionismo é atualmente o exato equivalente plástico da tal música 'brega-flashback-new-age-musak-dor-de-cotovelo'.

- Andy Warhol, um dos mais patéticos herdeiros de Duchamp, sob pretexto de ‘desmascarar’ a arte, mostrando-a como uma mercadoria a mais na nossa sociedade de consumo, tão somente mistificou hordas de basbaques pretensiosos e auferiu fortunas com sua 'transgressão' mercadológica ('merDAcológica' também!) e oportunista. Há que propugnar não um retorno esquemático ao passado, mas sim o advento de horizontes artísticos que voltem a valorizar a produção de sentido, a ampla capacidade de evocar universos significativos; uma arte, enfim, que não seja apenas mera masturbação autorreferencial ou expediente ladino para arrancar dinheiro de burgueses deslumbrados.

Heldon: un cauchemar des dimensions electroniques



Esta genial banda francesa apresenta, creio eu, uma das trajetórias mais instigantes na história do avant prog. Assim como ocorre no King Crimson (grande influência para a formação gaulesa que ora abordamos), o Heldon é, de facto, a encarnação das idéias musicais de um guitarrista, o francês Richard Pinhas, refletindo, pois, em suas diferentes fases e formações, as obsessões e interesses de seu mentor. Desse modo, em sua primeira fase entre 1974 e 1975, representada pelos álbuns Electronique Guérilla (1974), Heldon II: Allez Teia (1975) e It's Always Rock and Roll (1975), a banda se caracteriza por tapeçarias eletrônicas minimalistas e hipnóticas, no esteio do trabalho de Fripp/Eno em No Pussyfooting (1973), do seminal Kluster e dos primeiros discos do Tangerine Dream. Predominam, pois, guitarras 'tratadas' por uma infinidade de dispositivos eletrônicos, bem como por texturas ambient noise geradas a partir de moogs, mellotrons, sintetizadores VCS3 e ARP. Confesso não ter lá grande interesse por esses álbuns, que, malgrado muito bem realizados, soam-me um pouco tediosos. Em 1976, contudo, Pinhas opera uma guinada significativa, tornando o som de sua banda mais ameaçador, claustrofóbico e pesado. O primeiro exemplar dessa metamorfose é a monumental Perspective IV, épico que encerra Heldon IV: Agneta Nilsson, com a fuzilaria metronômica e marcial de Coco Roussell e o baixo ultra-saturado de Alain Bellaiche incrementando as modulações guitarrísticas urdidas por Pinhas. Não obstante, a transformação só se faria completa com o álbum em tela na presente resenha, o estraçalhante Heldon V: Un Rêve Sans Conséquence Spéciale, também lançado em 1976, onde temos uma espécie de zeuhl 'crimsoniano' eletrônico ultra-agressivo e alienígena, com a participação especialíssima de notórios 'magmóides' como Janick Top e François Auger, respectivamente no baixo e na bateria, fornecendo uma sólida base rítmica para Pinhas estremecer o Universo com sua guitarra pervertida por toda sorte de distorções eletrônicas. Uma atmosfera de ominosa paranóia industrialista permeia todo o disco, que se caracteriza por uma produção 'suja' e ruidosa, elevando à enésima potência o ethos agressivo das composições. Marie Virginie C, faixa de abertura, sem dúvida uma das peças mais emblemáticas em toda a trajetória da banda, estabelece a atmosfera que dominará o álbum: trata-se d'uma espécie de KC viciado em heroína, militando na polícia secreta de um Estado totalitário intergaláctico; Elephanta, por seu turno, é um caótico tiroteio percussivo, algo como Can running the voodoo down, demonstrando o extraordinário talento de François Auger nas baquetas; seguem-se dois espartanos exercícios de eletrônica minimal ao estilo da primeira fase de Pinhas (Perspective IV Ter Muco e MVC II), levados a efeito, não obstante, com muito mais punch e intensidade que outrora, o que os torna sobremaneira fascinantes; temos, por fim, em Toward the Red Line e Marie et Virginie Comp (versão ao vivo da faixa inicial), mais dois trovejantes maelstrons de eletricidade cyberpunk e percussões em maximum overdrive mode ON, coroando à perfeição um disco verdadeiramente memorável. A dinâmica consagrada em Heldon V prosseguiria nos álbuns seguintes, Heldon VI: Interface (1978) e Heldon VII: Stand By (1979), que expressam o estágio final de maturação do novo Heldon, onde o grupo trabalha de forma exemplar as sonoridades ambient da fase inicial, integrando-as organicamente ao contexto de uma sonoridade sombria e turbulenta. 

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 Ten. Giovanni Drogo 

 Forte Bastiani 

 Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Ditosos são os discípulos do MESTRE!!!




Ao impertérrito irmão Aristocrata:

Ó dileto confrade, alvíssaras! Meus olhos pejaram-se de copiosas lágrimas ao ler a sacratíssima exortação do MESTRE! Durante muitos lustros, oh ínclito irmão d'armas , perambulei pelo cinéreo orco de sombras da heresia e da perfídia, emanações luciferinas do hórrido coletivismo; mas hoje, em humilíma contrição, admito, recebo e exalto a verdade perene, o alpha e o omega da mirífica Filosofia, assim como o imorredouro lume da pureza d'alma, infinitamente presentes nos ensinamentos do MESTRE! Ó excelso Aristocrata, o século entregue está a toda sorte de taras, endrôminas e inauditas perversões; ditosos, portanto, os amparados pela supina âncora moral e filosófica do MESTRE, pois só Ele regenera, compreende, sublima e redime!


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Aos que não acatam os ditames do MESTRE:

Muares, onagros, ínvias crias do apedeutismo, arrependei-vos, pois o fim está próximo!!! Ajoelhai-vos e penitenciai-vos, o MESTRE observa!!! Criaturas mundanas, prostrai-vos diante da iridescente Revelação, pois a sabedoria do MESTRE transcende o infinito e, como uma bênção, vos é Revelada! MESTRE, ó REI dos REIS!!! Vossa Palavra não carece de compreensão, é auto-evidente, tal como a noite sucede o dia, e o dia antecede a noite! Deve ser contemplada e entoada como o Cântico dos Cânticos, o Livro dos Livros, até que vossos insondáveis desígnios penetrem, ó MESTRE, o ímpio coração da humanidade! MESTRE, purificai-nos, derramai sobre nossas ímpias cabeças vossa ciência celestina!!!

Velai e perseverai todos vós! Hosannah nas alturas!



Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

Notas de reflexão crítica III - a propósito do pensamento político orwelliano

Alphonse van Worden - 1750 AD





- Se a disjuntiva Bola de Neve / Napoleão (Animal Farm - 1945) decerto passa por uma disputa de poder pelo controle do Estado, e se é igualmente certo que tal contenda se dá no seio de uma elite dirigente, é também mister frisar que ela envolve outras dimensões, quiçá mais importantes. Bola de Neve - que a meu ver não retrata apenas Trotsky, tal como se costuma interpretá-lo, mas sim una espécie de amálgama entre este e Lenin - é concebido como uma figura contraditória, ambígua (por exemplo, a autorização de rações extraordinárias de leite e maçãs para os porcos), mas, de todo modo, revolucionária e popular - a organização de comitês com o fito de melhorar as condições de vida na fazenda; o projeto do moinho de vento como instrumento capaz de reduzir a carga de trabalho dos animais. Napoleão, por seu turno, é uma entidade incontrastavelmente negativa, uma vez que desde o princípio demonstra-se preocupado tão somente em assegurar aos porcos o papel dirigente, bem como em exercer tal primado com extrema truculência e autoritarismo.

- Assim sendo, a perspectiva assumida por Orwell é sobremaneira mais sutil e matizada que uma rejeição tout court à revolução soviética: se Lenin e Trotsky (mesclados em Bola de Neve) inequivocamente compartilham da responsabilidade pela limitação da democracia na Rússia soviética, é da mesma maneira insofismável o facto de que são revolucionários e libertadores, uma vez que, de facto, derribaram uma autocracia milenar e instituíram um novo regime, que trouxe um novo horizonte, tanto em termos econômicos quanto na esfera sociocultural, para milhões de seres humanos; são, portanto, figuras cujo legado, ainda que não isento de sombras, não pode ser descartado, e em que períodos diferentes encarnaram / simbolizaram papéis distintos. Há também que sublinhar - e isto é deveras importante na caracterização de Orwell como autor, ao fim e ao cabo, progressista - que o escritor inglês não chancela a idéia de que Marx, assim como Stalin e (parcialmente) Lenin, tenha sido um coletivista oligárquico, o que está meridianamente evidenciado na ideologia revolucionária do venerando porco Major (que, como é evidente, simboliza Marx no arranjo estrutural do enredo).

- No que tange ao romance 1984 (1948), aí sim podemos falar numa rejeição mais cabal não apenas à deformação autoritária stalinista, mas à perspectiva bolchevique como um todo, mormente à noção leninista de um partido rigidamente disciplinado e centralizado, depositário último da consciência de classe proletária e instância dirigente do processo revolucionário. Orwell descria fortemente dessa idéia: Goldstein (Trotsky) é sem dúvidas um heróico adversário do Big Brother, mas inelutavelmente inserido nas tradições e dinâmicas do Partido e da New Speak. Subentende-se, portanto, que Trotsky e Stalin de facto fossem 'irmãos', essencialmente 'grandes irmãos', opostos tão somente em função de algumas distinções em sua abordagem do poder soviético. A esse respeito vale também recordar o livro The Managerial Revolution (1941) de James Burnham, uma vez que "Teoria e Prática do Coletivismo Oligárquico", o book within the book concebido por Orwell em 1984 para explicar os pressupostos políticos, econômicos, sociais, filosóficos, culturais e psicológicos que balizam os credos ideológicos dominantes nos três superestados – 'Ingsoc' (Oceania), ‘Neobolchevismo’ (Eurásia) e ‘Obliteração do Ego’ (Lestásia) - , é nitidamente uma brilhante paródia/homenagem à obra máxima de Burnham.

- Por seu turno, a revolta de W. Smith contra o sistema é amorfa, indistinta, ditada mais por uma malaise inconsciente, vagamente associada a questões psicológicas / fisiológicas, e decerto ligada a seu passado, sobretudo à sua infância, do que por uma crítica ideológico/pragmática ao regime do Ingsoc, o qual ele, aliás, não chegue a compreender por completo. Winston chega a entrever o alicerce estrutural, o alpha e o omega, o giroscópio conceitual onde se assentam o regime e a filosofia Ingsoc: o 'solipsismo coletivo' erigido pela doutrina do doublethink; não obstante, ele capta apenas os EFEITOS de tal dinâmica, mas não lhe percebe a lógica interna estruturante, ou seja, não compreende de que modo ela funciona e, o que é ainda mais importante, não desvela seus objetivos e desígnios últimos. Assim sendo, ele não consegue organizar-se psicologicamente de modo a viver sob a 'esquizofrenia organizada' que seria necessária a um enfrentamento / convivência eficaz com o Partido.

- É mister salientar, todavia, que o autor britânico continuou a isentar o marxismo de qualquer responsabilidade pelas atrocidades do totalitarismo soviético, não subscrevendo de forma alguma a hipótese de um 'pecado original' já embutido, mesmo que em caráter embrionário, no pensamento marxista.

- Há, por fim, que sublinhar a emblemática rejeição de Orwell a qualquer noção 'teleológica' de progresso. No incisivo ensaio Wells, Hitler and The World State (“Wells, Hitler e o Estado Mundial” - 1941), o autor inglês verbera, nos termos mais acerbos, contra o que denomina de ‘religião do progresso’, ou seja, a crença no progresso linear, contínuo e irreversível da humanidade, que estaria, portanto, ao fim e ao cabo ‘condenada’ a um êxito inelutável. Orwell desconfiava dessa visão de mundo, à qual atribuía um cariz sobremaneira arbitrário e irrealista, já que desconsidera a intermitente dinâmica de avanços e retrocessos da ação humana, bem como deposita no futuro esperanças exageradas, aspirações essas cuja viabilidade prática é de todo inverificável no presente.

terça-feira, janeiro 02, 2007

Sobre o Paradoxo de Russell

Alphonse van Worden - 1750 AD






O paradoxo em tela foi, por assim dizer, descoberto pelo ínclito lógico, matemático e filósofo inglês em 1901, quando este estava a preparar os textos que seriam reunidos em seu Principles of Mathematics (1903). Bertrand Russell considerava então a questão do 'Conjunto de todos os conjuntos que não são membros de si mesmos'. Tal conjunto parece ser um membro de si mesmo se e somente não for um membro de si mesmo. Alguns conjuntos tais como, por exemplo, o conjunto dos relógios de pulso, não são membros de si mesmo; outros conjuntos, tal como o conjunto de todos os 'não-relógios de pulso', são membros de si mesmos, uma vez que o conjunto não é um relógio. Muito bem: vamos chamar de S o 'Conjunto de todos os conjuntos que não são membros de si mesmos': se S não é membro de si mesmo, então, por definição, deverá ser membro de si mesmo; ou então, em outras palavras: há um conjunto S tal que, qualquer que seja x, x é um elemento desse conjunto se, e se somente se, x for um conjunto que não seja elemento de si mesmo.

O significado revolucionário do paradoxo pode ser avaliado ao constatarmos que, à luz dos princípios consagrados pela lógica aristotélica, todos os sistemas formais são passíveis de contradição lógica. Mais ainda: nenhuma prova matemática poderia ser digna de confiança se a chamada 'Teoria dos Conjuntos ingênua', subjacente a todo o arcabouço matemático, abriga uma contradição fundamental. Da mesma maneira: como assegurar a validade de um enunciado científico ou filosófico face à possibilidade de algo possa ser e não ser ao mesmo tempo?

Houve várias tentativas de resolução deste dilema, a começar pela Teoria dos Tipos Lógicos proposta por Russell e Whitehead nos Principia Mathematica (1910 / 1913), que institui uma hierarquia lógica de conjuntos: o primeiro tipo de conjunto seria formado pelos conjuntos integrados apenas por entes particulares; a seguir, procedemos para os conjuntos cujos membros são conjuntos do primeiro tipo, estabelecendo assim o segundo tipo de conjunto; então para os conjuntos cujos membros são conjuntos do segundo tipo, que formariam o terceiro tipo de conjunto, e assim sucessivamente. Destarte, ao lidarmos com afirmações do gênero do paradoxo de Epimênides ("todos os cretenses são mentirosos") ou, numa formulação mais simples, "eu estou mentindo", é preciso estabelecer em que contexto da hierarquia dos tipos lógicos tal assertiva está sendo proferida. Se Epimênides replicar, por exemplo, que está a afirmar uma proposição falsa do primeiro tipo, então tal enunciado, visto referir-se ao conjunto das proposições de primeiro tipo (que são os elementos constitutivos do segundo tipo lógico), será um enunciado de segundo tipo; logo, não é verdade que Epimênides está a sustentar uma proposição falsa do primeiro tipo, mas sim de segundo tipo; de todo modo nosso amigo segue sendo um mentiroso, tão somente operando uma clave acima em termos de hierarquia lógica. Da mesma maneira, se Epimênides alegar que estava a postular uma proposição falsa do tipo 500.000, esta seria um enunciado do tipo 500.001, de modo que ele ainda permaneceria um mentiroso; outrossim, desaparece o contra-argumento empregue para sustentar que ele ao mesmo tempo não é um mentiroso.

Vale dizer que a Teoria dos Tipos também fornece uma solução para outras indagações, tais como, por exemplo, a concernente à existência ou não de um número cardinal máximo; neste caso, a resposta dependerá inteiramente do fato de estarmos ou não nos referindo a um determinando tipo lógico. Dentro de qualquer tipo lógico, existe uma cardinalidade máxima, a saber, o número de objetos daquele tipo, mas sempre seremos capazes de obter um número maior rumando para o próximo tipo; não existe, portanto,no seio de um dado tipo lógico, nenhum número maior do que o que podemos obter mediante a proposição de tipos lógicos mais elevados.

Claro está que tudo isto se tornaria mais rigoroso e preciso mediante o emprego de formalismo lógico, com os quantificadores e operadores adequados, o que no entanto não viria ao caso para os propósitos desta breve nota introdutória. 

Por fim, outras possibilidades de resposta ao dilema russelliano estão presentes nas lógicas trivalentes, concebidas mormente por autores da escola polonesa de Lvov e Varsóvia (Jan Lukasiewicz, Stanislaw Lesniewski, Tadeusz Kotarbinski); nas hipóteses metamatemáticas de Alonzo Church; ou então na lógica paraconsistente de Newton da Costa e Stanislaw Jaskowski. 

As mais belas mortes - V

Leonidas I (480 AC)

Malgrado tenha em prístinas centúrias ocorrido, o ático exício de Leonidas I, Rei de Esparta, e de seus insignes guerreiros, por ocasião da Batalha das Termópilas nas Guerras Persas, não poderia deixar de ser aqui mencionado.

No ano 480 AC, Leonidas entrincheirou-se com 300 espartanos, 700 tespianos e 400 tebanos em estreita passagem no desfiladeiro das Termópilas, a fim de deter o avanço do colossal exército do rei persa Xerxes I, cujo efetivo estimava-se em milhares de metuendos armígeros.

Com o fito de intimidar os impávidos helênicos, as hostes persas enviaram um mensageiro com os seguintes dizeres:

- Nossas espadas são tantas que cobrem o Sol!

Ao que Leonidas, altivo e irônico, redargüiu:

- Tanto melhor, combateremos à sombra!

Na seqüencia dos acontecimentos, Leonidas e seus mavortes bateram-se com notável denodo e galhardia, sacrificando suas excelsas vidas ao custo de milhares de baixas para o inimigo.



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D. Rodrigo de Bivar , dito El Cid Campeador (1040-1099)























Não poderia faltar, no esteio desta augusta série, uma menção a D. Rodrigo de Bivar (1040-1099), dito El Cid Campeador, impertérrito paladino da cristandade. A causa mortis que lhe coube - um flechaço no ventre - não foi assim das mais notáveis, admitamos, mas as circunstâncias em torno a seu falecimento de sobejo o são, merecendo portanto nosso preito de admiração.

Estava nosso fádico Mavorte castelhano em combate no cerco a Valencia, quando uma ominosa seta moura feriu-lhe de morte; cônscio de que o derradeiro instante estava próximo, El Cid ordenou a seus soldados que, fenecido, o atassem a Babieca (famígero corcel do senescal cristão), o escudo em guarda, a espada no outro braço para cima erguida. Na vigésima-quarta hora, El Cid emergiu à frente de seu exército, arremetendo contra as metuendas hostes sarracenas; estas, que julgavam morto o ínclito guerreiro, dispersaram-se com grande alvoroço, aos urros e uivos de pavor, propiciando às armas cristãs indelével triunfo!


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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

domingo, dezembro 31, 2006

Epistolário Transfinito II (excertos...)

Alphonse van Worden - 1750 AD

















(...) hoje se encerra, ó prestante consenhor Drogo, epopéico annus mirabilis, que de infindas glórias os supinos armipotentes do Senhor cumulou! Nas donairosas colinas da aprazível Nação dos Cedros, mais um ingente triunfo obtiveram as precolendas legiões do Partido de Deus, ao passo que as do obnóxio Sion metuendas hostes, do oprobioso revés o vituperioso pó morderam; sob os auspícios da ínclita Persépolis, os excelsos guardiões do propugnáculo da refulgente fé de Shiat Ali, inamovíveis perseveraram na sempiterna alfétena contra as pertinazes endrôminas do soez SATÃ; por fim, nos ígneos páramos de Armaggedom, as horrípilas legiões da ínvia Besta sucumbem à megascópica coragem dos armígeros do deífico Sustentador de Mundos; destarte, ó insigne irmão d'armas, sob o rutilante fanal do CHRISTUS PANTOCRATOR e de علي بن أبي طالب - que tudo veem sem vistos serem -, viridente botaréu do Concento Universal fomos, somos e seremos, sempre a matar e a morrer resignados!

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(...) à diáfana luminescência dos fosfóricos arcobotantes do Bastiani, ó conspícuo mavorte van Worden, altaneira praça que per saecula saeculorum guardamos, até a de todos os tempos inexorável consumação, sob a égide do inaudito Senescal da Guerra Cósmica, ledos estivemos, estamos e estaremos; outrossim, augusto confrade, a famígera cavalleria tartárica, sempre a postos para as sacratíssimas lides do Celestino Prélio, jactante aguarda o divo chamamento do venerando Senhor de todas as Batalhas!


Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Apontamentos sobre o pensamento político católico I - a propósito de Gilbert Keith Chesterton e Hilaire Belloc

Alphonse van Worden - 1750 AD





























Tendo em vista o ominoso, malgrado inelutável, facto de que o vasto experimento político-econômico do socialismo fracassou rotundamente, gestando sociedades que em tudo vão de encontro ao ideário proposto à partida por Marx e Engels, bem como às metas advogadas pelas famígeras jornadas d’Outubro; bem como a também insofismável constatação de que o capitalismo liberal, hoje infrene a reinar por todos os quadrantes da Terra, é um sistema autofágico, a predar progressiva e continuamente suas próprias bases de sustentação estrutural, torna-se imperativa a necessidade de encontrarmos uma opção viável, ou seja, um modelo de organização capaz de, a um só tempo, promover justiça social e crescimento econômico, conciliando assim as principais linhas de fuga dos sistemas socialista e do capitalista.

Enfaticamente refratária tanto às assimetrias inerentes ao capitalismo quanto à hipertrofia estatal do socialismo, a doutrina social da Igreja tornar-se-ia fonte de inspiração, mormente através da célebre encíclica Rerum Novarum (Leão XIII - 1891), de uma das mais profícuas tentativas de estabelecer uma alternativa sólida ao dilema em tela: o ‘distributismo’ (distributism), propugnado, sobretudo, pelos insignes escritores católicos Gilbert Keith Chesterton (1874 -1936) e Joseph Hilaire Pierre René Belloc (1870 - 1953), ambos britânicos, em volumes como What's Wrong with the World (Chesterton - 1910); The Servile State (Belloc - 1913); The Uses of Diversity (Chesterton - 1921); An Essay on The Restoration of Property (Belloc - 1936).

Em que consistiria, pois, o distributismo? Basicamente no que já está embutido em seu nome, vale dizer, na máxima distribuição possível da propriedade por todos os homens; preconiza, destarte, que os meios de produção devem pertencer ao maior número de indivíduos possível, e não permanecer sob o controle d'uma minoria proprietária (tal como no capitalismo), ou então sob a égide de um estamento gerencial (conforme ocorre no socialismo).

A perspectiva distributista alega que, no regime capitalista, a propriedade produtiva é, ao fim e ao cabo, apanágio de uma camada minoritária de cidadãos, que acabam por deter uma influência sobre o conjunto da sociedade muito maior do que o que seria de bom alvitre; e malgrado todos tenham, sob o ponto de vista do formalismo jurídico-institucional, direito à propriedade privada, na prática isto acaba por ser prerrogativa quase exclusiva de uma pequena minoria ou, tal como assevera célebre observação de Chesterton, "too much capitalism does not mean too many capitalists, but too few capitalists" (The Uses of Diversity); por outro lado, há no âmbito socialista a promessa, de jaez igualmente formal, de um regime coletivo de propriedade, onde todos teriam acesso, consoante sua necessidade, aos frutos do trabalho social; todavia, o que na prática se verifica é a concentração progressiva de todos os ativos econômicos nas mãos do Estado, com o poder real delegado a uma reduzida camada de planejadores e administradores. O pensamento distributista acredita, portanto, que a atomização das diversas instâncias de propriedade produtiva entre os componentes da comunidade irá garantir um acesso mais equânime aos benefícios oriundos do trabalho; conclui-se, ainda, que quanto maior for a capilarização dos ativos econômicos, maior será não apenas a justiça social, mas também o incentivo para que todos se dediquem de bom grado às atividades produtivas, já que a comunidade perceberá de forma direta e inequívoca os maneios do trabalho.

Buscando um paradigma histórico para o estabelecimento d’uma sociedade genuinamente distributista no mundo hodierno, Chesterton e Belloc remontam à Idade Média: em sua encomiástica concepção da civilização católica, defendem, com efeito, uma filosofia da História que celebra a Idade Média pela abolição da escravatura; pela ampla difusão da propriedade através do povo; por um significativo grau de liberdade individual; e também pelo florescimento do ensino, das artes, da filosofia e da literatura, que fez a Europa emergir do caos desencadeado pela queda do Império Romano do Ocidente; assim sendo, ambos se debruçam sobre a história do período, de modo a identificar seus traços mais emblemáticos; e uma das características a que nossos autores atribuem grande destaque é o facto de que as guildas (corporações de ofício) não raro limitavam a quantidade de propriedade de que cada um podia dispor (por exemplo, limitando o número de empregados), justamente com o fito de evitar a possibilidade de crescimento exagerado de um determinado empreendimento particular, em detrimento dos demais, que poderiam ir à garra. Tal como Aristóteles e o Doutor de Aquino assinalam, se a propriedade privada tem algum objetivo, este é o de assegurar que cada homem e sua família possam levar uma vida digna, servindo à sociedade com os frutos de seu labor; deste modo, se os negócios d’um indivíduo permitem-lhe sustentar condignamente sua família, que direito teria ele de o expandir, eventualmente privando outras pessoas dos instrumentos e recursos necessários ao arrimo de suas respectivas famílias? A consciência cristã medieval cria (e esta é, diga-se de passagem, uma das características axiais de seu ethos) que os indivíduos que se dedicavam à mesma actividade não eram rivais ou competidores, mas sim confrades empenhados de corpo e alma na egrégia lide de providenciar à comunidade bens e serviços necessários; outrossim, como irmãos agregavam-se em corporações, velando pelo bem-estar uns dos outros.

Numa sociedade distributista, por conseguinte, as pessoas seriam capazes de organizar-se em regime de mutualismo, reunindo-se em cooperativas de produção, comércio e serviço, num sistema onde predominaria a solidariedade como princípio não apenas justo, mas racional e eficaz, de interação humana.

No que concerne à organização social, o distributismo vê na família trinitária (um homem, uma mulher e uma criança) a unidade mais elementar, a pedra basilar na constituição d'uma sociedade harmoniosa; tal núcleo primordial funcionará como alicerce de unidades familiares mais amplas, multigeracionais e interligadas por laços de consangüinidade, que por sua vez desdobrar-se-ão em comunidades locais, regionais e nacionais, e por fim na ‘família’ humana como um todo. Desta maneira, o modelo de organização econômica proposto por Chesterton e Belloc florescerá a partir da família nuclear, não considerada como mônada estanque e impermeável, mas sim como unidade básica e interdependente da sociedade distributista; tal concepção é, vale dizer, caudatária da noção de ‘subsidiariedade’ esposada pelo Papa Pio XI na encíclica Quadragesimo Anno (1931), a qual advoga que qualquer atividade produtiva deve ser levada a efeito pela menor unidade possível, de modo a evitar a concentração do poder nas mãos de poucos agentes. Vê-se aqui, portanto, no seio da concepção distributista, mais uma vez a racionalidade operacional caminhando de par em par com noções de justiça e virtude, pois é facto patente que unidades produtivas menores são em geral mais ágeis e eficazes que macroestruturas burocráticas, pouco importa se de natureza privada ou estatal.

O distributismo não privilegia, em matéria de ordenamento político, nenhum dos modelos de constituição do Estado existentes, podendo em tese viger tanto sob regimes monárquicos quanto sob republicanos. É mister salientar, contudo, que a doutrina distributista não se inclina para qualquer extremismo, rejeitando enfaticamente perspectivas de cunho coletivista ou individualista.

Por fim, há que sublinhar a índole em geral pacifista do pensamento distributista. Chesterton e Belloc opunham-se ao imperialismo britânico, e ambos particularmente condenaram, nos termos mais acerbos, a segunda guerra contra os boers; não obstante, apoiaram o envolvimento de seu país na I Guerra Mundial, a qual encaravam como justa.

Isto posto, ó supinos confrades, cremos vos ter propiciado, nestes infaustos lustros onde todas as convicções se dissolvem num vórtice caótico de nefárias incertezas, importantes subsídios para a questão mais premente da centúria em que vivemos: a formulação de uma alternativa concreta para o pesadelo do sistema capitalista.




Notas de reflexão crítica II - a propósito da ideologia neocon





- A ideologia neocon, que predica uma espécie de 'liberalismo' pró-imperialista e de índole militarista, representa o auge da contradição ideológica vigente na contemporaneidade; destarte, poucas coisas poderiam ser mais visceralmente antiliberais do que, por exemplo, a política de keynesianismo aplicado que caracteriza o complexo industrial-militar estadunidense, hoje mais do que nunca fomentado pelo intervencionismo da camarilha que governa os EUA; não obstante, estes insólitos 'liberais' não hesitam um segundo sequer em hipotecar seu apoio a tal dinâmica, não lhes importando à mínima que a mesma seja de todo antiliberal.

- Outrossim, tais setores fazem altissonante profissão de fé na imaculada 'democracia' norte-americana, como se esta não fosse tão somente um disfarce institucional para o verdadeiro regime que vige por lá: uma plutocracia inteiramente pautada pelos interesses econômicos do ‘partido do complexo industrial-militar e do capital financeiro’ (ou, como diria mais sucintamente Gore Vidal, o ‘Partido do Dinheiro’), que se divide nas alas ‘republicana’ e ‘democrata’. Há que ter em mente, sobretudo, algo da mais precípua importância: as administrações federais norte-americanas não se pautam pela 'varejo' partidário, pelos ‘arranjos de ocasião’, mas sim por uma política de ESTADO, que implementa / defende os interesses estratégicos de longo prazo dos setores econômicos e militares que lastreiam tal estrutura de poder. Mutatis Mutandis, trata-se d’um amálgama admiravelmente monolítico entre o que o pensador político anglo-americano James Burnham chamava de ‘coletivismo oligárquico’; o que o sociólogo alemão Robert Michels denominava de ‘lei de ferro da oligarquia’; e o que o economista italiano Vilfredo Pareto conceituava como ‘circulação das elites’: a lógica do ‘coletivismo oligárquico’, claramente embutida no complexo industrial-militar estadunidense , bem como na falsa dicotomia entre republicanos e democratas, que encarna de modo exemplar a noção de ‘circulação das elites’, criam um cenário onde a perspectiva democrática é tão somente uma miragem, cujo mero processo de alternância formal no poder é garantido em caráter permanente pela ‘lei de ferro da oligarquia’.

- É muito interessante ver como os neocons (pouco importa se ‘republicanos’ ou ‘democratas’) insistem em afirmar que suas políticas pró-imperialistas e intervencionistas atuam em defesa dos valores da 'democracia' norte-americana, da 'civilização ocidental' e do livre mercado, quando o que ocorre é justamente o oposto: o que a histeria militarista está conseguindo é precisamente colocar em risco a permanência dos valores tradicionais da América, como a liberdade individual, a ausência do Estado e o antimilitarismo. Como é possível constatar através do estudo da História, o militarismo sempre prepara o terreno para um incremento do poder estatal, seja por intermédio de maiores impostos ou do cerceamento às liberdades públicas por razões de 'segurança nacional' (vide o famigerado patriot act). Assim sendo, o que o imperialismo neocon está gestando é justamente o contrário de qualquer projeto liberal autêntico: um Estado-Leviatã armado até os dentes, omnipresente e omnipotente.

- Que seria, portanto, o complexo industrial-militar estadunidense senão uma entidade simbiótica público-privada, uma vez que mesmo que as indústrias de armamentos não sejam de propriedade estatal, tão somente podem existir em função da demanda do Estado? Da mesma maneira, tais empresas não podem funcionar em regime de livre mercado, uma vez que não podem vender livremente seus produtos para qualquer um... ou alguém julga, por exemplo, que a Northrop Corporation pode vender um de seus bombardeiros B-2 Spirit para qualquer um, seguindo os ditames do livre comércio? E a dinâmica em tela não se limita apenas a questões de foro exclusivamente militar; basta recordarmos, a título de ilustração, como surgiu e se desenvolveu a internet...

- A indústria de armamentos é seguramente uma das atividades econômicas mais lucrativas do planeta, de maneira que uma política de Estado imperialista, advogando guerras preventivas como método habitual de intervenção externa, representa um estímulo descomunal, fonte contínua de lucros para tal ramo de atividade.

- Por seu turno, um dos elementos centrais do pensamento econômico keynesiano é a defesa do Estado como agente indutor de desenvolvimento numa economia de mercado, que é justo o que ocorre no país dos grandes paladinos do 'liberalismo' econômico.

- O complexo industrial-militar estadunidense, complexa simbiose público-privada que entrelaça o Pentágono aos principais conglomerados produtores de armamentos do mundo (Northrop Grumman Corporation, McDonnell Douglas, Lockheed Corporation,General Dynamics, etc.), bem como indústrias químicas, biotecnológicas, eletrônicas, etc., é indubitavelmente um dos exemplos mais flagrantes de keynesianismo aplicado nos últimos 50 anos.; constitui, destarte, o principal eixo de sustentação da administração federal norte-americana desde a II Guerra Mundial, influência essa que só fez aumentar com o advento da choldra neocon.

- Logo, os neocons representam uma forma de neokeynesianismo militar de ÓBVIO caráter ANTILIBERAL...

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E na verdade, diletos confrades, estas notas aqui postadas têm por móvel dar ensejo a uma discussão ainda mais ampla e importante, e que poderia ser formulada da seguinte forma:

Considerando os seguintes fatores:

1)O entrelaçamento dinâmico e progressivo entre as finanças globais;

2)o facto de vivermos em sociedades cada vez mais complexas, onde cada ramo e instância da administração pública envolvem decisões altamente técnicas e especializadas;

3)e o primado dos interesses estratégicos do Estado, de longo prazo ou até mesmo permanentes (e que decerto tão somente modificar-se-iam por ocasião d'um processo revolucionário que subvertesse a própria ordem estatal vigente) sobre os desígnios 'varejo partidário' de ocasião, qual seria, ao fim e ao cabo, o poder decisório dos cidadãos nas complexas 'democracias' representativas contemporâneas? Ou, n'outra clave: em que a 'alternância de poder', tendo em conta os fatores acima elencados, proporcionaria a real oportunidade de escolha entre programas políticos efetivamente DISTINTOS?

Em suma, irmãos d'armas: até que ponto a 'democracia' não é apenas uma fraude conveniente, uma encenação protocolar, uma pantomima para persuadir o conjunto da sociedade de que ela detém um poder decisório realmente CONCRETO?


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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

quarta-feira, novembro 01, 2006

Presença de Robert Wise

Alphonse van Worden - 1750 AD


Desde que o estudioso francês de cinema Alexandre Astruc publicou, em 1949, seu célebre artigo Naissance d'une nouvelle avant-garde : la caméra-stylo, onde advogava a noção de que o cineasta, assim como o escritor ou o pintor, 'escreve', 'pinta' com a câmera; e que François Truffaut, ainda crítico de cinema no Cahiers du Cinéma, desenvolveu a chamada politique des auteurs, enfatizando o papel do diretor como autor, isto é, como responsável pelo produto final que o espectador verá na tela, formou-se uma espécie de consenso crítico a enaltecer quase que exclusivamente autores que possuem uma assinatura formal característica, uma estilística que, de certo modo, enfeixa seus trabalhos num opus coerente: Godard, Dreyer, Resnais, Antonioni, Murnau, Eisenstein, etc.; valorizou-se destarte, cada vez mais, não somente a noção de 'roteiro original', mas sobretudo a perspectiva do cinema como expressão de subjetividade autoral, transcendendo gêneros e parâmetros impostas pelo mercado, ou quaisquer outras instâncias alheias a um labor artístico radicalmente pessoal.

Há, não obstante, grandes cineastas que lograram se destacar mesmo estando agrilhoados às estruturas autoritárias e castradoras do studio system, e que criaram, malgrado talvez por vias mais transversas e erráticas, uma obra cuja envergadura se compara ao trabalho dos diretores supracitados; a meu juízo, quiçá o norte-americano Robert Wise seja o melhor exemplo deste tipo de cineasta, que a princípio se afirma mais como artesão talentoso, como laborioso ourives, que como propriamente entidade criativa autônoma, portadora d'uma centralidade autoral, mas em cuja obra, mesmo sob a capa de uma variedade de gêneros preestabelecidos, é possível perceber a mesma personalidade; a mesma marca registrada; o mesmo vigor artístico, enfim, que encontramos nos diretores mais propriamente 'autorais'.


Do legado de Wise é mister salientar, em primeiro lugar, a assombrosa versatilidade do artesão capaz de lavrar, com igual mestria, materiais de índole narrativa ou formal distinta, para não dizer veramente antípodas; assim sendo, pouquíssimos cineastas foram capazes de produzir verdadeiras obras-primas em tantos gêneros diferentes, da ficção científica (The Day the Earth Stood Still - 1951, um dos sci fi mais cool e formalmente elegantes de todos os tempos, num gênero onde abunda atroz 'cafonália') a dramas noir como Lady of Deceit - 1947, The Set Up - 1949 (cuja seqüência final na luta de boxe é das mais selvagens de todos os tempos) ou Odds Against Tomorrow - 1959 (com uma trama que aborda a questão da tensão racial nos EUA de forma particularmente criativa e surpreendente; de filmes de horror como The Haunting - 1963, uma fita criminosamente subestimada, vera fantasmagoria gótica em compasso de intrincado pesadelo freudiano, ou The Curse of the Cat People - 1944, sibilina seqüência para o também clássico Cat People - 1942, de Val Lewton, aos musicais West Side Story - 1961, que é sem dúvida uma das mais originais e criativas adaptações de material literário clássico que o cinema já viu, e The Sound of Music - 1965, notório sucesso do diretor.

Em segundo lugar, outrossim é forçoso destacar o virtuosismo técnico de Wise, cujos enquadramentos, cenografia e fotografia, caudatários em larga medida do expressionismo alemão e dos delírios barrocos de Orson Welles, são via de regra impecáveis, mormente em seus filmes em P&B, onde a câmara, como se finíssimo estilo de bambu nas mãos de um calígrafo nipônico fosse, desenha na tela caligramas e arabescos de requintada fatura, aspergindo silhuetas e sombras que não seriam indignos das diáfanas texturas d'um Shubun ou d'um Sesshu, tal como podemos admirar, por exemplo, no esplêndido The Haunting, com espectros sutilmente sugeridos pela geometria labiríntica de sua hábil montagem ; e nas obras em cor, ainda que parte da excelência formal d'outrora tenha se perdido, a beleza e precisão dos enquadramentos manteve-se imaculada, o que pode ser constatado, por exemplo, na arrojada composição visual de West Side Story, a celebrar os ritmos e circunvoluções estratosféricas da dança moderna.


Por fim, há que recordar o artista que, mesmo sob a impiedosa égide de uma indústria voraz e multitentacular, logrou imprimir às suas obras um cariz humanista e libertário, sempre a exaltar, d'uma forma ou de outra, a inebriante aventura da liberdade humana, traço a meu ver recorrente em toda arte que se pretende digna de ser lembrada. A esse respeito, destaco Wise por me parecer importante sublinhar a possibilidade de obter resultados de alto nível mesmo sob o tacão d’uma estrutura avessa à criatividade e à liberdade; trata-se, creio, de uma questão esquecida por muitos artistas, que ficam a choramingar por não desfrutarem de 'condições ideais' para criar, convenientemente olvidando-se de que é possível fazer arte mesmo nas condições mais adversas, quer do ponto vista político, quer do comercial.

"We're all frankies..."



É com prazer que vos apresento hoje, preclaríssimos confrades, a inesquecível e impagável peça de agit prop sônico, terrorismo contracultural anárquico e neurastenia 'drogoléptica' chamada 23 Minutes Over Brussels (1978 - Red Star / Bronze Records), do duo novaiorquino Suicide, álbum lançado originalmente como flexi-disc encartado num zine, em edição limitada de 1000 cópias. O disco em si é genial, claro, mas a história que o envolve é ainda mais, de modo que merece ser narrada. No dia 16 de junho de 1978, Alan Vega e Martin Rev encontravam-se na aristocrática capital da Bélgica, mais precisamente no clube Ancienne Belgique, para abrir um concerto de Elvis Costello; como quem conhece a banda pode bem imaginar, a sinistra e morbidamente irônica fusão entre eletrônica primitiva e 'rockabilly mutante de Alpha Centauri com Síndrome de Down' dos caras não era, por assim dizer, a coisa mais compatível com o punk / folk comparativamente 'normal' de Mr. Costello à época. Pois muito bem: com Rev a cargo de seu insólito arsenal de traquitanas eletrônicas (um VCS3 e uma drum machine arcaicos, ambos emprestados, e via de regra avariados!), e Vega soltando sua voz de 'deidade lovecraftiana in a bad mood lendo recitativos de Antonin Artaud numa estação de rádio extraterrestre fora de sintonia', as sublimes litanias do grupo sobre o apocalipse industrial da pós-modernidade começaram a ser despejadas implacavelmente sobre a platéia, pérolas do inferno como Ghost Rider, Rocket USA, Cheree, Dance; o público, a princípio estupefacto, começou depois a apupar a apresentação com enfática e crescente indignação. Alheios a tudo, no entanto, Vega e Rev deram início então ao verdadeiro ritual eletro-industrial de ódio e danação denominado Frankie Teardrop, em versão particularmente neurótica e furiosa. O que até aquele momento era tão somente rejeição estética transformou-se em fúria absoluta, e membros mais exaltados da audiência começaram a subir ao palco para agredir o duo. Nossos heróis conseguiram segurar um pouco as pontas, mas logo multiplicaram ao infinito o caos com uma boutade de todo genial: Vega perguntou ao público se eles queriam ver logo a atração principal, obtendo como resposta urros coletivos de "Elvis, Elvis, Elvis!!!". O insano performer começou então a entoar Frankie Teardrop no compasso da célebre Love Me Tender (um dos clássicos absolutos de uma certa figura chamada Elvis Presley... ) com uma voz absolutamente macabra e aterradora, enquanto Rev mimetizava, de forma esquizofrênica, o ritmo da canção em suas engenhocas. Não é preciso ser uma pitonisa para adivinhar que a abstrusa 'cover' obviamente deu início a um furdunço de vastas proporções, com a turba detonando tudo à sua frente. Todavia, Howard Thompson, amigo da banda, lá estava com um gravador, registrando o inolvidável evento para gáudio geral per saecula saeculorum de todos nós da nação freak! No mais, conforme Alan Vega, umas poucas horas depois do show, definiria de forma lapidar, "We're all frankies, except some belgians..." 

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Ten. Giovanni Drogo 

 Forte Bastiani 

 Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

Notas de reflexão crítica I - a propósito da degenerescência burocrática da URSS e da perspectiva de Milovan Djilas

Alphonse van Worden - 1750 AD  




- Na medida em que a nomenklatura exercia, no âmbito da sociedade soviética, um controle absoluto sobre o aparato estatal, pode-se dizer que se apropriava diretamente dos excedentes oriundos do processo produtivo, de modo que o 'lucro social' não revertia em benefício da sociedade in totum, mas de uma pequena camada encastelada no comando do Estado e à testa do Partido; nesse sentido, o grande desafio de uma revolução socialista permanece sendo o de assegurar uma gestão efetivamente democrática e coletiva do processo. 

 - Num Estado operário degenerado poderiam ocorrer distorções políticas, certa preponderância do aparato burocrático, mas não a completa inversão de perspectivas que se verificou na experiência soviética, onde a apropriação do trabalho social voltou a estar concentrada nas mãos de um único estamento, que tomava a seu cargo todos os procedimentos decisórios em termos políticos e econômicos. A ausência, pois, de uma gestão veramente democrática no seio do aparato partidário e da máquina estatal, possibilitou a emergência de uma burocracia rapace e parasita; aliás, com o fim da URSS, num contexto de severa deterioração da economia, foi possível constatar a consumação lógica deste processo, uma vez que, com a privatização em massa das empresas estatais, a classe de administradores públicos de imediato converteu-se em empresariado privado, havendo apenas uma transferência jurídico-formal da propriedade. 

- A meu juízo a posição em termos de processo produtivo não constitui o único critério possível para identificarmos a presença de uma classe social, e nisto a análise de Milovan Djilas (1911 - 1995), célebre comunista dissidente jugoslavo, me parece perfeita: a nomenklatura soviética, ainda que não tenha se configurado como formação autônoma em termos de estrutura produtiva, passou a apropriar-se em larga escala do 'trabalho social' de toda a sociedade, e assim forjou-se como nova classe numa acepção ampla do termo; se nova classe não foi em stricto sensu, sem dúvida logrou sê-lo lato sensu por via parasitária. 

 - Há que admitir, não obstante, que o processo histórico deu razão a Trotsky no sentido de que a expropriação política da burocracia por parte da ação revolucionária do proletariado seria, ao fim e ao cabo, a única forma de impedir que a dinâmica contra-revolucionária acabasse por reinstaurar o capitalismo na URSS. Vale dizer que, no âmbito do mesmo processo, a nomenklatura transformou-se, quase que de maneira automática, seqüencial e orgânica, de estamento administrativo em classe proprietária; de facto, ao nos debruçarmos sobre o vertiginoso ciclo de privatização da economia que se deu com o advento da era Yeltsin, constataremos que grande parte da antiga burocracia gerencial soviética, tanto em termos de setor industrial quanto de financeiro, converteu-se maciçamente em classe proprietária. A expropriação econômica desencadeou-se portanto como epifenômeno lógico-empírico de um processo de expropriação política que já havia se forjado décadas atrás. 

- Num primeiro momento poderíamos definir tal dinâmica como uma metamorfose radical, o que de certa refutaria as considerações djlianas: o estamento administrativo transformando-se em alta burguesia proprietária; não obstante, se examinarmos mais acuradamente o fenômeno em tela, veremos que se trata, na verdade, não de uma metamorfose estrutural, mas sim de uma transferência maciça de titularidade nominal, uma vez que os meios de produção já estavam informalmente sob controle total de uma parcela de burocratas; ocorre, por conseguinte, a conversão formal de uma situação que se fazia presente em termos operacionais. Destarte, a 'nova classe' analisada por Djilas já existia nas entrelinhas da sociedade soviética, e tão somente adquiriu plena visibilidade e novo estatuto no período de restauração.

domingo, outubro 01, 2006

As mais belas mortes - IV

Christa Päffgen, AKA Nico (1938? 1943?-1988)

























Ao contrário do pitoresco padrão recorrente nas deceduras de stars que aqui relatamos - afogamento em vômito e /ou excrementos, overdoses dos mais variados tipos e feitios, facadas, etc. - o decesso da modelo, atriz e compositora Nico (1938? 1943?-1988), ainda que decerto patético, não esteve isento da idiossincrática louçania melancólica que a caracterizava.

Um dos veros ícones do donaire gauche e maudit no século XX, nossa evanescente e belíssima valquíria gótica sempre foi uma figura das mais crípticas e elusivas; sequer há certeza, por exemplo, sobre a data e local precisos de seu nascimento, algumas fontes indicando 16/10/1938 em Köln, outras 15/03/1943 em Budapest. De qualquer modo, a elegância impassível, a beleza glacial, o charme sibilino, a voz gravemente solene e o ethos espectral foram marcas registradas em sua trajetória, seja como modelo (com inolvidáveis aparições em revistas como Vogue, Elle, Tempo, Vie Nuove, Camera), como atriz (notável como musa junkie do cinema avant garde de Andy Warhol) ou como chanteuse/compositora (notória pelo breve sejour com o VU, mas igualmente fabulosa em sua carreira solo).

Pois muito bem: Nico, que durante toda a vida foi entusiástica e voraz consumidora de heroína, cocaína, benzedrina e outras inofensivas substâncias, decidira a partir de 1986 adotar um estilo de vida mais 'sossegado'. A 18 de julho de 1988, consoante tal disposição, passeava de bicicleta numa aprazível manhã pela paradísiaca ilha de Ibiza, onde residia; foi então encontrada inconsciente por alguns transeuntes, e veio a falecer horas mais tarde, vitimada por uma insolação, se calhar em virtude dos insólitos trajos que envergava, de todo incompatíveis com o calor estival.



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Nancy Laura Spungen (1958-1978)


























Como já nos foi possível constatar n'outros tópicos desta ilustre comunidade, rockstars ou wannabe rockstars soem cultivar modalidades de trespasse no mínimo heteróclitas; e a figura de que ora nos ocuparemos foi, indubitavelmente, uma das mais emblemáticas wannabe rockstars de todos os tempos: a meiga Nancy Laura Spungen (1958-1978).

Desde a mais tenra idade nossa doce moçoila revelou-se um primor de doçura e temperança: aos 11 já havia sido submetida reiteradas vezes a sessões de tratamento psiquiátrico; aos 13, perpetrado numerosas tentativas de autocídio; aos 19, então dedicada à augusta lide de groupie, travou conhecimento com Sid Vicious numa viagem a Londres em companhia dos New York Dolls.

Logo instaurou-se um pudicíssimo idílio amoroso entre as duas castas almas, embaladas pelo descomunal consumo de substâncias ilícitas, sururus homéricos e outros hábitos angelicais. Em 1978 o imaculado par de cândidos pombinhos mudou-se para NY por ocasião da excursão dos Sex Pistols pelos EUA. No dia 12 de outubro do mesmo ano, como píncaro refulgente de tão pulcro himeneu, nossa heroína (com trocadilho, por favor) foi encontrada, de calcinha e soutien tão somente trajada, no chão de um quarto do conspícuo Chelsea Hotel: havia sido esfaqueada por Sid até à morte na altura do estômago.

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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

segunda-feira, setembro 11, 2006

LUX AETERNA





















Ó áticos confrades d'armas: é transcorrido um lustro desde a conspícua jornada em que derribadas foram as ominosas Torres Negras, de Moloch e Baal, ímpias deidades, néfario totem; e hoje, excelsos mujahideen, de supino gáudio pejam-se nossos corações, uma vez que o inolvidável sucesso foi de Amir al-Mu'minin , ingente Sustentáculo do Universo e Senescal dos Arcanos Transfinitos, a rutilante signa para o exórdio da deífica Guerra Cósmica contra os do fero SATÃ imanes hostes!


Allahu Akbar...Allahu Akbar...Allahu Akbar!!!






Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

sexta-feira, setembro 01, 2006

Searching for Soultrane

Alphonse van Worden - 1750 AD





The Olatunji Concert: The Last Live Recording sem sombra de dúvida integra, ao lado de Machine Gun (Peter Brötzmann) e Spiritual Unity (Albert Ayler), a trinca dos mais DEVASTADORES e GENIAIS discos de jazz que este vosso escriba já teve a oportunidade de conhecer até hoje. É decerto um registro mal gravado, com muitas oscilações de volume e até mesmo alguns drop outs na fita master; a meu ver, contudo, tal característica contribui decisivamente, por incrível que pareça, para a aura de inaudita e sobrenatural intensidade cósmica que emana do álbum, uma vez que o mergulho sem volta nos mais abscônditos báratros da Arcana Coelestia almejado por Coltrane não poderia ser traduzido, creio eu, por uma sonoridade harmônica, cristalina, mas tão somente pela própria materialização sonora do caos primordial dos páramos deíficos; destarte, me parece de sobejo razoável asseverar que se Coltrane alguma vez conseguiu transfigurar em termos estéticos sua a um só tempo extática e agônica demanda por transcendência espiritual, tal intento foi logrado com pleno e assustador êxito pelo Olatunji Concert, vero dérèglement absolu de tous les sens nos píncaros do SAGRADO.

Ogunde é a encarnação estética de um ritual de magia arcana no imo do mais recôndito heart of darkness africano: irracionalista, brutal, incontrolável, selvagem, obscura, um avassalador tornado de solos e ritmos veramente indescritíveis de tão intensos e arrebatadores; e a propósito de My Favorite Things.... bem, o que dizer de tamanho colosso....? A versão presente em Live in Japan (1966) pode ter 23 minutos a mais e, de certa maneira, ser até mais intrincada, mas em termos de puro desvario, de obliteração sônica in extremis de tudo aquilo que o senso comum classificaria como 'música', de blasfema conjuração de miríades de Supernovas explodindo nos vórtices mais remotos do espaço sideral, simplesmente empalidece diante de sua co-irmã de 1967: de facto, trata-se de algo tão inacreditável e estratosfericamente visceral, tão esmagador em sua vulcânica energia vital, que é capaz de mergulhar o ouvinte num estado de profunda desorientação mental, beirando mesmo a mais obnubilante ataraxia de todos os sentidos. O maelstron 'transjazzístico' tem início de forma aparentemente despretensiosa e contida, com um envolvente solo de baixo urdido pelo saudoso Jimmy Garrison; ao fim e ao cabo de quase 8 minutos de hipnose, faz-se anunciar, ameaçador, o primeiro uivo espectral do sax de Coltrane, e então hell breaks loose num dos mais walpúrgicos sabbaths supersônicos que já escutei. O que temos aqui não são meros músicos, mas sim ciclópicas deidades lovecraftianas, Coltrane convertido em Surtr; Sanders em Kali; Rashied Ali em Ahriman; e assim sucessivamente, todos de súbito convertidos em titânicos espíritos de aniquilação / recriação do kháos transmutado em kósmos e da cosmogonia desintegrada em inefável kháosmosis, trovejante polifonia de clarins descomunais vertendo catadupas de magma incandescente e AAAAAAAAAAAAHHHHH!!!!!!!!!...


As mais belas mortes - III

Moritz Schlick (1882-1936)






































E aqui chegamos a um dos relatos mais lôbregos desta nossa ainda tão núpera série.

O filósofo, lógico e matémático germânico Moritz Schlick (1882-1936) é um dos ídolos deste vosso humílimo escriba. Ao lado de Carnap, Feigl, Nëurath e Hahn, foi um dos fundadores do célebre Círculo de Viena, assim como um dos mais destacados proponentes do positivismo lógico; seus trabalhos em tópicos como epistemologia, lógica matemática e filosofia da linguagem são de incomensurável relevância, sempre caracterizados por grande originalidade, suprema perspicácia e assombrosa capacidade analítica.

Prossigamos contudo, sem mais delongas, com nosso doloroso mister, por mais horribile dictu que nos seja: com o ascenso do nacional-socialismo na Alemanha e na Áustria, boa parte dos integrantes do Círculo emigrou para Inglaterra e EUA; Shlick, entretanto, decidiu permanecer em seu posto na Universidade de Viena, muito embora condenasse a ideologia nazi nos termos mais severos. Tal atitude converteu o eminente filósofo em persona non grata para os círculos nazistas, levando ao hórrido desenlace que agora relataremos: no dia 22 de junho de 1936, Schlick, que subia as escadarias da Universidade para ministrar uma aula, foi abordado por um antigo aluno, então convertido ao nazismo. Transtornado, o sicofanta protestou a propósito de um trabalho que havia sido recusado pelo mestre; Schlick ripostou-lhe categoricamente as alegações, ao que o ínvio sacripanta sacou uma pistola e desferiu um balázio letal no peito do egrégio professor.


Post-Scriptum:

O horrífero sequaz nacional-socialista foi detido e setenciado, mas logo transformou-se em figura popular entre os extremistas de direita, sendo retratado pela imprensa reaccionária como 'herói nacional' em luta contra a filosofia pretensamente 'judaica' e 'anti-ariana' do Círculo de Viena; pouco depois da nefasta ocisão, o celerado recebeu liberdade condicional; e em 1938, com o advento do Anschluss, tornou-se um destacado membro do Partido Nazista Austríaco.

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Nikos Poulantzas (1936-1979)

























Mortes violentas e/ou espalhafatosas não são de modo algum, como os fidalgos leitores desta comunidade já devem ter advertido, apanágio de rockstars e outros seres extravagantes; já pudemos aqui abordar, com bem lembrais, o horrífero atentado que subtraiu a vida do lógico austríaco Moritz Schlick. Hoje, todavia, falaremos da defunção do filósofo marxista grego Nikos Poulantzas (1936-1979) (va benne, estava mais para um filosofante 'marxóide', mas tal maledicência não vem ao caso no momento...).

Poulantzas formou-se em direito na cidade de Atenas, e depois prosseguiu seus estudos em França e Alemanha, especializando-se na questão do Estado moderno. Em Paris tornou-se o discípulo favorito de outro notório detraqué, o estruturalista Louis Althusser (sobre o qual ulteriormente falaremos n'outro tópico). No dia 3 de outubro de 1979, agarrado a vários livros, Poulantzas arrojou-se do décimo-primeiro andar de um edifício popular nos arrabaldades de Paris (13 arrondissement). No bilhete de despedida pelo filosófo legado encontrou-se a seguinte observação, sobremaneira lúgubre e severa: "eu não suportava mais ser um escombro ideológico".

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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

terça-feira, agosto 01, 2006

As mais belas mortes - II

Yukio Mishima (1925-1970)


























Kimitake Hiraoka (1925-1970), dito Yukio Mishima, famígero homem de letras, militante fascista e sociopata nipônico, padeceu transpassamento de notável dessuetude.

O preclaro escritor, vale dizer, nunca foi figura das mais usitadas; consta, por exemplo, que na infância sentia atração sexual pela imagem de São Francisco Xavier, tendo-lhe inclusive prestado páticos preitos nos 'templos de Onan'...

Ora procedamos, todavia, à decedura em tela: a 25 de novembro de 1970, Mishima, acompanhado por seus correligionários de TATENOKAI (movimento político de extrema-direita nostálgico do regime militar japonês das décadas de 30-40), tomou de assalto o campo de Ichigaya, Quartel-General em Tóquio do Comando Leste das forças armadas japonesas. A tresloucada brigada de insurrectos envencilhou o comandante da unidade, barricando-se em seu escritório; isto feito, Mishima assomou à sacada do edifício e, de acordo com o talante do movimento, principiou a arengar a soldadesca, tentando convencê-la a cerrar fileiras para promover um golpe de estado restaurando a monarquia absoluta sob a égide d'uma ditadura militar. Baldos foram, no entanto, tais intentos, uma vez que os militares, em tremebundo alarido, apuparam-no e ameaçaram-no nos termos mais amarescentes; à Mishima, em estado d'ânimo sobremaneira astroso, nada mais restou senão cometer seppuku, o solene suicídio ritual dos samurais nipônicos, ato que foi rematado, consoante às mais prístinas tradições do bushido, por sua decapitação, levada a cabo pelo confrade Hiroyasu Koga.


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Euclides da Cunha (1866-1909)






















Déifico arcano das letras brasileiras, o impertérrito Euclides da Cunha (1866-1909) teve, no entanto, uma cacotanásia das mais vexatórias e patéticas.

Em 1905 sua extremosa esposa Ana Emilia, então com 30 anos, travou conhecimento com um belo efebo de 17 anos, Dilermando de Assis, cadete da Escola Militar. A despeito da disparidade de idades, teve então princípio um rumoroso idílio amoroso, passando inclusive nosso Homero dos trópicos pelo supino labéu de registrar como seus dois frutos do ignominioso adultério. Em 1909 a situação tornou-se veramente insustentável, e Ana mudou-se no dia 14 de agosto para a casa de Dilermando.

No dia 15, por volta das 10 horas da manhã, Euclides bateu à porta do ínvio Dilermando, sendo recebido por seu irmão, Dinorah; tresvariado, o egrégio erudito desferiu-lhe dois balázios, o segundo alojando-se na nuca. Dilermando, por sua vez, foi alvejado na virilha e no peito; atirador exímio, o armígero amásio tencionou desarmar Euclides com disparos no pulso e na clavícula. O insigne galardão da cultura nacional tentou evadir-se, mas um tirázio fatal de Dilermando acertou-lhe as costas. Ao filho Solon, que lá estava quiçá tentando reconduzir a mãe ao lar desfeito, o pai moribundo disse: "perdôo-te"; ao escalfúrnio militar: "odeio-te"; e, por fim, à mulher: "honra... perdôo-te".

Post-Scriptum

No dia 4 de julho de 1916, Quidinho (Euclides da Cunha Filho), aspirante da Marinha, logrou encontrar-se com o homizieiro de seu pai no Cartório do 2º Ofício da 1ª Vara de Órfãos, no Rio de Janeiro. Sacou então sua pistola, ferindo Dilermando; este, por sua vez, ripostou com três disparos, matando o infausto herdeiro.


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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

quinta-feira, julho 13, 2006

Às armas, Mavortes do Senhor!



Ò CHRISTUS PANTOCRATOR, preternatural Sustentador de Mundos, da Arcana Colestia supino magister: cá dos mírificos contrafortes do Bastiani oiço que no divo País dos Cedros, seus tiésteos, sanguissedentos do Armadggedom taróis o crúévil SATÃ uma vez mais troar fez, assim reencetando o metuendo gládio cósmico! Destarte, é de sobejo não procrastinável e excelso mister assegurar-te que em máximo alerta a Cavalleria Tartárica já está, disposta a incontinente precipitar-se em formidanda cavalgata ao mais evanescente aceno Teu!!!

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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros

domingo, julho 02, 2006

Warum hörst du dir nicht Faust an?



Já amiúde manifestei, ó supinos confrades, minha predileção especialíssima pelo Faust, mas creio que ainda não detalhei a razão principal de meu permanente fascínio pela banda. Pois bem: tal encantamento se deve sobretudo ao facto de que a lendária formação germânica logra conjurar, sempre com naturalidade e surpreendente fluidez, o mais perfeito equilíbrio dinâmico entre RUÍDO e POESIA, CAOS e LIRISMO, TERROR e HUMOR. Assim sendo, temos, por exemplo, em Miss Fortune (que encerra o Clear Album), ao fim e ao cabo de violenta tempestade elétrica de microfonias abissais, cânticos sinistros e alucinações eletrônicas, um lírico recitativo a duas vozes em compasso de trovar medieval, rematado de forma evocativamente enigmática pelos belíssimos versos "...and at the end realize that/ nobody knows/ if it really happened" (rutilante metalingüagem a colocar em questão a própria existência do que acabamos de vivenciar...) ; So Far, emanação mais freneticamente acid rock da banda, culmina com ...In the Spirit, número a um só tempo cômico e poético, em ritmo de cabaret/music hall lisérgico; Faust Tapes, por seu turno, apoteose da desorientação fragmentária kraut, apresenta peças como Der Baum, cíclica paisagem de tambores esparsos, cordas minimalistas e vozes em superposição entoando, em mesmerizante hipnose, uma apologia a um só tempo plácida e inquietante à tranqüilidade doméstica.

Há que salientar que um disco tão brilhante e emocionante quanto Faust Tapes realmente desafia minha capacidade de análise: não sei bem o que dizer sobre ele, e temo perpetrar um aluvião de asneiras em quaisquer tentâmenes que venha a levar a cabo; não obstante, consoante estabeleci antes, o álbum em tela é sem dúvida o ápice da banda em termos de desconstrução paródica não somente do rock’n’roll, mas do próprio parâmetro de linearidade inerente à tradição da música pop. Assim sendo, não importa para nossos admiráveis terroristas sônicos estabelecer um fluxo discursivo contínuo e coerente, mas sim conjurar caóticas miríades de micronarrativas musicais transfigurando vozes espectrais, desvario eletrônico, ruídos ambientais, pastiches variados e anarquia infrene, para então fundi-las, subvertê-las, desintegrá-las e reconstituí-las numa espécie de nebulosa do caos em permanente metamorfose.

Isto posto, alguns bons anos de atenta e apaixonada audição das epifanias faustianas me levaram a compreender melhor aquele que talvez seja o grande 'segredo' desses teutônicos geniais, mormente do álbum em tela: a beleza extraterrestre que emana de suas passagens melódicas. Se antes me fascinavam sobretudo os momentos de dadaísmo sônico dos arcanos kraut, isto é, o terrorismo fragmentário das colagens noise e das justaposições imprevisíveis, hoje constato quão importante é para o efeito global da banda o contraponto onírico de seus momentos mais serenos, justamente pelo facto de que o ethos alienígena que caracteriza o Faust neles se processa de uma forma sutil e envolvente. Tomemos em consideração, por exemplo, uma composição como Flashback Caruso, uma sedutora balada de modulações psych folk gradativamente pervertida por drones agônicos de moog, num magistral efeito de estranhamento progressivo; ou então a maravilhosa Chére Chambre, um surreal monólogo em stream of conciousness de Jean Hervé Peron, embalado por bucólicas tramas de violões, onde a críptica, alucinatória ambiência do poema em prosa colide / irmana-se com o caráter meditativo e plácido da música que o acompanha.




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Ten. Giovanni Drogo

Forte Bastiani

Fronteira Norte - Deserto dos Tártaros